Fábula do Demônio Cartesiano

Capítulo 3

MOON and WORM

"Nel mezzo del cammin di nostra vita
Mi ritrovai per una selva oscura,
Chè la diritta via era smarrita."

Dante Alighieri
La Divina Commedia

Cartesiano remexia-se de novo em seu lugar. Dagan estava dormindo, envolto pelo manto de Penumbra, a fogueira estalava e crepitava tentando afastar o frio da noite.
Não que a temperatura incomodasse Cartesiano ou Penumbra, mas o corpo de Dagan revelara-se mais frágil do que esperavam. O manto jamais deixaria o frio mata-lo, mas a escuridão incomodava demais esse jovem humano.
Penumbra fazia sulcos na terra ao arranha-la, a lua cheia e a fogueira iluminavam demais o ambiente, principalmente agora, sem ao menos a proteção do manto.
Cartesiano estava com fome, irrequieto saiu para procurar algo com que saciar-se. Não muito longe, avistou um javali, que foge assustado assim que sente sua presença.
Tem início a caçada. Entre guinchos e grunhidos do javali, tropeços e arfagens de Cartesiano, a vegetação sendo derrubada e pisoteada, enfim... um salto, caindo de boca no que seria a base do pescoço, arrancando saborosamente um pedaço. O sangue, escorre de sua boca, salobro e ferroso, em contraste com o adocicado da carne. A presa convulsiona em agonia... aaah... vitória... rejubilante e embriagante. E meio a euforia, Penumbra o observa.
"Poderia, ao menos, ter a decência de assa-lo." lançou seu comentário em um misto de repulsa e indignação.
Diante os olhos de Penumbra, Cartesiano esmorece, sente-se pequeno e envergonhado, a carne em sua boca torna-se uma massa cinzenta. De olhos baixos, tira o naco de carne mastigado de sua boca e coloca-o de volta ao lugar de origem, de um modo um tanto desajeitado, alisa-o na tentativa de molda-lo de volta ao corpo.
Chateado consigo mesmo, Cartesiano volta para a fogueira, arrastando sua presa abatida pela trilha feita durante a caçada.
Penumbra já havia voltado para o seu lugar, estava muito inquieto.
"Qui foi?" indagou Cartesiano enquanto tirava as tripas do javali.
"É esse verme!" sibilou Penumbra arranhando a terra de modo mais intenso "Não me importo quando quebra o osso de minha perna para alimentar-se do tutano, mas não consigo suportar quando move-se desse modo..." apontou para sua perna.
Cartesiano e Dagan, que havia acordado a tempo da explicação, podiam ver o verme movendo-se sob o tecido negro da calça. Era como uma minhoca ondulando-se sobre a terra.
"Chega!" gritou Penumbra enquanto cravava sua unhas em sua coxa, rasgando sua calça e carne.
Em meio ao sangue, puxa o verme, trazendo sua cabeça para fora, semelhante a uma lampreia, porém branca e leitosa, da espessura de um dedo com a boca cheia de grandes dentes cerrilhados.
Com um movimento brusco, Penumbra imobiliza a cabeça do verme com a mão direita, estica-a com a esquerda e com uma dentada, decepa-a e lança a cabeça contra a fogueira, uma labareda azul a recebe e consome.
Dagan atônito, observa Penumbra puxar o resto do verme para fora. Ele tinha duas vezes o comprimento de sua perna.
"Ah... alívio..." suspira Penumbra deixando seu tronco tombar para trás. Deitado, contempla o céu estrelado.
Todos permanecem em silêncio, Penumbra saboreando seu êxtase, Cartesiano ansioso pelo seu jantar, Dagan sem saber o que dizer.
O piar da coruja, sons noturnos enchem o ambiente, o crepitar da fogueira, as gotas de gordura caindo e queimando, o cheiro forte da carne sendo assada.
Normalmente, isso atraiu os predadores noturnos, mas eles (sabiamente, talvez) preferiram não incomodar o trio, contentando-se com as entranhas descartadas por Cartesiano.
Impaciente, Cartesiano resolve saborear seu jantar, mesmo que a carne não esteja completamente assada. Reserva um pedaço para Dagan e teria feito o mesmo para Penumbra se este não houvesse recusado, alegando que apenas o cheiro fora suficiente para encher-lhe o estômago.
