Com uma leva de bons roteiristas, cinema nacional vive fase feliz(Matéria de Arnaldo Lorençato, com colaboração de Lenke Pavetits, publicada na InvestNews/Gazeta Mercantil, sexta, 08/03/2002 - Transcrição parcial) Quando O Invasor estrear no país, em 5 de abril, o espectador terá a oportunidade de assistir a um drama denso e eletrizante, um retrato sem rodeios da violência social que mitiga o país. Mérito do diretor Beto Brant, de 37 anos, que chega ao terceiro longa-metragem com um importante prêmio, o de melhor filme latino- americano no festival de cinema independente de Sundance, nos Estados Unidos. Mas o mérito pela premiação não lhe é exclusivo, e pode ser estendido ao escritor e roteirista Marçal Aquino, com quem Brant realiza uma profícua parceria desde sua estréia no longa-metragem com Os Matadores, de 1997. Os resultados vistos no cinema passam por um roteiro bem urdido, em que as falas de personagens como Anísio, o matador vivido pelo músico Paulo Miklos, soam verossímeis. Brant e Aquino não são os únicos exemplos das felizes parcerias que estão ocorrendo no novo cinema brasileiro, mesmo com o golpe que significou a extinção das políticas de incentivo ao audiovisual em 1990, abrindo um hiato na cinematografia nacional. Sem levar em conta o processo embrionário de produção que se multiplica por vários pontos do país, mas tomando exemplos de São Paulo ou Rio de Janeiro, esses diferentes pólos produtores abrigam um número crescente de profissionais que se ocupam da escritura cinematográfica. São trabalhos heterogêneos e plurais, por isso tão interessantes em suas propostas. Há um inegável reflorescimento do cinema brasileiro que passa pelo roteiro. Ao lado do experiente Jean-Claude Bernardet, responsável pelos textos contundentes de Um Céu de Estrelas e Através da Janela, ambos dirigidos por Tata Amaral, despontam Roberto Moreira, a dupla Fernando Bonassi e Victor Navas e o próprio Aquino, em São Paulo. No Rio, trabalham novos profissionais do ramo, como Marcos Bernstein, que atuou com Walter Salles, e Elena Soárez e Patrícia Melo, ambas dos quadros da Conspiração Filmes. O curioso é que parte dessa geração, que tem entre 30 e 45 anos e hoje se dedica ao roteiro, antes pensava em trabalhar como cineasta ou veio de outras áreas. Sem uma formação prévia, era de supor que alguns dos principiantes recorressem aos manuais de roteiro. Pelo contrário, a maioria abomina o nome de Syd Field, autor de beabás que tentam revelar a produção de textos ao estilo hollywoodiano. "O manual é uma máscara que se põe no computador para ir preenchendo as áreas em branco. Não funciona", diz Marçal Aquino. Fernando Bonassi, um dos mais requisitados roteiristas paulistanos, é mais duro: "A pior coisa é o Syd Field. É um lixo", dispara. E completa: "É melhor estudar narrativa em A Morfologia do Conto, do Propp." Uma profissional alheia ao assunto roteiro era Elena Soárez, economista com mestrado em Antropologia. Entrou para o cinema porque topou uma atividade que todo mundo recusava: escrever. Estreou a convite do diretor Andrucha Waddington, primeiro com Gêmeas e depois com Eu Tu Eles. Waddington a mandou ao sertão nordestino para investigar a história da cearense Maria Marlene Sabóia da Silva, que viveu com três homens. Elena só lamenta o fato de ser obrigada a virar desbravadora. "Não tive mestres, nunca fui assistente de ninguém", queixa-se. Entre os roteiristas destacados nesta reportagem, é rotineiro que eles atuem em parceria. Acham improdutivo o trabalho solitário. "Nunca vou escrever um roteiro sozinho", acredita Marçal Aquino. Esses profissionais também crêem que o período ideal de gestação de um roteiro é de um ano. "É preciso deixar o roteiro descansar e voltar ao texto algum tempo depois, para ter um olhar crítico. Percebem-se coisas que parecem óbvias e necessárias, mas que depois não funcionam", ensina Jean-Claude Bernardet, que nos anos 60 trabalhou com Luís Sérgio Person em O Caso dos Irmãos Naves. Claro que sempre há situações excepcionais em que é preciso produzir num tempo menor. Mestre no assunto, Bernardet acredita que as sessões de trabalho extensas são improdutivas. Um dos indicadores de que um roteiro está pronto é simples, segundo esses profissionais: o começo das filmagens. A maioria dos roteiristas vê os quatro ou cinco primeiros meses de trabalho como fundamentais. "É quando se coloca o arco narrativo em pé", diz Bonassi. Como parece não haver fórmulas neste ofício, ou pelo menos não convém revelá-las, a cada roteiro corresponde um processo fascinante e peculiar de criação. "Um roteiro não é literatura, nem cinema, ainda. É muito sem parâmetros", acredita Marcos Bernstein, que iniciou esta atividade por "querer trabalhar em cinema de qualquer jeito". Quando Walter Salles e Daniela Thomas escreviam Terra Estrangeira, deu tantos palpites que virou roteirista do filme. Em Central do Brasil, Salles apresentou a Bernstein uma pequena história que delineava o personagem de Dora, a leitora de cartas, e o começo do filme. Para colocar em pé o "arco narrativo" citado por Bonassi, o roteirista trabalhou com João Emanuel Carneiro. Uma das partes mais interessantes deste trabalho, ele diz, foi