Fábula do Demônio Cartesiano

Capítulo 2

HISTÓRIA de FAMÍLIA

"É um caminho muito longo, aquele que conduz ao saber...
mas se queres tanto acha-lo...
Procura!"

Bourgeon
Os Companheiros do Crepúsculo
Os Olhos de Estanho da Cidade Glauca


Estavam andando há cerca de três dias. Era uma estrada larga de terra vermelho-alaranjada, às margens um cerrado mato verde-oliva, na altura do peito de Penumbra. Uma grossa garoa cai sobre a estrada, mas a noite está clara e limpa fora dela.
Cartesiano estava seguindo à risca todas as recomendações e ordens de Penumbra: usar um manto como ele, não falar com ninguém na estrada, não mostrar seu rosto para ninguém e nunca, nunca, nunquinha sair da estrada.
De vez em quando, abria o manto para deixar o coelho que comprou em Salém (por uma moeda de bronze e a promessa que nunca mais olharia nos olhos do vendedor novamente) respirar. Ele é branco com o focinho cinza e algumas manchas alaranjadas e pretas espalhadas displicentemente pelo corpo felpudo.
O Demônio Cartesiano pensou um dia e meio em um nome apropriado para seu novo amigo, os sugeriu e indagou a opinião de Penumbra durante uma noite inteira, perto da madrugada ele se irritou e mandou que se calasse. Desde então não têm falado nada, apenas um ou outro suspiro aborrecido.
No entanto, havia conseguido um bom nome para o coelho: Zwi.
Por volta da quarta noite de caminhada, deparam-se um viajante sentado ao redor de uma fogueira.
Era um cavaleiro, usava um Hauberk de manga curta em baixo de uma túnica com emblema em dois tons de azul e um em verde-água e sobre a cabeça uma Coifa , mantinha sua espada média ao alcance. Próximo, um cavalo baio inquietava-se com a aproximação de Penumbra e Cartesiano.

"Salve, amigos." saudou o cavaleiro, assim que se aproximaram.
"Olá." respondeu Penumbra sem intenção de parar.
"Gostariam de partilhar da fogueira?" indagou o cavaleiro.
"Sinto muito senhor, temos pressa pois o tempo é curto."
"Bem... serei breve. Sou Gunther da família Lacey de Nova Kasch. Por acaso são membros de alguma ordem religiosa? Se me permite a observação, andam mais encapuzados que os monges da abadia de Lankston"
"Não pertencemos a nenhuma ordem, apenas viajamos incógnitos."
"Oh... sim... entendo. Porém, poderiam me informar para onde vai esta estrada? Estou perdido por aqui, desde a batalha no fronte de Turim, e são as primeiras vivalmas que encontro."
"A estrada vai para Salém."
"Está muito longe?"
"Não, com seu cavalo, chegará em torno de dois dias. Talvez menos."
"Muito obrigado, senhor. E novamente, perdoe minha curiosidade, mas o que teu companheiro traz sob o manto para se remexer de tal forma? Por acaso estaria desnudando uma adaga?" indagou Gunther deixando sua mão correr para a espada.
"É apenas um coelho, senhor." respondeu Penumbra apontando para a cabeça do coelho que saiu do manto.
"Ah... será um belo jantar..." sorriu Gunther.
"NÃO!" exclamou Cartesiano levantando subitamente a cabeça, mostrando parcialmente seu rosto, iluminado pelas chamas tremulantes da fogueira.
"CRISTO, um demônio!" gritou Guther enquanto desembainha sua espada e com um movimento rápido e descendente o ataca, mirando sua clavícula. Por instinto, Cartesiano segura a espada e a quebra como um graveto seco ao fechar a mão, completando o movimento empurra seu agressor para longe. O coelho, assustado, pula do colo e corre saindo da estrada, indo esconder-se no mato alto.

"ZWI!" gritou Cartesiano correndo em busca do coelho.
"Cartesiano, NÃO!" Penumbra saltou sobre ele, porém apenas conseguiu agarrar-lhe o calcanhar e ser arrastado.

