|
REVISTA ISTO É Tiro
certo Luiz Chagas
Num canto do restaurante, um casal discute a relação. Ele se levanta e deixa a mulher chorando. O garçom traz a refeição e coloca na mesa, agora semi-solitária. A mulher chora mais um pouco, enxuga as lágrimas, puxa o prato para si e começa a comer. Para um homem alto, de barba e olhar astuto, a cena deflagra uma curiosidade incrível. Não vê a hora de chegar em casa e escrever sobre o que presenciou. Ele é Marçal Aquino, 45 anos, paulista de Amparo, conhecido como roteirista e autor das histórias levadas às telas pelo amigo Beto Brant, diretor de Os matadores (1997), Ação entre amigos (1998) e O invasor (2001). Histórias, na sua maioria, inspiradas em cenas prosaicas testemunhadas por quem não tem vergonha de ser chamado de voyeur. Um exemplo é o conto Matadores – sem o artigo –, que surgiu de conversas tidas com assassinos profissionais, ouvidos nos tempos em que o autor viajava como jornalista. Mesmo hoje em dia Aquino não se envergonha de seguir pessoas só para escutar a conversa delas até o fim, assim como bisbilhotou a intimidade do casal no restaurante. Casado, pai de Alice, uma garota de dez anos, consumidora voraz de livros de Sherlock Holmes e filmes de 007 – “com Sean Connery”, ela avisa –, Aquino vive mais longe da família do que do seu apartamento-escritório, instalado num prédio comum de uma das mais movimentadas ruas da Vila Mariana, zona sul de São Paulo. Quando não está na sala, sitiado num dos sofás entre a estante de livros – ordenados caoticamente em torno dos preferidos Graciliano Ramos e Raymond Chandler – e a enorme televisão, cercada de vídeos de filmes de Quentin Tarantino e David Lynch, o autor se aboleta no quarto para responder e-mails no computador que mal sabe manejar. Seu maior prazer é escrever à mão, em cadernos de colégio. Seguindo este ritual jurássico, mas de intensidade lúdica, ele escreveu Cabeça a prêmio (Cosac & Naify, 192 págs., R$ 29), mais uma história de matadores que esta semana chega às livrarias, juntamente com a coletânea Famílias terrivelmente felizes (Cosac & Naify, 232 págs., R$ 32), reunindo 16 contos de seus dois primeiros livros, As fomes de setembro (1991) e Miss Danúbio (1994), além de cinco inéditos. Ambas as edições são ilustradas pelo artista gráfico Ulisses Bôscolo de Paiva.
Satisfeito, Aquino atualmente trabalha em seu primeiro romance, já que O
invasor e Cabeça a prêmio ele considera novelas. Trata-se de Eu
receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, no qual outra vez se
sente tão surpreendido quanto o leitor. É que, enquanto escreve, na sua cabeça
as situações se desenvolvem como se tivessem vida própria. Aquino nunca sabe
se um enredo terá final feliz ou não até ser atingido por ele. É um jeito
objetivo do autor, modestamente, falar do seu método de trabalho. “Não há
nada melhor para acabar com a vaidade de um escritor do que visitar um sebo e
constatar quantos colegas consagrados jazem nas prateleiras empoeiradas”, diz.
Para acalmar os egos, aconselha Marçal Aquino, também é bom sentar-se diante
da tela em branco do computador e cavoucar idéias para compor uma história.
“Escritor alimenta mais polêmica do que escreve. Parece óbvio, mas em
literatura é preciso escrever mais e dar menos opinião nos jornais.” Nem que
para conseguir uma boa idéia o autor precise seguir pessoas na rua. |
|
webmaster: BANSEN - [email protected] - Site oficial de Marçal Aquino - contato (clique) |