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- Vó?
- Oi?
- O que quer dizer isso aqui?
- Isso o quê?
Apontou para uma folha de rascunhos, onde estava escrito:
"Marcha o homem sobre o chão, leva no coração, uma ferida
acesa".
- Você leu, querida?
- Li.
- Gostou?
- Para dizer a verdade, não entendi muito bem.
Vovó sorriu.
- Esse é um verso de uma música de Caetano Veloso.
- Aquele cantor que você gosta?
- Isso.
- E o que quer dizer?
- Quer dizer um monte de coisas, como costuma acontecer com os poetas.
- Um monte de coisa o quê?
Acariciou seus cabelos cacheados.
- Essa música diz assim: "Marcha o homem sobre o chão/ leva no
coração / uma ferida acesa/ Dono do sim e do não/ diante da visão /
da infinita beleza/Finda por ferir com a mão / essa delicadeza/
coisa mais querida".
Continuou olhando, impaciente, entendendo cada vez menos.
- Isso quer dizer que todo mundo tem no coração uma ferida
- Como assim, Vó?
- Não é muito fácil de explicar, meu bem, mas Vovó vai tentar.
Lembra da historinha que eu te contei, do Adão e da Eva?
- Lembro.
- Lembra que eles ficaram muito tristes quando foram expulsos do
Paraíso?
- Assentiu com a cabeça.
- Se Adão e Eva representam todas as pessoas, então todo mundo tem no
coração essa saudade do Paraíso. Todo mundo passa muito tempo na vida
procurando o seu Paraíso Perdido.
- E onde é que as pessoas procuram pelo tal do Paraíso, que ninguém
encontra?
Riu-se discretamente, para a neta não achar que ela estava fazendo
graça.
- O que eu estou tentando te explicar, é que todo mundo tem no
coração essa ferida, essa espécie de saudade, como se tivesse perdido
alguma coisa que não consegue mais encontrar. Cada um vive de um jeito
com essa dor. Algumas pessoas gritam: - Socorro! Socorro! Eu tenho
um negócio que está doendo!
Outras pessoas tentam ganhar muito, muito dinheiro, pensando: - Eu vou
ter dinheiro para comprar o melhor analgésico do mundo e vou achar o
Paraíso com passagem de primeira classe. Tem mais algumas pessoas que
dizem: - Essa história de Paraíso é conversa mole, pra boi dormir - e
saem pelo mundo castigando as pessoas pela dor que elas sentem.
- A música quer dizer tudo isso?
- Viu como o poeta consegue dizer muita coisa com poucas palavras?
- E o resto?
- Que resto?
- O resto que você me cantou... O resto da música...
- Dono do sim e do não/ diante da visão da infinita beleza?
- Isso.
- O homem foi expulso do Paraíso por isso...
- Como assim?
- O homem ganhou consciência do Bem e do Mal. Ele pode ser dono do Sim
e do Não. Pode escolher fazer A ou B, pode subir ou pode descer, pode
procurar ou esperar. É dono de Livre Arbítrio. Entendeu?
Entendeu médio, mas fingiu que entendeu tudo.
- Vó?
- Oi?
- O que adianta ser dono do Sim e do Não?
- Adianta muito e não adianta nada... Adianta muito porque todo dia
você pode escolher para onde ir, o que fazer. Não adianta para um
monte de outras coisas, que não dá nem para falar.
- E essa visão?
- A visão da infinita beleza?
- Essa mesmo.
- O homem fica muito ocupado sendo dono do Sim e do Não e decidindo o
que fazer com eles... Não consegue ver a infinita beleza da vida. A
infinita beleza e a infinita delicadeza das coisas que estão debaixo de
nosso nariz.
- E aí?
- Aí ele se preocupa demais em ser dono de Sim para as coisas que quer
e do Não para todo mundo, e sai por aí falando Sim-Não, Sim-Não,
Sim-Não para todos os lados... O resultado vem depois, na música.
- Como assim?
- Na parte que a letra diz: Finda por ferir com a mão essa delicadeza/
Coisa mais querida.
- O que isso quer dizer?
- Isso quer dizer que as pessoas não sabem da ferida acesa no seu
coração, não sabem que são donas de Sins e de Nãos e acabam ferindo
a delicadeza da vida: machucam tudo o que é delicado e indefeso.
- Como as crianças ?
- Machucam as crianças, as plantas e os bichos. Mas machucam sobretudo
elas mesmas.
A menina ficou com os olhos apertados por uma suave angústia.
- Vó?
- Oi?
- É por isso que as pessoas grandes são tão infelizes?
A avó soltou um discreto suspiro.
- É por isso mesmo, meu bem.
- Elas não sabem cuidar da própria ferida?
- Acho que não.
Continuou pensativa, com ar de densa gravidade.
- E o que a gente pode fazer para ajudar?
Aconchegou-a mais perto.
- A gente deve cuidar de tudo o que é belo e delicado, meu bem.
Começando pelo nosso próprio coração. Só de parar de espalhar mais
tristeza, as feridas do mundo começam a melhorar.
Tomou fôlego, numa postura que a Vovó sabia trazer uma pergunta mais
definitiva e importante.
- Vó?
- Oi?
- Por que você deixa esse verso escrito em cima da mesa?
Foi a Vovó que tomou fôlego dessa vez.
- A Vovó gosta muito desse verso, querida. Mas não é por isso que ela
o deixa aí na mesa, não.
- E por que ele fica aí, então?
- É para a Vovó se lembrar que, por mais estúpidas que sejam as
pessoas, elas o são por não saberem lidar com essa ferida.
- Essa ferida acesa?
Suspirou mais uma vez.
- Essa ferida tão difícil de apagar.
Achegaram-se as duas. A menina notou um passarinho pulando na árvore,
suavemente, sem quebrar os galhos mais delicados. Era um movimento de
infinita beleza.
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