A carne sem sal ou tempero não agradou muito o paladar de Dagan, mas mesmo assim comeu, sem queixar-se. Parte pela fome, parte pelo medo de enfurecer Cartesiano, que devorava selvagemente o assado.
Os sons que emitia eram semelhantes a uma alcatéia despedaçando sua presa, a gordura e o sangue escorriam de sua boca a cada dentada. Seus dentes estalavam quebrando os ossos para logo em seguida lamber o tutano.
Nesse meio tempo, Penumbra levanta-se e adentra na direção de um riacho, não muito longe de onde estavam. Agora, andava elegantemente, porém seus pés ainda não deixam marcas por onde passam.
Talvez, uma hora tenha se passado até o retorno de Penumbra, a água escorria de seus cabelos e corpo. Sua calça continuava rasgada na coxa, porém sem resquícios de sangue ou cicatriz. Seu olhar estava mais sereno agora, provavelmente seu mau-humor vinha da inquietação do verme. Calado seca-se ao redor da fogueira.
Quando Dagan despertou, ao raiar do dia, Cartesiano estava acabando de assentar a terra do local onde enterrara Penumbra.
Cartesiano estava cheio de moscas, atraídas pelo sangue e gordura do javali da noite passada.
"Cartesiano... há um riacho mais adiante, talvez fosse melhor tomar um banho..." sugeriu Dagan, ainda temeroso.
"Não gosto da água..." resmungou Cartesiano emburrando-se.
"Por quê?"
"Ela é molhada!"
Dagan segura uma gargalhada.
"Mesmo assim, um banho o livrará das moscas..."
Eu não me importo com elas."
"Por favor, Cartesiano, se entrarmos em alguma cidade ou encontrarmos alguém, seu atual estado chamará muita atenção e creio que Penumbra não apreciará tal acontecimento..."
"..." Cartesiano emburrou-se e caminhou até o riacho, sendo acompanhado por Dagan.
Enquanto Dagan secava-se ao sol, Cartesiano se banhava. A água ganha um tom vinho-ocre com uma textura espessa, formando uma grande mancha e matando todos os peixes por onde passava.
Dagan, ao perceber o que acontecia, temeu. Quis fugir, mas refreou-se, sabia que não tinha para onde ir e pior... jamais conseguiria escapar do Demônio.
Enquanto Cartesiano seca-se ao sol, exala um odor morno, semelhante ao de um alce molhado.
Dagan afasta-se e observa um vilarejo mais abaixo, ao longo da margem do riacho.
"Cartesiano, vou até aquele vilarejo, quero descobrir onde estamos..." comentou ao se afastar.
"Eu vou também!" exclamou Cartesiano animando-se.
"Hã... é melhor que não vá, termine de se secar..."
"Ahhhh..." murchou Cartesiano sentando-se novamente na grama.
Dagan desce a colina com um fervilhar de idéias burburinhando em sua cabeça, pensando como poderia fugir, onde esconder-se, medo, ansiedade, tantas coisas ao mesmo tempo que embrulhavam seu estômago, fazendo-o contorcer-se como quando se leva um soco.
Então, aquele grito de socorro. Voz fina, pré-púbere vindo do vilarejo. Três jovens perseguiam uma menina, com um cachecol esverdeado.
Ela corre gritando por ajuda, indo, sem perceber, em direção a Dagan. No meio do caminho, um de seus perseguidores a derruba e antes que seus companheiros pudessem alcança-lo, começa a rasgar o vestido de sua vítima.
Dagan corre em socorro da menina, os três jovens não o percebem, pois o manto de Penumbra o ocultava (mesmo não sabendo desse fato), sua presença só é notada quando derruba um dos três.
"Corra, menina, corra!" ordenou enquanto lutava contra os jovens. A menina prontamente o obedece, tentando cobrir-se com os trapos que sobraram de suas vestes.
Apesar de mais velho, a superioridade numérica se mostrou mais eficaz, porém Cartesiano surge com um rugido, assustando os jovens de modo tão eficientes que já estavam longe antes mesmo de Dagan levantar-se.
"Você tá bem?" indagou Cartesiano, levantando-o com um puxão.


