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Diretor faz releitura de 'Crime e Castigo'
Heitor Dhalia prepara o longa 'Nina', atualização da obra de
Dostoievski, escrito com Marçal Aquino
Eweton de Freitas/AE
Wagner Moura interpreta o vendedor cego Carlão
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ALESSANDRO GIANNINI
Desde que começou a rodar Nina, no dia 7 de janeiro, o diretor
pernambucano Heitor Dhalia desenvolveu uma rotina incomum. É um dos
primeiros integrantes da equipe a chegar no set, com os motoristas,
maquinistas e outros trabalhadores que preparam cenários e deixam tudo
pronto para o início das filmagens, às 7h. "Simplesmente, não
consigo dormir", diz ele, em um dos quartos do hotel Cambridge, no
centro de São Paulo, onde foi filmada uma cena de festa na noite
anterior. "Acordo às 4 horas da manhã e fico totalmente desperto.
Só me resta tomar um banho e ir para o trabalho. Não me importo,
afinal, é o resultado de dois anos e meio de planejamento. O mínimo
que posso fazer é estar lá antes de todo mundo."
- Quando fala em planejamento, Dhalia não está fazendo marketing
de sua dedicação profissional. Há dois anos e meio, ele vem
trabalhando febrilmente na elaboração de Nina, sua estréia como
diretor de longa-metragem de ficção.
- Escrito em parceria com o roteirista Marçal Aquino, colaborador
habitual do diretor paulista Beto Brant, o filme é uma adaptação
livre de Crime e Castigo, uma das obras mais significativas do
escritor Fiodór Dostoievski e um clássico da literatura russa. A
dupla transportou o drama de Raskolnikof da Moscou decadente do século
19 para o centro urbano de São Paulo no início do século 21.
Foram escritos 12 tratamentos ao longo desse processo.
- Raskolnikof transformou-se em Nina, uma garota moderninha de 20 e
poucos anos, ambiciosa e cheia de esperança, mas também
atormentada pela falta de perspectiva e a solidão perene. A atriz
paranaense Guta Stresser, de 30 anos, a Bebel do seriado de televisão
A Grande Família, da Rede Globo, não só faz o papel-título como
também inspirou o projeto (leia texto abaixo). A veterana atriz e
comediante Míriam Muniz sai de seu habitual registro para encarnar
Eulália, dona do apartamento onde Nina aluga um quarto e responsável
pelos principais tormentos da inquilina. O elenco traz ainda, nos
papéis secundários, um mix formado pela nova geração do teatro
paulistano, como Sabrina Greve, Juliana Ghaldino e Wagner Moura, e
atores veteranos e que podem ser considerados como tais, casos de
Selton Mello, Matheus Nachtergaele e Renata Sorrah.
- Nina está sendo rodado em várias locações e em um estúdio ao
redor do centro de São Paulo. O hotel Cambridge, que hoje em dia
faz parte do circuito da badalação noturna paulistana, é apenas
um dos locais. Além de facilitar a vida da produção, essa
"centralização" faz parte da concepção do filme.
- Dhalia, que mora na cidade há dez anos, explica. "Limitamos
o filme a uma geografia urbana bem central, onde existe um bolsão
de miséria humana convivendo de perto com a prosperidade. Além de
ser uma característica de todas as principais capitais do mundo,
tem tudo a ver com o drama psicológico dessa menina que não tem
grana e se desconecta paulatinamente da realidade."
- O início - A gênese do projeto vem do ano de 2000, quando
Dhalia foi ao teatro assistir à montagem de Mais Perto, do inglês
Patrick Marber, produzida por Renata Sorrah, com direção do
cineasta Hector Babenco. Guta fazia o papel de Alice, uma stripper tão
desesperançada e perdida quanto sua personagem no filme. O diretor
apaixonou-se completamente pela atriz, por sua presença de palco e
por sua capacidade de entrega ao personagem. Paixão esta, ambos
fazem questão de frisar, puramente artística. "Depois de vê-la
no palco, chamei a Guta para fazer um filme publicitário e ficamos
muito amigos", conta ele. "Uma noite, depois que saímos,
voltei para casa meio baleado, com febre, e tive uma idéia: fazer
uma adaptação de Crime e Castigo e com ela no papel principal. Não
sei nem como nem por que isso surgiu na minha cabeça, só sei que
surgiu."
- A partir do momento em que começou a trabalhar no projeto, Dhalia
jamais o abandonou. Ao contrário, trabalhou nele com afinco,
desenvolvendo um planejamento minucioso. A cada dois ou três
tratamentos do roteiro, um storyboard completo foi produzido, com os
desenhos de cada plano. Os mínimos detalhes foram estudados, das
falas à concepção de cor, dos figurinos às histórias em
quadrinhos que Nina lê e desenha em cena.
- Os quadrinhos, aliás, são uma história à parte. Foram
concebidos por Lourenço Mutarelli, desenhista de histórias em
quadrinhos e escritor. Ele foi incorporado à equipe de criação no
meio do processo. "O Lourenço foi um achado", elogia
Dhalia. "Desde que apareceu, o roteiro deu uma guinada grande.
Ele deu palpites em todas as áreas." Não por acaso, o
primeiro romance de Mutarelli, O Cheiro do Ralo, foi escolhido pelo
diretor como seu próximo projeto de longa-metragem.
- Esse planejamento detalhado e antecipado é a razão de um clima
relativamente pacífico e alegre no set de Nina. Quando a equipe se
reúne, praticamente todos os integrantes sabem o que será filmado
e como será filmado - o que nem sempre é tão comum. O fotógrafo
José Roberto Eliezer, que volta ao cinema de ficção após um
longo período de jejum, está bastante animado. "Faz tempo que
eu não via clima tão bom", disse. Com o diretor de arte Akira
Goto, ele é responsável pela concepção visual do filme. Para
acompanhar a trajetória sombria de Nina, a câmera terá um
comportamento mais clássico e as cores serão amenizadas ao máximo.
O filme está sendo rodado em Super 35 mms, o que permitirá um
tratamento final de tela grande.
- Produzido pelos irmãos Caio e Fabiano Gullane por meio da Gullane
Filmes, Nina tem orçamento de produção de R$ 2,5 milhões.
Patrocinam o filme Brasil Telecom, BR Distribuidora, Eletrobrás e
BNDS; Banespa Santander, Nossa Caixa, Infraero e Standard &
Poors. Os irmãos, que com Nina fazem sua estréia como produtores
independentes, podem captar ainda mais R$ 700 mil para promover a
distribuição e lançamento do filme. Esse dinheiro poderá ser
convertido em acordo com uma das grandes distribuidoras de cinema.
"Estamos conversando com algumas, mas ainda é cedo para
decidir", disse Caio.
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