Literatura
cinematográfica

Divulgação
O escritor paulista Marçal
Aquino, finalista do prêmio Jabuti em 2000 pelo livro de
contos O Amor e Outros Objetos Pontiagudos
Marçal Aquino publicou seus primeiros textos como
jornalista de O Estado de S. Paulo. Na ficção, estreou
fazendo poesia em 85 com Por Bares Nunca Dantes
Naufragados. O ano-chave para sua carreira foi 91, em
que venceu o prêmio de conto na 5.ª Bienal Nestlé de
Literatura por As Fomes de Setembro e conheceu o
cineasta Beto Brant. O primeiro evento deu fôlego ao
escritor, o segundo daria origem ao roteirista. Hoje,
Aquino pode ser considerado o mais cinematográfico dos
escritores brasileiros.
Sua bibliografia inclui seis roteiros para cinema,
cinco títulos infanto-juvenis e outros dez entre
poesias, contos e romances. O mais novo deles, Eu
Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios, que
o autor define como “uma história de amor”, deve ser
lançado pela Companhia das Letras na sexta-feira.
Nascido em 58 na cidade de Amparo, interior de São
Paulo, Aquino ganhou fama planetária como roteirista de
O Invasor, cujo remake é negociado em Hollywood. A
colaboração com Brant já rendeu quatro filmes. O mais
recente, Crime Delicado, tem pré-estréia no próximo
domingo dentro da programação do 9.º Festival de Cinema,
Vídeo e DCine de Curitiba.
Na entrevista a seguir, feita por e-mail, Aquino fala
sobre literatura, cinema e armas.
Gazeta do Povo – Nos EUA, cada vez
mais os cursos de redação criativa recebem escritores
que almejam uma carreira no cinema, que é onde está o
dinheiro. No Brasil, a lógica pode ser a
mesma?
Marçal Aquino –
Desafortunadamente, não. Cinema aqui é epopéia sem
dinheiro, é muito difícil de fazer. Não conheço nenhum
roteirista brasileiro que esteja nessa por dinheiro. É
mais paixão, tesão pela coisa.
Na sua opinião, quais são os grandes
roteiristas em atividade hoje no Brasil e no
mundo?
Há ótimos roteiristas atuando neste
momento. Por aqui, gosto muito do trabalho do Bráulio
Mantovani (Cidade de Deus), Di Moretti (Cabra-Cega),
Fernando Bonassi (com quem tive o prazer de trabalhar em
Os Matadores). Dos estrangeiros, acompanho o Nicholas
St. John (roteirista de vários filmes do Abel Ferrara),
Charlie Kaufman (Adaptação), Guillermo Arriaga (21
Gramas), os irmãos Coen. Entre outros, esses roteiristas
me agradam porque estão sempre procurando expandir as
possibilidades estruturais da narrativa em seus
trabalhos.
Na condição de autor que transita pela
literatura e pelo cinema, poderia listar algumas das
principais diferenças de se escrever para um e para
outro meio?
São linguagens distintas.
Literatura é um apelo sutil à imaginação do leitor. O
cinema é imagem pronta, mostra para fazer pensar. Um
livro é algo pronto, finalizado – sempre. Um roteiro é
uma peça de passagem, quase como uma receita de bolo,
que será transformado até chegar à concretização, que é
o filme. Claro que essas duas linguagens acabam se
contaminando, o que é muito saudável. Daí podermos falar
em “narrativa cinematográfica” no caso de alguns livros,
já que se apropriam de recursos naturais do cinema, como
cortes, etc. E dá também para falar em “filmes
literários”, e acho que o caso mais notável por aqui é o
Lavoura Arcaica, do Luiz Fernando Carvalho.
Em várias de suas histórias, a violência se
faz presente e, quase sempre, armas aparecem no enredo –
como Hitchcock dizia, se uma arma aparece em uma
história, ela tem de ser usada. No próximo domingo, os
brasileiros participam do referendo sobre armas. Você se
posiciona contra ou a favor do
desarmamento?
Sou contra o referendo em si,
que me parece inócuo e fora de hora. Como serei obrigado
a escolher, meu posicionamento é ideológico: sou contra
as armas. O resultado, qualquer que seja, me parece que
não vai trazer mudança nenhuma. Já existe legislação
específica a respeito de posse de armas por civis. Basta
cumpri-la.
Seu novo livro, Eu Receberia as Piores
Notícias dos Seus Lindos Lábios, deve ser lançado na
próxima sexta-feira. Pela sinopse, você mais uma vez se
embrenha no submundo de prostitutas e assassinos – desta
feita, em uma pequena cidade do Pará. Qual foi o ponto
de partida para a história?
