A faca da Sorte

 

Estamos em Chester um povoado, ou uma pequena cidade, algures nas Terras Altas, no Norte da Escócia, não tinha mais de 300 habitantes. Aqui havia duas famílias importantes, os Mcdorm e os Durie, nas terras das quais a maioria do habitantes desta vila trabalhavam, sendo de excluir desse grupo o dono do bar da vila, o padre, o farmacêutico, a costureira e pouco mais…..

Por tradição o presidente da câmara seria pertencente à família que estivesse mais em alta, e nesse momento era  Sir Justin Durie que ocupava o cargo, sendo que o seu rival e vice-presidente era Collin Mcdorm. A relação entre estes, e mesmo suas famílias, era também, por tradição, pouco saudável, mas parecia vir a melhorar pois, o jovem William Mcdorm estava noivo de Mary Durie e o casamento seria realizado daí a poucos meses. Como seria de esperar os mais descontentes com esta união eram Justin e Collin, rivais desde crianças e que não viam a hipótese de tréguas com bons olhos.

Nesse dia Collin e William tinham ido bar para tomar café e quando saem, dão de caras com Mary que tinha ido comprar algo à farmácia.

«Olá;» diz Mary beijando William a seguidamente.

«Como está a família?» pergunta Collin, «sabes se Justin está na câmara, tenho uma proposta a fazer-lhe?»

Mary olha-o, surpresa por este ter algo a propor ao irmão, conhecia a relação dos dois, mas responde: «acho que sim, mas deve estar de saída, hoje estava com bastante pressa.»

«Tenho que ir-me, vou ver se o apanho;» diz Collin, apressando-se na direcção da câmara municipal, e deixando o casal a sós.

Chegado à câmara, vê Justin a sair, aproxima-se, «tenho algo a propor-te, Justin».

«Não tenho tempo para as tuas merdas, estou com pressa;» responde o interpelado.

«Mas é uma boa proposta para a cidade, que me chegou às mãos, e que gostaria de discutir contigo;» tenta explicar Collin.

Justin continua a andar, como se nada fosse e responde já algo distante; «procura-me amanhã no meu escritório, ou deixa a tal proposta com a minha secretária.» 

Collin chega a casa profundamente irritado, quando entra apercebe-se que, está de visita o velho amigo dos seus pai, o Padre Brown, mas nem houve tempo para os devidos cumprimentos, pois toca o telefone, era a polícia, e queria todos os elementos da família Mcdorm na câmara o mais rápido possivel. Os pais encontravam-se de viajem, então Collin William, os membros da família presentes, foram para o local onde eram esperados com a companhia do padre Brown. Ao aí chegarem dirigiram-se ao departamento da polícia, pois em Chester a esquadra funcionava no edifício da câmara municipal,  daí foram levados, por um agente, para uma das muitas estradas que saíam da cidade; vêem então um carro rodeado pelo inspector, uma equipe de policias, pelo Pai Durie e sua filha Mary. Era o carro de Justin Durie.

«Boa tarde, o que é que se passa aqui?» pergunta Collin Mcdorm.

«Aproximem-se,» diz o inspector.

Os três aproximam-se do carro, dentro deste encontra-se o corpo inerte de Justin Durie. « Sir Justin Durie foi esfaqueado duas vezes dentro do seu carro».

William circunda o carro, e aproxima-se de sua noiva dizendo: «Mas porque é que nós fomos chamados, que temos a ver com isto? Provavelmente foi algum assaltante».

O inspector esboça um sorriso, «é pouco provável, pois não me parece que algo tenha sido roubado, a carteira , o rádio, tudo me parece encontrar-se no carro»

«Podem ter querido roubar alguns documentos dos quais não temos conhecimento,» diz Mary, limpando as lágrimas.

O padre que observava atentamente, apressou-se a dar razão ao inspector, «neste modelo de carro as portas fecham automaticamente e nenhuma foi forçada, daí parece-me lógico, deduzir que foi alguém a quem a vítima abriu a porta, alguém conhecido.»

 Todos os presentes olham aquele homem pequenino admirados por nenhum se ter lembrado disso.

«Mas isso ainda não explica o porquê da nossa chamada,» resmunga Collin.

«Chamei-vos, como chamei a todos aqueles mais próximos das vítima, e diga-se que o senhor era um dos seus maiores rivais, para não dizer inimigos. Soube também que hoje, aliás à poucas horas, Sir Justin foi rude consigo o que o deixou bastante mal humorado.»

