A Lenda de Arkânis - Parte III

Esses anos de revolução se tornaram perigosos, e como tal, todo cuidado era pouco. A mulher silenciosamente tomou a estrada do rio, e numa curva desapareceu. Se embrenhando por entre as grandes árvores, logo ela foi dar em uma grande clareira. A clareira oculta entre as árvores já não parecia tão grande, tamanha a quantidade de pessoas que ali se aglomeravam para ouvi-la. Aqueles que não conseguiam um lugar no chão se apinhavam nas árvores, parecendo uma horda de macacos. Aquela aglomeração não lhe agradava, e a forma como a recebiam, aos gritos de "Vida longa à Sacerdotisa". Seu nome havia caído no esquecimento, sendo legado apenas aos amigos mais próximos. Ela então se aproximou do longo tronco caído, adaptado como um palanque. E assim que ergueu os braços a multidão se calou. Logo ela iniciou mais um discurso:

- Amigos, eu estou aqui mais uma vez para lhes passar um pouco de meu conhecimento. Nesses últimos anos, meus poucos alunos se transformaram nesta imensa multidão. Fico feliz em ver que meu legado se estendeu a terras tão distantes e que a luz da consciência pôde alcançar até a mais obscurecida mente. Hoje já faz cinco anos que iniciei meu trabalho, e muitos dos seus espalham minhas palavras pelo reino. É certo que estamos num tempo de guerra, de violência e de desordem. Mas após esse período reinará novamente a calmaria. Não uma paz outorgada ou imposta por um tirano, mas sim uma paz duradoura. Somente aquele capaz de enxergar através da escuridão da ignorância tem o poder de enxergar através da alma de seus súditos...

E o discurso prosseguiu por horas a fio, e a cada parábola, o povo a aclamava e depois se calava para continuar a escutar. Porém naquela tarde nublada, havia uma diferença fundamental. Um entre as centenas de pessoas na clareira não se intimidava ou aclamava a jovem oradora, ele recolhia dados, dados preciosos para por fim a revolução. Dados que trariam a paz sob as mãos justas de Andrew. E isto aconteceria em breve.
Naquela manhã, o rei foi acordado as pressas, um de seus assessores o aguardava na sala do trono com informações cruciais a respeito da "Sacerdotisa". Andrew pulou de sua cama ao saber. Rapidamente vestiu sua túnica e desceu as escadas. Parou alguns instantes perante a porta antes de abri-la, respirou fundo e a abriu. Entrou com olhar austero, passos curtos e pesados. Seu olhar se dirigiu para o subserviente informante parado perante o trono. Em seu rosto, um sorrisinho irritante de vencedor, aquele sorriso que faz você sentir vontade de esmurrar a pessoa até ela arranca-lo do rosto. A idéia passou correndo pela mente do rei, mas logo ele a esqueceu. Havia assuntos mais importantes a ser tratados. Ele se sentou no trono, bem no fundo e apoiando a cabeça nas mãos resmungou:

- E então, o que tem para mim servo?

O irritante informante andava apressadamente de um lado para o outro, aquele sorriso incomodava o rei, o homem parecia que a qualquer momento ia pular de alegria ou cantar algo. Estava certo de que receberia alto pela informação e com uma voz quase que cantando começou a esganiçar:

- Vossa Majestade, deixe-me primeiro parabenizá-lo pelo excelente governo que tem feito, é o melhor rei que tivemos. Bem, como sabe, eu sou um homem simples, minha família passa fome e…….

O jovem continuou a vomitar aquelas palavras, uma após a outra num ladainha insuportável, Andrew perdido em seus pensamentos só via a boca dele gesticulando. Abrindo e fechando freneticamente. Até que em um momento sua atenção foi chamada para uma palavra pronunciada com grande ênfase:

- Pois bem majestade, a de termos de discutir a recompensa…

- Por favor, aproxime-se jovem.

E o informante se aproximou, aquele sorriso esculpido em seu rosto, parecia que era inquebrável e era isso que o rei iria averiguar. Quando o jovem se aproximou a um metro do rei, este esticou seus velhos braços agarrando o colarinho do insolente e o puxando para bem próximo de seu rosto. E então de forma irritada começou a falar:

- Escute aqui seu servo insolente, quem pensa que é para tagarelar feito uma gralha e ainda me pedir dinheiro, ainda não sei se permitirei que saia com vida desta sala... portanto vá dizendo logo o que tem a dizer e veremos se essa informação vale sua vida.

