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Fonte: Carta Capital 20/08/2003 - http://cartacapital.terra.com.br/site/index_frame.php
O próximo trabalho de Aquino a vir à luz, provavelmente em 2004, deve ser o filme Nina, de Heitor Dhalia, no qual assina o roteiro, em parceria com o diretor. Adaptação de Crime e Castigo, de Dostoievski, leva a história passada em Moscou no século XIX para São Paulo no século XXI e transforma o protagonista Raskolnikov na moça Nina. Foi a primeira vez que escreveu um roteiro a partir da história de outro autor: – Não reli o livro na hora de adaptar. É aquela coisa felliniana: adaptar um livro é ler, jogar fora o livro e filmar o que ficou na sua cabeça. Foi delicioso. Em parceria com o cineasta Beto Brant, com quem trabalhou nos seus três longas-metragens (Os Matadores, Ação Entre Amigos e O Invasor), está produzindo outros dois roteiros. O primeiro é uma adaptação do romance Um Crime Delicado, de Sérgio Sant’Anna, que fala da relação obsessiva entre um crítico de teatro e uma mulher manca. O segundo é O Amor e Outros Objetos Pontiagudos, um roteiro construído a partir de cinco contos de Aquino, tendo como tema comum o amor. Não bastasse, Brant e Aquino também planejam adaptar Até o Dia em Que o Cão Morreu, novela do escritor gaúcho Daniel Galera, autor da novíssima geração. E em dupla com Heitor Dhalia, de Nina, o escritor já começou a escrever um novo roteiro, também uma adaptação, a partir de O Cheiro do Ralo, romance de estréia do cartunista Lourenço Mutarelli. Tamanha proximidade com o cinema levanta a suspeita de que o ofício de roteirista possa estar influenciando o ofício literário. O recém-lançado Cabeça a Prêmio é uma história que impressiona pelos diálogos enxutos, os cortes narrativos precisos e as ambientações visuais. É muito “cinematográfico”, enfim. Aquino rejeita a idéia. E explica seu método de produzir literatura: – Escrevo de uma forma muito caótica. Eu não sei a história. Entro na história porque sei um detalhe. E vou avançando. Eu descubro a história com o leitor. No momento em que o leitor descobre uma virada na minha história foi naquele momento em que ela me ocorreu. Não faço esquema, não faço escaleta, antes de escrever. Eu saio ao mar.
– Esse livro foi um surto. Fiquei 60 dias fechado aqui, enlouquecido pela história. E ela saiu desse jeito porque ela me veio desse jeito. Cabeça a Prêmio também chama a atenção por colocar em cena, novamente na obra de Aquino, matadores profissionais como protagonistas. A primeira vez foi no conto que acabou dando origem ao longa-metragem de estréia de Beto Brant. Jornalista de formação, Aquino conta que teve contato com matadores durante o período em que trabalhou na seção de polícia do Jornal da Tarde, em São Paulo, no fim dos anos 80. “Como a rua é a matriz da minha literatura, a reportagem policial foi fundamental para mim”, diz. Também conheceu pistoleiros ao viajar a Ponta Porã (MS) e à Paraíba para fazer pesquisa destinada a um livro-reportagem sobre o assunto. – Desisti do livro e acabei fazendo Matadores. Me fascinou muito aquele mundo estranho, aparentemente sem lei, mas com códigos muito rígidos. Aquela coisa das marcas, o pistoleiro vaidoso, que assina a morte… A mitologia desse universo me interessou. Ao voltar ao assunto no novo livro, Aquino julga – com razão – ter ido bem além de Matadores: – Não me incomoda ser tachado de escritor policial, mas acho que a minha literatura obviamente vai a outros lugares, visita outros abismos. No Cabeça a Prêmio, apesar da presença do pistoleiro de aluguel, me interessava muito mais contar uma história de amor. A história de amor desse pistoleiro com uma cafetina, ambos com comportamento à margem e problemas para falar de passado e presente. Dos seus tempos de repórter, Aquino conserva um traço fundamental, a curiosidade. “Eu sou um cara que adorava quando os telefones tinham linha cruzada”, diz. “Era capaz de ficar ouvindo uma conversa numa linha cruzada por horas.” Em todas as entrevistas que dá, o escritor sempre tem alguma boa história a contar sobre como a curiosidade o levou a descobrir coisas que depois inspiraram personagens ou histórias. – Eu entro no bar e tem dois marmanjos bebendo cerveja. Um olha para o outro e diz: “É, deve ser bem esquisito ser mulher”. Fiquei uns cinco minutos ali para ouvir o contexto em que aquela frase foi dita. Não consegui, mas guardei a frase. A sintaxe da rua é fundamental. Se estou lendo um livro, não há nada pior que um diálogo artificial. Vale para filme. Escritor realista, Aquino rejeita, porém, a idéia de que a literatura pode se limitar a tentar reproduzir a realidade. “A rua é uma fagulha que dispara a minha imaginação”, diz. Ressalta muito o “prazer da invenção”, o risco, a aventura que se corre ao escrever uma história, e sublinha que “qualquer que seja a abordagem, você tem que fazer movido por paixão”: – Eu sei que tem gente escrevendo para aparecer na tevê, eu sei que tem gente escrevendo para entrar na academia e eu sei que tem gente escrevendo – e conseguindo – para ganhar dinheiro. Maravilhoso. Tudo certo. Para mim, literatura é um experimento incerto. Aos 45 anos (“Isso não é idade, é calibre. Ou o último minuto”, brinca), casado, uma filha de 10 anos, Aquino nota, finalmente, que está sendo tratado não mais como um iniciante ou uma promessa. – O Sérgio Sant’Anna disse uma vez que a maravilha da literatura é que você publica dez livros e é tido como uma jovem promessa. Eu percebo hoje um interesse das pessoas na minha literatura. Mas não tenho a menor ilusão de que conseguiria isso só com os livros. O cinema é mais mundano e deu visibilidade à minha literatura. Eu não escreveria para cinema se eu não escrevesse livros antes. Que continue a escrever. Os leitores e espectadores agradecem.
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