Fonte: Carta Capital  20/08/2003 - http://cartacapital.terra.com.br/site/index_frame.php

 

UM ESCRITOR CRIADO NA RUA
Ajudado pelo cinema, Marçal Aquino finalmente deixa de ser “uma jovem promessa”.

Por Maurício Stycer

Ele não se considera um escritor policial, mas acaba de publicar um romance policial exemplar. Ele se considera um escritor que escreve roteiros, jamais um roteirista que publica livros, mas é hoje um dos melhores e mais requisitados roteiristas em atividade no cinema paulistano. Ele escreve à mão, em cadernos de capa dura, não tem a pretensão de viver de literatura, mas é uma das principais referências da geração de escritores que despontou na década de 90. Marçal Aquino é uma figura rara.
A editora Cosac & Naify, hoje uma das mais importantes do País, está dando tratamento de estrela a seu novo autor, de quem acaba de publicar, de forma simultânea, dois livros, Cabeça a Prêmio (192 págs., R$ 29) e Famílias Terrivelmente Felizes (232 págs., R$ 32).
A peça de resistência é o primeiro, uma novela policial na qual Aquino acompanha dois pistoleiros de aluguel, a serviço de chefões do tráfico de drogas, em diferentes tocaias, do Acre ao interior de São Paulo, passando por Rondônia e Mato Grosso.

Masao Goto Filho
Ativo.
Aos 45 anos (“Isso não é idade, é calibre”), divide-se entre roteiros e literatura
O segundo é a cereja do bolo e dá uma idéia do status do escritor. Trata-se de uma coletânea de contos, reunindo histórias publicadas em dois livros esgotados, As Fomes de Setembro (1991, Estação Liberdade) e Miss Danúbio (1994, Scritta), além de quatro textos inéditos.
O próximo trabalho de Aquino a vir à luz, provavelmente em 2004, deve ser o filme Nina, de Heitor Dhalia, no qual assina o roteiro, em parceria com o diretor. Adaptação de Crime e Castigo, de Dostoievski, leva a história passada em Moscou no século XIX para São Paulo no século XXI e transforma o protagonista Raskolnikov na moça Nina. Foi a primeira vez que escreveu um roteiro a partir da história de outro autor:
– Não reli o livro na hora de adaptar. É aquela coisa felliniana: adaptar um livro é ler, jogar fora o livro e filmar o que ficou na sua cabeça. Foi delicioso.
Em parceria com o cineasta Beto Brant, com quem trabalhou nos seus três longas-metragens (Os Matadores, Ação Entre Amigos e O Invasor), está produzindo outros dois roteiros. O primeiro é uma adaptação do romance Um Crime Delicado, de Sérgio Sant’Anna, que fala da relação obsessiva entre um crítico de teatro e uma mulher manca. O segundo é O Amor e Outros Objetos Pontiagudos, um roteiro construído a partir de cinco contos de Aquino, tendo como tema comum o amor.
Não bastasse, Brant e Aquino também planejam adaptar Até o Dia em Que o Cão Morreu, novela do escritor gaúcho Daniel Galera, autor da novíssima geração. E em dupla com Heitor Dhalia, de Nina, o escritor já começou a escrever um novo roteiro, também uma adaptação, a partir de O Cheiro do Ralo, romance de estréia do cartunista Lourenço Mutarelli.