O título veio
primeiro, uns dois anos antes. Em outubro de 2002
comecei a escrever a história. Quis contar uma história
de amor clandestino vivida por um fotógrafo meio nômade
e uma mulher com um estranho distúrbio de personalidade.
Como nunca conheço por inteiro aquilo que vou narrar,
comecei a escrever para “descobrir” como era esse caso
de amor, que acontece num ambiente muito hostil do
Brasil profundo: uma cidade de garimpo no interior do
Pará. Aos poucos a trama foi se estabelecendo e os
personagens tomando forma. Levei três anos para
escrevê-la.
De que forma o novo romance se relaciona com
o restante de sua obra, sobretudo com os dois trabalhos
anteriores?
Ao contrário de O Invasor e
Cabeça a Prêmio, a meu ver narrativas policiais, este
romance é, antes de mais nada, uma história de amor.
Acho que, nesse caso, a presença de meus “personagens
preferenciais” (pistoleiros, prostitutas) tem mais a ver
com o ambiente, o pano de fundo, em que se passa o livro
do que propriamente com a história.
Aliás, como foi a experiência de lançar, pela
CosacNaify, Cabeça a Prêmio e Famílias Terrivelmente
Felizes simultaneamente – feito inédito para um autor
contemporâneo?
Foi uma boa experiência, que
me deu muita alegria. Principalmente porque, no caso da
antologia Famílias Terrivelmente Felizes, pude retornar
aos contos de meus dois primeiros livros e colocá-los ao
alcance de leitores que só conheceram meus trabalhos
posteriores.
Há indícios de que os romances policiais
ganharam recentemente status de “literatura alternativa”
– antes, eram considerados subliteratura. Você arrisca
explicar as razões dessa virada?
Não sei se
houve essa virada. Nunca considerei subliteratura os
livros policiais. Quando penso em autores como Raymond
Chandler, Jim Thompson – e em contemporâneos que
incursionam pelo universo do texto policial, como
Umberto Eco, Juan José Saer e Ricardo Piglia –, penso
apenas em literatura. Grande literatura.
Parece que O Invasor vai ganhar uma versão
norte-americana: The Trespasser. Você acompanha de
alguma forma o processo de adaptação do diretor Frank E.
Flowers?
As negociações com a Fox estão em
andamento. O que sei é que, neste momento, está sendo
escrito um novo roteiro, que será apresentado à Fox em
dezembro, para então se decidir se será mesmo feito o
remake do filme. Mas não tenho qualquer outro
envolvimento com o projeto.
Logo estréia nos cinemas Crime Delicado, sua
quarta colaboração com o diretor Beto Brant. Quando e
como vocês se deram conta de que poderiam funcionar bem
juntos?
O Beto me procurou em 91,
interessado em fazer um curta a partir de um conto de
meu livro As Fomes de Setembro. Ficamos amigos e
iniciamos uma longa conversa (que perdura até hoje)
sobre cinema, literatura e vida. Em 94, ele me convidou
a me envolver na escrita do roteiro de Os Matadores,
baseado em um conto meu. A partir daí, começamos essa
parceria, que já rendeu até agora, além de Os Matadores,
Ação entre Amigos, O Invasor e Crime Delicado (em
fevereiro, o Beto roda o quinto em Porto Alegre: uma
adaptação da novela Até o Dia em que o Cão Morreu, do
escritor gaúcho Daniel Galera).
Você já viu o Crime Delicado
pronto?
Acompanhei a estréia do Crime
Delicado no festival do Rio, em setembro. Gosto muito do
resultado, acho que a novela do Sérgio Sant’Anna que
adaptamos permitiu ao Beto colocar em discussão uma
série de temas ligados ao embate entre arte e crítica. É
um filme ousado estética e tematicamente e, mais que
isso, mostra que o Beto é um artista muito inquieto, que
sempre vai surpreender.
A Turma da Rua Quinze é um clássico da
Coleção Vaga-Lume. O que o atraiu à prosa voltada para o
público jovem?
Considero encerrada minha
experiência com a literatura juvenil. Publiquei quatro
títulos entre 89 e 96, gosto deles e me deu muita
satisfação por poder escrever para um público conhecido
previamente (o que não acontece na literatura adulta, na
qual você nunca conhece o perfil de quem vai ler). Mas
isso, num certo momento, me pareceu também uma limitação
– e eu detesto qualquer coisa que ameace de alguma forma
a liberdade total na hora de escrever. Foi por isso que
encerrei minha experiência com o universo juvenil, e
hoje todo meu esforço está voltado para os textos
adultos.
Para terminar, que livro está lendo
agora?
Acabei de ler Os Suicidas, do
argentino Antonio Di Benedetto (Editora Globo). A prosa
seca, sem adornos desnecessários, e a contundência do
relato me agradaram muito.
Irinêo Netto