Entrevista a Luiz Vita/Cineweb
Ao contrário de muitos jornalistas que acabam se tornando escritores, Marçal Aquino fez o caminho inverso ao descobrir que precisava ser jornalista para conseguir se dedicar à literatura. Do jornalismo tirou não só o sustento como afiou as ferramentas que usaria para burilar as palavras dos nove livros que escreveu até agora. Vencedor da Bienal Nestlé de Literatura, em 1991, com As Fomes de Setembro, e do prêmio Jabuti, em 1999, com O Amor e Outros Objetos Pontiagudos, Marçal lança agora O Invasor, inspirado no filme homônimo de Beto Brant. Sim, porque o livro
foi escrito depois do filme ficar pronto. Em entrevista exclusiva, o escritor falou sobre sua carreira literária e a criativa parceria com o diretor Beto Brant, que transformou em imagens três de suas melhores histórias.
Cineweb - Você chegou a um ponto em que muitos jornalistas sonham chegar: virou escritor, ganhou prêmios, agora escreve roteiros de cinema. Como foi a passagem do jornalismo para
a literatura?
Marçal Aquino - Para mim essa passagem foi muito tranqüila, porque antes de me tornar jornalista sempre quis ser escritor. Comigo não aconteceu o que é muito comum entre os jornalistas que, por lidar com a palavra o dia inteiro, começam a escrever ficção e um dia descobrem que querem ser escritores e acabam efetivamente publicando livros. No meu caso eu queria ser escritor desde o começo. Sabia que não era profissão, sabia que tinha de arrumar uma profissão para ganhar a vida e financiar o sonho, e por conta disso fui para o jornalismo. Fiz jornalismo sem nenhum conflito e
tenho prazer em fazer jornalismo. Mas houve um momento em que o dia-a-dia da redação ficou muito complicado. Achei que o jornal não estava dando a satisfação que dava antes, do ponto de vista financeiro e também profissional. Passei a trabalhar em casa como free lance e consegui mais tempo para me dedicar à literatura. Em dez anos publiquei nove livros. Eu trabalho basicamente para financiar o meu sonho, que é a literatura.
Cineweb - Um de seus livros mais conhecidos, Os Matadores, nasceu de uma reportagem, não foi?
Marçal - Foi sim. Eu tive uma experiência muito rica como repórter policial, que ocorreu num momento muito importante, onde convivi com repórteres como Percival de Souza, principalmente numa cidade como São Paulo onde mergulhar nesse mundo do crime é uma experiência muito rica. No caso de Os Matadores, eu fui a Ponta Porã para fazer um livro-reportagem sobre o assassinato da filha de um político da região de Garça. Inscrevi o projeto numa bolsa e fui para Ponta
Porã. No final o livro-reportagem acabou não saindo, a bolsa também não, mas de bom ficou o contato com o
mundo dos pistoleiros de aluguel. Achei que aquele universo era extremamente rico para ser abordado pela literatura. Em 1991 fui para a cidade de Santa Rita, no interior da Paraíba, que se gaba de produzir os melhores pistoleiros do Brasil. Isso é até muito engraçado. E foi na Paraíba que escrevi Os Matadores. Era uma novela que acabei publicando como um conto. Outros textos que também escrevi surgiram de observação jornalística. Eu sempre digo que a minha literatura vem da rua, do cotidiano. Por isso o jornalismo foi muito importante para mim. Ajudou a tornar meu texto mais
enxuto, sem grande rebuscamento de linguagem. E essa é uma pedra de toque do jornalismo. Uma segunda coisa também importante foi a oportunidade de treinar o olhar, o olhar do repórter. Eu sempre estou muito atento ao que acontece ao meu redor.
Cineweb - Essa observação do dia-a-dia está muito calcada
no trabalho policial. Você não teme ser rotulado de
escritor policial?
Marçal - Já me chamam de escritor policial, mas eu não tenho medo. Tenho muita consciência do que faço em literatura, do tipo de universo que exploro. Na verdade, os meus livros têm histórias criminais. Mesmo em Faroestes, onde fica mais evidente a postura de fazer histórias policiais, você vai encontrar contos que não são desse gênero. Na verdade são várias vertentes, tendendo mais para a história criminal, porque hoje esse é o retrato do Brasil. Se você vai abordar temas do cotidiano é impossível deixar de tocar em temas como polícia e violência. Mas minha
literatura vai além.
Cineweb - Como foi a sua passagem para o cinema?
