Marçal Aquino lança seu primeiro romance

 27/11/2005


Autor de “O invasor” lança “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios

Carlos Herculano Lopes
EM Cultura

Paulista de Amparo, há vários anos vivendo na capital, onde divide a literatura com alguns trabalhos como redator free-lancer e roteirista de cinema, Marçal Aquino é um desses escritores de extremos, das fronteiras geográficas e da alma. Autor de vários livros, entre eles O amor e outros objetos pontiagudos e Faroestes, seus personagens, ou pelo menos a maioria deles, andam na corda bamba, entre terríveis lutas internas e a batalha para a sobrevivência. “Gosto, às vezes, de me afastar do ambiente urbano e caótico para investigar outros territórios”, conta o escritor, que, para não fugir à regra, acaba de lançar o romance Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios (Companhia das Letras), cuja história se passa em uma cidade do Pará, convulsionada pela corrida do ouro. É ali que o fotógrafo Cauby, por esses intrincados caminhos do destino, acaba se envolvendo com a fascinante Lavínia, numa trama de aventuras, recheada pela inevitável luta entre garimpeiros e uma mineradora. “Estive, há alguns anos, no Pará, vi cidades se exaurindo e em plena ebulição”, conta Aquino, que memorizou tudo, para agora transformar em ficção.

Depois das novelas O invasor e Cabeça a prêmio você volta à ficção de maior fôlego e lança o romance Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios. Como foi o processo de criação do livro? Esteve nos locais onde se passa a história? De onde veio a idéia de escrevê-la?

De fato, considero este o meu primeiro romance, e com isso quero dizer que, até pela estrutura, O invasor e Cabeça a prêmio eram claramente novelas. O livro tem uma gênese curiosa. Primeiro, veio o título, em 2000. Achei intrigante e deixei anotado. Dois anos depois, comecei a escrever uma história que me pareceu adequar-se perfeitamente a ele. Minha ficção nasce na rua, na realidade ao meu redor, que é sempre a centelha, o ponto de partida para a imaginação. Foi assim que aconteceu também com este livro. Estive no interior do Pará, há alguns anos, vi cidades de garimpo exaurido e em plena ebulição. E aquela tensão ficou guardada comigo e apareceu agora como cenário. Tenho um método (ou falta de), que me leva a escrever sem conhecer muita coisa da trama ou dos personagens. ou "descobrindo" à medida que escrevo, e é isso que me proporciona o maior prazer. Nesse sentido, sou meu "primeiro" leitor, aquele que tem de ser seduzido pelo que está sendo escrito, aquele que, ao final, precisa ser convencido de que vale a pena compartilhar com outras pessoas aquela história. Então eu sabia pouco, muito pouco. E fui desvendando a coisa, num processo que levou três anos.

Você é um escritor de extremos: da alma e das fronteiras geográficas do país. Já escreveu sobre a fronteira Sul, e agora fala do Norte. Como tem sido essa empreitada?

Gosto de me afastar, às vezes, do ambiente urbano e caótico, para investigar outros territórios. E a fronteira é apaixonante, até porque me oferece uma metáfora geográfica precisa para os momentos-limite, e também fronteiriços, por que passa a maioria dos personagens enfocados.

Você começou contista, passou para a novela e, agora, escreve seu primeiro romance. Este foi um caminho natural, ou você veio se preparando para isso?

Penso que foi uma coisa natural, uma exigência das próprias histórias que eu quis contar. Nunca deixei o conto de lado. E mesmo nos intervalos de escrita do romance, andei rabiscando alguns. A definição do gênero passa pela história que tento contar, não mais que isso.

De certa forma, ao escrever sobre o chamado Brasil "profundo", você vai em direção oposta à tendência da literatura brasileira contemporânea, que está mais urbana. Existe por aí um país desconhecido, pedindo para ser explorado?

