A Jornada

 

João ia a caminho de casa para almoçar, livros na mão e passo ligeiro, só pensava em desistir de tudo, estava farto das aulas, sentia-se desiludido com os outros e principalmente, consigo mesmo, por não saber o que fazer da sua vida. Pára para comer algo, numa pequena mercearia onde, ao balcão, se encontrava um homem muito, mas muito velho. Come e vai embora, segue o seu caminho, até que, quilómetros depois lembra-se: «esqueci-me dos cadernos e preciso deles para trabalhar amanhã,….mas, já é tarde, a loja deve estar mesmo a fechar. Tentemos…».

João encontra a loja fechada, bate à porta,

-     Quem é? – pergunta uma voz trémula.

-     Estive aqui à pouco e esqueci-me duns livros, os quais necessito urgentemente – apressa-se a responder João, ao que se segue um convite para entrar.

-     Entra, e procura os teus livros, estou só a arrumar umas coisas – responde um homem velho, o mesmo que se encontrava ao balcão horas atrás.

João procura o livro desesperadamente, com aquela falta de jeito própria das pessoas muito apressadas, e então o velho recomeça a falar:

 

Peço desculpa esqueci-me de me apresentar, o meu nome é Sebastião. Como podes imaginar, eu também já fui novo como tu, em tempos. Ainda me lembro, então sentia-me á deriva, sem saber o que queria, ou o que devia fazer com a minha pessoa, não tinha motivações para nada, especialmente no que dissesse respeito a trabalho, cheguei á conclusão de que este era desnecessário, lancei-me então pelo mundo, solto tão sem destino, como o meu espírito se encontrava, perdido.

Juntei todas as minhas poupanças, que não eram muitas, comprei uma mochila, variados utensílios e toda a comida que podia carregar, e pus-me a caminho. Fui parar a um continente longínquo e desconhecido, estranho à civilização e povoado de misteriosas gentes.

 Os insectos eram imensos, incomodavam, mas acabei por me habituar. Seguia primeiramente por uma estrada, depois por um estreito carreiro, depois por um caminho pedestre. Parei para comer algo, acabei por adormecer e quando acordei….., o caminho, as marcas, tinham desaparecido. A princípio entrei em paranóia, - como me vou safar desta? – depois concluí que já que me estava a aventurar, assim, pelo menos, era uma aventura por inteiro, e decidir seguir para onde o destino me levasse.

A paisagem era belíssima, caminhava, estava maravilhado, pensava que se morresse ali, pelo menos, teria a sorte de morrer num local belo como existem poucos, até que…….. ouço gente, algo me dizia não serem animais, e então vejo fumo o que vem confirmar as minhas suspeitas, de todos os animais, só o único racional, o homem, tem a capacidade de fazer fogo. Resolvo parar, o contacto humano só me faria bem. Paro, espreito, parecem-me um povo bastante atrasado, têm corpos estranhos, muito peludos, mais como se fossem macacos com alguns panos em cima, decido então observá-los por um dia.

Passam algumas horas, e vejo-os num ritual estranho, parece-me que estavam a cozinhar algo, pois rodavam um espeto no fogo, pergunto-me que espécie de animal seria aquele. Era um homem! Em tempos já tinha ouvido falar em tribos comedoras de homens, e rapidamente desato a correr, faço barulho, eles pressentem-me, e perseguem-me, corro o mais depressa que posso. Algo me agarra, puxa-me para uma gruta escondida na vegetação

«Ssshhh» é o ruído produzido pelo meu salvador; um aviso para fazer pouco barulho, talvez?

Os habitantes da outra tribo parecem desistir, olho então nos olhos deste homem que puxou e salvou, tinha a cara e corpo cobertos por um grande manto preto, era estranho. Pega-me na mão, um toque suave e seguro, e leva-me com ele.

Acordo de novo, estava só numa cabana, sentia-me fraco. «Onde estou?», «que faço aqui?». Lembro-me do sucedido e de ter um salvador. Quem seria aquele homem?

Reuno forças e levanto-me, saí-o da tenda, era noite, a Terra estava iluminada pela lua e pelas estrelas, havia uma claridade espantosa. Vejo uma grande fogueira, para lá caminho, à medida que me vou aproximando ouço vozes, vejo vultos. Para meu espanto denoto que mais próximo ainda, consigo compreender o que dizem, falam uma estranha língua, mas eu entendo-os.

