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Fábula
do Demônio Cartesiano
Capítulo 4
FALLEN
ANGEL's TALE
"Espartanos!
Qual é a vossa profissão?"
Frank
Miller
Os 300 de Esparta
Capítulo 2: Dever
Estava guerreando há um sem número de dias, não
sabia o motivo exato pelo qual empunhava suas armas, ou contra quem
realmente lutava, estava apenas cumprindo ordens.
Alguém gritou seu nome e contra todas as regras do bom senso,
voltou, por um mísero instante, seu olhar para aquele que
o chamara. Isso bastou para encerrar a luta, meio metro de aço
encantado na altura do estômago, o céu azul, a relva
verde sob seus pés, uma golfada de sangue, então a
dor de uma lâmina serrilhada rasgando sua carne, fazendo-o
cair ao chão... além do chão... abaixo das
nuvens... fora do Paraíso.
O grupo
caminhava sob a proteção da noite, quando subitamente,
Cartesiano elevou seus olhos às estrelas.
"Uma estrela cadente!" sorriu Cartesiano apontando para
o céu "Vou pedir um desejo..."
"NÃO!" gritou Dagan jogando-se contra Cartesiano,
de modo que não pudesse olhar para o céu "Isso
é um mau presságio!"
"Vovó sempre dizia que as estrelas cadente é
um anjo que caiu do céu." Comentou Laura, enquanto Sissi,
a cobra em seu pescoço sibilava uma confirmação.
Todos voltam seu olhar para Penumbra, esperando sua opinião
sobre o fato.
"A alma do 'anjo' é consumida para realizar o desejo
do primeiro que o vir." respondeu Penumbra voltando a caminhar.
"Anh... ainda bem que eu não pidi nada..." suspirou
Cartesiano aliviado.
Três
dias depois daquela noite, o grupo havia deixado Penumbra descansando
em uma gruta e resolveram entrar, pela primeira vez em muito tempo,
em uma cidade.
Estava havendo um festival, ou algo parecido, um amontoado de pessoas
em meio a uma feira livre, vendia-se de tudo e todos.
Um comerciante em particular chama a atenção do distinto
grupo.
"Meus caros amigos!" começou o homem de barba cerrada
e roupas púrpuras "Trago a vocês, a mais fina
das finas mercadorias: UM ALADO!" apontando para uma jaula
de ferro, onde um ser humanóide, dotado de dois pares de
asas brancas (pelo menos uma delas estava quebrada), agora sujas
de lama, grama e sangue, está caído, ferido e inconsciente.
"Ele ainda está vivo!" puxando uma corrente que
prendia seu pescoço com uma coleira de ferro, erguendo sua
cabeça, pendida como a de um enforcado "Quanto me oferecem
por essa preciosidade?"
"Quinhentos Florins!" gritou alguém da multidão.
"A estrela..." murmurou Cartesiano.
"... cadente..." completou Laura, igualmente boquiaberta.
"Duzentos Florins e um Dragma!" gritou outro, agitando
o leilão.
"Não podemos deixar eles fazerem isso!" indignou-se
Laura.
"Três Dragma!"
"O que devemos fazer?" questionou Dagan.
"Um dente de fada!"
"Sissi disse para cobrirmos as ofertas!" Laura traduziu
rapidamente o sibilar de sua amiga.
"Mas, sequer sabemos qual a moeda corrente desse lugar... e
mesmo que soubéssemos, não temos dinheiro algum..."
respondeu Dagan apalpando seus bolsos.
"Cinco Dragma!"
"Então vamo arrebentar todo esse lugar!" declarou
Cartesiano estalando os dedos enquanto tentava abrir caminho através
da multidão.
"Não!" gritaram Dagan e Laura, o puxando de volta
pelo manto.
"Penumbra disse pra gente não se meter em encrenca...!"
advertiu Laura seriamente.
"Uma espada sarracena e um ramo de salgueiro vermelho!"