Tamanha proximidade com o cinema levanta a suspeita de que o ofício de roteirista possa estar influenciando o ofício literário. O recém-lançado Cabeça a Prêmio é uma história que impressiona pelos diálogos enxutos, os cortes narrativos precisos e as ambientações visuais. É muito “cinematográfico”, enfim. Aquino rejeita a idéia. E explica seu método de produzir literatura:
– Escrevo de uma forma muito caótica. Eu não sei a história. Entro na história porque sei um detalhe. E vou avançando. Eu descubro a história com o leitor. No momento em que o leitor descobre uma virada na minha história foi naquele momento em que ela me ocorreu. Não faço esquema, não faço escaleta, antes de escrever. Eu saio ao mar.
AE
Moscou-SP.
Na adaptação de Crime e Castigo, Raskolnikov virou Nina (Guta Stresser)
Em relação especificamente a Cabeça a Prêmio, acrescenta:
– Esse livro foi um surto. Fiquei 60 dias fechado aqui, enlouquecido pela história. E ela saiu desse jeito porque ela me veio desse jeito.
Cabeça a Prêmio também chama a atenção por colocar em cena, novamente na obra de Aquino, matadores profissionais como protagonistas. A primeira vez foi no conto que acabou dando origem ao longa-metragem de estréia de Beto Brant.
Jornalista de formação, Aquino conta que teve contato com matadores durante o período em que trabalhou na seção de polícia do Jornal da Tarde, em São Paulo, no fim dos anos 80. “Como a rua é a matriz da minha literatura, a reportagem policial foi fundamental para mim”, diz. Também conheceu pistoleiros ao viajar a Ponta Porã (MS) e à Paraíba para fazer pesquisa destinada a um livro-reportagem sobre o assunto.
– Desisti do livro e acabei fazendo Matadores. Me fascinou muito aquele mundo estranho, aparentemente sem lei, mas com códigos muito rígidos. Aquela coisa das marcas, o pistoleiro vaidoso, que assina a morte… A mitologia desse universo me interessou.
Ao voltar ao assunto no novo livro, Aquino julga – com razão – ter ido bem além de Matadores:
– Não me incomoda ser tachado de escritor policial, mas acho que a minha literatura obviamente vai a outros lugares, visita outros abismos. No Cabeça a Prêmio, apesar da presença do pistoleiro de aluguel, me interessava muito mais contar uma história de amor. A história de amor desse pistoleiro com uma cafetina, ambos com comportamento à margem e problemas para falar de passado e presente.

Dos seus tempos de repórter, Aquino conserva um traço fundamental, a curiosidade. “Eu sou um cara que adorava quando os telefones tinham linha cruzada”, diz. “Era capaz de ficar ouvindo uma conversa numa linha cruzada por horas.” Em todas as entrevistas que dá, o escritor sempre tem alguma boa história a contar sobre como a curiosidade o levou a descobrir coisas que depois inspiraram personagens ou histórias.
– Eu entro no bar e tem dois marmanjos bebendo cerveja. Um olha para o outro e diz: “É, deve ser bem esquisito ser mulher”. Fiquei uns cinco minutos ali para ouvir o contexto em que aquela frase foi dita. Não consegui, mas guardei a frase. A sintaxe da rua é fundamental. Se estou lendo um livro, não há nada pior que um diálogo artificial. Vale para filme.
Escritor realista, Aquino rejeita, porém, a idéia de que a literatura pode se limitar a tentar reproduzir a realidade. “A rua é uma fagulha que dispara a minha imaginação”, diz. Ressalta muito o “prazer da invenção”, o risco, a aventura que se corre ao escrever uma história, e sublinha que “qualquer que seja a abordagem, você tem que fazer movido por paixão”:
– Eu sei que tem gente escrevendo para aparecer na tevê, eu sei que tem gente escrevendo para entrar na academia e eu sei que tem gente escrevendo – e conseguindo – para ganhar dinheiro. Maravilhoso. Tudo certo. Para mim, literatura é um experimento incerto.

Aos 45 anos (“Isso não é idade, é calibre. Ou o último minuto”, brinca), casado, uma filha de 10 anos, Aquino nota, finalmente, que está sendo tratado não mais como um iniciante ou uma promessa.
– O Sérgio Sant’Anna disse uma vez que a maravilha da literatura é que você publica dez livros e é tido como uma jovem promessa. Eu percebo hoje um interesse das pessoas na minha literatura. Mas não tenho a menor ilusão de que conseguiria isso só com os livros. O cinema é mais mundano e deu visibilidade à minha literatura. Eu não escreveria para cinema se eu não escrevesse livros antes.
Que continue a escrever. Os leitores e espectadores agradecem.

 

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