Estava já muito próximo, aquela gente sente-me a aproximar, fazem silêncio. Alguém dirige-se a mim, era uma mulher linda, absolutamente perfeita, os seus movimentos eram leves como se flutuasse, mexia-se como que ao som da música, a pele era morena, olhos grandes e penetrantes, dela emanava algo de especial, direi que brilhava intensamente com luz própria. Agarra-me a mão, sinto algo familiar, então percebo ter sido aquela a mão que me salvou dos canibais. Põe-me a outra mão na boca, - «Não digas nada, anda» - , são as únicas palavras que me dirige.

Chegamos então perto dos outros uma povoação inteiramente feminina, reunida em volta de uma fogueira, as suas vestes eram riquíssimas, bordadas a diamante, todas as mulheres eram lindíssimas, e em nenhuma se notavam vestígios de idade, como se fossem jovens de  vinte e poucos anos, mas os seus rostos e gestos denotavam já, ao mesmo tempo uma certa maturidade. A minha salvadora indica-me um lugar, à esquerda daquela que era a mulher mais bela de todas, não que fosse fácil saber qual era a mais bela, mas desta mulher irradiava uma beleza diferente, uma força extraordinária, era como que um sol no meio de muitas estrelas mais pequenas, só tendo rival na minha salvadora, embora fossem luzes diferentes, esta uma luz mais intensa e forte como que contida, mas prestes a explodir, a outra, que soube mais tarde, ser a rainha, irradiava uma luz branca e plena.

Dirige-me então a palavra, diz-me chamar-se Ìfir, explica-me que devido a uma picada de insecto estive perto da morte, daí as minhas alucinações com o povo peludo e canibal, mas que sua filha me tinha pressentido a tempo de me salvar. Diz-me ter mais de quinhentos anos e ser rainha daquele povo de mulheres que não envelhecem. O seu ciclo de liderança daquele povo estava prestes acabar, a sua filha Naír, a minha salvadora, deveria tomar o comando, mas isto só poderia acontecer quando fosse plenamente mulher, mas para isso teria que encontrar o homem certo, aquele que lhe estava destinado, pois todas as mulheres daquele povo tinham um homem que lhes estava destinado por uma noite, saindo dessa noite a descendente de cada uma, que só teriam um filho cada, e sempre mulher.

O tempo ia passando e devagar aquela gente se dirigia a suas tendas fiquei só eu a rainha e Naír, a rainha pede desculpa e vai-se deitar aconselhando-nos a fazer o mesmo, após esta ter desaparecido de nossa vista, a mão de Naír voltou a agarrar na minha, mas desta vez nem precisou de falar eu já sabia o que fazer, segui-a.

Entramos numa tenda espaçosa, o chão coberto de mantos e estes de diamantes e pedras preciosas. Naír beija-me, e deixa cair a veste que a cobre, fico quieto, não me consigo mexer, aproxima-se e despe-me, deitamo-nos em cima de toda aquela riqueza, acariciando-nos. Aquela noite de amor foi a única vez em toda a minha vida, que me senti no local certo, na hora certa.

Acordei, já estava de novo só, mas o sítio era o mesmo do qual me recordava da noite anterior, e quando Naír entra tenho a certeza não ter sonhado.

Naír sorri lava-me, veste-me e leva-me para o exterior, aí uma refeição espera-me, a rainha Ìfir, diz-me como voltar a encontrar o meu caminho, eu sentia que não podia ficar ali, já tinha cumprido a minha missão, dá-me dois cavalos tendo destes um arcas recheadas de diamantes, que ali pouco valiam, mas no meu mundo seriam uma fortuna incomensurável.

Despeço-me, sigo o meu caminho que encontro com facilidade, mas desta vez volto para trás, para casa, já me tinha encontrado, sabia o que fazer. Cheguei ao meu país, abri esta mercearia que vês, para meu sustento, o resto das riquezas, expandi-as o máximo que consegui, e foi muito, e dei-as a quem precisava, a lares, orfanatos, centro de ajuda social, obras de caridade………..

 

Mas,…….. não te vou tomar mais do teu tempo meu rapaz, visto que deves ter outras coisas para fazer, que não aturar um velho chato. Já encontraste os teus livros

 

- Já sim, à bastante tempo mas, estava encantado a ouvi-lo. Bem, até amanhã e obrigado, Sr Sebastião.

 

E João voltou para casa………………… 

   

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