|
Na mesma obra e mais ou menos na mesma época você escreveu a mesma história com duas linguagens diferentes: uma para livro e uma para o cinema. Como foi trabalhar com estas duas linguagens? Quais as semelhanças e diferenças?
Marçal - Literatura e roteiro são duas linguagens bem distintas. Costumo dizer que a literatura está para o roteiro assim como o erotismo está para a pornografia. Ou seja: enquanto a literatura, para mim, é o território da concisão, da alusão e de uma linguagem muito específica, o roteiro é a peça explicativa por natureza. Informativa. Uma amiga me disse uma vez que o bom roteiro informa até mesmo o peso do personagem (assim, o ator escalado pode até considerar uma temporada no spa antes das filmagens). O roteiro
"informa" a ação e os diálogos que vão acontecer durante um filme, sem nenhuma preocupação literária em seu enunciado. Outra diferença básica: o texto literário é produto de um trabalho solitário, e vai estar pronto no momento em que seu autor assim entender. O roteiro, mesmo quando é obra de um só autor, vai derivar necessariamente para um trabalho coletivo, e só vai se realizar plenamente com a interferência do diretor, dos atores, do fotógrafo etc. No caso específico de O Invasor, tive muito trabalho para retomar a novela, que comecei a escrever em 97. Parei quando
existia um terço do texto e parti para o roteiro, com o Beto Brant e o Renato Ciasca. O resultado foi que resolvi no roteiro todas as questões que ainda estavam pendentes na narrativa literária. Perdeu a graça. Eu cheguei a me desligar emocionalmente da novela - achei que nunca ia publicá-la. Estimulado pelo Beto, retomei o texto. E foi muito difícil. A novela tem muitas diferenças em relação ao roteiro (até nomes de personagens) e o roteiro tem muitas diferenças em relação ao filme (falas modificadas, cenas não previstas etc). Foi por isso que achei que valia a pena publicar o livro
juntamente com o roteiro. Acho que dá uma boa idéia do que é o processo de adaptação de um livro pro cinema.
O Invasor traz alguns personagens conhecidos de sua obra, como o próprio matador, o amigo que não é de confiança e a prostituta. Algum motivo para a preferência por estes personagens? Você não teme ser acusado de repetitivo?
Marçal - Um escritor é sempre feito de suas obsessões, já se disse. Não sei muito bem porque escrevo o que escrevo. O fato é que são esses personagens que atraem o meu olhar. Daí o que me move é o desejo de investigar do que são feitos, no que diz respeito ao seu lado humano. Eu sou um escritor que dá muita atenção às ruas. É ali, eu acho, que nasce a minha ficção, que não passa de um trabalho de criar biografias imaginárias para personagens que, de relance, vejo no cotidiano. Não, não tenho medo de ser acusado de repetição. Até porque o matador, a prostituta e o
amigo desleal são apenas uma das facetas do que escrevo. Talvez sejam os mais marcantes, mas certamente minhas histórias também se ocupam de outros abismos. É só conferir.
Ainda outro dia, ouvi de você uma frase, de Hemingway. Você disse: "Jornalismo é uma ótima profissão, desde que abandonada a tempo". Você passou pelo jornalismo? Hoje, concilia a atividade de escritor com alguma outra?
Marçal - A boutade do Hemingway é ótima. Mas eu não tenho, nem tive, problema nenhum com o jornalismo. Na verdade, sobrevivo hoje em dia do jornalismo ainda - não vivo de literatura. Há doze anos sou free-lancer e escrevo os mais diversos tipos de texto. O roteiro é apenas um deles. Penso que trabalho para financiar meu sonho, que é escrever. Sempre foi assim. Mesmo na época em que trabalhava na imprensa diária. Tive uma passagem pela extinta Gazeta Esportiva e pelo Estadão e Jornal da Tarde. Fui um pouco de tudo: revisor, repórter, redator e subeditor. Saí em 90. Acho que o
jornalismo ajudou a tornar mais conciso o meu texto - essa é uma característica evidente da minha literatura. Por outro lado, meu trabalho como repórter "treinou" meu olhar para o dia-a-dia, coisa que até hoje é fundamental na minha vida como escritor.
Como a idéia de O Invasor lhe surgiu? Imagino que o que tenha vindo primeiro tenha sido o núcleo do drama: um matador contratado que decide, até por um pouco de carência, ter uma presença maior do que o combinado na vida daqueles que o contrataram. Fale a respeito.
Marçal - O Invasor, você tem razão, nasceu como trama primeiro. Me chegou com nome já. Isso porque eu sabia que havia um cara que "encostava" em dois engenheiros que o haviam contratado para matar o sócio. O resto eu não sabia. Fui descobrindo à medida que escrevia. Havia uma preocupação (seguida à risca na novela e no filme): eu queria uma história que falasse de valores (ou da falta deles) como ética, lealdade etc. nas relações contemporâneas. Sabia que seria uma história violenta - e minha ambição foi escrever uma trama em que não há um só tiro, você
reparou? Eu queria que essa violência ficasse "fora do quadro", que fosse apenas aludida ou relatada. Não acredito na violência explicitada de forma gráfica (nem nos livros, nem no cinema). Acho que a violência se torna ainda mais tenebrosa quando o que acontece é imaginado por quem lê ou assiste.
Qual é o seu método? Quando você escreve, já tem a história mais ou menos pronta na cabeça ou, como Fernando Sabino, "escrevo justamente para descobrir o que ainda não sei"? Em relação aos seus textos para cinema, o processo é parecido?
Marçal - Em geral, sei muito pouco sobre as histórias e os personagens quando vou escrever. É a grande mágica, a meu ver. Vou descobrindo à medida que escrevo. (Um parênteses: em O Invasor tive dificuldade também por isso; eu sabia muito da história.) Mas, tanto nos contos como nos textos mais longos, eu vou "me contando" a história. Repito: é o grande momento mágico do fazer literatura. Você tem de se convencer com a história que está sendo contada. Nos roteiros, o processo é diferente. Como se trata de adaptação literária, temos um ponto de partida
muito bem definido e o trabalho é passar a história para a linguagem do roteiro. O que não impede, obviamente, mudanças de toda espécie. Afinal, é uma adaptação para outra linguagem.
Para terminar, gostaria que você dissesse algumas palavras sobre a criatividade do escritor. Como é para você esta atividade? É mais transpiração do que inspiração? Qual a sua musa inspiradora?
Marçal - Minha ambição é sempre contar uma boa história. Linguagem nem é uma coisa que me preocupa muito, embora eu a considere quando escrevo. Eu não sei de onde vêm essas histórias. Imagino que a rua tem muito a ver com isso: um gesto, um fato, um certo jeito de falar. Essas coisas vão se acumulando até que, de repente, há um estalo que faz tudo isso emergir no texto literário. Não sei se dá pra chamar isso de inspiração. O fato é que, em qualquer circunstância, escrever é muita transpiração. Sempre. O que o escritor precisa examinar sempre são suas
motivações, o que o leva pra diante do computador ou para a página em branco. Há algumas coisas às quais a gente é fiel. No meu caso, é esse desejo de contar uma história que vale a pena ser compartilhada. Nada mais.
Fonte: Geração Editorial
|