"E o que vamos oferecer?!" indagou Cartesiano emburrado.
"Uma escama de dragão azul."
"Eu não sei..." lamentou Dagan aborrecido.
"Penumbra saberia o que fazer..." choramingou Cartesiano.
"Sissi disse pra dar um dente do Cartesiano!" Laura sacudiu
o manto de Cartesiano enquanto pulava incessantemente.
"Nenhuma oferta melhor?"
"Rápido!" ordenou Dagan.
Cartesiano cravou as garras de sua mão direita em sua gengiva
e arrancou um de seus pontiagudos dentes, entregando-o a Dagan,
enquanto esfregava a ferida sangrenta com sua língua.
"Se não há oferta melhor..."
"UM DENTE DO DEMÔNIO CARTESIANO!" gritou Dagan erguendo
o dente ensangüentado.
A multidão se silencia e volta-se abismada.
"O q.... o... que... di-disse?" indagou o comerciante
incrédulo, descendo do tablado, a multidão abre caminho.
"Um dente do Demônio Cartesiano." respondeu Dagan
exibindo o tão assombroso objeto.
"Ja-ja-jamais pensei que um dia viveria pra ver isso..."
murmurou o comerciante trêmulo "O alado é seu!
E mais duas escravas de primeiríssima qualidade, lhe garanto
senhor, são virgens, e-e... e não vai encontrar nada
melhor!" tomando o dente das mãos de Dagan, antes que
este pudesse mudar de idéia.
Os criados do comerciante, levam a jaula até Dagan, junto
com duas belíssimas garotas, mestiças de lince.
"Poderia comprar um reino com isso..." a voz do comerciante
se abafa à medida que se afasta e a multidão se acotovela
para ver melhor o precioso item.
O grupo entreolha-se, incrédulos.
"Eu sou Laura." - sorri de olhos fechados.
"Sou Georgia, pequena dama." - inclina-se a da direita.
"E eu sou Georgina, pequena dama." - a da esquerda.
"Ninguém nunca me chamou de 'pequena dama'..."
- ri Laura.
"Bem... e agora, o que faremos?" indaga Dagan referindo-se
as duas garotas que esboçavam um sorriso forçado.
"A gente podia ficar com elas...!" sorriu Cartesiano,
nunca havia tido tantas pessoas ao seu redor, isto é... pessoas
que não fugissem de medo.
"Eu não sei. Penumbra não gosta muito de andar
com muita gente.... ele ficou meio bravo porque eu apareci..."
Laura mordeu seus lábios inferiores.
"Poderíamos vendê-las." sugeriu Dagan
"NÃO!" enfureceu-se Laura "Isso é errado!"
"Não é errado, as coisas sempre foram assim..."
afirmou Dagan "Uns nascem para lutar, outros para rezar e outros
para servir."
"Não, não, não e não!" Laura
esperneava "É cruel demais!"
"O que há de cruel?" questionou Dagan sem entender
por que ela considerava este um ato tão terrível.
"É assim que as coisas são."
"Uma pessoa... eu... é cruel... você... eu..."
gagueja Laura batendo o pé no chão, sem conseguir
verbalizar seus sentimentos e idéias "EU ODEIO VOCÊ!"
gritou e correu chorando para os braços das duas escravas.
"Intão a zgentchi podjia soltar elas." sugeriu
Cartesiano e voltou a esfregar a língua no espaço
vazio de sua arcada dentária, onde a ponta de um novo dente
começa a nascer.
"Não é tão simples assim, senhores..."
declara Georgia enquanto sua irmã pega Laura no colo e tenta
acalmá-la "Fomos compradas de nossos pais pelo ouro
de Ystal, o comerciante, não sabemos nenhum outro ofício
além de entreter os homens... depois... iriam nos acusar
de ser escravas fugitivas e a pena para isso é pior que a
morte..."
"Mas... não há nada com o qual possam trabalhar?"
questionou Dagan meio incrédulo "Talvez em uma taverna
servindo bebidas ou arrumando quartos, talvez cuidar de crianças
de alguma casa rica."
