O Destino

para teatro

 

As Personagens 

ARISTÍDES, protector e apaixonado por IRINA.

IRINA, jovem de grande beleza, protegida de ARISTÍDES.

GABRIEL, fotógrafo, sobrinho de ARISTÍDES e amante de IRINA.

AMBRÓSIO, empregado de ARISTÍDES.

SALVADOR, melhor amigo de ARISTÍDES.

 

I Acto

1ª Cena – SALVADOR, ARISTÍDES

 

SALVADOR – Então, amigo, soube recentemente que se dedicou ao mecenato.

ARISTÍDES – Sabe ela é uma mulher belíssima, inteligente e de grande carácter. Tenciono ajudá-la em tudo o que puder e fazer com que ela se apaixone lentamente por mim.

SALVADOR – Cuidado com as expectativas que cria em volta dessa menina, pois ela deve ser ainda muito jovem. Quantos anos tem?, vinte e poucos?

ARISTÍDES – Vinte e três.

SALVADOR – Cuidado, caro amigo, ela é muito nova, deve ter pretendentes bem mais condicentes com a sua idade.

ARISTÍDES – Mas é bastante madura, e depois, eu posso-lhe oferecer uma estabilidade diferente, outra segurança.

SALVADOR – Dinheiro, não é verdade? Olhe que não falta gente, por aí, a dar o golpe do baú.

ARISTÍDES – Não se preocupe, que sei cuidar de mim.

 

2ª Cena – IRINA, ARISTÍDES falando ao telefone

   

ARISTÍDES – Já falei com um amigo meu que viu as suas fotografias e adorou. Vêm falar consigo, amanhã, mas tem que vir ao Porto.

IRINA – Obrigada, era tudo o que eu desejava, mas não tenho nada preparado para ir ao Porto já amanhã, onde é que vou ficar?

ARISTÍDES – Não se preocupe, fica numa casa que tenho desocupada,  falarei com Ambrósio, uma espécie de caseiro, e este levá-la-á onde quiser, sempre que precisar.

IRINA – Não sei se aceite, é que não me sentirei bem.

ARISTÍDES – Deixe-se disso, sou um seu admirador e estarei sempre à sua disposição. Espero-a amanhã.

 

II Acto

1ª Cena – IRINA, ARISTÍDES, AMBRÓSIO

 

   

ARISTÍDES – Seja benvinda, é um prazer tê-la em minha casa. Espero que cá fique todo o tempo que quiser, que conto seja muito. O Ambrósio cuidará de satisfazer todas as suas necessidades, não se faça rogada e peça-lhe tudo o que necessitar. Não é Ambrósio?

AMBRÓSIO dirigindo-se a Irina – Será para mim uma alegria poder ser-lhe útil.

IRINA – Muito obrigada, tentarei não ser um incómodo.

ARISTÍDES – Isso seria impossível minha cara, penso que deve querer refrescar-se, as pessoas da revista devem estar a chegar, vou deixá-la. Até logo, conto consigo para jantar, venho buscá-la às nove.

 

2ª Cena – ARISTÍDES, IRINA

 

ARISTÍDES – Então como correu a sessão hoje à tarde?

IRINA – Tudo foi óptimo, tenho que lhe agradecer mais uma vez, é  como se você fosse o meu anjo da guarda, um santo protector.

ARISTÍDES – Sabe, eu gosto de si, desde o primeiro momento e só estou a tentar apressar o seu sucesso. Chegamos; vamos jantar?

 

3ª Cena – ARISTÍDES, GABRIEL

   

GABRIEL – Sabe, tio, estou contentíssimo, ontem tive o meu primeiro trabalho como fotógrafo profissional, para uma das maiores publicações do país e melhor ainda, acho que me apaixonei completamente pela modelo a fotografar..

ARISTÍDES – Um dia em grande, cheio de emoções para ti e para mim.

GABRIEL – O que quer dizer com isso?

ARISTÍDES – Também penso estar apaixonado,

GABRIEL – O tio com essa idade, ainda é capaz de amores, e paixões!! Mas quem é a senhora, certamente que a conheço?

ARISTÍDES – Fala-me tu primeiro da tua paixão.

GABRIEL – Ela é modelo fotográfico, alta, pele morena e olhos verdes, a sua voz é suave e a fala pausada e calma, tem um sorriso incomparavelmente bonito, e fisicamente é de constituição absolutamente perfeita, uma obra prima da criação.

ARISTÍDES – E o nome, essa tua beldade não tem nome?

GABRIEL – Irina, o seu nome é Irina.

ARISTÍDES falando para dentro – Não pode ser quem estou a pensar

GABRIEL – Que se passa tio, parece preocupado?

ARISTÍDES – Cuidado, meu rapaz, que podes apanhar uma desilusão. É perigoso quando uma pessoa se apaixona e pode não ser correspondida.