O sorriso, até então fixo, se desfez em segundos, e foi substituído por uma feição de temor. O suor escorria pela testa do informante que balbuciando falou:

- Desculpe majestade é que…

- FALE LOGO...

- Sim senhor, eu descobri aonde a sacerdotisa reúne seus ouvintes. Eu estava lá e a ouvi falar.

Os olhos de Andrew se encheram de excitação, finalmente algo de concreto.

- Eles se reúnem em uma grande clareira a alguns minutos daqui, embrenhado na floresta, um lugar muito bem escondido.

O jovem estendeu um pedaço de papel ao rei que o tomou de suas mãos e o abriu, era um rascunho de um mapa. Finalmente ele poderia colocar fim as malditas revoluções, e isso aconteceria essa mesma noite. Ele encarou o informante, um olhar gélido de seu rosto, ele se recordava de forma obsessiva como aquele servo ousou encara-lo com aquele sorriso confiante, pessoas com essa atitude são perigosas.
- Agora discutiremos sua recompensa…

Os olhos do jovem brilharam com a excitação, suas mãos suando e um ensaio do que a pouco for a um sorriso confiante.

- Guardas - gritou o rei.

O jovem se sentiu acuado á medida que quatro guardas o cercavam e Andrew ainda com um sorriso perturbador no rosto pronunciou triunfante:

- Levem esse servo para que trabalhe nas minas de sal, e o ponham a ferros.

- Mas... Mas eu lhe dei a informação…

- E eu estou lhe pagando, terá todo o sal que puder agüentar hahahahaha... Podem levá-lo.

O jovem esperneando e gritando foi arrastado para fora, e pela mente de Andrew passou a idéia de que as minas de sal iriam para sempre destruir aquele maldito sorriso.

Faltavam poucas horas segundo a descrição do informante para o próximo pronunciamento da sacerdotisa e não havia tempo a perder. Andrew tinha uma idéia: um arqueiro escondido por entre as árvores e uma flechada fatal, a multidão jamais saberá de onde veio o tiro e, portanto, nunca poderão culpar seu poderoso rei. Mas havia algo que ele fazia questão, o de estar presente nesse momento, vendo sua arqui-inimiga banhada em sangue no chão, um fim perfeito para uma agitadora. A vingança contra esses camponeses nojentos por terem levado sua amada filhinha estaria completa. Andrew gritou por um de seus criados que respondeu prontamente e então murmurou.

- Vá até a sala da guarda e fale com o comandante, diga que quero seu melhor arqueiro aqui em cinco minutos, me ouviu bem??? Cinco…

O servo correu e dentro do prazo voltou acompanhado, o homem era alto, um longo cabelo loiro liso escorria por suas costas recobrindo o arco longo preso a elas. Seus olhos verdes contrastando com um nariz pontudo e fino. Tinha lábios finos que formavam um sorriso discreto. As orelhas pontudas salientes de seus cabelos indicavam sua raça confirmada prontamente pela voz macia e ponderada que saia de sua boca, era sem duvida um elfo. O homem então se apresentou:

- Meu nome é Alan, Milorde e estou a seu serviço.

Sua voz e seu jeito suaves como uma ave, os Elfos sempre foram conhecidos por serem exímios arqueiros, e por dificilmente errarem um alvo. Mas havia um problema, Elfos costumam ser honrados e não matariam uma pessoa se não fosse para se defender. Mas ao olhar melhor para as vestes de Alan esse pensamento lhe escapou. Uma túnica negra assim como a capa. Um brasão em seu peito, eram todos os indícios de um Elfo Negro, alguém que faria um trabalhinho sujo se bem recompensado. Andrew então começou a falar:

- Preciso que uma certa pessoa que me incomoda seja riscada do mapa, você me compreende Alan.

- Perfeitamente Milorde. E quem é essa pessoa que requer meus serviços?

Sua voz calma e impassível, uma tonalidade fria que assustou até mesmo o rei. Ele então prosseguiu:

- Certamente já ouviu falar da Sacerdotisa não?

Alan se manteve impassível enquanto respondia:

- Certamente…

- Pois bem, ela tem me incomodado muito nos últimos dois anos, e acho que seria de bem se ela se calasse.