continua...

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"Sim... estou..." respondeu limpando o sangue de sua boca.
"Ehhh... obrigada por me salvar, senhor..." agradeceu a menina, saindo de trás de Cartesiano.
"..." Dagan não conseguiu responder, agora notara que o 'cachecol' da menina era na verdade uma cascavel esverdeada.
Era perto do meio-dia, Dagan, Cartesiano e a menina estavam sentados sob uma árvore, desfrutando de sua sombra e do vento pela campina.
"Meu nome é Laura... três dias atrás, quando eu colhia flores perto do trigal, vi duas águias voando, uma delas trazia uma cobra em suas patas e quando passaram por mim, a cobra mordeu a águia e ela a soltou, ela caiu em cima de mim e enrolou-se no meu pescoço..." relatou a menina, coberta com o manto de Penumbra.
"As pessoas da vila ficaram com medo, tentaram de tudo quanto é jeito tirar a cobrar do meu pescoço, mas não conseguiram, daí começaram a me chamar de bruxa, principalmente depois que descobriram que eu pudia conversar com ela..."
"Daí, hoje, pela manhã, aqueles três me jogaram no rio, uma mancha de peixes mortos apareceu, daí então ele me acusaram de ter matado os peixes, daí... daí..." soluçou secando suas lágrimas no manto.
"E seus pais?" indagou Dagan, enquanto Cartesiano assoava o nariz e secava uma lágrima que corria em seu rosto.
"Ele foram mortos, o padre da igreja disse que eles eram bruxos... e mandou os três me pegarem..."
Estavam por volta das três horas da tarde, Dagan tentava pescar algo na margem do rio, Cartesiano cavava atrás de minhocas para seu amigo, Laura dormia sob a sombra da árvore. Era uma menina adorável, com cachos de finíssimos fios de cabelo dourados, olhos azuis, pele alva, maçãs do rosto levemente rosados, lábios de cereja... talvez tivesse por volta dos dez ou onze anos.
Ela acordou com o cheiro de peixes sendo assados, faminta, seus olhinhos brilharam ao ver três belos peixes sendo assados em espetos.
Cartesiano estava longe, talvez caçando outro javali, já era quase noite...
Penumbra surge no exato momento em que o sol se põe, mesmo com a face, cabelos e roupas cheias de terra, sua altivez jamais seria ofuscada.
"O grupo está aumentando..." Penumbra fez seu comentário de modo ácido.
Dagan franze a testa em uma censura. Sentia uma certa afinidade com Cartesiano, afinidade destinada às crianças, mas com Penumbra... apesar de seu ar de nobreza lhe inspirar admiração, suas palavras ásperas eram afiadas como agulhas e adagas, que o levavam a cultivar uma antipatia. Pela primeira vez, dava-se conta de que ao contrário de Cartesiano, nunca o havia visto sorrir. Talvez fosse incapaz de realizar tal ato.
"Quem é a garota?" indagou Penumbra com um olhar desdenhoso.
"Sou Laura, senhor..." murmurou a menina ensaiando uma mesura, enquanto tentava limpar o rosto, lambuzado pelo peixe que comera.
"Ela não tem ninguém, além da gente." chegou Cartesiano trazendo uma corça sobre o ombro esquerdo.
"Há uma cerejeira mais adiante, vamos colher algumas..." Penumbra apontou para algum lugar em direção ao riacho.
"Por quê?" perguntou Dagan confuso.
Penumbra apenas olha para a garotinha e depois para a corça que Cartesiano iria eviscerar.
"Ah..." murmura pegando um galho e improvisando uma tocha, pois era uma noite sem lua.
Caminham calados até a margem do riacho.
"Afaste essa luz de mim." ordenou Penumbra enquanto pegava Laura no colo.
A contra gosto, Dagan se afasta imaginando o que ele estaria tramando.
Teria esperado a noite toda, se Penumbra não o mandasse atravessar logo, mesmo assim, demorou até que achasse, lá longe, um caminho de pedras por onde pudesse atravessar. Quando finalmente chega à cerejeira, encontra Penumbra e Laura, sentados o esperando.
"Está muito escuro... não podemos pegar as cerejas..." lamentou Dagan imaginando se Cartesiano já havia terminado sua refeição.
"Eu as colherei." declarou Penumbra "Precisarei do manto, menina." virando-se para Laura e desfazendo o nó que a prendia ao pescoço. Ao ver sua nudez, ergue um olhar acusador para Dagan.
