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BATE-PAPO
Conceição Freitas Da equipe do Correio
Mas há igualmente bons motivos para ouvir as histórias do jornalista Marçal Aquino sobre sua experiência no período áureo do Jornal da Tarde, quando o jornal era exemplo de qualidade gráfica, de textos bem-escritos e histórias humanas bem contadas. Ele conversou com repórteres do Correio sobre sua experiência como jornalista e a ponte entre o jornalismo e a literatura. Já aos 14 anos, Aquino sabia que seu negócio era ser escritor, mas teve de se curvar ao jornalismo para financiar seu sonho. Fiel corintiano, foi ser repórter de futebol da Gazeta Esportiva, de São Paulo, hoje extinta. Cobria a Segunda Divisão, à época cemitério dos grandes craques. Mais que avaliar o desempenho e as chances dos times, Aquino preferia fazer perfis dos jogadores, muitos deles grandes craques em fase de decadência. Sem o saber ao certo, Aquino montava a galeria de personagens que iria alimentar sua literatura. E cultivava experiências que, contadas hoje, entusiasmam os jovens jornalistas e os nem tanto. Até final dos anos 80, o Jornal da Tarde deu asas à ousadia e abriu janelas para a vida como ela é. ‘‘Fazíamos a pauta que ninguém fazia em São Paulo’’, lembra Aquino. A pauta do rinoceronte, por exemplo. O pauteiro soube que, no zôo paulista, um desses mamíferos estava indócil porque só aceitava parceira que fosse tailandesa como ele, mas não havia nenhuma fêmea da Tailândia à disposição. O zoológico construiu uma piscina, na qual o bicho se acalmava de sua solidão. A repórter, no entanto, não viu notícia em um rinoceronte mergulhado na água. Mas havia, e o Jornal da Tarde deu meia página e chamada na primeira para as desventuras de um mamífero gigante e solitário. Histórias de Redação, que jornalista gosta de ouvir e de contar. Aquino lembra o título memorável que um repórter do jornal deu à morte de Picasso, em 1973: ‘‘Picasso morreu. Se é que Picasso morre’’. Ou a foto de página inteira, igualmente inesquecível, do menino chorando depois da derrota brasileira no final da Copa do Mundo de 1982, em Barcelona. ‘‘Era um período em que o jornal valorizava a foto e o editor incentivava o texto literário’’. Época em que encontrar tipos humanos e histórias interessantes eram o grande objetivo da Redação. ‘‘Procurar matéria a partir do personagem é uma função hoje do jornal. A Internet dá a notícia muito mais rapidamente que o jornal. A televisão dá a imagem muito melhor. O que resta para o jornal? É a matéria analítica, e sobretudo, buscar o personagem’’. Nos tempos de Aquino em Redação de jornal, desprezavam-se os limites do bom comportamento. Exemplo disso foi quando o JT passou a publicar diariamente uma caricatura do então governador de São Paulo, Paulo Maluf, depois que ele prometeu encontrar petróleo no estado e estabeleceu um prazo para isso. A cada dia, o nariz da caricatura crescia. Findado o prazo, nada de petróleo, claro, e o nariz de Maluf vazou a primeira página de tão grande. Junto com as boas histórias, vêm as lendas. E uma delas tem o próprio Marçal Aquino como personagem. A ele é atribuído um título de humor negro que teria sido feito quando do naufrágio do Bateau Mouche, no réveillon de 1989. O Globo foi o único jornal a noticiar o acidente na edição de 1º de janeiro. No dia seguinte, portanto, os demais jornais já não poderiam mais publicar a notícia como se fosse inédita. Segundo a lenda, Aquino teria produzido o seguinte título: ‘‘Flores para Iemanjá. Em mãos.’’ O escritor que se abastecia das redações de jornal produz uma literatura ‘‘colada no real’’, como ele mesmo diz. ‘‘Algumas pessoas dizem que cheira muito a jornalismo, mas na verdade não é porque são personagens inventados, mas meu ponto de partida é a rua. Meu olhar é treinado para olhar a rua. Pego uma situação da realidade e boto a máquina da ficção para funcionar.’’ Máquina enxuta, avessa ao barroco, aos rococós e às firulas. ‘‘E, na verdade, dá pra fazer disso um estilo’’. Eis aí um escritor treinado no exercício do jornalismo de rua, de gente, de histórias. ‘‘Jornal é feito para pessoas, não para empresas’’, diz Aquino. Parece uma frase acaciana, mas não é. |
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