O Elfo olhou para baixo por um momento. Um olhar pensativo e então ergueu o rosto e olhando firmemente para o rei respondeu:

- O senhor compreende que terei de lhe cobrar um preço pelo serviço não é? Sabe como é difícil se livrar de lendas de forma incógnita.

Era um jovem ambicioso, isso agradava Andrew, também demonstrou ser fleumático, um assassino perfeito, o rei com um sorriso amarelo, puxou da cintura uma pequena bolsa e a arremessou para Alan, este a agarrou no ar e chacoalhando para ouvir o tilintar das moedas de ouro mais uma vez falou:

- Sabe senhor, essa tal sacerdotisa é um pouco mais famosa do que isso, o seu povo parece realmente gostar dela.
Andrew sabia entender uma indireta, puxou uma outra bolsa e a arremessou. Alan então olhou para o rei e respondeu:

- Ahhhh, creio que é o suficiente. E então, onde e quando devo executar o serviço?

Andrew explicou tudo ao jovem, deu lhe o mapa e deixou tudo combinado. Ele deveria se esconder por dentre as árvores, e assim que a agitadora pronunciasse suas primeiras frases, ele deveria dar um único e certeiro tiro em seu coração e então sumir para nunca mais voltar. Aconteceria tudo naquela noite e não poderia haver falhas. O rei mal podia esperar pela hora.

Não tardou para que o sol se pusesse, Andrew passou o dia todo se preparando. Preparativos que ele nunca julgou que seriam necessários. Um disfarce para acompanhar de bem perto a queda daquela que por pouco não derrubou seu reino. Remexendo em velhos baús ele conseguiu uma espécie de capa com capuz bastante surrada pela idade e pelo seu intenso convívio com as traças. Era um grande pedaço de pano de cor marrom, tinha um cheiro acre, de algo que ficou muito tempo fechado. Mas apesar disso serviria bem. O rei colocou suas botas de caça, uma velha camisa e por cima de tudo a capa. Olhou -se em seu maravilhoso espelho de cristal, e teve uma visão surpreendente, onde antes havia um imponente monarca, agora se encontrava um sujo e maltrapilho vassalo, um disfarce perfeito para se infiltrar no meio do pobre e ignorante campesinato. Ele utilizou sua saída secreta habilmente escondida atrás de sua cama. Construída para o que para Andrew era impensável: uma invasão. O rei tinha plena confiança em sua armada, mas seu pai sempre lhe disse que aquele que corre, vive para lutar outro dia, o mesmo pai que projetou essa saída, tão útil nesse momento. A pequena portinhola de madeira que selava a passagem se abriu com dificuldade, suas juntas enferrujadas produziram um forte rangido, resultado e anos e anos de abandono. Do outro lado se encontrava um túnel escuro e bastante apertado, com uma tocha Andrew pode iluminar um pouco o caminho, as paredes feitas de pedra estavam cobertas de limo e eram bastante úmidas. Ao final do túnel, a explicação veio à tona. O rei desembocou numa espécie de tanque de água, não devia ter mais do que dois metros de profundidade, esse pequeno lago fechado entre as densas paredes do castelo escapava por uma pequena abertura na parede, um velho barco a remo estava amarrado próximo da entrada do túnel. O rei rapidamente desamarrou a embarcação e com duas ou três remadas chegou até o vão na parede, do outro lado o que era esperado, o pequeno lago se interligava com o rio que corria ao lado do castelo, uma estratégia sábia de seu pai, já que ele sabia que nenhum camponês revoltado pensaria em vigiar o rio.

Andrew remou até a margem e saiu do barco, olhou em volta e percebeu estar bem próximo da floresta, o tempo corria e ele tinha de chegar rapidamente à clareira. Seguindo o mapa, ele se embrenhou por entre as árvores por alguns minutos, até que pôde ouvir vozes, um forte murmúrio vindo do norte, ele andou disfarçadamente até o local e avistou uma enorme clareira, grande o suficiente para abrigar boa parte de seu exército, mas que apesar de disso parecia apertada tamanha a quantidade de aldeões que lá se encontravam. Ele arrumou a roupa, puxou o capuz escondendo seu rosto e rapidamente se embrenhou entre a multidão. Com alguns empurrões foi se aproximando do palanque improvisado sobre um tronco, e rapidamente conseguiu o lugar que queria, um privilegiado espaço na frente de onde poderia até mesmo tocar a sacerdotisa. Suas mãos suavam ante a excitação. Ele olhava a volta em busca do elfo, e a cada falha tinha mais certeza de que havia contratado um profissional. Andrew sabia que o assassino estava à espreita aguardando apenas que a oradora pronunciasse suas primeiras palavras para disparar seu tiro fatal. Pouco a pouco os murmúrios foram baixando á medida que a sacerdotisa envolta em seu impecável manto branco se aproximava. Ela então parou apenas a alguns metros do rei disfarçado. E então com um leve aceno fez com que a ansiosa multidão se calasse. Quando o imaculado silêncio se estabeleceu ela iniciou seu discurso:

