O
ano foi bom para ler e reler - Diário Catarinense -
22/12/2005
Foi um ano bom para a literatura. Bom para quem
gosta de ler, ótimo para os fãs de best-sellers,
melhor ainda para quem admira escritores de alto
nível. Basta lembrar que alguns dos maiores autores
em atividade lançaram trabalhos, clássicos foram
reeditados na íntegra, tradutores escolheram verter
o idioma original, fosse russo ou árabe. Os prêmios,
que se tornaram tradição, valorizaram o engajamento,
como comprova o reconhecimento do Nobel ao
dramaturgo inglês Harold Pinter. A seguir alguns dos
destaques do ano:
Biografias e anos 80
O ano em
que biografias de personagens importantes da cultura
nacional estiveram em foco - casos das cantoras
Cássia Eller, por Eduardo Belo e Ana Cláudia Landi,
pela Planeta, e Carmem Miranda, de Ruy Castro
(Companhia das Letras), e do escritor Carlinhos
Oliveira, biografado cinco vezes, em O homem na
varanda do Antonio's, Diário selvagem, Flanando em
Paris (todos pela Civilização Brasileira), O Rio é
assim, pela Agir, e O último avião para Vitória,
pela Contexto, foi também de lembrar a década de 80,
que rendeu memórias, estudos, almanaques e até um
jogo sobre o tema.
Instant Books
Outra
tendência foram os livros instantâneos, lançados por
várias editoras, em especial a Geração Editorial, em
torno de fatos recentes ligados à crise ética, ao
mensalão e seus personagens. O leitor pôde encontrar
nas livrarias análises dos principais
acontecimentos, mais detidas, como a cobertura dos
jornais não comporta.
Principais prêmios
Nélida
Piñon conquistou importante premiação brasileira e
uma internacional. Com seu romance Vozes do deserto
(Record), ganhou no Brasil o Jabuti de ficção e, na
Espanha, o Príncipe de Astúrias. O mesmo Jabuti, só
que em não-ficção, foi para Francisco Madia, por 50
mandamentos do marketing (M. Books).
Outra grande dama da literatura nacional, Lygia
Fagundes Telles, foi laureada com o Camões. O Nobel,
desta vez, foi para um inglês, Harold Pinter, por
sua obra dramatúrgica de alcance político e social.
O prêmio Portugal Telecom, que aos poucos se firma
como jovem tradição, foi para o gaúcho Amilcar
Bettega Barbosa, pelo volume de contos Os lados do
círculo (Companhia das Letras). E o Nestlé, hoje com
amplitude reduzida, premiou o mineiro Bartolomeu
Campos Queirós.
Estrelas vivas
O português
José Saramago tem produção intensa e, neste ano, não
foi diferente. Seu romance As intermitências da
morte, lançado no Brasil antes da Europa, deu o que
falar com sua greve da morte.
Polêmica não faltou a outro grande, Philip Roth,
cujo Complô contra a América chegou ao Brasil. A
idéia de mostrar os Estados Unidos governados por um
presidente pró-nazista sugeriu algo de Bush na
metáfora. Ele negou.
De John Updike chegou Busca meu rosto, história de
uma pintora. Ian McEwan lançou Sábado, sobre um
tumultuado dia na vida de um neurocirurgião. E Kazuo
Ishiguro escreveu sobre um orfanato de clones em Não
me abandone jamais. Todos saíram pela Companhia das
Letras.
Best-Sellers
Depois de O
código Da Vinci, em 2004, o inglês Dan Brown teve
mais três best-sellers nas listas: Anjos e demônios,
Fortaleza digital e Ponto de impacto, todos pela
Sextante. Na esteira do tema, uma enxurrada de
livros sobre o código, 'a verdadeira história',
'decifrando', 'saiba mais' etc. inundou as
livrarias.
Dois arrasa-quarteirões pontificaram: a sexta
aventura do bruxinho, em Harry Potter e o enigma do
príncipe, de J.K. Rowling; e O Zahir, nova investida
de Paulo Coelho, que teve lançamento mundial
simultâneo em diversos países e confirmou a escrita
do ex-parceiro de Raul Seixas: sucesso de público,
muxoxos da crítica. Os dois saíram pela Rocco.
Feiras
e salões
Os eventos
nacionais de livros e literatura comprovam que, cada
vez mais, agradam ao público consumidor - ainda que
nem sempre o estudioso saia satisfeito com o nível
dos eventos paralelos e que o livreiro nem sempre
venda o tanto que planejou. A Festa Literária
Internacional de Paraty (RJ) não é unanimidade entre
especialistas, mas em geral satisfaz o leitor.
Na mesma linha, que agrega o charme dos escritores
famosos ao gosto do público pela cidade e pelos
livros, Ouro Preto (MG) lançou neste ano o seu Fórum
das Letras. Rio e São Paulo mantiveram suas
homônimas Primaveras dos Livros, voltadas para
pequenas editoras.
Coleções e antologias
Não é de
hoje que as editoras investem em coleções e séries
de sucesso. A Coleção Negra (da Record) e a Série
Policial, da Companhia das Letras, sucesso ano após
ano, levam outras editoras, como A Girafa, a
investir no ramo, e com bom resultado. Os policiais,
por sinal, vão bem.
Destaques no ano foram os novos romances de
Marçal Aquino, Eu receberia as piores notícias
de seus lindos lábios, e Luiz Alfredo Garcia-Roza,
Berenice procura (ambos pela Companhia das Letras).
Outra coleção interessante reeditada pela Ediouro
foi a que contempla os melhores contos de vários
países, com seleção de Vinicius de Moraes e Rubem
Braga. A mesma editora investe nas antologias
organizadas por Flávio Moreira da Costa com seleção
de contos. Outra boa novidade foi a chegada do selo
Companhia de Bolso, que edita clássicos a preços
baixos.
Obras completas
O
centenário do poeta gaúcho Mário Quintana só será
celebrado no ano que vem, mas suas obras completas
já estão disponíveis para o leitor, numa edição
daquelas de luxo da Nova Aguilar, com capa dura e
papel bíblia. Outros nomes contemplados pela editora
foram o baiano João Ubaldo Ribeiro e o maranhense
Aluísio Azevedo.
Tempo de celebrar
Entre as
efemérides celebradas neste ano, e que permitiram
importantes reflexões, podem ser destacados o
centenário de nascimento de Erico Verissimo,
lembrado em exposições, feiras de livros e diversos
eventos. O filósofo francês Jean-Paul Sartre também
teve seu centenário festejado em reedições e
traduções de obras.
Os 400 anos da edição de Dom Quixote de la Mancha,
de Miguel de Cervantes, propiciaram eventos em
várias linguagens, como artes cênicas e plásticas,
além de debates. Os 200 anos de Hans Christian
Andersen renderam homenagens em forma de música,
teatro, ópera e estudos.