| Cérebro
em suspense de ação
Autor de 'Os matadores', Marçal Aquino manda novas histórias para o cinema e as livrarias RODRIGO
FONSECA Bastaram
dois filmes, lançados no final da última década, para firmar o nome
do roteirista e escritor Marçal Aquino dentro da retomada do cinema
nacional. Sempre trabalhando em dobradinha com o diretor Beto Brant, ele
deu provas de que o Brasil também sabe fazer thriller de ação
com cérebro. Primeiro com Os matadores, uma crônica sobre a ética
entre os assassinos comuns. Depois, com Ação entre amigos
(1998), que faz uma visita à época da ditadura. Mas antes de sua nova
parceria com o cineasta, O invasor, estrear nos cinemas, o autor
de novelas infanto-juvenis e contos que flertam com a literatura
policialesca e que lhe renderam o Jabuti em 1999 lança este mês Faroestes.
O livro é uma coletânea de historietas lançadas pela editora Ciência
do Acidente que levam para a literatura os elementos característicos do
western hollywoodiano - solidão do herói, força e
bangue-bangue.
Só não espere caubóis nos contos de Marçal. O
boxeador de Clinch e o rancoroso homem do campo de Trincheira
são apenas exemplos de que não há espaço para caubóis corajosos em
seu faroeste brasileiro. Conseqüências do mundo desencantado com o
qual o autor está familiarizado. ''Se há um traço comum nas minhas
histórias, e eu nunca parei pra pensar nisso, acho que é o homem e sua
infinita capacidade de produzir miséria e maravilha. Mantenho um
contato muito grande com as ruas de São Paulo e essas manifestações,
diariamente. A violência é um componente relevante nesse universo'',
diz.
Páginas de jornal - Segundo Marçal, Faroestes
pode ser definido como uma interpretação literária para as crônicas
de mortes, crimes e exclusões que lotam as páginas de jornal.
''Percebi que as histórias que estava escrevendo falavam, de uma
maneira ou de outra, de confrontos. E eram histórias que podiam muito
bem ser colhidas nas páginas de qualquer jornal brasileiro, em especial
nas policiais. Pensei: isso tudo não passa de um grande faroeste, o
faroeste à nossa maneira'', define.
O título, entretanto, faz uma referência ao cinema
americano, que fez da violência seu principal filão. ''Eu me lembrei
de uma frase do Sam Peckinpah, cineasta que era conhecido como o poeta
da violência: Eu quero ser capaz de fazer westerns como Kurosawa
fazia westerns. Ajudou a entender que não havia título mais
apropriado para aquela coletânea de histórias. Faroestes,
portanto'', conclui.
Continuando a linha de seus livros anteriores, Miss
Danúbio e O amor e outros objetos pontiagudos (que lhe
rendeu o Jabuti), Faroestes expõe, ora com ironia (como em Dez
maneiras infalíveis de arranjar um inimigo), ora com profunda
tristeza (Fábula), o ódio produzido pela intolerância e outras
manifestações de violência. Sobretudo, a traição, estopim da ação
de seus dois roteiros anteriores e tema principal de O invasor,
previsto para 2002.
Esquema fraudulento - Estrelada por Alexandre
Borges, Marco Ricca, Mariana Ximenes e pelo titã Paulo Miklos, em sua
estréia nas telas, encarnando o personagem-título, a trama de O
invasor começa com a harmoniosa criação de uma construtora por três
amigos. A paz da companhia é quebrada quando um deles se recusa a
participar de um esquema fraudulento de obras públicas. É quando os
outros dois resolvem esquecer o passado e contratam um assassino para
acabar com o empecilho ao negócio.
Trabalho feito, trabalho pago. Mas o criminoso se
recusa a sair da vida de seus contratantes, decidindo estabelecer-se
como dono da empresa. ''Quando comecei a escrever a novela, achava que
ela tinha a ver com o noir dos anos 40, que lida sobretudo com os
componentes da culpa. Só que, ao contrário daquelas histórias, que
terminavam com um fundo moral, O invasor era amoral. E talvez
esse seja um dos aspectos mais chocantes do filme'', acredita Marçal.
Mas quem espera ler a história antes de o filme ser
lançado, esqueça. Iniciado no final de 1997, o romance que inspirou a
nova fita de Brant vai permanecer inacabado, já que Marçal preferiu
apresentar sua idéia apenas como roteiro. ''Não tinha estímulo para
retomar. Acho que em parte devido ao meu processo de criação. Em
geral, não sei nada sobre a história que estou escrevendo, vou
descobrindo à medida que escrevo, vou me contando a história. É o
aspecto que me dá mais prazer. O problema é que já conhecia o final
de O invasor, sabia como a trama se fechava. Perdeu um pouco a
graça.''
Quando chegar às telas, as aventuras do matador
Miklos vai confirmar, junto com os textos de Faroestes, a fama de
Marçal Aquino como um dos representantes da literatura policial
brasileira. Ele, contudo, se recusa a assumir sua vocação para o gênero.
''Não me vejo como um escritor policial. Acho que gosto de escrever
histórias policiais. Mas não só. Seria limitante. Já vi meu nome
associado ao gênero algumas vezes. Até pelo fato de eu ter escrito Os
matadores, Ação entre amigos e agora O invasor, que
podem ser considerados de trama policialesca. Não é uma coisa que me
incomoda''. Talvez por isso, ele goste de acreditar que seu novo livro, Cabeça
a prêmio, que revisita o universo dos matadores de aluguel, dará
força ao rótulo que recebeu. ''Vai dar ainda mais razão a quem me
coloca no escaninho de escritor policial.''
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