CADERNO 2

O ESTADO DE S.PAULO

 

Domingo, 6 de Novembro de 2005

A única narrativa possível para o nosso faroeste
Autor promove jogo de espelhos nos rincões de um certo Brasil

Luiz Ruffato Especial para o Estado

Há tempos, Marçal Aquino vem flertando com a construção de uma grande história de amor - a possibilidade se apresenta em diversos de seus contos - e é isso o que nos oferece em seu novo livro, Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios. Mas quem acompanha a trajetória do autor sabe que de sua imaginação nunca brotaria uma lovestória, aquela cujas provações emulam uma fábula moralizante ou antecipam um futuro estável de preservação de valores. Quem o conhece está acostumado às suas investigações a respeito do caráter humano, aos seus processos de laceração das feridas que corroem a alma, à sua profunda desconfiança em relação à Verdade como conhecimento em si - grande autor que é, percebe quão pouco nítidos são os limites de conceitos como bem e mal, certo e errado, amor e ódio.

Narrado em primeira pessoa - à exceção do segundo capítulo, em terceira -, o livro é a história da paixão avassaladora de Cauby por Lavínia, numa dessas cidades do interior do Pará que nascem do dia para a noite em função da exploração de ouro. Cauby, 40 anos, é um fotógrafo paulista, relativamente bem sucedido, filho de um repórter fotográfico esportivo e de uma descendente de barões do café arruinados. Entediado, ganha uma bolsa para retratar o submundo do garimpo. Lavínia, 24 anos, cujos olhos "tinham antiguidade e abismos", é uma ex-menina de rua, ex-prostituta, ex-drogada, casada com um pastor evangélico, Ernani, viúvo, ex-executivo, que pensa ter encontrado na religião a salvação de sua alma. O que em outras mãos poderia render o clássico triângulo amoroso, nas páginas de Aquino transforma-se em um calvário de culpas. A desagregação do núcleo familiar é uma tônica nas suas narrativas. Transbordam de seus livros personagens desgraçados pela incompatibilidade de viver a dois ou de manter vínculos afetivos de laços sanguíneos - são as famílias terrivelmente felizes. Em Eu Receberia..., Cauby, adolescente, apanha do pai por manter, sem saber, uma relação com a amante desse. "Gente neurótica e infeliz, (...) que nunca poderia ter se encontrado na vida", seus pais não se entendem - a reconciliação de Cauby com eles só ocorrerá anos depois, quando não adianta mais, ao descobrir que o pai fotografara a mãe nas diversas etapas de sua vida, entrevendo, em meio à infelicidade, um talvez resquício de amor.

Lavínia, filha de uma relação fortuita da mãe alcoólatra, amontoava-se em um barraco em Linhares (ES) com os irmãos, que, drogados, tornam-se assaltantes. Estuprada pelo padrasto, foge e perambula às cegas por Guarapari e Vitória, onde acaba amante de um playboy. Abandonada, volta às ruas, prostituindo-se para adquirir drogas, até conhecer Ernani, que se casa com ela, muda-se para São Paulo e depois para o interior do Pará. Lavínia nunca mais procurou o que restava de sua família, "não gostava deles a ponto de sentir saudades".

Também é recorrente na ficção de Aquino a imagem da cabeça a prêmio. Quase todos os personagens têm percepção de que sua existência incomoda a sociedade. A paixão proibida de Cauby e Lavínia coloca-os como alvo prioritário, mas também trafegam no limite. Chang, dono de uma loja de material fotográfico, agiota e pedófilo; Viktor Laurence, jornalista assexuado, dono de um semanário mantido pelas mineradoras; Chico Chagas, matador; os garimpeiros acossados pelos "seguranças" das mineradoras; e o próprio Ernani, por motivos que o leitor descobrirá nas páginas do livro.

O invasor, o personagem que saindo de seu universo desequilibra a frágil ordem estabelecida, é aqui também muito bem representado. Cauby, o "forasteiro charmoso", é culto, dono de uma pequena biblioteca, amante da música clássica, um "civilizado" em meio à "barbárie". Mas também o pastor Ernani, que busca levar a palavra da salvação, a ética da religião, às ovelhas desgarradas em um mundo sem crença; o investigador Polozzi, que tenta assumir a lógica policial num lugar onde detém o poder quem tem o dinheiro; e Lavínia, pela liberdade com que desfila a beleza e juventude pelas ruas da cidade. Todos eles invasores.

É curioso como Aquino trabalha com a imagem do duplo, espelhos que se reproduzem infinitamente. Cauby aceita fazer cartões pornográficos de prostitutas para ganhar dinheiro - um trabalho que conscientemente repele, pois seu interesse, digamos, seria pela "fotografia artística". O contraponto é seu pai, que com as fotos de futebol teria se deixado prostituir, segundo a concepção do filho, mas que tem sua dignidade resgatada com a descoberta das fotos de nu artístico da mãe. Esse espelhamento se dá também com Chang, fotógrafo amador que faz retratos de gente assassinada para constituição de inquéritos policiais, trabalho no qual seria substituído por Cauby, após sua morte brutal. A obsessão pela fotografia acomete Lavínia, por si só espelho de si mesma, devorada por um transtorno de personalidade que a divide em duas: uma, recatada e depressiva, outra, tresloucada e maníaca. À segunda, Cauby nomeará Shirley, libertina e doidivanas; à primeira, nomearão Lúcia, desmemoriada e afundada na auto-alienação.

Outro espelhamento ocorre entre as histórias, rigorosamente idênticas, de Cauby e Altino. O "careca" Altino sustentou um amor louco e casto por uma colega do Banco do Brasil, Marinês - quando, jovem, ela não correspondia à sua paixão, mas a alimentava. Ele viveu das migalhas de sentimento até que a morte do noivo, pouco antes do casamento, corrói a razão de sua Dulcinéia. Levada pela mãe, volta àquela pequena cidade do interior do Pará, acompanhada por Altino, que abre mão de tudo apenas para cuidar dela, vivendo dela e para ela. As histórias de Cauby e Altino nos sugerem o perigo que é mexer com o amor e outros objetos pontiagudos. Ainda dentro da perspectiva da especularidade poderíamos lembrar o ficcional "filósofo do amor", Benjamin Schianberg, cujo livro O Que Vemos no Mundo pontua e comenta a narrativa, com tiradas ora cínicas, ora autocomplacentes, mas sempre visando uma estranhíssima auto-ajuda, com frases como "nenhuma vida está completa sem um grande desastre"...

Marçal Aquino pode ser considerado o continuador e renovador mais identificado com a obra de Rubem Fonseca, responsável pela modernização da narrativa brasileira. Mas, enquanto Fonseca problematizou a cidade em seus contos e romances, Aquino pretende mostrar como o crescimento desordenado ultrapassou os limites urbanos e ganhou os rincões - com suas frases e diálogos curtos e certeiros, sua auto-ironia, sua absoluta falta de complacência, única narrativa possível, talvez, para contar a nossa conquista do oeste, os nossos faroestes.

Luiz Ruffato é escritor, autor de Mamma, son tanto Felice e O Mundo Inimigo

 

webmaster: MSchumann                             Site oficial de Marçal Aquino -  contato

Hosted by www.Geocities.ws

1