Marçal - O cinema foi muito acidental na minha vida. E é uma coisa muito curiosa porque eu sempre gostei de cinema. Eu praticamente fui amamentado no cinema. Eu ia ao cinema ainda sem saber ler, lá no glorioso Cine Amparo. Tinha quatro cinemas na cidade. Esteticamente fui muito educado pelo cinema, tanto que quando a crítica diz que meu texto é cinematográfico está apontando numa direção e atirando na outra. Na verdade, isso é uma herança da minha educação estética, que teve no cinema um componente importante.
Cineweb - Como você conheceu Beto Brant? Como vocês são inseparáveis, parece até que jogavam bolinha de gude
na infância.
Marçal - É curioso. A primeira coisa que me ligou ao Beto foi essa possibilidade de um diálogo cinematográfico. Faço amizade com pessoas que gostam de cinema e literatura com uma facilidade extraordinária. Nós vamos ao cinema juntos, por exemplo. Essa convivência acabou me dando um aporte de informações que eu não tinha. Eu não sou um técnico em cinema. O Beto tem um instinto artístico que me deu elementos para entender melhor filmes de que gostava. A gente sai muito junto, gasta muito tempo conversando e pensando o mundo juntos. O Beto é um interlocutor artístico
interessantíssimo porque podemos falar de vida, do mundo, de arte como com poucas pessoas. Foram as afinidades que nos aproximaram. Já me perguntaram se um dia vou dirigir cinema e eu respondi que nunca. O Beto uma vez falou para mim que o único cara que ele ensinaria a dirigir seria eu. Eu disse: “Não precisa perder tempo com isso”. Nossa relação é de amizade. Nossas famílias se conhecem. Independente de eu trabalhar com ele, tenho uma grande admiração pelo trabalho dele. O cinema do Beto me interessaria mesmo que eu não estivesse trabalhando com ele. O Beto é um artista
inquieto.
Cineweb - Quando vocês iniciaram a parceria?
Marçal - O Beto se interessou pelo meu trabalho em 1991. Ele queria transformar um dos contos do Fomes de Setembro em curta-metragem. O filme acabou não rolando, mas mesmo assim descobri que a gente tinha um diálogo cinematográfico muito grande. Quando ele resolveu fazer o primeiro longa, me pediu um texto. Eu não tinha nenhuma novela, mas tinha Os Matadores que só iria publicar em 1994. Entreguei um original, ele se interessou pela história e contratou o Fernando Bonassi e o Vitor
Nava, esses sim roteiristas profissionais. Só que eles fizeram dois tratamentos do
roteiro que não satisfizeram ao Beto. Então ele me chamou e eu disse o que eu colocaria no texto se fosse a novela. E ele me disse que era isso que estava querendo. Aí coloquei tudo no papel e fiz um argumento pós-roteiro. O Bonassi e o Vitor deram mais uma mexida e, no final, o Beto me chamou e o roteiro foi todo reescrito. Nesse ponto, entrei no processo. Isso se repetiu no segundo filme, Ação Entre amigos, tanto que eu não queria trabalhar como roteirista. Entreguei de novo uma sinopse. Havia um longo argumento porque eu queria escrever um romance. Havia dez anos que estava
fazendo anotações, pesquisas. Mas na hora de escrever, entreguei tudo para o Beto. No segundo tratamento fui chamado para entrar em cena. Tanto que ninguém sabe que o Bonassi trabalhou no roteiro de Ação Entre Amigos. Não consta dos créditos porque ele pediu a retirada do nome dele. Na ocasião ele tinha discordâncias com procedimentos que adotamos no roteiro. Mais tarde vim a saber que ele havia visto o filme e gostara do trabalho, dizendo que havia trabalhado no roteiro. Fiquei muito feliz porque foi o reconhecimento de que o filme era bom. O Bonassi é muito íntegro. Ele
conversou comigo e disse que estava enganado. Ele achava que a gente estava fazendo um filme que ia servir à direita por falar de um ex-guerrilheiro rancoroso em busca de vingança. No Invasor foi um pouco mais tranqüilo porque eu não tinha a história inteira e partimos direto para o roteiro.
Cineweb - A partir do sucesso de seus roteiros você começou a ser procurado por diretores em busca de histórias inéditas?
Marçal - Algumas pessoas me procuram em busca de histórias inéditas. Tenho dois ou três contos que podem virar curtas-metragens. Há alguns diretores que gostam desse universo com o qual eu trabalho. Há uma diferença muito grande, do ponto de vista de mídia, entre cinema, literatura e qualquer outra coisa. Não sei bem o porquê, mas o cinema tem um glamour diferente. Eu sempre digo que fiquei 20 anos escrevendo literatura e na verdade o que chamou a atenção para a minha obra foi quando entrei para o cinema.
Cineweb - No caso de O Invasor, você retomou o livro depois que o filme estava pronto. Parece que esse processo de concluir a obra inacabada foi complicado.