«É verdade, mas quem lhe contou isso, suponho que tenha sido a secretária de Justin. Mas, como poderá comprovar, eu estive, desde então, todo o tempo, em casa da Sra. Tryp, com a menina Jeannie;» apressa-se a responder Collin.

O padre Brown olha-o desaprovador, e William espantado, «não sabia que frequentavas locais desses». «Mas depois falámos desse assunto, agora passemos à matéria em questão,» acrescenta o padre, voltando de novo a uma atenta observação do local do crime. «Alguém sabe a quem pertence a faca?» pergunta passados segundos.

«Era do meu filho, ele trazia-a sempre no porta luvas do carro, chamava-lhe a sua faca da sorte», responde o pai Durie, com voz firme e ar duro.

Collin volta a olhar em volta, e lança a dúvida: «mas afinal onde é que se encontra a secretária, que todos sabemos ser também amante de Justin, ela sim devia estar furiosa com ele, pois corria o boato que iria ser despedida, e todos também sabíamos que Justin estava apaixonado por Georgine Caldwell, desde que foi a Londres pela última vez.»

«Aliás meu irmão pensava em ir viver com Georgine,» diz Mary agora já um pouco mais recomposta.

Ouve-se então uma voz vinda de trás: «isso não é verdade. Ainda hoje tive uma conversa com seu irmão; com Georgine tudo tinha sido passageiro, era a mim que ele amava, estávamos só num mau momento.» era a secretária.

«Onde esteve a senhora durante a tarde?» dispara imediatamente o inspector.

A resposta: «fui à mercearia, e depois fui para casa, pois nunca perco a telenovela das seis horas, mas poderá confirmar tudo isto com a minha vizinha Joanne a quem encontrei no supermercado e foi comigo para casa, onde assistimos à telenovela juntas.»

Ouve-se de novo a voz de William Mcdorm, «não acham que está a ficar tarde, já temos todos os factos e ,amanhã, todos pensaremos com mais clareza?»

«Deixemos só a perícia apresentar o relatório de tudo que conseguiram saber até agora»

Ouve-se então alguém cuja voz ainda não tinha sido ouvida, o perito da polícia; «pela incisão dos golpes dir-se-ia que foi alguém canhoto, e talvez de constituição frágil, são golpes pouco fundos, não me parece ter havido luta, mas mais só saberemos amanhã».

«Vamos então dormir, boa noite,» despede-se o inspector.

«Menina Mary, será que posso passar a noite em sua casa, gostaria de falar consigo;» pergunta o padre Brown.

Mary olha para o pai e este responde: «o Sr padre será muito bem-vindo a nossa casa.»

Chegados a casa dos Durie o pai despede-se, mas o padre pede a Mary para ficar mais um pouco. Então começa: «importa-se que fume? Tem lume?» Mary põe a mão no bolso esquerdo e dá lume ao padre, «sabe que, por amor, cometemos os piores crimes, eu sou padre e já assisti a cada coisa; por vezes quando algo, ou alguém se tenta meter no caminho da nossa felicidade.»

Mary olha-o com ar de espantada.

O clérigo continua: «nem sempre temos culpa, na altura não pensamos, são aqueles actos aos quais chamamos crimes passionais, de paixão, onde não entra a razão. Por paixão podemos matar mesmo o próprio irmão.»

Mary tremendo, «Mas, mas….como é que descobriu, como soube que fui eu?»

«Não foi difícil, bastou observar a sua atrapalhação sempre que acusavam alguém; olhando para o seu noivo, com medo que ele fosse um dos visados; é também um facto que a si, Sir Justin abriria a porta do carro, você, supus, era de confiança do seu irmão, mais confiança do que entre irmãos impossível; mas, deixe-me respirar; Os golpes tudo indicava serem femininos, e você ao acender-me o cigarro com o seu isqueiro, que foi buscar ao bolso esquerdo e acendeu com a mão esquerda mostrou-me ser canhota; depois foi só arriscar pois sabia que se a confrontasse não me mentiria.»

Segue-se uma pausa, e Mary pergunta, «e agora o que pretende fazer?»

Deixo ao seu critério, isto para mim é como o segredo da confissão, nada direi, a Mary deve decidir o que fazer e eu aceitarei todas as decisões, desde que ninguém carregue com a sua culpa.

Nunca ninguém descobriu quem matou Justin Durie, e quem o sabia manteve-se calado, Mary e William, foram casados pelo padre Brown três meses depois.

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