"Hey! Não pense besteiras!" ordenou ofendido.
"Foram os homens da minha vila..." Laura confirmou a inocência de Dagan.
Penumbra suspira, retira sua camisa e a coloca em Laura, gentilmente acaricia a cabeça da cobra em seu pescoço com uma cocadinha, ela sibila de modo quase alegre.
Ele dobra o manto sobre seu braço e sobe na árvore.
"Ele nem se quer estranhou a cobra..." pensou Dagan "Laura... como vocês atravessaram o riacho?" perguntou um tanto temeroso.
"Ele andou sobre a água..." respondeu como se tal fato fosse a coisa mais banal do mundo.
"O que ele é? Ou melhor... o que eles são?" pensou Dagan aflito. Nisso, o manto amarrado em forma de um saco é solto ao seu lado. Penumbra desce tão silenciosamente quanto um gato.
"Quem é o senhor?" indagou Laura, assim que seu rosto foi iluminado pela tocha.
"Eu sou Penumbra." respondeu em sua costumeira indiferença.
"Quem é o senhor?" voltou a questionar.
"Você tem uma história, conte-a!" ordenou sentando ao lado da menina.
Antes que Laura pudesse abrir sua boca, a cobra desenrola-se de seu pescoço (pela primeira vez), desce de seu corpo e sobe pelo braço de Penumbra, até enrolar-se em seu pescoço, empinando-se para manter sua cabeça alta encarando seu ouvinte, enquanto sibila longamente, sendo intercalada pelo chocalho em sua cauda.
"É uma grande história..." conclui Penumbra, enquanto a cobra sibila uma agradecimento e volta para o pescoço de sua menina.
"O que... o que ela disse?" perguntou Dagan, vencido pela curiosidade.
"Uma profecia." respondeu Penumbra, sem ao menos dignar-se a olhar para seu companheiro.
"Que profecia?" Dagan coçando-se de curiosidade.
"Uma que não se realizará." respondeu Penumbra olhando seriamente para a cobra, que se retorce quase ao ponto de estrangular a menina.
"Por quê?" perguntam Dagan e Laura ao mesmo tempo.
"Profecias só se realizam se alguém acredita nelas. Como não acredito, não vai se realizar." respondeu Penumbra novamente à margem do riacho.
"Que coisa mais horrível de se dizer à uma criança!" enfureceu-se Dagan.
"É apenas a verdade." respondeu Penumbra jogando o saco com cerejas para Dagan.
"Por que não pode acreditar na profecia?" questiona fazendo um malabarismo com o saco e a tocha.
"Elas não tem nada, que me interesse, a me oferecer." declarou com uma simplicidade irritante.
"Achei que fosse honrado, senhor... mas vejo que não passa de um mero mercenário!" gritou Dagan furioso, deixando a tocha cair e se apagar.
"Cuidado para não perder as cerejas." alertou Penumbra pegando Laura no colo para atravessar o riacho, dessa vez usando a trilha de pedras que Dagan havia encontrado.
"Seu..." é tudo que Dagan consegue dizer, antes de sua voz ser sufocada pelo barulho de algo caindo na água. Penumbra apenas ignora tudo isso.
Quando chegam à fogueira, Cartesiano havia acabado de devorar a corça e estava palitando os dentes com algum pedaço de graveto afiado. Logo, Dagan chega correndo, estava ensopado e agarrado ao manto com cerejas.
"Oba! Sobremesa!" alegrou-se Cartesiano, assim que o embrulho é aberto.
Penumbra pega duas cerejas, Dagan aborrecido, seca-se ao redor da fogueira, Laura enche duas mãos com as frutinhas e Cartesiano, abocanha de uma vez, metade do monte. Sons da polpa sendo amassada e as sementes destroçadas, o suco escorre pelos cantos de sua boca.
Laura ri, com a boca igualmente cheia da polpa vermelha e doce, porém cospe as sementes para a fogueira. Penumbra come uma e joga a semente para o lado. No instante que esta toca o solo, uma muda de cerejeira cresce imediatamente.
"Uau! Faz isso de novo?" pediu Laura admirada.
Penumbra come sua segunda cereja e lança sua semente para perto de Laura, novamente uma arvorezinha nasce.
"NOSSA!!! Como você faz isso?" indagaram Laura e Cartesiano espantados. Dagan por sua vez, está aborrecido demais para admitir que também estava interessado no curioso fato.
Penumbra esboça uma tentativa de sorriso.
"Está muito claro aqui. Irei para um lugar mais escuro." responde ignorando os demais.

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