Edições 2005

Pelotas, RS, Domingo, 20.11.2005


Estilo: Romance de Marçal Aquino arrisca história de amor no garimpo


O que poderia brotar de uma terra infestada por mineradores e garimpeiros inescrupulosos, matadores de aluguel, chantagistas e pedófilos? Para Marçal Aquino, o fruto não poderia ser outro a não ser a história de um amor. Improvável, de fato. Mas ainda assim, amor. Esta é a história de Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios (Companhia das Letras, 232 páginas), novo romance do escritor.
Aquino confessa que se expôs ao risco de cair no ridículo. Mas, como o poema de Fernando Pessoa bem o diz, não seria uma história ou uma carta de amor, se não fosse ridícula. Por sua universalidade, o poema virou clichê. "O amor tem isso. Você quer um clichê maior do que 'eu te amo'? Desta vez, eu quis brincar com o lado mais elaborado do amor e também com o mais óbvio e ridículo."
E este ridículo, o absurdo de um casal de tal forma apaixonado que chega a pôr a vida em risco, é a premissa do autor para falar também da insegurança, dos temores, de loucura, de histórias de vidas e de mortes. "Eu já vinha tentando contar uma história de amor há tempos, mas sempre prevalecia a narrativa policial, como em Cabeça a prêmio. Neste livro o mote é o amor. Foi um grande desafio visitar um cenário a que eu não estou habituado."
Com o objetivo declarado de examinar um romance à luz de um ambiente hostil, Aquino situa sua narrativa em uma cidade qualquer no interior do Pará. Cauby é um fotógrafo que já não se surpreende mais em clicar a nudez óbvia das raparigas da cidade, que tentam sugar um pouco do ouro que brota da terra maltratada pela ganância de garimpeiros. Ele vive em busca do sublime. E este lhe aparece na figura de uma linda mulher de rosto anguloso e imensos olhos escuros. Ela é Lavínia, ex-menina de rua e ex-prostituta casada com um pastor evangélico.
OUSADIA - Ainda que como pano de fundo, em seu território ficcional, Aquino destaca a violência ao abordar assuntos como pedofilia e assassinatos. Ao mesmo tempo, com sua literatura factual, sem subterfúgios e reflexões impostas, Aquino comete a ousadia de retratar o amor pelo olhar masculino, sem cair em obviedades. Fala de sexo, o "transmissor do amor", com naturalidade. Corajosamente, expõe as miudezas da vida a dois e os tão bem lacrados temores masculinos. "O amor é um território perigoso", sentencia.
O escritor conta em tom confessional que nunca sabe o fim de seus livros. "Assim como o relacionamento, que se funda muito mais sobre incertezas, eu escrevo sem saber o que cada personagem realmente é, o que vai acontecer com eles", relata o paulista de Amparo, que levou três anos escrevendo Eu receberia. O livro dura o tempo de um amor.
LÓGICA PRÓPRIA - "Escrever sobre o ódio é mais fácil que o amor, que é uma experiência que expõe você a você mesmo. Com este livro, me veio o título à cabeça dois anos antes de contar a história. Quando comecei finalmente a escrever, passei a cavar e a perceber que este era o Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios", explica.
Para o autor, criar esse novo romance foi como entrar em um novo relacionamento. "É entrar no escuro e ir tateando. É descobrir mulheres como Lavínia que, para mim é uma metáfora da mulher, da instabilidade feminina. É isso que torna as mulheres maravilhosas e nunca repetitivas."
Aquino saiu desse quarto escuro convicto de que amar é a maior das subversões humanas. "Significa que se está disposto a se doar. É e isso que Cauby faz. Coloca sua vida em jogo. Apesar de ser um amor ilícito pelo código da cidade, é legítimo. Ao se conhecerem, sabem que algo vai mudar suas vidas. Esta é uma das maneiras como eu vejo o amor. Sem luvas cirúrgicas. O único amor possível. Minha ambição era contar a história da entrega. Não sei como se chama isso, mas eu chamo de amor."


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