"Creio que isso não será possível, senhor..."
respondeu Georgia "Fomos marcadas como escravas, vê?"
puxando a saia até a coxa direita, onde um círculo
(provavelmente feito com ferro em brasa) estava impresso "Com
essa marca, ninguém vai querer nos pagar pelos serviços,
sejam eles quais forem. E qualquer um pode alegar ser nossos donos."
"E vocês não podem reclamar com a polícia?"
questionou Cartesiano franzindo a testa.
"Não temos direito algum, senhor." respondeu Georgia
"Perdemos nossa família, honra, dignidade... perdemos
tudo, no momento que Ystal nos comprou."
"Tá vendo porque é crueldade?" indagou Laura
com o rosto vermelho e molhado.
"Sim, me perdoem, senhoritas... eu... eu estava errado."
pediu Dagan fazendo uma mesura.
Laura sorri do embaraço das irmãs diante ao pedido
de desculpas de Dagan.
"Ach... e agora?" indagou Cartesiano.
"Pensamos nisso depois... Cartesiano, tire o anjo daquela jaula..."
virou-se Dagan.
"Tá bom." respondeu Cartesiano arrancando um lado
da jaula e jogando a grade para trás.
Ouve-se a grade chocando contra algo, talvez uma barraca, pessoas
gritam e quando o grupo volta-se para a confusão, vêem
que ela havia caído sobre um grupo de pessoas, matando pelo
menos três delas.
"Meu filho, meu filho!!" uma mulher em prantos.
"Eu vi! Foram eles!" um homem aponta para Cartesiano.
"Irmão..." um homem abraçava-se ao corpo
inerte.
"Pega eles!" gritou um grupo enquanto apanhavam pedras
do chão e jogavam contra o grupo.
"Mata! Mata! Mata!" gritava a multidão avançando.
Cartesiano, levanta a jaula e joga seus amigos dentro dela, então
a coloca sobre a cabeça e sai correndo em direção
ao campo, tão rápido que parecia dar sete léguas
em cada passada, assim despistou facilmente a multidão ensandecida.
Pararam perto de um rio, muito longe de onde haviam deixado Penumbra.
"Será que deveríamos ir buscá-lo?"
questionou Cartesiano.
"Hunf... ele nos achará." respondeu Dagan de modo
aborrecido.
Georgia e sua irmã tentavam cuidar dos ferimentos do anjo,
ainda inconsciente. A camisa de Dagan tornou-se faixas e Laura doou
as mangas da camisa de Penumbra para poderem limpar suas feridas
"Crueldade ferir algo tão belo..." lamentou Georgina.
"Sim..." concordou sua irmã.
Quando a noite caiu, Cartesiano acendeu uma fogueira, talvez uma
hora e meia tenha se passado antes que Penumbra surgisse.
"Por favor... ajuda ele..." imploraram Cartesiano e Laura
assim que avistaram Penumbra.
"Hum?" Penumbra arregalou os olhos ao ver o ser alado
no chão.
"Por favor... a gente não sabe como cuidar dele..."
Laura pulava meio desesperada.
Penumbra apenas fecha seus olhos, abaixa levemente a cabeça
para a direita e puxa um sorriso.
"Vai ajudar ele?" indagou Cartesiano em um generoso sorriso.
"Melhor ainda..." respondeu Penumbra balançando
a cabeça "... vou me sentar aqui e vê-lo agonizar."
sentando-se.
"O QUÊ?!" todos arregalam os olhos incrédulos.
Penumbra apenas cruza os braços.
"E agora?" indaga Laura chorosa.
"O senhor tem que ter o coração frio como o de
um demônio para negar ajuda."
"Hey!!!" gritou Cartesiano indignado.
"Desculpe, Cartesiano, não me referia a você."
"E se a gente rezasse pro deus dele salvar ele?" indagou
Laura.
