Com uma literatura marcada por obras policiais, cujas
histórias de malandragem, crime e sangue são garimpadas do quotidiano e
meticulosamente construídas, o paulista Marçal Aquino resolveu dar uma
guinada em sua trajetória ficcional. Em seu novo livro,
Eu receberia as
piores notícias de seus lindos lábios (Cia. das Letras, 233 pgs.,
R$37), o autor incursiona por um tema aparentemente batido, mas que sempre
comporta novos olhares: o amor.
Aquino mergulha fundo numa relação amorosa vivida no
interior do Pará, no perigoso território de um garimpo. É o encontro de
Cauby, fotógrafo que gosta de música clássica e foi repórter de um jornal
paulistano, e Lavínia, uma ex-prostituta capixaba, mulher atraente, mas
casada. Os dois se aproximam em razão do interesse mútuo pela fotografia e
isso deságua numa candente paixão, que se transforma num amor pleno, com
todas as suas sutilezas, ainda que nascido para vicejar em terra estranha.
Ao longo da narrativa, que começa com o provocante título
do primeiro capítulo - ''O amor é contagioso'' -, Marçal se utiliza de sua
experiência jornalística e, num texto sem firulas, direto e fotográfico,
vai desfiando uma realidade pungente. Em sua prosa cinematográfica
conhecemos ambientes estranhos e situações insólitas com seus bizarros
protagonistas, entre os quais um alcoólatra, um pervertido sexual, um
pastor, um policial, um garoto que alimenta o sonho de ser escritor, um
colunista social. São seres que constituem uma fauna curiosa numa selva
onde convivem a ambiçãoda riqueza, a profanação de valores e a volúpia da
carne. Esses personagens, perdidos numa terra de ninguém, são capturados
pela lente realista e cirúrgica de um autor que sabe trabalhar
psicologicamente as diversas nuances da trama sem carregar nas tintas ou
perder-se na inverossimilhança.
É justamente nessa atmosfera tórrida e hostil, de
conflitos e ambigüidades, sem espaço para a delicadeza e inóspito para o
amor, que nasce um relacionamento natural, sincero e avassalador. Um
sentimento capaz de florescer nos corações de duas criaturas com origens
familiares distintas, mas histórias de vida conturbadas e por isso mesmo
análogas em sua luta pela sobrevivência e contra a solidão.
Embora situada numa região de disputas em busca do
eldorado e marcado por situações que colocam as vidas no fio da navalha,
Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábiosnãotem na
violência e no crime o pano de fundo, mas num amor vivido com intensidade
e sem medo de ser estrangeiro ou anacrônico num tempo de cólera.
Como escritor, Marçal carrega no sangue o DNA dos grandes
roteiristas (diga-se de passagem sua feliz parceria com Beto Brant em O
invasor e Ação entre amigos). Em razão desse feeling, em
sua linguagem seca, objetiva mas poética, sabe como ninguém fundir a
eficácia do texto jornalístico com a técnica do roteiro, para registrar um
instante, uma história, uma cena e fixá-los na mente do leitor.
Herdeiro espiritual do humor de Nelson Rodrigues e da
mesma sensibilidade com que João Antonio registrou o mundo da periferia e
dos excluídos sociais, morais e amorosos, neste novo livro Marçal revela a
vida como ela é, sem mistificação. Com isso, homenageia o leitor com uma
obra que já nasce com a estrela da perenidade e inscreve definitivamente
seu nome entre os melhores ficcionistas contemporâneos.
(Ronaldo Cagiano)