Segunda-feira, 29 de Agosto de 2005
Cheiro de novidade
Flávia Guerra
O filme tinha tudo para não sair do papel. O nome: Cheiro do Ralo. O
mote: um homem desprezível, dono de uma loja decadente, que compra
coisas velhas e é obcecado por uma parte do corpo da garçonete da
lanchonete de quinta categoria que freqüenta. A equipe de produção:
a grande maioria jovens com pouca experiência no cinema. A verba:
nenhuma empresa para quem o projeto foi apresentado quis investir no
filme. O segundo longa-metragem de Heitor Dhalia parecia ter destino
certo: a gaveta. No entanto, o projeto não só saiu do papel como
figura como exemplo de produção de cinema independente no Brasil.
Cansados de buscar patrocínio e ouvir vários 'nãos', Dhalia, os
produtores Rodrigo Teixeira, Marcelo Doria, Matias e Joana Mariani,
resolveram investir dinheiro do bolso no projeto. "Só de ler o
título as pessoas torciam o nariz. Isso porque temos aprovação pelas
leis de incentivo para captar R$ 2 milhões", conta Teixeira. Mesmo
sem o apoio, o filme está sendo realizado, e com menos que o total
de R$ 2 milhões. "Vamos colocar o filme na lata com R$ 330 mil. E
partir para a captação para finalizá-lo e lançá-lo", completa o
produtor, que viu no filme a chance de consolidar a Geração Conteúdo
como produtora de cinema. "Já tínhamos co-produzido O Casamento de
Romeu e Julieta, mas este é nosso primeiro projeto principal."
O CHATO DO LIVRO
Nenhum dos produtores está ganhando cachê. Nem o protagonista.
Selton Mello se apaixonou de tal forma pelo projeto que não só abriu
mão do cachê como também se tornou co-produtor. "Já tinha feito isso
com Garotas do ABC, mas com O Cheiro do Ralo é diferente. Este é meu
filme de maior importância desde Lavoura Arcaica e O Auto da
Compadecida. É um divisor de águas. Pela primeira vez, interpreto
alguém mais velho", declara o ator de 32 anos, que se prepara para
dirigir seu próprio filme, Feliz Natal, em 2006.
O caminho parecia natural. Selton é um dos poucos atores que têm o
privilégio de associar bons papéis no cinema, na TV e no teatro.
Além disso, dirige, edita e coordena o Tarja Preta, seu programa no
Canal Brasil. Recentemente dirigiu o videoclipe do Ira!, Flerte
Fatal.
Nas filmagens de O Cheiro do Ralo que o Estado acompanhou, ele
auxiliava a atriz Fabiana Guglielmeti, com quem dividia uma cena
complicada, a encontrar o melhor posicionamento para a câmera e a
melhor forma de interagir. "Gosto mesmo de dirigir. Procuro não
interferir no trabalho do Heitor, ajudo até onde posso."
A paixão de Selton, que leu O Cheiro do Ralo em um vôo e ficou
'maluco' para chegar ao destino e ligar para Dhalia para pedir o
papel, contaminou toda a equipe. Dos figurantes ao tarimbado
fotógrafo Zé Bob Eliezer (o mais experiente do time), passando pela
competente figurinista Guta Carvalho e pela diretora de arte
Patrícia Zuffa, todos abriram mão do cachê em prol do projeto. "Não
vou dizer que este é o modelo de cinema que deva ser seguido. Mas é
o que encontramos para não deixar um belo projeto morrer na gaveta",
declara Teixeira. "Este é um modelo bastante usado pelos cinemas
independentes americano e europeu. Funciona e movimenta o mercado. É
um modo alternativo, desburocratiza o fazer cinema", completa
Matias. "É claro que nós gostaríamos de ter R$ 2 milhões para
produzir, mas encontramos outras soluções. Posso afirmar que desta
vez estamos mais maduros, vamos fazer um filme bem melhor que Nina
(seu primeiro longa), com muito mais prazer", completa Dhalia, que
também se apaixonou pelo livro de Mutarelli. As soluções para
produzir um filme no esquema que pode ser chamado de 'cooperativa de
cinema' passam também por acordos com fornecedores da área. "O apoio
da Sentimental Filmes (produtora de publicidade) foi decisivo. Eles
nos emprestaram objetos de cena, equipamentos e prestígio, pois nos
abriram portas e ajudaram em várias negociações", explica Matias.
