Cérebro em suspense de ação

Autor de 'Os matadores', Marçal Aquino manda novas histórias para o cinema e as livrarias

RODRIGO FONSECA

[18/OUT/2001]

Bastaram dois filmes, lançados no final da última década, para firmar o nome do roteirista e escritor Marçal Aquino dentro da retomada do cinema nacional. Sempre trabalhando em dobradinha com o diretor Beto Brant, ele deu provas de que o Brasil também sabe fazer thriller de ação com cérebro. Primeiro com Os matadores, uma crônica sobre a ética entre os assassinos comuns. Depois, com Ação entre amigos (1998), que faz uma visita à época da ditadura. Mas antes de sua nova parceria com o cineasta, O invasor, estrear nos cinemas, o autor de novelas infanto-juvenis e contos que flertam com a literatura policialesca e que lhe renderam o Jabuti em 1999 lança este mês Faroestes. O livro é uma coletânea de historietas lançadas pela editora Ciência do Acidente que levam para a literatura os elementos característicos do western hollywoodiano - solidão do herói, força e bangue-bangue.

Só não espere caubóis nos contos de Marçal. O boxeador de Clinch e o rancoroso homem do campo de Trincheira são apenas exemplos de que não há espaço para caubóis corajosos em seu faroeste brasileiro. Conseqüências do mundo desencantado com o qual o autor está familiarizado. ''Se há um traço comum nas minhas histórias, e eu nunca parei pra pensar nisso, acho que é o homem e sua infinita capacidade de produzir miséria e maravilha. Mantenho um contato muito grande com as ruas de São Paulo e essas manifestações, diariamente. A violência é um componente relevante nesse universo'', diz.

Páginas de jornal - Segundo Marçal, Faroestes pode ser definido como uma interpretação literária para as crônicas de mortes, crimes e exclusões que lotam as páginas de jornal. ''Percebi que as histórias que estava escrevendo falavam, de uma maneira ou de outra, de confrontos. E eram histórias que podiam muito bem ser colhidas nas páginas de qualquer jornal brasileiro, em especial nas policiais. Pensei: isso tudo não passa de um grande faroeste, o faroeste à nossa maneira'', define.

O título, entretanto, faz uma referência ao cinema americano, que fez da violência seu principal filão. ''Eu me lembrei de uma frase do Sam Peckinpah, cineasta que era conhecido como o poeta da violência: Eu quero ser capaz de fazer westerns como Kurosawa fazia westerns. Ajudou a entender que não havia título mais apropriado para aquela coletânea de histórias. Faroestes, portanto'', conclui.

Continuando a linha de seus livros anteriores, Miss Danúbio e O amor e outros objetos pontiagudos (que lhe rendeu o Jabuti), Faroestes expõe, ora com ironia (como em Dez maneiras infalíveis de arranjar um inimigo), ora com profunda tristeza (Fábula), o ódio produzido pela intolerância e outras manifestações de violência. Sobretudo, a traição, estopim da ação de seus dois roteiros anteriores e tema principal de O invasor, previsto para 2002.

Esquema fraudulento - Estrelada por Alexandre Borges, Marco Ricca, Mariana Ximenes e pelo titã Paulo Miklos, em sua estréia nas telas, encarnando o personagem-título, a trama de O invasor começa com a harmoniosa criação de uma construtora por três amigos. A paz da companhia é quebrada quando um deles se recusa a participar de um esquema fraudulento de obras públicas. É quando os outros dois resolvem esquecer o passado e contratam um assassino para acabar com o empecilho ao negócio.

Trabalho feito, trabalho pago. Mas o criminoso se recusa a sair da vida de seus contratantes, decidindo estabelecer-se como dono da empresa. ''Quando comecei a escrever a novela, achava que ela tinha a ver com o noir dos anos 40, que lida sobretudo com os componentes da culpa. Só que, ao contrário daquelas histórias, que terminavam com um fundo moral, O invasor era amoral. E talvez esse seja um dos aspectos mais chocantes do filme'', acredita Marçal.

Mas quem espera ler a história antes de o filme ser lançado, esqueça. Iniciado no final de 1997, o romance que inspirou a nova fita de Brant vai permanecer inacabado, já que Marçal preferiu apresentar sua idéia apenas como roteiro. ''Não tinha estímulo para retomar. Acho que em parte devido ao meu processo de criação. Em geral, não sei nada sobre a história que estou escrevendo, vou descobrindo à medida que escrevo, vou me contando a história. É o aspecto que me dá mais prazer. O problema é que já conhecia o final de O invasor, sabia como a trama se fechava. Perdeu um pouco a graça.''

Quando chegar às telas, as aventuras do matador Miklos vai confirmar, junto com os textos de Faroestes, a fama de Marçal Aquino como um dos representantes da literatura policial brasileira. Ele, contudo, se recusa a assumir sua vocação para o gênero. ''Não me vejo como um escritor policial. Acho que gosto de escrever histórias policiais. Mas não só. Seria limitante. Já vi meu nome associado ao gênero algumas vezes. Até pelo fato de eu ter escrito Os matadores, Ação entre amigos e agora O invasor, que podem ser considerados de trama policialesca. Não é uma coisa que me incomoda''. Talvez por isso, ele goste de acreditar que seu novo livro, Cabeça a prêmio, que revisita o universo dos matadores de aluguel, dará força ao rótulo que recebeu. ''Vai dar ainda mais razão a quem me coloca no escaninho de escritor policial.''

 

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