Domingo, 6 de Novembro de 2005
Invadindo o perigoso território do amor
Em Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios, Marçal
Aquino cumpre a tarefa de narrar uma 'paixão louca' vivida em um
ambiente hostil Flávia Guerra "De acordo com o professor Schianberg,
não é possível determinar o momento exato em que uma pessoa se
apaixona. Se fosse, ele afirma, bastaria um termômetro para
comprovar sua teoria de que, nesse instante, a temperatura corporal
se eleva vários graus. Uma febre, nossa única seqüela divina.
Schianberg diz mais: ao se apaixonar, um "homem de sangue quente"
experimenta o desamparo de sentir-se vulnerável. Ele não caçou; foi
caçado.
Não é essa a foto que eu quero, eu disse. E apontei o porta-retrato
da vitrine. Aquilo a desarmou. Ouvi sua respiração se alterar. Chang
abriu a boca, mostrando seus dentinhos de rato, e fez o que qualquer
bom comerciante faria: puxou o vidro da vitrine e entregou o produto
para o cliente examinar de perto. O rosto era mesmo excepcional:
anguloso, estranho. Os olhos tinham antiguidades e abismos.
Queremos o que não podemos ter, diz o professor Schianberg, o mais
obscuro dos filósofos do amor. É normal, saudável. O que diferencia
uma pessoa de outra, ele acrescenta, é quanto cada um quer o que não
pode ter. Nossa ração de poeira das estrelas.
Ela baixou a cabeça, tocou o canto dos lábios com a foto. E pensou
no assunto por um segundo e meio. Então compreendeu o jogo. E o
aceitou. Vamos fazer um negócio mais justo, disse. Eu troco esse
porta-retrato por uma das suas fotos, o que você me diz?
Chang riu. Seu ouvido antecipara o ruído da gaveta da registradora.
Eu avancei uma casa: Já aviso que você vai sair perdendo, eu nunca
fotografei nada tão bonito.
O que poderia brotar de uma terra infestada por mineradores e
garimpeiros inescrupulosos, matadores de aluguel, chantagistas e
pedófilos? Para Marçal Aquino, o fruto não poderia ser outro a não
ser a história de um amor. Improvável, de fato. Mas ainda assim,
amor. Esta é a história de Eu Receberia as Piores Notícias de Seus
Lindos Lábios (Companhia das Letras , 232 páginas, R$ 37), novo
romance do escritor.
Aquino confessa que se expôs ao risco de cair no ridículo. Mas, como
o poema de Fernando Pessoa bem o diz, não seria uma história, ou uma
carta, de amor, se não fosse ridícula. Por sua universalidade, o
poema virou clichê. "O amor tem isso. Você quer um clichê maior do
que 'eu te amo'? Desta vez, eu quis brincar com lado mais elaborado
do amor e também com o mais óbvio e ridículo." E este ridículo, o
absurdo de um casal de tal forma apaixonado que chega a pôr a vida
em risco, é a premissa do autor para falar também da insegurança,
dos temores, de loucura, de histórias de vidas, e de mortes. "Eu já
vinha tentando contar uma história de amor há tempos, mas sempre
prevalecia a narrativa policial, como em Cabeça a Prêmio. Neste
livro não. O mote é o amor. Foi um grande desafio visitar um cenário
a que eu não estou habituado."
Com o objetivo declarado de examinar um romance à luz de um ambiente
hostil, Aquino situa sua narrativa em uma cidade qualquer no
interior do Pará, um desses lugares em que nada acontece. Ou quase
nada. Cauby é um fotógrafo que já não se surpreende mais em clicar a
nudez óbvia das raparigas da cidade, que tentam sugar um pouco do
ouro que brota da terra maltratada pela ganância de garimpeiros. Ele
vive em busca do sublime. E este lhe aparece na figura de uma linda
mulher de rosto anguloso e imensos olhos escuros. Ela é Lavínia,
ex-menina de rua e ex-prostituta casada com um pastor evangélico.
Numa terra destas, este amor ilícito pode custar a vida.
Aquino faz questão de frisar que a violência, que o faz ser incluído
nas prateleiras de romances policiais, desta vez perde para a
'paixão louca'. "Há outras histórias, mas o caso entre o fotógrafo e
a menina é o que manda. O resto, como o aparato da questão social, é
pano de fundo."
Ainda que como pano de fundo, em seu território ficcional, Aquino
destaca a violência ao tanger assuntos como pedofilia e
assassinatos. Ao mesmo tempo, com sua literatura factual, sem
subterfúgios e reflexões impostas, Aquino comete a ousadia de
retratar o amor pelo olhar masculino, sem cair em obviedades. Fala
de sexo, o 'transmissor do amor', com naturalidade. Corajosamente,
expõe as miudezas da vida a dois e os tão bem lacrados temores
masculinos. "O amor é um território perigoso", sentencia.
Para tentar se guiar neste terreno pantanoso, Cauby recorre ao
professor Schianberg, um teórico do amor, que permeia a narrativa
com pensatas. "Tem um monte de gente entrando no Google à procura
dele. Não é meu alter ego. Era só brincadeira. Havia um capítulo só
sobre ele. Mas tirei. Estava sobrando. Deliciei-me espalhando pistas
falsas pelo livro."
O escritor conta em tom confessional que nunca sabe o fim de seus
livros. "Assim como o relacionamento, que se funda muito mais sobre
incertezas, eu escrevo sem saber o que cada personagem realmente é,
o que vai acontecer com eles", relata o paulista de Amparo, que
levou três anos escrevendo Eu Receberia. O livro dura o tempo de um
amor. "Foi o tempo exigido para contar esta história. Tem seu ritmo
próprio, que eu fui descobrindo nas entranhas de um relacionamento."
E está satisfeito. "É meu primeiro final feliz. O possível. Escrever
sobre o ódio é mais fácil que o amor, que é uma experiência que
expõe você a você mesmo. Com este livro, me veio o título à cabeça
dois anos antes de contar a história. Quando comecei finalmente a
escrever, passei a cavar e a perceber que este era o Eu Receberia as
Piores Notícias de Seus Lindos Lábios", explica. " Não sabia nada.
Nem que a história se passava no Pará. E fui descobrindo quem eram
essas personagens, sua implicação na trama. Chega um momento em que
a história passa a obedecer uma lógica própria. Eu só fui em busca
dessa coerência. Não sei trabalhar de outra forma."
Para o autor, criar esse novo romance foi como entrar em um novo
relacionamento. "É entrar no escuro e ir tateando. É descobrir
mulheres como Lavínia que, para mim é uma metáfora da mulher, da
instabilidade feminina. É isso que torna as mulheres maravilhosas e
nunca repetitivas."
Aquino saiu desse quarto escuro convicto de que amar é a maior das
subversões humanas. "Significa que se está disposto a se doar. É e
isso que Cauby faz. Coloca sua vida em jogo. Apesar de ser um amor
ilícito pelo código da cidade, é legítimo. Ao se conhecerem, sabem
que algo vai mudar suas vidas."
"Esta é uma das maneiras como eu vejo o amor. Sem luvas cirúrgicas.
O único amor possível. Minha ambição era contar a história da
entrega. Não sei como se chama isso, mas eu chamo de amor."