Marçal Aquino retorna às prateleiras em dois títulos
Maria Eduarda Antunes
Da equipe do DIARIO
24.08.2003
Durante exatamente 54 dias, o escritor Marçal Aquino se
isolou do mundo para mergulhar fundo na história de Cabeça a Prêmio, obra
lançada recentemente pela Cosac & Naify, junto a Famílias Terrivelmente
Felizes. Neste processo de criação, houve um fluir constante de idéias e,
assim, arrebatado pela força com a qual os personagens se fizeram presentes
em sua cabeça, a urgência em escrever logo ficou evidente.
Tudo isso ocorreu em 2001, enquanto Aquino tentava concluir O
Invasor, cuja primeira parte ficou pronta em 1997 e foi transformada em
roteiro de cinema. Sem nenhum esquema previamente definido, ele construiu uma
história temporalmente desestruturada, com cortes na narrativa e linguagem
concisa. "É uma novela policial, com algo mais", define.
Na trama, o elemento recorrente no trabalho de Aquino - a violência
(baseado na obra dele, também, surgiu o filme Os Matadores, de Beto Brant)
aparece junto a romances, já anunciando o novo território no qual está
entrando. Assim, o livro apresenta narrativas paralelas: dois pistoleiros estão
a serviço dos irmãos Menezes, poderosos traficantes de drogas. Eles têm a
missão de matar o piloto Dênis, ex-empregado dos traficantes, que fugiu
levando Elaine, filha de um dos chefes, e um carregamento de cocaína. A paixão
do casal é marcada por uma forte carga sexual. Com isso, as histórias vão e
voltam, impregnadas de suspense.
Ao ser indagado se há planos de adaptar Cabeça a Prêmio ao
cinema, o autor responde positivamente, apesar de não existir, ainda, nenhuma
proposta concreta. Sem querer falar sobre especulações, lembra: "Beto
Brant disse que daria um belíssimo filme. Quem sou eu para discordar
dele?"
Dividindo o tempo, atualmente, com as atividades de jornalista
free lancer, ele considera que a profissão o ajudou a treinar o olhar e
adquirir maior clareza no texto. Assim, coloca nos livros a realidade
encontrada nas ruas e, dessa forma, a violência entra como elemento natural.
Mesmo afastado, hoje, das redações, Aquino se vê como um repórter buscando
notícias sobre as pessoas.
Já no outro título, Famílias Terrivelmente Felizes, estão
reunidos 21 contos, sendo 16 retirados dos dois primeiros livros As Fomes de
Setembro (1991) e Miss Danúbio (1994), hoje esgotados. "Fiz uma revisão,
mas não alterei muita coisa", esclarece. Voltando a essas criações, o
autor pôde fazer uma avaliação da própria trajetória. Assim, percebeu a
definição clara de um território ficcional e o endurecimento da prosa feita
por ele. "O trabalho está mais limpo, quase minimalista. Eu sempre
persigo isso em minha escrita", analisa.
Aquino encara os dois lançamentos como a conclusão de um ciclo.
Agora, inicia uma nova fase, na qual o amor será o centro das atenções.
Dessa forma, está voltado à elaboração do romance Eu Receberia as Piores
Notícias de seus Lindos Lábios. Além disso, dedica-se ao roteiro Um Crime
Delicado, com Beto Brant. O trabalho é baseado na obra de Sérgio Santana e
ainda não tem previsão para o início das filmagens.