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Autor de 13 livros, Marçal Aquino firmou
parceria com o cineasta Beto Brant e projetou sua obra
literária |
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Melhores de 2005 -
Livros A
literatura visceral de Marçal Aquino O autor do romance Eu
Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios
escreve livros a mão, sustenta-se como jornalista e mora
separado da mulher e da filha para criar
melhor |
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texto: Dirceu Alves Jr.
foto: murillo constantino |
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| A literatura de Marçal Aquino jamais foi apresentada
aos computadores. Para criar Eu Receberia as Piores
Notícias de Seus Lindos Lábios, o escritor de 47
anos abraçou a falta de método como se ainda fosse o
menino nascido em Amparo, no interior paulista, que saía
do escuro do cinema e tentava reproduzir nas brochuras
escolares o que via na tela. As frases curtas e secas da
história de amor desajeitada, como Marçal define o mais
recente romance, privilegiam o instinto. Foram
rabiscadas a mão em oito cadernos universitários, em um
ímpeto tão apaixonado quanto o relacionamento dos
protagonistas, e só digitadas depois de concluídas.
“Literatura é a minha cachaça pessoal, faz meu tempo
ficar diferente. O texto a mão me obriga a refrear a
imaginação, obedecer à coerência do pensamento”, diz
ele, que em 2005 completou 20 anos da publicação da
primeira obra, Por Bares Nunca Dantes
Naufragados.
Um dos autores mais significativos revelados nos anos
80 não vive de seus 13 livros. “Escrevo para me agradar,
sem compromisso com nada, muito menos financeiro”,
afirma ele. Marçal paga as contas e sustenta sua filha,
Alice, 13, com trabalhos autônomos na imprensa. Esse
sujeito sabe o que é dar duro. Filho de um administrador
de fazenda de café e de uma dona de casa, cresceu entre
nove irmãos sem colher de chá. Quando falou ao pai que
seria escritor, ouviu no ato: “Isso não é profissão,
menino!”. Encontrou saída na faculdade de comunicação,
ganhando o pão como escrivão de cartório e funcionário
público. Desde 1991, deixou de bater ponto nas redações
para se entregar à sua cachaça, a literatura, e nunca
viu desvantagem nisso. “Poderia estar em uma fazenda
semi-alfabetizado e fui além. Jamais pensei em ver um
ator na tela falando o que escrevi”, afirma ele,
orgulhoso.
O cinema entrou na carreira de Marçal pela literatura
para projetá-lo. E quem arrombou a porta foi Beto Brant.
Em 1991, o cineasta leu uma resenha do livro As
Fomes de Setembro na imprensa. Interessado, Brant
colocou o recorte de jornal no bolso e, depois de muitos
dias, comprou um exemplar. Decidido a filmar a história,
procurou, meio sem jeito, o autor. “Vi que o cara tinha
uma visão tão dura na literatura que fiquei com medo de
ser mal recebido”, lembra Brant, que se surpreendeu.
“Encontrei no Marçal um amigo e uma visão de mundo que
me abriu possibilidades artísticas e de vida.”
As Fomes de Setembro não virou celulóide,
mas a parceria com Brant rendeu, pelo menos, três dos
melhores longas nacionais da última década, Os
Matadores, Ação entre Amigos e O
Invasor, adaptados de originais de Marçal e
roteirizados, desta vez em um computador, pelo próprio.
Marçal também é hábil construtor de personagens na vida.
“Se vejo uma mulher, é possível que o que mais me chame
a atenção nela seja o esmalte descascado da unha do pé.
Ouço conversas e penso em histórias para cada uma das
pessoas”, revela ele, que não se limita a criar a partir
de anônimos. Beto Brant diz que ir a um estádio de
futebol com o amigo é uma experiência que ultrapassa os
limites do gramado. “Ele conhece a vida de cada jogador
e conta coisas que não sei como sabe. Nem sei se são
verdadeiras as histórias, mas ele fala de um jeito tão
verossímil que acredito”, afirma o cineasta. Nesse
universo criativo, o isolamento se fez necessário. Há
oito anos, Marçal e sua mulher, a jornalista Marília,
vivem em casas separadas. “Gosto de escrever sem barulho
e acabava atrapalhando minha mulher e minha filha.
Quando fiz Cabeça a Prêmio, entrei em casa e só
saí 54 dias depois com o livro na mão. Esse mergulho só
é possível sem envolver a família.”
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