MARÇAL COLOCA A CABEÇA A PRÊMIO

 20/8/03

por Luiz Carlos Lucena

Ele é um dos mais interessantes contadores de histórias da literatura brasileira contemporânea. Um escritor na verdadeira acepção da palavra. Apesar de só ter lido o Cabeça a Prêmio, que acaba de sair pela Cosaf & Naif, vi os três filmes do Beto Brant, onde ele é um dos responsáveis pelos roteiros. E desde Os Matadores me impressionou essa engenhosidade que Marçal Aquino tem para construir histórias que prendem o leitor/espectador e que primam por finais desconcertantes. Aliás, o cinema contemporâneo brasileiro deve muito de sua retomada à escrita de Marçal e à direção de Beto Brant. Beto conseguiu mostrar como trabalhar com atores e dá a devida importância ao roteiro profissional.
Mas vamos falar de Cabeça à Prêmio. Minha primeira impressão ao ler o livro foi agradável, mas trouxe um certo incômodo também. A construção da narrativa é primorosa, Marçal consegue mover os personagens no tempo e no espaço de forma a dar um timing excepcional na leitura, uma vontade de prosseguir para saber o que vai acontecer. Cria situações que se complementam, solta pequenos indícios que se resolvem mais adiante.
O que incomoda no início é o texto direto, curto, lacônico, objetivo. Marçal diz que essa é uma busca pessoal, como escritor. Então volto aos escritores que de certa maneira influenciam esse seu projeto de linguagem (nesses tempos modernos, tudo já foi criado, não vai surgir mais nenhum Picasso, um Joyce. Tudo é a cópia sem original, pastiche. O que importa é como fazer essa colagem). Daí entendo por que seu texto a princípio incomoda.
O pulp e o hard boiled!
Nos últimos anos a crítica e os escritores no Brasil vêm dando importância a esse gênero de literatura que marcou com força toda a produção americana, e do mundo, talvez. Leio seu texto e lembro Chandler, Dashiel Hammet. Mas o Chandler de Um Longo Adeus, que provavelmente Marçal leu, é curto e grosso, mas tem uma emoção no texto que fascina. É adepto à frase curta, ao texto direto, mas deixa a palavra correr também nas suas descrições de personagens e ambientes. Aliás, Chandler transforma o ambiente em personagem de seus livros.
Tomo esse livro como parâmetro porque, de todos desse autor, é aquele em que ele mais se apaixona literalmente pelo personagem, criando quase uma relação homoerótica entre este e Marlowe, seu detetive durão. Então a paixão pelo personagem deixa o texto mais bonito, mais emocionante, porque as palavras não carregam apenas a preocupação com a leitura fácil, compreensível. Ele faz o mesmo em suas descrições repetitivas dos ambientes fechados de Los Angeles, a cidade sem espaço público, sem gente nas ruas – o quarto de hotel, o escritório, a mansão estão sempre em seus livros.
Em uma carta que enviou a seu editor, que havia cortado um trecho de uma descrição, Chandler explica isso: mais que a ação, é a descrição que leva à ação e que “pega” nos leitores.
De outro lado, o texto curto, característica incorporada até mesmo pelo jornal USA Today – O homem entrou na sala. Olhou para o elevador. Andou até o corredor. Entrou. – ok, é facil de compreender, mas, segundo os teóricos da crítica literária, impede o pensamento, corta a possibilidade da reflexão.
Se o texto de Marçal Aquino tivesse um pouco mais de paixão pelos personagens e pelos ambientes, talvez um pouco mais dele mesmo dentro do que escreve, e não apenas essa visão muito distanciada, suas estórias de narrativa excepcional talvez ganhassem um salto, além da qualidade que elas têm hoje.
Mas, também, pode não ser nada disso que estamos falando, e como ele mesmo disse, seu projeto é a concisão. Talvez esse seja seu diferencial, então deve persegui-lo. Dalton Trevisan repete as mesmas histórias sempre, cada vez mais reduzidas. Mas é o mestre da elipse, da frase isolada que diz tudo, da construção lingüística. Não é o caso de Marçal: suas frases quase nem usam ao menos o recurso da metáfora, existem sozinhas, se complementam, formam um todo dentro dessa sua capacidade fantástica de criar e desenvolver situações que se complementam.
O texto, o texto e o texto, essa tem que ser a preocupação de qualquer escritor. A linguagem. Marçal é um mestre nisso. Ao seu jeito. Mas...
De qualquer maneira, Cabeça à Prêmio deve ser lido, frase por frase. Marçal consegue, de novo, recriar um mundo particular com seus personagens marginais.

Luiz Carlos Lucena é escritor e jornalista.
 

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