- Sejam bem vindo amigos, é bom saber que são tantos os que vêm a mim em busca de conhecimento, um conhecimento que deve ser espalhado para que ilumine não apenas suas mentes, mas a de todos aqueles dominados pela escuridão da ignorância…

Aquela voz - pensou Andrew - aquela voz, como a melodia dos anjos, uma voz doce e cativante, poderia ser… - A confirmação se deu assim que a sacerdotisa retirou seu pesado capuz. O rei ficou paralisado com a visão, não conseguia pronunciar nada ao ver que por trás do manto estava aquela a quem tanto procurará, sua filha desaparecida Arkânis. Os segundos que se seguiram pareceram horas, o rei desesperado olhando para todos os lados, a procura do maldito elfo. Ele tinha de pará-lo... Ele não podia…

Foi quando seu plano tão meticulosamente preparado sucedeu Uma flecha vindo do meio das árvores atingiu Arkânis no peito. No local onde a flecha atingiu rapidamente se formou uma pequena mancha de sangue enquanto a multidão assistia aterrorizada seu corpo vir ao chão. Para Andrew aquele momento parecia interminável, ele correu a amparar o corpo que desfalecia enquanto sua voz saia lenta e monótona:

- Não!!!

E num instante o tempo voltou a sua velocidade normal, o rei petrificado segurava o corpo em seus braços, seu capuz sujo havia caído diante de seu repentino movimento, a multidão em volta estranhamente se manteve paralisada, incapaz de qualquer atitude, foi para todos uma grande surpresa descobrir que a filha do rei era a tão famosa sacerdotisa. Um sentimento de compreensão percorreu aquelas pessoas, aqueles que antes eram apenas animas de carga, agora possuíam um pouco de sabedoria, os ensinamentos de Arkânis havia sucedido. Ninguém era capaz de sentir raiva, ou de erguer seu braço para atacar o tirano, todos permaneceram imóveis perante a cena.
Quanto a Andrew, ele permanecia imóvel. Não chorou, não riu, simplesmente ficou paralisado, em estado de choque. Por sua mente destruída pelos acontecimentos apenas pensamentos simples e de fácil compreensão, ele estava incapaz de calcular, julgar e até mesmo de planejar uma fuga. Sua vida estava lá, morta em seus braços e a única coisa que seus lábios petrificados conseguiram pronunciar foi:

- Ela era minha filha… Minha filhinha…

Poderia haver sentimento naquele coração esculpido no gelo, Andrew foi capaz apenas de sentir uma mão sob seu ombro, uma mão forte que apertou seu ombro de forma confiante, ele vagarosamente olhou para trás e pode ver o rosto de um camponês, um rosto familiar que só veio à tona quando o rapaz se apresentou:

- Meu nome é David... senhor

O jovem, embalado pela tristeza e pela comoção foi incapaz de reagir contra o velho rei, seu coração doía pela perda de sua amada, e pelo sentimento de compreensão de um pai que se encontrava no meio da floresta, com sua única herdeira morta nos braços.

Andrew olhou fundo nos olhos do rapaz. Seu rosto imóvel na mesma expressão triste e sem vida, ele encarou o rapaz lhe dizendo o óbvio:

- Ela era minha filha, minha filhinha Arkânis.

O rapaz num esforço de apresentar um olhar confiante respondeu:

- Sim eu sei, era sua filha, mas também era minha esposa.