Viajo com freqüência pelo Brasil e posso afirmar: há muito o que contar sobre a vida brasileira por aí, temas e personagens que sequer foram roçados até agora pela ficção. Gosto de um bom conto urbano, afinal vivo nessa babilônia que é São Paulo. Mas adoro também encontrar nos livros notícias de outros Brasis, mais rurais e distantes – afinal nasci e fui criado numa cidade do interior paulista.

Você vem também de experiências no cinema, como roteirista de vários filmes. Tem algum projeto novo em andamento?. O cinema tem te ajudado como escritor e vice-versa?

Em janeiro, será lançado o novo filme do Beto Brant, Crime delicado, que ajudei a adaptar a partir da novela do grande Sérgio Sant'Anna. Outro diretor, Heitor Dhalia, está montando um filme chamado O cheiro do ralo, roteiro do qual participei e que adapta um escritor/quadrinhista genial, o Lourenço Mutarelli. E o Beto filma, a partir de fevereiro, em Porto Alegre, a novela Até o dia em que o cão morreu, de Daniel Galera, também com roteiro que ajudei a escrever. Neste momento, trabalho na adaptação de minha novela Cabeça a prêmio, em parceria com o Karim Aïnouz, que fez o essencial Madame Satã. Penso que o cinema me dá muito prazer e meu envolvimento ajudou a dar visibilidade e trânsito à minha literatura.

Como você vê a literatura brasileira atual, a que está sendo feita fora do eixo Rio-SP? Algum autor em especial tem chamado sua atenção?

Procuro acompanhar com muita atenção a literatura contemporânea, o que nem sempre é possível: falta tempo. Mas acho que este é um momento de muita vitalidade da literatura brasileira, com uma pluralidade muito grande de vozes. Em certa medida, dão conta do que é o Brasil contemporâneo. Gosto de alguns e menos de outros, o que é normal. A lista é imensa. E tem escritores de obra consolidada já, como Rubem Fonseca, Dalton Trevisan, Sérgio Sant'Anna, Luiz Vilela e Domingos Pellegrini, e também escritores que surgiram a partir dos anos 80, como Cristóvão Tezza, Rubens Figueiredo e Reinaldo Moraes. Acho que o Brasil precisaria conhecer melhor alguns escritores que cultivam uma certa discrição – como o paranaense Jamil Snege (prosador extraordinário já falecido) e o capixaba Reinaldo Santos Neves. Espero muito de alguns prosadores da nova geração, que já deram boas amostras do poder de encantamento de sua ficção – falo de Luiz Ruffato, Ivana Arruda Leite, Cadão Volpato, João Paulo Cuenca e os mineiros Sérgio Fantini e Francisco de Morais Mendes.

O que a literatura tem significado para você esse tempo todo? Hoje, você já está vivendo só de escrever ou ainda tem de se virar fazendo outras coisas?

Ah, que utopia. Não vivo nem de literatura, nem de cinema. Ganho meu pão como jornalista, ou seja, como redator free-lancer. Não me queixo, porque isso me dá total liberdade para escrever sobre e quando eu quiser, quando achar que a história vale a pena. Acredito que, para qualquer escritor, essa é uma condição inegociável: a liberdade na hora de escrever. Vivo modestamente e não tenho grandes ambições materiais. E, quer saber? Tenho sido muito feliz.

Em recente entrevista aqui para o EM, Nelson de Oliveira disse que, nos últimos 20 anos, não surgiu um grande romance no Brasil, desses de encher a mão, como Grande sertão: veredas, por exemplo. Você concorda com ele? Como você classificaria o romance brasileiro atual, estamos mesmo em uma encruzilhada?

Talvez o Nelson esteja certo. Mas essa história de escrever "o grande romance brasileiro" é uma moléstia que já vitimou muitos escritores promissores do passado, que, sem conseguir atender ao próprio nível de exigência da empreitada a que se propuseram, viram sua literatura se paralisar e, em alguns casos, ser deixada de lado. Penso que cabe a todo escritor escrever da melhor maneira que puder sobre aquilo que ele acha importante. Os julgamentos cabem à posteridade.


 

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