A HERANÇA GREGA
O mundo grego floresceu em torno do Mar Egeu, no Mediterrâneo Oriental. A base desta extraordinária civilização centrou-se na polis, a cidade-estado. A polis era uma organizaçâo limitada, independente, baseada num Governo próprio e a sua emergência foi ditada pelas características da geografia grega. A Grécia é um país montanhoso, onde as áreas costeiras são compostas de inúmeros vales, separados uns dos outros por cadeias montanhosas muito difíceis de atravessar. Foi nos vales e planícies que nasceram diversas unidades políticas, por vezes de pequena dimensão. A Cidade-Estado de Atenas - que, no seu apogeu, não terá ultrapassado os 300 mil habitantes - foi sempre a maior de todas as polis gregas.
Nas colónias que fundou na Ásia Menor, este povo construiu grandes muros para se proteger. Na Grécia, em caso de ameaça, bastava-Ihes refugiarem-se puma cidadela fortificada, a que chamavam acro-polis, a parte alta da cidade. A região em torno da Cidade-Estado, variável em extensão, incluía ainda inúmeras quintal a aldeias, muitas delas encravadas nas montanhas.
Oriundos da Europa Central a de origem indo-europeia, os Aqueus, juntamente tom os Eólios a os Jónios, protagonizam a primeira grande invasão da Grécia, há cerca de quatro mil anos. Os primeiros vão fixar-se no centro a no sul da Grécia continental a serão profundamente influenciados pela avançada a extraordinária civilização minóica da ilha de Creta (palácio de Cnossos), de influência oriental, que acabarão por conquistar. A nova civilização micénica, que atinge um elevado grau de desenvolvimento, chega ao fim quando um outro grupo de povos indo-europeus - os Dórios, já conhecedores da metalurgia do Ferro - se espalham pelo Sul da Grécia a pela Ásia Menor, cerca de 1200 a. C., e submetem os Aqueus.
0 desenvolvimento da metalurgia do Ferro motiva uma importante alteração cultural na região, sobretudo a partir do século VIII. Um outro factor essencial para o desenvolvimento da civilização grega residiu na introdução da escrita alfabética, inventada na Fenícia.
O papel dos Fenícios - um povo semita que habitava no actual Líbano - foi decisivo para a economia e a cultura da bacia mediterrânica. Grandes navegadores a comerciantes, vulgarizaram as artes do Próximo Oriente, fundaram Cartago (na actual Tunísia) a chegaram a estabelecer colónias na Península Ibérica. Quanto à escrita, o alfabeto fenício vai servir de modelo ao grego, que depois será imitado no Ocidente a dará origem à escrita latina. Há 2800 anos, a tradição da poesia oral atinge nesta região o seu apogeu, através dos poemas épicos atribuídos a Homero ("Ilíada" e "Odisseia"), que depois foram preservados através da escrita.
0 século VIII a. C. também assistiu aos primeiros Jogos Olímpicos (776) a ao início da expansão colonial, que se prolongou por 200 ano foi encorajada pela fome nos campos, as dissenções políticas, o desejo de aventura ou de lucro. A colonização vai fazer-se em duas direcções: Mediterrâneo Oriental (região do Mar Negro) e o Mediterrâneo Ocidental - a começar pelo Sul da Península Itálica. As colónias, embora totalmente independentes da cidade-mãe, conservavam tradições a mantinham relações económicas preferenciais com a polis de origem.
De início com vocação essencialmente agrícola, já que funcionavam como um escoamento excedente populacional, as colónias vão implicar ocupação de terras no interior das novas regiões a subjugação das populações locais. Mais tarde, colónias agrícolas vão suceder-se as colónias comerciais - uma espécie de feitorias que funcionavam sobretudo como mercados para os produtos gregos manufacturados, o vinho e o azeite, como áreas onde se recolhia matéria-prima.
