Estilo: Romance de Marçal Aquino arrisca história de amor
no garimpo
O que poderia brotar de uma terra
infestada por mineradores e garimpeiros inescrupulosos,
matadores de aluguel, chantagistas e pedófilos? Para Marçal
Aquino, o fruto não poderia ser outro a não ser a história
de um amor. Improvável, de fato. Mas ainda assim, amor. Esta
é a história de Eu receberia as piores notícias de seus
lindos lábios (Companhia das Letras, 232 páginas), novo
romance do escritor. Aquino confessa que se expôs ao
risco de cair no ridículo. Mas, como o poema de Fernando
Pessoa bem o diz, não seria uma história ou uma carta de
amor, se não fosse ridícula. Por sua universalidade, o poema
virou clichê. "O amor tem isso. Você quer um clichê maior do
que 'eu te amo'? Desta vez, eu quis brincar com o lado mais
elaborado do amor e também com o mais óbvio e ridículo."
E este ridículo, o absurdo de um casal de tal forma
apaixonado que chega a pôr a vida em risco, é a premissa do
autor para falar também da insegurança, dos temores, de
loucura, de histórias de vidas e de mortes. "Eu já vinha
tentando contar uma história de amor há tempos, mas sempre
prevalecia a narrativa policial, como em Cabeça a prêmio.
Neste livro o mote é o amor. Foi um grande desafio visitar
um cenário a que eu não estou habituado."
Com o objetivo declarado de examinar um romance à luz de
um ambiente hostil, Aquino situa sua narrativa em uma cidade
qualquer no interior do Pará. Cauby é um fotógrafo que já
não se surpreende mais em clicar a nudez óbvia das raparigas
da cidade, que tentam sugar um pouco do ouro que brota da
terra maltratada pela ganância de garimpeiros. Ele vive em
busca do sublime. E este lhe aparece na figura de uma linda
mulher de rosto anguloso e imensos olhos escuros. Ela é
Lavínia, ex-menina de rua e ex-prostituta casada com um
pastor evangélico. OUSADIA - Ainda que como pano de
fundo, em seu território ficcional, Aquino destaca a
violência ao abordar assuntos como pedofilia e assassinatos.
Ao mesmo tempo, com sua literatura factual, sem subterfúgios
e reflexões impostas, Aquino comete a ousadia de retratar o
amor pelo olhar masculino, sem cair em obviedades. Fala de
sexo, o "transmissor do amor", com naturalidade.
Corajosamente, expõe as miudezas da vida a dois e os tão bem
lacrados temores masculinos. "O amor é um território
perigoso", sentencia.
O escritor conta em tom confessional que nunca sabe o fim
de seus livros. "Assim como o relacionamento, que se funda
muito mais sobre incertezas, eu escrevo sem saber o que cada
personagem realmente é, o que vai acontecer com eles",
relata o paulista de Amparo, que levou três anos escrevendo
Eu receberia. O livro dura o tempo de um amor. LÓGICA
PRÓPRIA - "Escrever sobre o ódio é mais fácil que o amor,
que é uma experiência que expõe você a você mesmo. Com este
livro, me veio o título à cabeça dois anos antes de contar a
história. Quando comecei finalmente a escrever, passei a
cavar e a perceber que este era o Eu receberia as piores
notícias de seus lindos lábios", explica. Para o autor,
criar esse novo romance foi como entrar em um novo
relacionamento. "É entrar no escuro e ir tateando. É
descobrir mulheres como Lavínia que, para mim é uma metáfora
da mulher, da instabilidade feminina. É isso que torna as
mulheres maravilhosas e nunca repetitivas." Aquino saiu
desse quarto escuro convicto de que amar é a maior das
subversões humanas. "Significa que se está disposto a se
doar. É e isso que Cauby faz. Coloca sua vida em jogo.
Apesar de ser um amor ilícito pelo código da cidade, é
legítimo. Ao se conhecerem, sabem que algo vai mudar suas
vidas. Esta é uma das maneiras como eu vejo o amor. Sem
luvas cirúrgicas. O único amor possível. Minha ambição era
contar a história da entrega. Não sei como se chama isso,
mas eu chamo de amor."
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