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27 novembro de 2004
NOTÍCIAS
Entrevista com Marçal Aquino
O roteirista do filme brasileiro Nina fala sobre o trabalho baseado no livro
de Dostoievski.
O filme Nina é uma livre adaptação do livro Crime e Castigo, escrito pelo
autor russo Fiodor Dostoievski. Marçal Aquino, de 46 anos, foi o
responsável pelo roteiro do longa e conta ao Guia da Semana o processo de
criação e realocação do personagem. O jornalista e escritor também trabalhou em
produções como O Invasor, Ação Entre Amigos e Os Matadores. Ambientado no Centro
velho de São Paulo em tempos atuais, o longa revela a história de uma jovem que
vive sob constante pressão e um dia explode em atitudes inconseqüentes.
Guia da Semana: Como surgiu a idéia de fazer o filme e adaptar livremente
a obra de Dostoievski?
Marçal Aquino: Em 2000, o Heitor Dhalia (diretor do filme) me propôs
fazermos o roteiro - ele tinha em mente o livro Crime e Castigo e a atriz
Guta Stresser, que na época fazia a peça Mais Perto. Aceitei porque,
desde o início, a proposta era fazer uma abordagem livre da obra do Dostoievski.
O que o Heitor pretendia, muito mais do que reproduzir a trama, era captar
aquela atmosfera de terror e culpa sem possibilidade de expiação que há no
livro.
Como é o seu processo criativo?
Marçal Aquino: Em geral, o trabalho de escrita do roteiro é precedido de
muitas conversas com o diretor, com a intenção de entender que filme ele está
enxergando no texto literário. A partir daí, o que procuro fazer é fornecer por
escrito as condições para que ele consiga realizar aquilo visualmente. O roteiro
é sempre um ponto de partida para algo coletivo, que será transformado ao longo
da produção.
Como foi trabalhar para esse filme específico?
Marçal Aquino: Nina foi a oportunidade de trabalhar pela primeira vez com
um texto de outro autor - e que autor! Até então eu tinha apenas adaptado textos
originais de minha autoria. Foi um processo muito rico, porque primeiro eu e o
Heitor escrevemos um tratamento absolutamente autônomo em relação ao livro -
imagine: tínhamos de cara trocado o sexo do personagem principal. Com o passar
do tempo, nas novas versões que foram sendo escritas, o roteiro se aproximou
mais do livro.
Você opinou na escolha do elenco?
Marçal Aquino: Tenho o privilégio de trabalhar com diretores muito
democráticos, que compartilham suas escolhas e idéias. No caso do Nina, o
Heitor me pediu várias vezes opiniões sobre o elenco.
A crítica internacional premiou e elogiou o filme. Mas aqui no Brasil tem
gerado certa polêmica entre os que gostam, os que não gostam e os que
simplesmente "não entendem". O filme é um ensaio introspectivo sobre
personalidade, culpa, "inferno da dúvida" e redenção, temas comuns na obra de
Dostoievski? Marçal Aquino: Acho que o filme cumpriu aquilo que o
Heitor queria desde o início: traduzir em imagens a atmosfera do livro, muito
mais do que se prender à narrativa em si. É um filme muito pessoal e, de certa
maneira, na contramão temática do cinema que está sendo feito por aqui neste
momento. É uma obra densa, cuja fruição exige um pouco mais do que os
espectadores estão dispostos a dar neste momento de predomínio de um certo
cinema "fast-food". Acho Nina um filme muito importante e uma belíssima
estréia do Heitor.
Você tem uma ligação muito forte com o cotidiano urbano. Você descreve muito
bem a São Paulo contemporânea. Qual o segredo?
Acredito que minha passagem pela reportagem policial marca muito o que escrevo.
Esse trabalho apenas aprimorou um lado meu, que é o de gostar de observar os
tipos e situações do cotidiano, e utilizá-los como ponto de partida para a
ficção. E, nesse sentido, São Paulo é uma cidade fantástica. Você tem sempre mil
histórias rolando ao seu lado. Basta estar de olhos e ouvidos atentos.
O que vem por aí? Quais seus novos projetos?
Marçal Aquino: Como prioridade, trabalho num romance chamado Eu
receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, que deve ser publicado
no ano que vem. Neste momento, o Beto Brant finaliza seu quarto longa, Crime
delicado, baseado num livro do Sérgio Sant´Anna. Um verdadeiro coletivo se
encarregou desse roteiro: eu, Beto, Marco Ricca, o diretor teatral Maurício
Paroni de Castro e o escritor Luís Francisco de Carvalho. Foi uma experiência
maravilhosa e acho que vem um filme surpreendente por aí. E em dezembro, eu
começo a trabalhar com o Karin Aïnouz (diretor de Madame Satã) na
adaptação da minha novela Cabeça a prêmio, que ele vai dirigir.
Confira
aqui a resenha do filme.
Foto de capa: Cesar Diniz
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