Universo da palavra

Projeto Esfera Literária, realizado pelo IAP em parceria com o Itaú Cultural, traz a Belém nomes de peso como Fernando Bonassi e Marçal Aquino para conversar com o público
 

A palavra e suas relações com as diversas linguagens artísticas, como a literatura, o teatro, o cinema e as audioficções movimentam as discussões do projeto 'Esfera Literária' deste mês, numa edição cheia de convidados especiais. Organizado em parceria com o Instituto Itaú Cultural, o projeto do Instituto de Artes do Pará acontece hoje e amanhã, com debates, workshop, bate-papo e apresentação de peças de audioficção selecionadas pelo programa Rumos - Literatura, tudo com entrada franca.
 

No primeiro dia da programação, um dos destaques é o debate que acontece às 19 horas sobre 'O Conto na Literatura Brasileira Contemporânea', com a participação dos escritores Marçal Aquino (SP), Francisco Mendes (MG), Daniel Leite (PA) - vencedor do Prêmio IAP de Literatura 2004 na categoria conto, com 'Águas Imaginárias' - e ainda do jornalista e gerente do Núcleo de Diálogos do Itaú Cultural, Claudiney Ferreira, como mediador. No mesmo horário, o cineasta, escritor e dramaturgo paulista Fernando Bonassi lança seu livro 'O Menino que se Trancou na Geladeira'.

Amanhã, o bate-papo será com o roteirista e membro da comissão de seleção do Rumos - Literatura Vítor Navas. Roteirista de cinema e TV, Navas escreveu com Bonassi o roteiro de 'Cazuza'. Às 19 horas, o debate é sobre a palavra na literatura, no cinema e no teatro, com Fernando Bonassi, o escritor e jornalista Aílson Braga e a cineasta Jorane Castro, ambos paraenses, com mediação de Claudiney Ferreira.

Durante os dois dias também acontece o workshop sobre audioficções, com a professora de artes cênicas Heloísa Bauab, membro comissão de seleção do Rumos na categoria de audioficção. Durante o workshop, Heloísa, que é pioneira no uso do termo 'audioficção', falará sobre produção, estilos e possibilidades de veiculação desta linguagem, cuja origem data dos primórdios do rádio, na segunda década do século passado.

O curso culmina com uma sessão de audioficção e cinema, às 20h30 de amanhã, com apresentação de cinco peças de audioficção e ainda vídeos selecionados pelo programa Rumos. Estão no programa as adaptações de textos inéditos 'O Mundo Bombado de Wendy' (Marília Carneiro e Nayara Lucide/ Grupo Depravação - MG), 'Vide Bula' (Empresa KK - SP) e as adaptações de textos publicados '15 Cenas de Descobrimento de Brasis' (Marco Scabello e Rogério Borovik/ Coletivo Scalovik - SP), 'Pisca-Tudo' (Ana Carolina Ribeiro de Abreu/ Duo Arteiros - SP), e 'A Hora do Rush' (Eliom/ RN). Entre os vídeos, serão exibidos 'Invisíveis Prazeres Cotidianos' (Jorane Castro - PA), 'Enquanto Chove' (Alberto Bitar e Paulo Almeida - PA), 'Carrapateira Não Tem mais Ciúmes da Apolo 11' (Fabiano Maciel - RJ), 'Garota Zona Sul' (Luciano de Paiva Mello - SP), 'Carranca de Acrílico Azul Piscina' (Karim Ainouz e Marcelo Gomes - PE) e 'Aristocrata Clube' (Jasmim Pinho e Aza Pinho - SP).

SERVIÇO - Esfera Literária Especial. Hoje e amanhã, no IAP (Praça Justo Chermont, 236, ao lado da Basílica), com entrada franca. As inscrições para o workshop de audioficções, de 9 às 12h e de 15 às 18h, com inscrições gratuitas no IAP. Informações: 4006-2908.

“A literatura é a minha casa”

Teatro, cinema, literatura. Onde quer que a palavra se inscreva, o mais importante é contar uma história. Essa é a opinião do escritor paulista Marçal Aquino, autor premiado com o Jabuti e o Prêmio Nestlé de Literatura e dos livros que deram origem aos filmes “Os Matadores”, “Ações entre Amigos” e “O Invasor”, que participa do projeto Esfera Literária no IAP.

“São atividades primas. São linguagens diferentes, com questões específicas.
Mas são todas formas de contar uma história, o que, para mim, é muito mais importante do que uma preocupação antecipada com a linguagem. Sempre gostei muito de cinema, mas a literatura é a minha casa”, diz Aquino, cujo texto rápido e preciso - em parte uma herança de sua atuação nas redações de jornais - caiu como uma luva para a dinâmica dos filmes do diretor Beto Brant, estabelecendo uma bem-sucedida parceria.

Seja nos filmes ou nos livros, o que move a atenção de Aquino são as histórias de pessoas. “Viajo muito, gosto de conhecer cidades, ouvir a sintaxe das ruas. Daí surge uma centelha e a imaginação entra em cena. Grosseiramente dizendo, é como olhar um casal discutindo na rua e imaginar uma biografia para aquilo”.

No novo romance de Aquino, “Eu Receberia as Piores Notícias de seus Lindos Lábios”, a história é de amor. E de amores que chegam até as fronteiras do Pará. “Tem uns dez capítulos que se passam numa cidade fictícia no interior do Pará, além de passar rapidamente por Belém. É uma história de perdedores. Esse é um universo que gosto, dessas pessoas que não se sentem confortáveis no mundo. Fala sobre um fotógrafo de São Paulo em crise com seu trabalho e que ganha uma bolsa para fazer um livro de fotos registrando mulheres prostitutas numa região de garimpos. Lá conhece uma mulher com dupla personalidade, uma mulher muito complexa que, para complicar, é casada. Como pano de fundo, há o conflito entre as mineradoras e garimpeiros”, diz o escritor, que promete o livro para novembro, marcando sua estréia na Companhia das Letras.

Para Aquino, o romance é bem diferente de seus livros anteriores – claramente novelas policiais. “É um romance no sentido clássico. Tem até final feliz.” Mas não pense que o negócio vem adocicado. “Uma história de amor que não for crua não tem graça. Não se pode vestir uma luva cirúrgica para falar de amor”.

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