Sexta-feira, 15 de fevereiro de 2002 - 17h30   

"O "Invasor" é disputado em Berlim

O filme de Beto Brant baseado em novela de Marçal Aquino foi premiado no Festival de Sundance e está sendo disputado por distribuidoras da França, EUA, Espanha, Alemanha, Itália e Finlândia

Berlim - Atenção, exibidores brasileiros! O Invasor, de Beto Brant, baseado em obra de ficção de Marçal Aquino, já se tornou um best seller no mercado de filmes do Festival de Berlim e ainda está sem distribuidor no Brasil. Premiado no Sundance, O Invasor acaba de ser comprado por Israel e está sendo disputado pelos seguintes países: França (4 distribuidores), EUA (3), Espanha (2), Alemanha (2), Itália (1) e Finlândia (um distribuidor que quer comprar os direitos para toda a Escandinávia). "As negociações estão em torno de um valor inédito para o cinema brasileiro", esquiva-se Tarcísio Vidigal, do Grupo Novo de Cinema e TV, que está negociando O Invasor e outros 17 títulos no mercado de filmes de Berlim.

O êxito de O Invasor é motivo de orgulho para o Brasil. Foi produzido com um orçamento muito baixo mesmo para os padrões brasileiros (R$ 1 milhão, sendo parte da verba de edital do Ministério da Cultura, BR e estúdios Mega, além de outros parceiros) e com uma raça contagiante de toda a equipe. Não só do diretor Beto Brant, mas também dos produtores Bianca Villar e Renato Ciasca.

O Invasor quase lotou o luxuoso Zoo Palast na noite de quinta-feira, com capacidade para 1 mil espectadores. No final da projeção, a interminável lista de agradecimentos mostrava o trabalho hercúleo dos produtores, que conseguiram praticamente tudo de graça para viabilizar a realização do projeto. Incontáveis locações, apartamentos de amigos, casas noturnas, restaurantes, moto emprestada do amigo Sérgio, enfim, um mutirão que revela o vigor da cinematografia brasileira contemporânea.

A exibição no Zoo Palast foi precedida pelo curta Clandestinos, de Patrícia Moran, focalizando pessoas que lutaram contra a ditadura militar. "Me sinto muito honrado pelo filme estar sendo apresentado com Clandestino, que mostra a coragem de quem lutou contra a barbárie", disse Beto Brant antes de apresentar o longa no palco do Zoo Palast, ao lado do ator Alexandre Borges e dos produtores Bianca Villar e Renato Ciasca.

O Invasor é uma prova de que a universalidade do cinema brasileiro não está apenas em paisagens rurais, onde deuses e diabos erguem seus fusis para protestar contra o subdesenvolvimento de suas vidas secas. O universal de nossa aldeia também está na agressividade da nossa urbanidade, na corrupção das nossas grandes cidades, na violência e, paradoxalmente, na efervescência criativa das nossas favelas e periferias. O filme é um exemplo explosivo da nossa singularidade urbana, paulistana, em que universal rima com heavy metal e rap multicultural, com um inconformismo genuinamente brasileiro.

O filme focaliza as maracutaias de uma dupla de amigos engenheiros, vividos por Alexandre Borges e Marco Ricca, que decidem eliminar o terceiro sócio majoritário da construtora onde trabalham. Eles contratam para a tarefa o revoltado Anísio, encarnado de maneira surpreendente por Paulo Miklos, dos Titãs, que realmente rouba a cena como o personagem-título. Anísio faz o serviço sujo e começa a chantagear os dois engenheiros, não demorando a cruzar com a filha do sócio assassinado junto com a mulher. O "invasor" começa a namorar a bela órfã (vivida por Mariana Ximenes) e a vida se torna um inferno para os engenheiros.

Há um raciocínio, até certo ponto reacionário, mas que tem lá o seu fundo de verdade, que mostra que nos tornamos extremamente criativos em momentos de crise, sobretudo fincanceira. O Invasor tem essa criatividade arretada.

O filme foi captado em super-16 mm, com película muito sensível (800 ASAs) para que fosse possível rodar as incontáveis seqüências noturnas. O material captado em película foi convertido para High Definition (vídeo em alta definição), que resultou numa matriz digital, como um zip.

Essa matriz foi fartamente trabalhada na parafernália HD, que tem um ponto de luz que é colocado atrás da imagem, e então as possibilidades são infinitas. Pode-se trazer o fundo para o primeiro plano, sombrear e realçar os contornos, colorizar tudo que for desejado, até mesmo borrar a imagem de cores berrantes. Isso, por exemplo, foi feito de maneira muito bem-sucedida na seqüência em que Anísio e sua namorada tomam ecstasy e vários detalhes do cenário da rave e das peças de roupa foram colorizados com muita fosforescência.

Editado o material, tudo foi então kinescopado, ou seja, transformado novamente em película, fotograma a fotograma. O resultado final tem uma textura inusitada para o cinema brasileiro, pois não parece vídeo kinescopado, na medida em que a captação foi feita em película. Uma solução tecnológica sofisticada que acabou projetando na tela uma experimentação audiovisual insólita e muito criativa.

Na coletiva que concedeu no hotel Hyatt, Beto lembrou a gênese de tudo: a história original de Marçal Aquino, um ficcionista ligado ao Brasil contemporâneo e que sempre procura beber em fatos jornalísticos. Em tempo: Beto Brant já está se preparando para um novo projeto, mais uma vez baseado na ficção de Marçal Aquino, que, promete o diretor, será uma tórrida história de amor.

Os festivais de cinema, disse Beto na coletiva, são um dos poucos espaços de resistência de pessoas que querem colocar em prática uma visão crítica da sociedade e, principalmente, exteriorizar todo o seu humanismo. "O Invasor é a minha maneira de ver a minha cidade, a exclusão social, a tirania do poder econômico, a brutalidade de São Paulo", explicou. Sua intenção é realizar filmes que focalizem política e socialmente o Brasil contemporâneo, sempre ligado a novas tecnologias. "Busquei uma linguagem acelerada, radical, mas que não é videoclipe", ressaltou. O Invasor glamouriza as periferias de São Paulo? "Eu utilizo rap no filme para humanizar as periferias", explicou.

Evaldo Mocarzel, enviado especial 

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