Terça-feira, 30 de julho de 2002

Bortolotto adapta contos do autor de 'O Invasor'
Diretor faz teatro com a literatura de Marçal Aquino, que já inspirou filmes de Beto Brant
Vidal Cavalcante/AE
Mário Bortolotto, Marçal Aquino e Marcelo Mirisola no CCSP, domingo, na estréia de ‘O Herói Devolvido’, adaptação teatral de contos de Mirisola
BETH NÉSPOLI

Hoje é noite de estréia na 2.ª Mostra Cemitério de Automóveis – a peça Faroestes, que reúne quatro contos de Marçal Aquino, adaptados para o palco pelo diretor, dramaturgo e ator Mário Bortolotto. Autor de livros como Miss Danúbio, Amor e Outros Objetos Pontiagudos e Faroestes, Aquino também assina o roteiro de dois filmes criados a partir de sua literatura – Os Matadores e O Invasor, ambos dirigidos por Beto Brant. Com a estréia de Faroestes hoje – com Jairo Mattos e o próprio Bortolotto no elenco –, será a primeira vez que Aquino verá sua obra adaptada para o teatro. E por outro dramaturgo. Com o qual tem algo em comum. “Minha literatura nasce das ruas. Como a de Mário”, afirma Aquino.

 

A compulsão para criar intensamente foi a primeira coisa que chamou atenção de Aquino para o trabalho de Bortolotto, quando este realizou, há dois anos, a 1.ª mostra no CCSP, com 14 peças, todas de sua autoria. “Fiquei curioso para conhecer um cara que escrevia tantas peças e fui lá”, lembra Aquino. Gostou do que viu, comprou os livros de Bortolotto – ele tem 19 peças editadas em três livros – e agora surge a primeira parceria artística. Não foi muito diferente a aproximação de Bortolotto que leu Miss Danúbio, gostou, e resolveu entrevistar Aquino para um jornal de Londrina. “A entrevista acabou não sendo publicada, mas importante mesmo foi que a partir daí a gente se tornou brother.”

 

“Acerto de contas” é o tema comum dos quatro contos de Aquino escolhidos por Bortolotto para criar a peça Faroestes, que não necessariamente foram publicados no livro homônimo. “O nome do espetáculo foi sugerido por Marçal por conta do clima que rola em cena”, diz o diretor. A primeira história é ambientada num bar de periferia, envolvendo bandidos e polícia. Na segunda, um sujeito sai da cadeia e vai acertar contas com o parceiro, que está numa boa e foi responsável por sua prisão. Na terceira, uns caras vão cobrar de uma garota o fato de ela não mais visitar o seu companheiro que está preso. E, na outra, um garoto vai tirar satisfações com o “companheiro” de seu pai. Bortolotto optou por não fazer uma “costura” dramatúrgica unindo os contos. “São cenas separadas que têm em comum esse clima de acerto de contas.”

 

Aquino, obviamente, é presença garantida na platéia hoje à noite. Assim como foi no domingo, quando estreou na mostra Herói Devolvido, também adaptação de Bortolotto para a literatura de outro autor com o qual tem afinidade temática: Marcelo Mirisola.

 

Para quem ainda não se ligou na Mostra Cemitério de Automóveis – que vem lotando o Espaço Cênico Ademar Guerra de terça a domingo no CCSP – trata-se de uma espécie de fenômeno digno de figurar no livro dos recordes. Em três meses, de julho a setembro, o porão do CCSP é palco de 26 peças, 20 delas assinadas por Mário Bortolotto, que também dirige e atua em 21 delas. São 72 dias de uma maratona que envolve 80 atores, em 142 apresentações – duas sessões por noite de peças diferentes. Fundador do Grupo Cemitério de Automóveis, Bortolotto e a atriz Fernanda D’Umbra, produtora da mostra, praticamente se mudaram para o CCSP. “A gente chega ao porão por volta de 11 horas de manhã e só sai depois da meia-noite”, diz Bortolotto.

 

Ele ensaia em torno de seis peças por dia. “Dirigo uma cena com um núcleo de atores e, enquanto ele vão ensaiando, dirijo outro núcleo e assim por diante. Há momentos em que há seis ou sete grupos ensaindo ao mesmo tempo. Às vezes, num canto se ensaia uma cena violenta, com gritaria, e ao lado outro grupo ensaia uma cena intimista. É difícil. Mas é o jeito”, diz. O resultado, principalmente na estréia de cada uma delas, nem sempre deixa o exausto diretor inteiramente satisfeito. “Claro que eu preferia ter mais tempo, fazer as coisas com mais calma, ensaiar muito mais. Porém, eu raramente consigo pauta em teatro, nunca dinheiro. E quando surge a oportunidade de trabalhar, é fundamental fazer o máximo. Tinha muito ator querendo participar e não quis deixar ninguém de fora. Quase não durmo, o resultado não é 100% como eu queria, mas ainda assim é gratificante. Mesmo com o tempo curto, com o cansaço, a mostra está bacana. Está sempre lotada e a turma está curtindo.”


Faroestes. Adaptação de contos de Marçal Aquino. Hoje e dias 6 (R$ 1,00), 20 e 27/8 e 3, 10, 17 e 24/9. Terça, às 21 horas. O Herói Devolvido. Adaptação do livro homônimo de Marcelo Mirisola. Ambas adaptadas e dirigidas por [SERV]Mário Bortolotto.[/SERV] [SERV]Dias 4 (R$1,00), 11 e 25/8 e todos os domingos de setembro, às 18 horas. R$ 5,00.Centro Cultural São Paulo.Rua Vergueiro, 1.000,tel. 3277-3611

 

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