Neste novo tipo de colonização, já antes praticada pelos fenícios de Biblos, Sídon ou Tiro, as relações com os povos indígenas eram mais pacíficas, já que os laços mantidos se resumiam às trocas de produtos e não implicavam ocupação e submissão. Estavam, por sua vez, mais dependentes da "cidade-mãe", com a qual estabelecia profundos laços linguísticos, económicos e religiosos. Cerca de 600 a. C., já existiam cerca de duzentas destas novas cidades gregas espalhadas por todo o Mediterrâneo e pelos mares interiores. Após a colonização do Sul da actual Itália e da Sicília (a Grande Grécia), a segunda fase da expansão grega será dirigida para a Gália, a Espanha e o Norte de África.
Entre os séculos IX a VIII, Homero tinha dado a conhecer uma Grécia governada por rei aos quais vão suceder regimes oligárquicos. O papel dos nobres será, por fim, substituído pelo do tiranos (Pisístrato em Atenas) e, após as guerra médicas - onde os gregos conseguem repelir ameaça persa -, inicia-se o período de hegemonia da polis. Cada cidade, baseada na sua política imperial própria, foi dominando sucessivamente o cenário político grego. É neste quadro que se inserem as guerras do Peloponeso, que opõem os dórios da "aristocrática" Esparta aos jónios da "democrática" Atenas, no final do século IV a. C. (431-404).
As vitórias contra o reis persas Dario e Xerxes, sobretudo nas célebres batalhas terrestre de Maratona (490 a. C.) e a naval de Salamina (480), tinham beneficiado Atenas, que hegemonizou um conjunto de cidades situadas em torno do santuário de Delos, criado por Pisístrato. Enquanto no outro lado do mundo se começam a espalhar as mensagens de Buda e Confúcio, Atenas vive em "democracia imperial" durante o esplendoroso século de Péricles (443-429).
"Entre nós, o Estado é administrado no interesse de todos e não de uma minoria; por isso, nosso regime tomou o nome de democracia." Esta era a perspectiva de Péricles citado por Tucídides que, após Heródoto e antes de Políbio, foi dos primeiros historiadores da humanidade.
Contudo, a democracia ateniense era impei feita a muito controlada, já que dos cerca de 300 mil habitantes da Ática ateniense, apenas cerca de 40 mil possuíam direitos políticos. Os estrangeiros (metecos), as mulheres e os escravos - afinal, a esmagadora maioria da população - não participavam nas discussões no aerópago nem tinham direito a decidir os destinos da polis.
Apesar da pujança de Atenas no tempo de Péricles - o Parténon está em construção, Fídias esculpe as suas obras, são representadas as tragédias de Eurípedes, o pensamento filosófico e a ciência atingem um desenvolvimento apenas alcançado na Europa 1500 anos mais tarde -, as cidades de Corinto, Esparta e Tebas também assumiram um papel de relevo na Grécia continental. Na Ásia Menor, destacaram-se Mileto, Éfeso, Bizâncio (depois Constantinopla, depois Istanbul) e os santuários de Delos, Delfos e Olímpia.
A liga de Delos, dirigida por Atenas, é formada devido à contínua ameaça persa. Mas a derrota frente a Esparta na guerra do Peleponeso marca o início da decadência ateniense e a hegemonia de Esparta (404-371) e de Tebas (371-362). O século IV tinha-se, aliás, iniciado com um mau agoiro para Atenas: a condenação à morte de Sócrates, em 399. Mas esta época irá permanecer como a grande idade clássica da prosa grega, num período em que o reino macedónio começava a emergir. Nas ciências da natureza, na filosofia, na matemática, na poesia - épica, lírica ou dramática -, na arquitectura e na escultura, a Grécia constitui, a par dos ideais políticos da época de Péricles após o triunfo sobre a tirania, uma parte insubstituível da actual herança europeia.
A civilização grega inicia o seu declínio irreversível quando Filipe da Macedónia estende o seu domínio a toda a região, após derrotar os exércitos atenienses e seus aliados. A cultura helenística será em primeiro lugar divulgada para Oriente, através das campanhas de seu filho Alexandre o Grande (336-323), e depois para Ocidente, quando os romanos se tornam nos novos senhores da Grécia, no século II a. C.
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