Quarta-feira, 17 de Agosto de 2005
O bom e
crítico 'Soy Cuba' abre Gramado
Documentário de Vicente Ferraz foi o destaque da abertura da 33.ª
edição, na qual os curtas só decepcionaram
Luiz Carlos Merten
Enviado especial
GRAMADO - Curtas e longas integraram-se na noite de abertura do 33º
Festival de Gramado - Cinema Brasileiro e Latino, mas isso não
significa que o programa de segunda-feira tenha sido de alta
qualidade. O documentário Soy Cuba! - O Mamute Siberiano, de Vicente
Ferraz, foi, de longe, o destaque da noite. Os curtas foram
decepcionantes, embora bem produzidos e, de maneira alguma,
justificaram o entusiasmo do coordenador técnico do festival, Hiron
Goidanich. Goida disse ao Estado que, devido à qualidade dos curtas
inscritos, a comissão de seleção havia aumentado seu número de dez
para 12.
Que venham logo os bons curtas. Os de segunda-feira não convenceram,
com exceção de Balaio, que Luiz Montes adaptou de um texto de Marçal
Aquino, assim mesmo muito tarantinesco, na linha de Dois Canos
Fumegantes. Parece curta portfólio, para demonstrar a habilitação do
diretor para o longa. Mas foi curiosa a integração. O curta Desejo,
de Anne Pinheiro Guimarães, com direito a Wagner Moura e Lázaro
Ramos no elenco, trata de vontade e desejo e essa é a ponte que
Domingos Oliveira traça para o seu Carreiras, o primeiro longa
brasileiro da competição, também exibido segunda. Tirando o aspecto
de ficção científica, Tempo Real, de Mino Barros Reis e Joana
Limaverde, poderia ser um bom subtítulo para Soy Cuba! (o
documentário como o filme mítico de Mikhail Kalatozov). O diretor
soviético e seu fotógrafo, Sergei Urusevsky, passaram 14 meses em
Cuba entre 1962 e 63 fazendo um poema épico sobre a revolução de
Fidel Castro que foi rejeitado tanto pelos cubanos como pelos
soviéticos. Kalatozov cria grandiosos planos-seqüências, o que
aproxima seu cinema do tempo real, mas a própria grandiosidade das
cenas, o tom bigger than life típico do realismo socialista, faz da
sua epopéia algo bem pouco realista.
O Mamute Siberiano permite que o autor discuta a utopia, o
socialismo e o próprio cinema. Nesse sentido, é bem mais do que o
resgate de um grande filme desconhecido. E as cenas em que um dos
entrevistados (Alfredo Guevara, do Icaic), critica o realismo
socialista e destaca a proximidade do cinema cubano do Cinema Novo
são impressionantes. Saltam na tela as imagens de Othon Bastos no
antológico "Se entrega, Corisco!", em Deus e o Diabo na Terra do
Sol, de Glauber Rocha, como a representação gráfica do que seja a
identidade cinematográfica dos latinos. A pergunta que conduz o
filme de Vicente Ferraz também é muito interessante - em plena
guerra fria, o filme de Kalatozov foi rejeitado por tudo mundo.
Hoje, no mundo global, pós-comunista, quando esse regime não
amedronta mais ninguém, o resgate de Soy Cuba! parece o de um
fóssil, o mamute siberiano enterrado nas areias de Cuba.
Domingos Oliveira foi muito aplaudido ao subir ao palco do palácio
dos festivais. Disse que é muito chato apresentar um filme, que a
obra deve falar por si mesma, mas depois ele resolveu ajudar e falou
pelos cotovelos. Disse que o cinema brasileiro não pode viver à
mercê das leis de patrocínio (não pode mesmo). Apresentou o que não
deixa de ser seu manifesto, o Boaa, Baixo Orçamento e Alto-Astral.
Domingos fez Carreiras em sete dias, perdão, sete noites, usando
tecnologia digital. Seu filme custou dez vezes menos do que a média
da produção nacional. Infelizmente, o exemplo de Domingos vale para
ele e não pode ser institucionalizado no cinema brasileiro.
Carreiras pôde ser feito nesse formato e com essa tecnologia. Outros
filmes não se adaptam às condições. Carreiras é, acima de tudo, um
tour de force de Priscilla Rozenbaum, companheira do diretor, como a
âncora de TV que vive suas noite de loucuras, tentando dar um rumo à
carreira e cheirando todas as carreiras de coca do mundo. É tudo
interessante - o retrato dessa egocêntrica, a proposta estética. Mas
a personagem é insuportável e não produz a menor empatia e a imagem
é de tal ordem que dez filmes como Carreiras poderiam levar o
público a fazer haraquiri na porta dos cinemas. Ou seja, o que é bom
para Domingos talvez não seja bom para todos. Como todo dogma, o
Boaa nasceu para ser quebrado.