Marçal - Foi dureza. Não quero nunca mais repetir essa experiência. Foi o livro mais difícil que escrevi na vida. O estímulo para escrever é eu não saber nada da história, ou saber muito pouco. Com Ação Entre Amigos eu tinha todas as anotações. Quando acabei o roteiro o Beto queria que o livro fosse publicado, mas eu não via razão. Para entender isso eu preciso falar um pouco do meu processo de criação. Eu nunca sei o que vai acontecer nas histórias. Ao contrário de alguns escritores que têm tudo
marcadinho, seguem um roteiro, eu me lanço no escuro, tenho
apenas algumas pistas da história. Decididamente eu não tenho idéia do que vai acontecer. Para mim, contar uma história significa propor biografias imaginárias para personagens. Se eu sei tudo sobre a história, perdeu a graça. Vira apenas um trabalho braçal e a magia da literatura desapareceu. No caso do Invasor eu sabia alguma coisa da história, que eram três sócios, que dois contratavam um matador de periferia e esse matador se imiscuía na vida desses personagens. Eu fui até um terço do livro. Tinha também um agravante, pois o livro era narrado na primeira pessoa por
um personagem que vai morrer. Mas na época eu não sabia disso e a prova é que eu estava escrevendo na primeira pessoa. Quando fizemos o roteiro, resolvi todas as pendências da trama e não vi mais razão para fazer o livro. Mas o Beto insistiu muito e eu voltei para o livro e vi que estava difícil. Avancei mais umas mil linhas mas sentia que estava carregando uma montanha. Isso se agravou quando vi o filme sendo feito, fui para o set, ouvi diálogos que havia escrito.
Cineweb - E como você resolveu esse impasse?
Marçal - Estruturalmente o livro é muito parecido com o filme, incluindo o final. As diferenças são sutilezas de nuance e de caráter de personagens. Procurei me manter o máximo possível fiel ao projeto inicial de 1997, até onde eu me lembrava dele. Na literatura quando você descreve um personagem você dá pistas para o leitor, indícios. Eu adoro isso. O que não está dito nos contos tem muita importância. Às vezes tem até mais importância. No roteiro, você tem de dizer tudo, até o peso do personagem. Aí perde um pouco a graça. Não sei se é uma visão romântica,
mas na verdade funciona assim para mim.
Cineweb - Como é seu processo de criação?
Marçal - Eu escrevo à mão, em cadernos. Vou anotando, rabiscando muito. Para mim o grande barato da literatura é esse, a magia de escrever à mão. Quando chega o momento de passar para o computador, já é texto final porque já mexi. Aí está o prazer, a cachaça pessoal.
Cineweb - Você tem um horário preferido para escrever?
Marçal - Não, não tenho. Antigamente, por compromissos de trabalho, só escrevia à noite. E era ótimo porque é um momento em que não toca o telefone. Eu coloco uma
musiquinha, jazz, música instrumental brasileira. Hoje disciplino os compromissos de trabalho em função da literatura. Chego inclusive a desligar o telefone. O que faz falta muitas vezes para o escritor é a possibilidade de ficar pensando e burilando o texto. É aquele ócio criativo. Sinceramente eu nunca acreditei nessa história de inspiração, não. Acredito em trabalho. É braçal, é transpiração mesmo.
É reescrever. Mas eu não reescrevo muito, porque na medida em que vou escrevendo à mão, vou deixando o texto pronto. Quando vou para o computador é praticamente só para fazer a revisão ortográfica. Não releio o que escrevo. Leio o máximo possível até publicar; a partir da publicação me desligo do livro. Hoje posso me considerar um privilegiado. Por outro lado, do ponto de vista material, não tenho grandes ambições. Meu grande barato é escrever meus livros. É a coisa que eu melhor sei fazer. Guiei minha vida para isso.
Cineweb - Qual o seu próximo livro?
Marçal - Escrevi mais uma novela policial, Cabeça a Prêmio, que vou publicar talvez no ano que vem. Não sei o que fazer com esse livro: ele já está contratado por uma editora, coisa que no meu caso nunca acontece, porque para cada livro que escrevo vou atrás de uma editora. Também estou escrevendo uma história - até contei para o Beto e o olho dele brilhou -, mas ela é
infilmável. É um romance de amor bastante inusitado, muito freak. Como eu não sei o que vai acontecer, nem sei como falar. Escrevi o primeiro capítulo, gostei e vou prosseguir. Posso eventualmente
parar esta novela e escrever um livro de contos. Vai depender das histórias que vão rolar. Procuro lidar com isso com absoluta liberdade. Não sou programático.
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