por Luiz Carlos Lucena
Ele é um dos mais interessantes contadores de histórias da literatura
brasileira contemporânea. Um escritor na verdadeira acepção da
palavra. Apesar de só ter lido o Cabeça a Prêmio, que acaba de sair
pela Cosaf & Naif, vi os três filmes do Beto Brant, onde ele é um
dos responsáveis pelos roteiros. E desde Os Matadores me impressionou
essa engenhosidade que Marçal Aquino tem para construir histórias que
prendem o leitor/espectador e que primam por finais desconcertantes. Aliás,
o cinema contemporâneo brasileiro deve muito de sua retomada à escrita
de Marçal e à direção de Beto Brant. Beto conseguiu mostrar como
trabalhar com atores e dá a devida importância ao roteiro
profissional.
Mas vamos falar de Cabeça à Prêmio. Minha primeira impressão ao ler
o livro foi agradável, mas trouxe um certo incômodo também. A construção
da narrativa é primorosa, Marçal consegue mover os personagens no
tempo e no espaço de forma a dar um timing excepcional na leitura, uma
vontade de prosseguir para saber o que vai acontecer. Cria situações
que se complementam, solta pequenos indícios que se resolvem mais
adiante.
O que incomoda no início é o texto direto, curto, lacônico, objetivo.
Marçal diz que essa é uma busca pessoal, como escritor. Então volto
aos escritores que de certa maneira influenciam esse seu projeto de
linguagem (nesses tempos modernos, tudo já foi criado, não vai surgir
mais nenhum Picasso, um Joyce. Tudo é a cópia sem original, pastiche.
O que importa é como fazer essa colagem). Daí entendo por que seu
texto a princípio incomoda.
O pulp e o hard boiled!
Nos últimos anos a crítica e os escritores no Brasil vêm dando importância
a esse gênero de literatura que marcou com força toda a produção
americana, e do mundo, talvez. Leio seu texto e lembro Chandler, Dashiel
Hammet. Mas o Chandler de Um Longo Adeus, que provavelmente Marçal leu,
é curto e grosso, mas tem uma emoção no texto que fascina. É adepto
à frase curta, ao texto direto, mas deixa a palavra correr também nas
suas descrições de personagens e ambientes. Aliás, Chandler
transforma o ambiente em personagem de seus livros.
Tomo esse livro como parâmetro porque, de todos desse autor, é aquele
em que ele mais se apaixona literalmente pelo personagem, criando quase
uma relação homoerótica entre este e Marlowe, seu detetive durão.
Então a paixão pelo personagem deixa o texto mais bonito, mais
emocionante, porque as palavras não carregam apenas a preocupação com
a leitura fácil, compreensível. Ele faz o mesmo em suas descrições
repetitivas dos ambientes fechados de Los Angeles, a cidade sem espaço
público, sem gente nas ruas – o quarto de hotel, o escritório, a
mansão estão sempre em seus livros.
Em uma carta que enviou a seu editor, que havia cortado um trecho de uma
descrição, Chandler explica isso: mais que a ação, é a descrição
que leva à ação e que “pega” nos leitores.
De outro lado, o texto curto, característica incorporada até mesmo
pelo jornal USA Today – O homem entrou na sala. Olhou para o elevador.
Andou até o corredor. Entrou. – ok, é facil de compreender, mas,
segundo os teóricos da crítica literária, impede o pensamento, corta
a possibilidade da reflexão.
Se o texto de Marçal Aquino tivesse um pouco mais de paixão pelos
personagens e pelos ambientes, talvez um pouco mais dele mesmo dentro do
que escreve, e não apenas essa visão muito distanciada, suas estórias
de narrativa excepcional talvez ganhassem um salto, além da qualidade
que elas têm hoje.
Mas, também, pode não ser nada disso que estamos falando, e como ele
mesmo disse, seu projeto é a concisão. Talvez esse seja seu
diferencial, então deve persegui-lo. Dalton Trevisan repete as mesmas
histórias sempre, cada vez mais reduzidas. Mas é o mestre da elipse,
da frase isolada que diz tudo, da construção lingüística. Não é o
caso de Marçal: suas frases quase nem usam ao menos o recurso da metáfora,
existem sozinhas, se complementam, formam um todo dentro dessa sua
capacidade fantástica de criar e desenvolver situações que se
complementam.
O texto, o texto e o texto, essa tem que ser a preocupação de qualquer
escritor. A linguagem. Marçal é um mestre nisso. Ao seu jeito. Mas...
De qualquer maneira, Cabeça à Prêmio deve ser lido, frase por frase.
Marçal consegue, de novo, recriar um mundo particular com seus
personagens marginais.
Luiz Carlos Lucena é escritor e jornalista.