"Inútil..." lamentou Georgina "se ele está
aqui, é porque seu deus achou que ele não tinha mais
utilidade."
"Em resumo... foi abandonado." declarou Georgia "Tudo
o que podemos fazer é esperar que ele se recupere... ou morra..."
"O que acontece com os anjos, quando eles morrem?" questionou
Laura.
"Eu não sei." respondeu Georgia.
"Esta vai ser uma longa noite..." comentou Dagan tentando
melhorar o clima depressivo que baixou sobre o grupo "... por
que não falam um pouco sobre vocês?"
As irmãs se entreolham durante um longo tempo, até
que Georgia decide contar sua história.
"Bem..." começou um tanto embaraçada "Nós
nascemos na cidade Ébano..."
Penumbra volta seu olhar para a garota, silenciosamente prestando
atenção na narrativa.
"É um lugar bonito?" indagou Laura ajeitando-se
melhor em seu lugar.
"Não... não é um lugar bonito. Nossa cidade
foi totalmente destruída pela guerra. As fontes secaram e
o deserto tomou conta de tudo, os homens são obrigados a
sair para a batalha, só ficam mulheres, crianças e
velhos... todos fadados a passar fome..."
"Muitos são obrigados a vender seus filhos e filhas
para os comerciantes de escravos..." Georgina toma a narrativa
"... como aconteceu conosco..." lamenta.
"Puxa... que triste..." Cartesiano seca uma lágrima.
"E quem governa sua cidade?" perguntou Dagan.
"Atualmente são os sacerdotes do deus da Luz. O mesmo
que criou este alado..." responde Georgia.
"Foram eles quem começaram a guerra. Há séculos
nosso povo luta contra o deus das Trevas." Georgina conta,
com amargor em sua voz.
"E quem tá ganhando?" indagam Cartesiano e Laura
"Os bonzinhos?"
"Os dois lados estão empatados..." responde Georgia.
"Hum... será que não existe nem um facho de alegria
em sua cidade?" perguntou Dagan inconformado com tanta tristeza.
"Sim..." sorriu Georgina "Toda noite, quando íamos
dormir, nossa mãe nos contava que há muito, muito,
muuuuuuuuuuuuito tempo atrás, éramos governados por
reis sábios e justos, cultuávamos aos deuses dos campos
e florestas e a deusa da colheita, então a vida era boa..."
"Os deuses dos campos e florestas impediam que o deserto avançasse
sobre a cidade e a deusa da colheita trazia prosperidade..."
completou Georgia com um brilho nos olhos.
"Naquele tempo, não éramos apenas uma cidade,
éramos um reino inteiro, o maior, mais rico e feliz que poderia
encontrar depois dos portões marfim da estrada leste de Salém..."
suspirou Georgina.
"Então... um dia, o deus da Luz chegou... nos tomou
como seus novos seguidores, seus sacerdotes depuseram a família
real... e desde então tudo tem desmoronado, primeiro foram
os portões de marfim, depois as florestas, os campos, fomos
obrigados a renunciar nossos antigos deuses... então o deserto
avançou e tudo que restou foi uma pequena cidade ao redor
do castelo que agora está em ruínas." Georgia
cobriu seu rosto com as mãos, tentando esconder seu choro.
"Daqui a um punhado de anos, não sobrará mais
nada..." Georgina abraçou sua irmã.
"Que triste... a gente podia fazer alguma coisa!" levantou-se
Cartesiano irado.
"Não podemos fazer mais nada..." lamentaram as
irmãs.
"Mas como pode... um deus tomar posse de uma cidade dessa forma?"
questionou Dagan inconformado "Deuses são bons, demônios
são maus!"
"Heeeeeeey!!!" gritou Cartesiano ofendido.
"Desculpe, de novo, Cartesiano..." encolheu-se Dagan.
"Eu acho que foi porque..."
"Basta!" levantou-se Penumbra "Logo irá amanhecer...
voltarei para a gruta." e caminhou em direção
ao oeste.
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