UMA FIGURA

CASIMIRO TALAIA


No Café Viana

 

Um curriculum

Nasceu em Braga em 1953. Cedo mostra particular interesse pela música, vindo a dar os primeiros passos musicais como baterista na Banda da Escola Comercial.

Em 1972 ingressa no grupo C.A. - Centro Académico, que continuava a ser a única "escola" de aprendizagem de música da região por intercâmbio de conhecimentos. Por lá passaram, deixando o seu contributo, músicos como Fernando Girão, José Sarmento, Toninho Fernandes, os irmãos Sá Carneiro, Firmino Neiva, Manuel Beleza, Tony Peixoto. Uma lista interminável de pessoas que tiveram naquela instituição a primeira experiência musical. Depois da inevitável passagem pelas forças armadas, participa em algumas bandas de rock até 1980.

Em 1981 faz a sua primeira abordagem ao jazz no Quarteto Preto no Branco, juntamente com Tony Peixoto, M.Beleza e Tony Simões, estreando-se em televisão.

Em 1983, juntamente com M.Beleza, Tony e Paulo Peixoto e Firmino Neiva, funda o grupo Anima. Este, na opinião daqueles músicos, terá sido uma das melhores experiências das suas vidas nas áreas do Jazz/fusion.

Em 1986 decide aprofundar os seus estudos de bateria e inscreve-se na Escola de Jazz do Porto na classe de Mário Barreiros. Naquele estabelecimento de ensino vem a leccionar a cadeira de bateria e a integrar a Orquestra da E. J. Porto liderada por Pedro Abrunhosa.

Em finais da década de 80 integra várias formações com o seu baixista de eleição Firmino Neiva, com quem trabalharia até ao fim dos seus dias. Destacam-se algumas bandas como o Quarteto de Tony Peixoto, a Banda de Maria Anadon e o Quarteto do pianista bracarense José Sarmento.

Em 1993 colabora activamente na constituição da Flauta de Hamelin _ Centro de Ensino Musical de Braga, onde coordena e lecciona a disciplina de Bateria. Assina, também, quer os métodos de bateria daquele Centro de Ensino, quer o próprio software organizativo das bases de dados dos alunos. Entre 1994 e 1995 integra a Hamelin Big Band, projecto musical dentro de uma linha de jazz tradicional.

Em 1996 constitui um trio com o guitarrista Artur Caldeira e Firmino Neiva.

Paralelamente, Casimiro Talaia participa em vários projectos com José Sarmento, tendo actuado em vários países e participado em gravações de discos e programas de televisão.

Em 1999 participou em «Identidades», um intercâmbio cultural Luso-Moçambicano organizado pela cooperativa cultural «Gesto» e pela Faculdade de Belas Artes do Porto. Neste âmbito, integrou o grupo que acompanhou o compositor e cantor João Loio nos concertos realizados nas cidades da Beira e Maputo, em Moçambique, e ainda em Ponta Delgada, na Ilha açoriana de S. Miguel. Sob o patrocínio da «Culturporto» e juntamente com os bracarenses Artur Caldeira, Firmino Neiva e José Sarmento, gravou o CD "Junta Corações" - que veio a ser a sua última prestação em estúdio _ participando igualmente no concerto de lançamento do mesmo em Junho de 2000.

Trabalhou com cantores como Carlos Mendes, Fernando Tordo, Lara Li, Paulo de Carvalho, Mafalda Veiga, Jorge Ferreira, ora em estúdio ora espectáculos em Portugal continental, Açores e Madeira, Macau, França, África do Sul, Venezuela.



Na Flauta de Hamelin - Com Rui Veloso

Recentemente, Talaia dividia-se entre vários projectos musicais, a sua profissão e o Curso de Engenharia. Foi na edição de 2000 da «Festa da Alegria» que realizou o seu último concerto.

Testemunho

Aquele dia iria ficar gravado para sempre na minha memória como o início de uma sincera e duradoira amizade

Estávamos em 1972 na sala onde a nossa banda ensaiava (C.A. _ Centro Académico) e íamos testar um novo baterista. Éramos miúdos, ainda a começar a desbravar os caminhos de um longo percurso musical e naturalmente estávamos ansiosos pela chegada do novo músico. Alguém nos tinha falado dum baterista que tocara na banda da "Escola", mas que não conhecíamos, pois frequentávamos o "Liceu". Enquanto tocávamos, mais ou menos desafinados, os acordes do Evil ways - Carlos Santana, entra no estúdio um tiipo de estatura baixa, de olhos azuis e com um ar bastante decidido a ocupar o lugar vazio. A batida era forte e determinada e a aprovação do novo elemento foi espontânea e unanime, já que se tratava de um músico mais experiente do que qualquer um de nós. Era o Talaia. Logo nos primeiros ensaios a sua capacidade organizativa e o seu método de trabalho revolucionaram o grupo e não tardou a desenvolver-se uma grande amizade entre nós. Passámos juntos, sem dúvida alguma, os melhores anos das nossas vidas, naquela e em muitas outras salas de ensaio.

Do rock ao jazz tocou de tudo um pouco, tornando-se um dos músicos mais versáteis que conheci. O seu feitio explosivo (por não admitir a mínima injustiça), a sua bondade, lealdade e dedicação, quer ao seu amigo quer à própria música, faziam dele uma pessoa muito especial e com uma personalidade inigualável.



No Centro Académico de Braga


A sua desinteressada ajuda, o conselho, a palavra amiga e o apoio incondicional dentro ou fora da música, tantas vezes evitou desmotivações e desavenças no seio do grupo. A teimosia, se é defeito, talvez tenha sido o único que lhe encontrei nestes anos todos, mas tantas vezes ouvi a músicos a utilizar a palavra profissionalismo quando dele se tratava. Profissionalismo, empenho e envolvimento nos projectos onde participava, já que era um amador de música. Amador no sentido lato da palavra, o Talaia foi um amador mais profissional do que o próprio profissional, que tantas vezes é tão amador.

Ajudou mais do que foi ajudado, deu mais do que lhe foi dado e no entanto tão cedo nos deixou! Sempre que penso nele pergunto-me: Para quê tanta preocupação com o amanhã? Porque não viver o dia de hoje mais intensamente? Se nos lembrarmos da vida e obra de Charlie Parker, talvez tenhamos uma resposta! Viveu sessenta e tal anos apenas em trinta e quatro anos de vida!

Segundo o que eu percebi e o que o próprio Talaia me disse algumas vezes naqueles momentos mais sérios daquelas longas noites de cavaqueira, a sua maior preocupação era a sua família e o futuro dos seus filhos. Esta preocupação demonstra talvez a maior virtude do ser humano, que é o amor. Enfim, tudo aquilo que se disser a seu favor soará sempre a pouco para fazer justiça à memória daquilo que foi. De uma coisa estou certo, uma boa parte daquilo que sou hoje, devo-a a ele, pois sempre me encorajou a dar os passos mais difíceis e decisivos no meu trajecto musical.

O Talaia partiu, mas está e estará sempre presente na nossa memória como exemplo de profissionalismo e modelo de ser humano.

Manuel Beleza

"Jazz no Teatro Circo"

Hosted by www.Geocities.ws

1