- Esposa? - pronunciou o rei, sua voz não continha raiva ou ressentimento, era apenas uma voz morosa, sem vida repetindo o que havia escutado. Logo sua mente foi tomada por um pensamento óbvio, algo que o rei estando consciente jamais ousaria pensar, muito menos dizer, quase que num murmúrio ele falou:

- Sua esposa, você era marido de minha única herdeira? Então é você que deve me suceder no trono?
Os murmúrios aumentaram entre a multidão, David? Rei? Era o que se escutava. O rei não pronunciou mais nada, voltou seu olhar para o rosto de sua filha em seu colo.Tinha a face de um anjo, como que enviada dos céus. Ele acariciava seus cacheados cabelos loiros, e murmurava repetidamente:

- Você veio do céu, sei que você foi enviada do céu, um anjo sem asas para trazer paz a essa terra…

Os murmúrios mais uma vez mudavam, agora o que se podia ouvir eram as palavras do rei sendo repetidas desordenadamente: Caída do céu? Anjo sem asas?…

Andrew então sentiu uma forte pontada em seu coração que se mostrara não ser tão duro quanto se pensava. Um coração que havia se petrificado quando sua amada rainha partiu e que agora se descongelava perante a cena. A dor lascinante por todo seu corpo não era importante, nada mais era e assim, ali mesmo, sem pronunciar mais nenhuma palavra, o coração do rei parou. Em seu ultimo suspiro a tristeza que causara sua morte. Seu corpo caiu para trás e a multidão calou perante a cena inesperada. Ali estava a prova definitiva que até mesmo o impiedoso Andrew era humano, ele morreu afogado em sua tristeza, sentimento esse que apenas aqueles dotados de coração são capazes de sentir.

Não demorou muito para que o dia amanhecesse, a multidão em muito dispersa preparou o cenário para seu ultimo adeus. Andrew foi sepultado ali mesmo naquela clareira, uma singela pedra demarcava o lugar. Algo muito distante da opulência que o enterro de um rei exigiria.

Quanto ao corpo da sacerdotisa, foi carregado para a pequena cabana próxima a clareira, a fim de ser preparado para a última jornada. Este foi carregado pessoalmente por David que pediu àquele que agora seria seu povo, alguns momentos a sós com sua amada. Mas depois de se embrenhar pela floresta, David tomou um rumo diferente do caminho da cabana, e após alguns minutos encontrou um local, um lugar que ninguém jamais soube dizer a localização, e ali sem colocar marcas ou sinais, ele enterrou sua amada. Para Ter certeza que seu corpo gozaria de descanso achou por bem contar uma lenda, quando finalmente foi questionado sobre o corpo, David contou a todos, que colocou sob sua cama, ajoelhou-se aos pés e começou uma oração, naquele momento, uma luz brilhante e intensa teria atravessado o teto e coberto o corpo da sacerdotisa. Seu corpo brilhou e vagarosamente desapareceu enquanto ascendia aos céus. Sua história rapidamente se espalhou, e os esperançosos camponeses jamais sonharam em questiona-la. Para muitos, Arkânis era realmente uma deusa, e as palavras do rei em seu leito de morte e o milagre da ascensão foram apenas a confirmação.

David, porém, não deixou que a morte de sua amada destruísse seu trabalho de tantos anos. Ele escolheu vinte dos mais antigos estudantes de Arkânis, vestiu-lhes com mantos semelhantes ao de sua amada e deu-lhes uma missão. A de espalhar por toda Mirr as palavras por ela ensinada. Com os tesouros deixados por Andrew, no mesmo local onde jazeram dois corpos foi colocado a fundação de uma ambiciosa construção, uma grande livraria, que conteria segundo seu sonho todo o conhecimento do universo, os livros vindo de todos os cantos de Mirr, trazidos pelos devotos na fé de Arkânis e algumas vezes até mesmo pelo próprio David. Os livros eram catalogados, organizados e estudados, a livraria cresceu, e a cada anexo se tornava mais imponente e visível. Onde antes havia uma clareira, surgiu um grande monastério. O que era inevitável aconteceu: lendas sob milagres realizados por Arkânis rapidamente surgiram por toda a parte. A grande biblioteca passou a receber grandes quantidades de pessoas em busca de conhecimento ou de um milagre. David sabia que muitas dessas histórias eram falsas, talvez meros enganos, mas tinha certeza que onde quer que o espírito de sua amada estivesse, ela estaria trabalhando incansavelmente para erradicar o ódio, as guerras e a ignorância que habitam a mente humana.

Levou apenas trezentos anos para que a fé em Arkânis percorresse todo o mundo, para que incontáveis templos fossem erguidos em seu nome e para que milhares de pessoas se convertessem a sua fé. Quanto à localização do corpo, esse foi um segredo que David levou para o túmulo.

Voltar

Hosted by www.Geocities.ws

1