Ode `a  minha Mãe.

 

Minha mãe,

anárquica, louca,

chamada por uns de inconseqüente,

por ter gerado 11 filhos.

No entanto, qual as águas do

seu Paraíba, deixou fluir seu amor

imenso, límpido, incondicional.

Sem medida nem hora, sem balança

contábil a pesar as palavras de apoio.

De forma hábil soube dosar  e galgar

muros e barreiras.

Foi andarilha cigana, com suas tranças

negras e sua pele de marfim, disposta a

desbravar e povoar cidades.

Qual " Pietá Mater" , gestou em seu

ventre fecundo de fêmea, seu time de

futebol.

Etâ goleiro danado, este seu companheiro!

Você foi Santa`Anna, a pular os muros

do cemitério de seus ancestrais

para nos revelar o mundo.

Foi terra rubra, quente como o

torrão, no qual nasceu seu Pai:

A fazenda Ipiabás.

Foi raiz e entranha,

profunda como as terras da Taquara.

Foi candeia, para minimizar a fome, quando faltou pão;

Foi lenha quando era ralo o cobertor.

Mulher, que mesmo sem intelectualizar

ensinou o tesão:

do gozo,

do riso gostoso,

do ir e voltar,

do orar e chorar,

do permanecer empacado

e/ou correr para o colo da alegria.

E, ainda, ludicamente, espatifar as fuças

e a bunda no chão.

Você, menina sem Pai,

Mulher de um dependente,

de forma independente,

quase sensitiva,

soube, em sua mudez,

com a sensatez da sapiência,

e sua altivez atávica,

construir CIDADÃOS para o mundo

Obrigada, minha flor nipônica,

batizada de " Eleita dos Deuses"

pelo privilégio de ter me gerado.

Fui cria levada,

adolescente insegura,

adulta rebelde.

Outrossim, em sua velhice,

pude ser, felizmente, companheira,

enfermeira, confidente,

cúmplice nos " segredinhos" familiares

e nas andanças pela chuva, qual fêmeas no cio, com os cabelos ao vento.

Hoje sou um de seus troncos,

de ramagens frondosas ,

ora de folhagem verde e plena,

ora pelada de frio e solidão!

Independente da "estação"

me empenho, a seu pedido,

nem sempre com êxito,

a continuar seu exemplo e uma "partezinha"

de sua missão. Sem culpa , nem medo.

Com um puta ORGULHO de ser sua Filha!

Você, SONOÊ, que me emprestou e dividiu

um pouco seus rebentos,

compartilhou, também, seus temores

e expectativas, me "cobrou" ,

suavemente como uma queixa,

comportamentos e atitudes.

Trocamos rimas de amor e dor,

( igual batatinha quando nasce)

Vimos Feline, Antonionni, até

Eisestein, nos esborrachamos no

" Encouraçado"  , bailamos e bebemos,

com Bogard, unidas em "Casa Branca".

Choramos juntas seus filhos perdidos,

e, também, com " O Vento Levou",

e tantas coisas mais que só o coração sabe contar.

Cantamos com Pixinguinha, Elizeth e Mário

Reis, lemos Neruda , Pessoa e Cecília.

Tomamos Chopp preto e bebemos veneno,

mas soubemos também bater palmas,

sair em passeatas e ouvir Beethoven.

Hoje, eu sei que você foi o bem mais

precioso, que eu e suas crias, tivemos

nesta vida, porque você Surica singela,

foi e é nossa rainha.

 NAMASTÊ, mãe minha !!

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