"Além disso, nossa equipe é reduzida e bem integrada. A fórmula se
assemelha ao cinema argentino, mas com um toque brasileiro."
HISTÓRIA DA BUSCA
Em projetos como este, a criatividade da equipe é decisiva. "Eu
tinha só R$ 20 mil para criar todos os ambientes. Fui garimpando
objetos em brechós, houve quem trouxesse de casa, emprestei das
Casas André Luiz. De tudo um pouco", explica Guta Carvalho. "Esta
falta de recursos se adaptou ao formato do filme e, para dizer a
verdade, acabou nos dando mais liberdade. Fazemos por paixão. Muitos
entram como produtores associados e podem receber sua parte caso o
filme dê lucro", explica Dhalia.
Outra solução foi o elenco, garimpado por Dhalia e pelo produtor
Chico Accioly. Além de novos talentos, nomes como Silvia Lourenço,
Leonardo Medeiros, Flavio Bauraqui, Alice Braga e Milhem Cortaz
estão na lista. Mas o nome forte é mesmo o de Selton Mello. "Ele
dialoga com todo tipo de público e tem a verve humorística
necessária para o filme", comenta Teixeira. "Ao contrário de Nina,
um filme mais denso e hermético, O Cheiro tem humor. O roteiro do
Marçal Aquino é ácido, sarcástico, irônico. É uma crítica ao
universo pop a que estamos submetidos. Mas o faz em uma narrativa
bem próxima de nós", comenta Dhalia. "Na verdade, como diz
Mutarelli, O Cheiro do Ralo é a história da busca e todas as
conseqüências que ela traz. Tudo isso permeado pela metáfora do
ralo, que traduz o mal-estar. Tudo que está errado para o
protagonista é culpa do cheiro do ralo."
Selton concorda. "O Lourenço é desprezível, mas você acaba
entendendo seus porquês e se torna impossível não gostar dele.
Costumo dizer que esse filme é meu Taxi Driver por causa do processo
de enlouquecimento dele", explica o ator que, para entrar no
universo do personagem, 'decorou' a parede de seu camarim com várias
frases e pensamentos que permeiam o livro, como O poder é
afrodisíaco. "Sou chamado no set de 'o chato do livro' porque tudo
que sai muito da história eu aponto." Enquanto diz isso, Selton tem
o juiz perfeito para dizer se sua fidelidade se comprova. É o
próprio Lourenço Mutarelli que acompanha a entrevista enquanto
aguarda a hora de voltar ao set. E o autor não está ali para
fiscalizar. "Selton faz isso por mim", brinca ele, que ganhou o
papel de segurança da loja do personagem de Selton (não por acaso
batizado de Lourenço). "Lourenço, o personagem, é o único que tem
nome no filme. Todos os outros são anônimos, a Noiva, a Mulher
Casada, a Garçonete, o Homem do Relógio, o Encanador. Tudo isso
porque, assim como os objetos que compra dessas pessoas, Lourenço
também as coisifica", informa Dhalia. O outro Lourenço, o Mutarelli,
é mais um desses anônimos. Vestido dos pés à cabeça de vinho, ele é
O Segurança da obsoleta e decadente loja. "Está surpreendendo. Não é
que o cara é bom ator?", brinca o diretor, que já havia trabalhado
com o desenhista em Nina. "Esse filme, que quase engavetamos, ganhou
uma força que nunca imaginei. Devo muito ao Chico Accioly , que me
convenceu a ir em frente. Assim como os patrocinadores, que travam
só de ler o título, quem tiver estômago para ultrapassar 'o cheiro',
vai se surpreender", aposta Dhalia.