Nova Oportunidade

 

Frederico Rendoll era um pintor, de cerca 60 anos, já com bastante nome na praça, já expôs em todas as galerias importantes de Portugal e em bastantes de renome, pelo mundo fora, as suas exposições eram visitadas por centenas, ou mesmo milhares de pessoas, vivia numa casa onde já antes tinha vivido o seu avô materno, um emigrante Belga que tinha chegado em 1880 a Portugal e comprado uma quinta no Douro onde iniciara a produção de vinho, quinta esta, que estava agora nas mãos de seu irmão mais velho Guilherme. Era um casarão enorme em Guimarães, onde Frederico vivia com a sua a empregada que  já vinha desde o tempo de seu pai, a dona Lurdes, uma velha de 80 anos mas ainda enérgica quanto baste. Lurdes pertencia já a uma segunda geração de empregadas dos Rendoll, dado que sua mãe já tinha trabalhado para o avô de Frederico.

Frederico tinha Lurdes como uma segunda mãe e esta era sua confessora. Nunca tinha amado ninguém, só a sua arte, a pintura à qual se tinha dedicado contra vontade de seu pai e somente apoiado às escondidas por seu avô, isto até conseguir sobreviver dela.

 

Frederico tinha acabado de chegar a casa da inauguração de uma exposição retrospectiva da sua carreira, e senta-se no sofá fumando charuto:

-            Então menino Frederico como correu a sua inauguração?…, pela sua cara não parece ter sido grande coisa.

-            A Lurdes tem que me deixar de tratar por menino, afinal tenho quase 60 anos

-            Para mim há de ser sempre o menino Frederico que criei, mas não mude de assunto, diga lá, o que é que correu mal?

-            Sabe Lurdes depois de ver as minhas obras, a sua evolução, cheguei à conclusão de que me ando a repetir já há muito tempo, não tenho feito nada de novo, estagnei e só agora dei por ela. Não sei porquê só agora, sinto que perdi todo o meu tempo com a repetição de uma formula há muito achada e totalmente explorada.

-            Percebo pouco do que o menino quer dizer, mas se acha que está a ficar velho, então o que dizer de mim?

-            Sinto é que não tenho tempo, ou sequer frescura para fazer algo de novo, estou acabado.

-            Vá mas é dormir, vai ver que amanhã acordará rejuvenescido.

 

Frederico dirige-se então para a cama cabisbaixo.

 

No dia seguinte, ao pequeno almoço:

 

-            Sabe Lurdes, acordei diferente, sinto-me mais novo como que se os anos tivessem andado para trás, parece que tenho quarenta anos de novo.

-            Só o menino fala como se tivesse sessenta anos, quando ainda só tem quarenta e cinco, e digo-lhe já andar para trás cinco anos nos não é grande coisa, EhEhEh….

 

Frederico fica calado, de olhos arregalados, olha para Lurdes fixamente durante segundos levanta-se rapidamente.

 

-            Onde é que o menino vai, não come mais. Olha, parece que viu um fantasma.

 

Frederico entra no quarto de banho e dirige-se rapidamente ao espelho:

 

-            Como é que não reparei, realmente parece que tenho menos quinze anos, mas como é que é possível? Não sei como é possível mas vou aproveitar.

 

Frederico corre então a fechar-se no seu atelier onde rodeado de telas se senta a pintar.

 

-            Menino Frederico já é noite e ainda não comeu nada.

-            Deixe aí a comida que já vou buscar.

-            Menino Frederico, voltou a não comer nada, já não come há dias isto não pode continuar assim, não vai aguentar.

-            Deixe-me em paz Lurdes, estou a pintar.

 

Passados quatro dias, só a agua Frederico aparece na cozinha

 

-            Está com um ar doentio, não come nada há dias, parece que o tiraram da campa.

-            Mais valia terem me deixado lá ficar, não percebo, porque rejuvenesci, não consigo, mesmo assim fazer nada de novo, não entendo.

-            O que é que está para aí a dizer?

-            Que mais valia estar morto, do que vivo e inútil.

-            Deixe-se disso e coma.

 

Frederico levanta-se dirige-se á janela e atira-se. Acorda no quarto de um Hospital, tendo  seu lado Lurdes:

 

-            Que susto que o menino me pregou, o que foi isso atirar da janela daquela maneira, em que é que estava a pensar?

-            Em que dia estamos?

-            No dia cinco de Maio do ano 2000, pensava que estávamos quando? Em 1910?

-            Não em 1985.

-            Que brincalhão para alguém que quase se matou.

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