O Demônio Cartesiano corre às cegas chamando por seu coelho, sem importar-se com Penumbra que escala seu corpo até perdurar-se em seu pescoço.
Pouco mais ao longe, em uma pequena colina, três homens entreolham-se assustados.

"O que foi isso?" indagou o primeiro homem.
"Teria sido um trovão?" sugeriu o segundo homem.
"Parecia mais um rugido..." murmurou o terceiro homem.
"Ali!! ali!!" apontou o segundo homem.
"O que foi?" o terceiro recuou.
"Algo está correndo pelo mato..." engoliu em seco o primeiro.
"O que é aquilo?" indagou o segundo.
"Pelos sons... talvez seja um urso..." o primeiro.
"Não... ursos não rugem assim..."
"Um... monstro, talvez?" o primeiro arregalou os olhos.
"Vamos fugir!" ordenou o terceiro.
"Não! Não podemos. São as ordens do rei que executemos o prisioneiro ao amanhecer!" retrucou o segundo.
"Está se aproximando..." temeu o primeiro homem.
"Vamos fugir! Eu não sou um soldado como vocês dois!" choramingou o terceiro.
"Se fugirmos ele nos pega." alertou o segundo desembainhando sua espada "Tudo o que podemos fazer é lutar!"
O primeiro e o segundo homem ficam de costas para a fogueira crepitante, empunhando bravamente sua espada, então a criatura surge. Era Cartesiano que atraído pela luz da fogueira, resolveu indagar aos homens se haviam visto seu coelho. Tão afobado que não percebeu que seu capuz caíra sobre Penumbra, ainda pendurado em seu pescoço, balançando-se como uma encharpe ao vento.

"O anjo da vingança..." murmuram os homens.

Diante daquela criatura, os dois homens hesitaram por um segundo, meio paralisados de medo, então, com um brado de guerra, o primeiro atacou o flanco de Cartesiano, porém as espada se quer arranhou a pele.
Cartesiano em um movimento rápido segurou-o pela cabeça, puxou-o e arremessou-o colina a baixo, sem perceber que havia partido seu pescoço.
O segundo homem também atacou, mas Cartesiano arrancou metade de seu peito com suas garras, lançando-o longe.
Penumbra, no chão, observa o terceiro homem correr o mais rápido que suas pernas agüentarem, estaria de volta à cidade ao amanhecer, se mantivesse o ritmo.
Mais calmo, Cartesiano finalmente nota a presença de um quarto homem. Estava pendurando de ponta-cabeça em um galho de árvore.

