18/04/2002 - Marçal Aquino, 44 anos, natural de Amparo
(região serrana do interior de São Paulo), é um
ex-jornalista que entrava em prédios sob ameaça de
bomba. Largou a profissão que o ensinou a prestar atenção
nos detalhes para virar um outro tipo de repórter: o que
produz notícias falsas, um escritor que capta a realidade
à sua volta e faz autópsias do cotidiano. Hoje Aquino
escreve textos institucionais para bancos e é romancista
e contista de mais de uma dezena de livros. Um dos mais
prestigiados é O Amor e Outros Objetos Pontiagudos (Geração
Editorial), reunião de contos que em 2000 foi vencedora
do prêmio Jabuti, ao qual ele foi indicado novamente em
2002 por Faroestes (Ed. Ciência do Acidente), ao
lado de Rubem Fonseca e Fernando Sabino. Ao capturar a
realidade brasileira nas letras o autor resvala na violência,
parte da vida em sociedade atual.
Aquino já foi chamado de "Sam Shepard de Aquidauana"
pelo amigo Marcelo
Mirisola, autor de O
Azul do Filho Morto. É um dos escritores da
"geração
90", ao lado de Mirisola e de Fernando
Bonassi. Com o último, Aquino dividiu o roteiro de Matadores,
filme baseado em um conto seu. Foi o começo real da
parceria com o diretor Beto Brant, que quase filmou o
conto "Onze Jantares", do livro As Fomes de
Setembro (Ed. Estação Liberdade) em 1991. Aquino
voltou a trabalhar com Brant no filme Ação Entre
Amigos, de 1996, também baseado em história original
sua. O fruto mais recente desta colaboração é O
Invasor, um cruel suspense criminal que está
atualmente em cartaz depois de ser premiado no festival
americano de Sundance como melhor filme latino-americano.
Os atores Marcos Ricca, Alexandre Borges, Paulo Miklos,
Mariana Ximenez e Malu Mader deram vida aos personagens do
livro homônimo, recém-lançado pela Geração Editorial.
A edição traz também a íntegra do roteiro do filme,
escrito por Aquino, Brant e o colaborador Renato Ciasca.
O bate-papo agradável foi conduzido na casa de Aquino em
uma tarde ensolarada em São Paulo. Como nas tramas do
autor, a realidade continuou a se pronunciar nos barulhos
da rua com o trânsito rugindo e as sirenes gritando ao
fundo. Essa realidade é a matéria-prima da obra de
Aquino, que fala na entrevista de sua literatura (que não
é só feita de tiros e sangue, mas de amores difíceis e
situações-limite); dos bastidores de O Invasor;
do gênero policial no Brasil; das dificuldades em se
fazer cinema; de viagens em busca de pistoleiros; do prêmio
Jabuti; de literatura e Internet; de programas de TV e a
ficção do dia-a-dia; de escrever roteiros e do que
verdadeiramente assusta as pessoas: a realidade da qual não
se pode fugir.
Fonte: Som Livre