GABRIEL – Não me parece ter sido o caso, penso mesmo ter sido amor à primeira vista para ambos. Mas terei em atenção os seus conselhos.

 

4ªCena – ARISTÍDES, AMBRÓSIO

   

ARISTÍDES – A menina Irina está?

AMBRÓSIO – Não, foi almoçar, com o menino Gabriel, ele nem me reconheceu, penso que não se deve lembrar de mim. Veio cá tirar as fotografias ontem, parece que simpatizaram um com o outro. Fazem um casal bonito.

 

5ªCena – ARISTÍDES

   

ARISTÍDES – Confirmaram-se os meus receios, tenho que afastá-lo de Irina. Como foi possível isto acontecer?! Tamanha coincidência seria altamente improvável.

 

III Acto

1ªCena – ARISTÍDES, SALVADOR

 

SALVADOR – O amigo, hoje, está com um semblante carregado, o que se passa?

ARISTÍDES – Problemas, muitas preocupações, mas nada que não se resolva.

SALVADOR – E a sua protegida, como está ela? Soube que conseguiu que ela fosse fotografada para uma importante revista.

ARISTÍDES – Ainda hei-de descobrir, como sabe sempre tanta coisa. Estou com pressa, tenho assuntos urgentes a tratar, falamos noutra altura.

 

2ªCena – ARISTÍDES, GABRIEL

   

ARISTÍDES – E então, meu rapaz, que tal tem tudo corrido?

GABRIEL – Muito bem, os seus receios não se confirmaram, e ela ama-me tanto quanto eu a ela.

ARISTÍDES – Cuidado, ela pode ter algum interesse.

GABRIEL – Não se preocupe tio, sei cuidar de mim.

ARISTÍDES – Bom, mudando de assunto: se estiveres interessado, tenho um amigo no Brasil que procura um fotógrafo para uma reportagem sobre a Amazónia. E eu que sei como sempre gostaste de fotografar vida selvagem, falei-lhe de ti. Serão só uns dois meses. È uma aventura fenomenal, só não tento ir eu porque não tenho idade. Tenho a certeza que a tua paixão esperará, este afastamento poderá até servir de estímulo ao futuro da vossa relação.

GABRIEL – Se ela concordar nem pensarei duas vezes, é o que sempre sonhei.

 

3ªCena – ARISTÍDES, IRINA

   

ARISTÍDES – Sabe minha querida, ando há muito tempo para lhe dizer que estou apaixonado por si, queria pedir-la em casamento, mas procurava a altura certa.

IRINA – Estou surpreendida, com isto não contava, sabe tem sido tão bom para mim, não o queria magoar.

ARISTÍDES – Não tem que me responder agora, pense, pense bem.

IRINA – Sabe, fui convidada para tirar umas fotos a uma nova colecção e parto amanhã para o estrangeiro, não queria que pensasse em mim como uma ingrata; ligo-lhe mal chegue.

ARISTÍDES – Então, boa sorte, espero pelo seu telefonema.

 

IV Acto

1ªCena – GABRIEL, ARISTÍDES

   

GABRIEL – Acabei de chegar, tio, e estou cheio de novidades: a reportagem foi fabulosa, será publicada em todo o mundo, mas, a próxima notícia é ainda melhor.

ARISTÍDES – Acalma-te rapaz, respira fundo, conta-me lá essa grande nova.

GABRIEL – No Brasil encontrei a mulher da minha vida e casei-me.

ARISTÍDES – Onde esta a minha sobrinha, quando vou conhecê-la?

GABRIEL – Está no carro, à espera, vou busca-la.

 

2ªCena – ARISTÍDES, GABRIEL, IRINA, SALVADOR

 

  GABRIEL – Aqui está ela, a minha paixão reencontrada no Brasil, por pura coincidência.

ARISTÍDES – Irina, não pode ser, mas….

IRINA, para Aristídes – Aristídes, você é o tio do Gabriel?!!!!…. isto é demais, para mim.

SALVADOR, para dentro – Então a famosa protegida era….. E esta, em?

GABRIEL – Mas vocês já se conhecem?

IRINA, para Gabriel – O teu tio foi o meu mecenas aqui em Portugal, aquela casa onde me visitavas era dele, foi sempre o meu anjo da guarda.

ARISTÍDES – A verdade, é que eu somente empurrei Irina para o destino dela.

GABRIEL – Ainda bem que são amigos assim isto torna tudo ainda mais perfeito.

 

3ªCena – ARISTÍDES, SALVADOR 

 

ARISTÍDES – Como é possível, que ao tentar separá-los apenas os tenha unido ainda mais, até ao ponto de se casarem?!

SALVADOR – Deixe lá, ninguém consegue parar o destino, nem você.

ARISTÍDES – Sou somente um velho tonto pensando que poderia separar duas pessoas que se amam.

SALVADOR – Eu avisei-o.

ARISTÍDES – Pois avisou, caro amigo, pois avisou.

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