"Quem é você?" indagou o Demônio Cartesiano.
"E-e-e-eu ssssou Da-da-dagan, senhor..." respondeu o homem enquanto Cartesiano cortava as cordas que o prendiam.
"Por que estava pendurado?" perguntou Cartesiano, sentando-se ao redor da fogueira.
"É uma lon-lon-longa história, se-senhor... senhores... hã...."
"Eu sou o Demônio Cartesiano." sorriu "E este é Penumbra." apontou "Na verdade, Penumbra não é o nome dele, mas ele esqueceu o nome dele porque faz tempo que ele não usa. Se bem que o dono da estalagem parecia saber o nome dele..."
"Ca-Har intromete-se demais em assuntos dos quais não lhe concerne." resmungou em tom severo, enquanto se junta aos demais perto da fogueira.
"Você tem medo de mim..." resmungou Cartesiano ao notar que Dagan não ousava olhar para seu rosto.
"Sim... de-devo confessar que-que é verdade, mas é-é-é-é tu-tudo uma questão de costume. Com o pa-pa-passar do tempo não o te-te-temerei mais..." respondeu Dagan com as mãos trêmulas "... eu espero..." pensou.
"Então tá bom... agora conta sua história." pediu Cartesiano.
"Bem... os fa-fatos sucederam-se desta forma: Meu pai, o senhor das terras de Elspeth, arranjou-me um ca-ca-casamento com a filha mais moça de Feleti, senhor das te-terras de Lynch, a bela Lelia. E para minha irmã ca-caçula, Noreen, casou-a com o conde de Ownah.
"Porém, Lelia tinha um irmão, Stoyan. Este armou o maior e mais ousado plano da-da história de nossa gente. Primeiro, pôs-se a dizer que eu havia desonrado sua jovem irmã, traindo nossos laços matrimoniais, durante as comemorações de Nosso Senhor da Boa Colheita e como re-representante da parte lesada, desafiou-me para um duelo."
"Não tendo como provar minha inocência, fui obrigado a aceitar e de-descobrir que meu cunhado era melhor diplomata que duelista. Feleti, anulou meu casamento sustentando o mesmo discurso de Stoyan e acusou-me da morte do único fi-filho varão, declarando guerra."
"Para evitar derramamento des-des-desnecessário de sangue, nosso bom rei, Tassos XIII, restabeleceu meu casamento, mas declarou que sangue se paga com sangue e que minha morte selaria novamente a paz. Então, aqui estava, aguardando pelo amanhecer de minha execução. Adiada pela vinda dos se-senhores."
"Hum... não entendi... porque ele queria duelar com você?" indagou o Demônio Cartesiano coçando a cabeça.
"Ele pretendia me matar, depois, um de seus comparsas iria espalhar a notícia de que meu suposto adultério não passava de um mal-entendido, talvez até desmentissem o fato. Então, o conde de Ownah, seria obrigado a de-desafiar Stoyan pela honra do pai de sua mulher."
"Stoyan ma-mataria o conde e para evitar uma guerra, seus burocratas fechariam um casamento com minha irmã Noreen, no fi-final teriam o domínio das três terras."
"E você traiu ela, mesmo?"
"Eu... sinceramente não sei o que se pa-pa-passou naquela noite. Estava tão bêbado que não me lembro de nada."
"E como desvendou esse plano todo?"
"Accalia, uma amiga de infância, que se tornou uma das a-a-amantes de Stoyan me contou, pouco antes de ser trazido para cá."
"Por que ela não falou antes? Você não precisaria morrer." retrucou Cartesiano indignado.
"Eu não sei. E tenho me in-indagado sobre isso até agora." lamentou Dagan em um suspiro, porém mais calmo agora.
"E agora... você vai morrer?" indagou o Demônio Cartesiano.
"Bem... do jeito que o velho Cesn correu, não creio que vá voltar."
"Então você vai poder voltar para casa." sorriu Cartesiano.
"Não é tão simples assim... pelo bom nome de minha família, devo desaparecer."
"Então vem conosco!" levantou-se alegremente "Estamos indo pra casa, você pode ir com a gente e pode morar comigo!"
"Creio que não tenho outra escolha." sorriu Dagan, tentando controlar seu medo.
"É uma boa idéia, né Penumbra?" indagou Cartesiano saltitando de alegria.
"Oh? Hum... faça como quiser..." respondeu Penumbra pensativo.
"O que aconteceu?" murchou Cartesiano, sentando sobre seus calcanhares.

Penumbra suspira e eleva seu rosto oculto pela sombra do capuz do manto, pode-se ver apenas seus olhos azul-violáceo cravando-se em sua alma. Cartesiano sente um arrepio correr por sua coluna e cai sentando no chão.

"O que havia dito sobre sair da estrada?" indagou severamente.
"Pra eu nunca sair dela..." murmurou Cartesiano cabisbaixo.
"E onde estamos agora?"
"Fora da estrada..." choramingou Cartesiano em um bico de arrependimento.
"Perdoe minha intromissão, senhor Penumbra, mas o que se passa?" questionou Dagan apreensivo.
"O senhor Demônio Cartesiano requisitou meus serviços, por uma boa paga, para que o levasse de volta ao seu lar. No entanto, está a dificultar meu trabalho." respondeu Penumbra dirigindo seu tom mordaz para Cartesiano, que encolhe-se mais afastado da fogueira.
"E o qual é seu preço?" indagou Dagan tomando-se de coragem.
"Isso, senhor, é um assunto que concerne apenas a mim." respondeu Penumbra levantando-se "Vamos Cartesiano, graças ao seu ato impensado, nossa jornada quadruplicou-se em extensão e tempo."
"Mas... se a gente não tivesse saído, Da-da-dagan teria morrido..." emburrou-se.
"Espero que isso lhe sirva de consolo durante nossa caminhada." retrucou Penumbra tomando a frente.
"Ele é sempre assim?" indagou Dagan baixinho ao ouvido de Cartesiano.
"Às vezes ele é bem pior..." respondeu Cartesiano em um sussurro.