escrever as cartas que a protagonista lê. Apesar de terem consultado livros que ensinam a escrever cartas de amor, os roteiristas se basearam na observação popular para imprimir sinceridade a mensagens tão singelas. Bernstein, que gosta de trabalhar com Melanie Dimantas, roteirista de Carlota Joaquina e Copacabana, prepara-se para passar para trás da câmera. "Escrevo com a Melanie O Outro Lado da Rua, que devo dirigir", conta. Na contramão dos que sempre ansiaram trabalhar no cinema, Marçal Aquino nunca sonhou escrever roteiros. De sua formação jornalística, surgiu um escritor consistente, com uma obra premiada. A amizade com Beto Brant o levou a ceder o direitos do conto Os Matadores. O trabalho de roteirização foi iniciado pela dupla Bonassi/Navas, que já havia dado acabamento no roteiro de Dov’è Meneghetti, uns dos curtas de Brant. O cineasta, porém, não achava que o resultado estava no ponto. Foi, então, que Aquino entrou na história. Uma das medidas para concluir o texto foi viajar para a região de fronteira Brasil-Paraguai. As locações deram a linguagem definitiva ao filme. "Achei fácil fazer o roteiro. Conhecia as histórias, não as tinha inventado", diz Aquino. Ação Entre Amigos, de 1998, sobre os ecos no presente dos efeitos da repressão militar, partiu de um argumento original de Aquino. Mais uma vez, Bonassi e Navas foram requisitados. Mas, por não concordarem com algumas mudanças que Brant queria fazer, coube novamente a Aquino finalizar o texto. Estava selado um acordo definitivo entre a dupla. Para a felicidade de Aquino, Brant encontrou em sua literatura a matriz ideal para os filmes que realiza. E vice-versa. Dentro desse esquema de produção conjunta, quando ocorrer o lançamento de O Invasor no início do mês que vem, Aquino estará, simultaneamente, autografando a primeira fornada da novela homônima. Fato inédito no Brasil. Uma das fontes de inspiração para Aquino foi Violência Gratuita, de Michael Haneke, filme de 1997 cuja violência não acontece na tela, mas fora do campo visual. O objetivo de Aquino, que teve como companheiros de escrita Brant e Renato Ciasca, era uma obra em que a violência não fosse mostrada. Ao mesmo tempo que compõe um retrato da brutalidade que oprime o país, O Invasor não exibe ações violentas. O espectador apenas toma conhecimento delas. A simples sugestão torna O Invasor um filme incômodo, perturbador, e atesta a maturidade cinematográfica de Brant e Aquino. Isto não significa que Aquino se limite a trabalhar com Beto Brant. No momento, ele está em dois projetos diferentes. Desenvolve o roteiro de Nina para o pernambucano Heitor Dhalia, uma versão contemporânea da obra-prima Crime e Castigo, assim como faz a adaptação de Esmeralda, Por que Não Dancei com a dupla Fernando Bonassi e Victor Navas. Este último é extraído da história autobiográfica da ex-menina de rua, Esmeralda do Carmo Ortiz, contando como deixou o crack e virou escritora. Se Marçal Aquino adapta com freqüência as próprias histórias, há quem se queixe de nunca ter tido uma idéia original encampada. "Nunca escrevi um roteiro de espontânea vontade. Tem trabalho, tem dedicação, dentro da demanda do diretor", conta Elena Soárez, que estruturou Eu Tu Eles no período de 1995 a 1999. Foram quatro anos burilando o texto. O Redentor, em co-autoria com a atriz Fernanda Torres e o irmão cineasta, Cláudio, Elena começou escrever em 1996 e só recentemente ficou pronto. Diferentemente do que acontece nas produções paulistas, a pesquisadora da Unicamp e doutora em Cinema Luciana Corrêa Araújo acredita que os filmes produzidos pela Conspiração Filmes adotam, de uma certa maneira, o estilo proposto por Syd Field e uma tendência mais conservadora ao seguir um ideal de cinema que busca conquistar o público ao estilo hollywoodiano. Apesar das limitações da produção cinematográfica no Brasil, alguns roteiristas estão conseguindo fazer da atividade uma profissão e não um freelancer eventual. Não se trata mais de um trabalho menosprezado ou que deva ser acumulado somente pelo diretor, naquela antiga visão do cinema de autor. Ainda assim, a roteirista Elena Soárez, revela que ganha entre R$ 50 e R$ 100 mil por um roteiro de longa-metragem. "Sei que não vou receber os R$ 100 mil imediatamente. Vêm 80% primeiro e o que fica faltando é pago na captação." Com relação ao comportamento dos cineastas que hoje estão em ação, quase nenhum deles acumula a função de roteiristas solitários. Nem são autores egoístas. Este trabalho é encomendado a um profissional do ramo. Aos poucos, se extingue o mito de que o problema do cinema brasileiro era o roteiro. "Balela. O que havia antes não era a falta de bons profissionais, mas diretores e produtores que, para economizar, acabavam desvalorizando a função", dispara Bonassi. Para Roberto Moreira, vive-se um momento de transição em que a responsabilidade da criação de um filme é igualmente dividida entre produtor, diretor e roteirista. "Se há um roteirista, há dois autores no filme: o diretor e o roteirista", decreta. É a hora e vez do roteiro. Copyright © 2001/2002 by Denise Camillo Duarte www.roteirosonline.com.br/roteiristas.htm
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