Entrevista - "Literatura é um exercício de paixão"
Marçal
Aquino - "Toda vez que tenho alguma idéia, penso: isso dá um conto.
Nunca penso: isso dá um filme"
(Carlos Herculano Lopes)
O paulista Marçal Aquino, hoje um dos mais
conhecidos escritores brasileiros da safra que começou a escrever e publicar no
final da década de 70 e início dos anos 80, está com dois novos livros na praça,
ambos pela editora Cosac & Naify, de São Paulo: o romance Cabeça
a Prêmio, e uma coletânea de contos, e Famílias Terrivelmente Felizes, no
qual reúne, além de cinco histórias inéditas, outras extraídas dos livros
As Fomes de Setembro, de 1991, com o qual venceu a Quinta Bienal Nestlé de
Literatura Brasileira, e Miss Danúbio, de 1994. Parceiro de Beto Brant em
filmes como Os Matadores, Ação Entre Amigos e O Invasor, todos feitos a partir
de textos seus, Marçal Aquino, atualmente, trabalha
em novos projetos cinematográficos: assina os roteiros de Nina, de Heitor
Dhalia, já em fase de finalização, e O Amor e Outros Objetos Pontiagudos, de
Beto Brant, este em fase de produção. O cinema ajuda muito no trânsito de
minha obra , diz o escritor, que seja nos seus contos, romances ou roteiros para
o cinema, tem tentado mostrar de maneira crua e nem sempre amena uma realidade
brasileira que, quase nunca, transita pelos caminhos oficiais.
ESTADO DE MINAS Como você vê o romance Cabeça
a Prêmio no conjunto de sua obra?
Marçal Aquino Cabeça a Prêmio tem um
significado especial para mim a partir de sua gênese. É que em 2001, quando eu
estava tentando retomar e concluir O Invasor (eu tinha escrito um terço do
livro em 97 e interrompi para transformá-lo em roteiro) e vivia um daqueles
momentos de insatisfação com o que estava escrevendo. Deixei o livro de lado e
naquele exato momento me surgiu a idéia de escrever sobre dois pistoleiros que
tocaiam um sujeito numa cidade não definida do interior paulista. Digo dessa
maneira porque meu método de trabalho é meio caótico, e eu nunca sei ao certo
o que vai acontecer. Vou descobrindo a história à medida que vou escrevendo.
Daí foram 54 dias ininterruptos, de mergulho total nessa história, período em
que saí o mínimo de casa e teve dias em que cheguei a trabalhar por mais de
dez horas seguidas. Foi desse mergulho que nasceu o livro. Então ele também
tem esse significado, de coisa urgente, que precisava ser escrita, que não
admitia controle ou um roteiro prévio. Um jato.
A abordagem da violência está muito presente em sua obra desde o início.
Mas agora o tema vem sendo tratado por vários escritores, sobretudo os
contemporâneos. Como você avalia isso. Tem existido uma certa moda?
MA Acho que, do ponto de vista comercial, as editoras têm se interessado de
uma maneira muito especial por relatos que enfocam a realidade. Daí a profusão
de títulos e abordagens, que vão desde a literatura do cárcere até
depoimentos romanceados. Mas o que me interessa nisso tudo, como leitor, é o viés
literário, que nem sempre encontro.
Como tem caminhado a sua parceria com o cineasta Beto Brant, já consolidada
em filmes como Matadores, Ação entre Amigos e O Invasor?
MA Trabalho com o Beto atualmente em dois roteiros. Um é O amor e Outros
Objetos Pontiagudos, que reúne cinco contos meus num roteiro de longa. O outro
é uma adaptação a quatro mãos do livro Um Crime Delicado, de Sérgio
Sant'Anna. São dois roteiros em andamento, com boas possibilidades de serem
rodados no ano que vem.
Ter obras adaptadas para o cinema ajudam a impulsionar a carreira do
escritor?
MA O cinema, inegavelmente, proporciona uma visibilidade muito maior. No meu
caso específico, tem ajudado no trânsito da minha literatura, seja junto a
editoras ou leitores. Enfim, tem sido boa minha relação com o cinema. Mas,
como afirmo sempre, a literatura é a minha casa, é onde me sinto à vontade, o
que me interessa mais. Todo o resto é acessório. Numa frase: eu sou um
escritor que escreve roteiros, nunca um roteirista que publica livros. É
simples: toda vez que tenho alguma idéia, penso: isso dá um conto, uma novela
etc. Nunca penso: isso dá um filme. Pra mim, essa é a medida do meu
envolvimento com a literatura.
Como surgiu esta sua idéia de escrever sobre o Brasil "profundo":
das fronteiras, dos traficantes e matadores de aluguel?
MA Costumo dizer que minha literatura vem da rua. É da realidade que vem a
fagulha que dispara minha imaginação. Então eu nunca paro muito para pensar
por que estou escrevendo sobre isso ou aquilo. É resultado de andanças e
inquietações diante daquilo que vejo.
Quais foram os autores que fizeram sua cabeça no
gênero da literatura policial. Os norte-americanos participaram deste processo?
MA No Brasil, gosto do registro policial em um Mafra Carbonieri (escritor
que, infelizmente, poucos conhecem), um Luiz Alfredo Garcia-Roza e, claro, do
Rubem Fonseca. Entre os estrangeiros, adoro a dupla Jim Thompson e Raymond
Chandler, entre os antigos, e James Ellroy.
Marçal Aquino, hoje, já conseguiu vencer a
barreira do jornalismo e da publicidade para viver só de literatura?
MA Imagine! Continuo pagando minhas contas com o trabalho de redator
free-lancer. Nem tenho ilusão de viver de literatura ou cinema. Pra mim, em
especial a literatura, é um exercício de paixão. E paixões, como você sabe,
nunca pagam as contas no fim do mês. Digo que trabalho pra comprar meu tempo
pra literatura, pra financiar meu sonho, que é escrever.
Em Famílias Terrivelmente Felizes você retorna ao conto, com alguns já
publicados em livros anteriores e outros inéditos. O gênero recomeça a ocupar
o espaço merecido na literatura brasileira?
MA- Famílias é, de fato, uma antologia reunindo contos de meus dois
primeiros livros (As Fomes de Setembro, de 91, e Miss Danúbio, de 94), que
andavam fora de circulação há um bom tempo. A idéia partiu de Augusto Massi
e eu achei oportuna. Daí adicionei ao conjunto mais cinco contos inéditos e
assim nasceu o livro. Sabe que, ao contrário do que aconteceu nos anos 80 e na
metade da década seguinte, me parece que o conto voltou a merecer respeito dos
editores? Essa é a minha percepção deste momento, tendo em vista o número de
autores que tem publicado histórias curtas por aqui. |
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