Perto do amanhecer, como de costume, Cartesiano cavou um buraco para que Penumbra pudesse se abrigar da luz.

"Quer que eu te enterre também?" indagou ingenuamente o Demônio Cartesiano.
"Nã... não... pelo Santo Justo... jamais sobreviveria a isto..." gaguejou Dagan afastando-se de Cartesiano com dois passos para trás.
"Ah..." resmungou Cartesiano um tanto magoado.
"Por favor, não se ofenda, senhor... eu apenas... apenas... não preciso..." procurou dar uma desculpa.
"... se esconder da luz." o Demônio Cartesiano completou a frase.
"Isso... isso mesmo, senhor." concordou Dagan enxugando o suor frio de seu rosto.
"Não precisa me chamar de senhor. Eu sou o Demônio Cartesiano." respondeu em um bico.
"Então... como devo chamá-lo?"
"Ah... Demônio Cartesiano. Apenas isso."
"Se me permite a intromissão, é este o seu verdadeiro nome?"
"Não. Eu não tenho um nome."
"Por quê?"
"Eu sou o Demônio Cartesiano."
"Oh... bem... e o que é ser o Demônio Cartesiano?"
"Hum... não sei direito. É parte de uma lenda, sabe? De tempos em tempos um Demônio Cartesiano morre e outro nasce. Meu antecessor foi o Demônio de Abbott."
"Oh... ele era seu pai?"
"Não." riu Cartesiano "Eu nem sei onde fica Abbott. Não é uma coisa que se escolha. Você apenas é."
"Estou um pouco confuso. E seus pais?" indagou Dagan caminhando para a sombra de uma árvore ao lado.
"Minha mãe chora todos os dias... meu pai... eu acho que ele me odeia, ele vive decepcionado comigo."
"Por que é um demônio?"
"Porque sou o Demônio Cartesiano."
"E para que há Demônios Cartesianos? O que vocês fazem?"
"Eu não sei. Minhas fadas-madrinha disseram que é algo que tenho que descobrir sozinho. Eu não entendo muito do que elas falam. Não gosto muito delas, elas me dão medo."
"E quanto ao seu companheiro, Penumbra. O que ele é?"
"Acho que ele é um elfo, ou algo parecido."
"Sob aquele manto, parece um monstro." murmurou Dagan.
"Ele é legal, só que às vezes leva tudo muito a sério."
"A propósito... o que houve com a perna dele?"
"Ah, é um verme."
"Um verme fez aquilo?" indagou Dagan assustado.
"É... parece que ele mora na perna dele."
"Você não tem mais medo de mim Da-da-dagan." sorriu Cartesiano.
"É por que já me acostumei com você. Conhecendo-o melhor sei que não preciso ter medo.
"Quer ser meu amigo, Da-da-dagan?"
"É Dagan. E sim. Eu gostaria de ser seu amigo."

Cartesiano pula e bate palmas de alegria, causando abalos na terra e estrondos como de trovão. Os pássaros voam de seus ninhos assustados, os animais correm para longe, Dagan é atirado pelo deslocamento do ar para longe.
Mas a euforia não dura muito, assim que percebe seu erro, Cartesiano fica quieto.
Dagan levanta-se atordoado, seus ouvidos sangram. Cartesiano corre em seu socorro.
"Desculpa. Você está bem?" indagou Cartesiano ajudando-o a levantar.
"Estou surdo... sinto seu hálito, mas não ouço suas palavras..." disse Dagan ainda cambaleante.
"PENUMBRAAAAAAAAAAAAAA..." clamou Cartesiano, jogando Dagan sobre seu ombro e correndo para o local onde o havia enterrado. E ainda eram por volta das nove horas da manhã.

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