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 Estudos literários

Sônia Adhariass Soares

::Adélia Prado e o código de Eros: choque ou encontro com a espiritualidade?

::A Literatura e os mistérios – A função profética da escritura

SUELY MARIA ATANÁSIO

::Dostoievski vida e obra

Dostoievski – vida e obra

Estudo de Suely Maria Atanásio

O poder autocrático do estado interferiu negativamente na produção literária russa. Em 1820, o jovem poeta Puchkin foi desterrado por ter escrito a Ode de Liberdade. O Czar de Ferro – Nicolau I – só admitiu seus poemas depois de censurados pelo próprio autocrata. Ao lado disso vigorava o poder de censura da Igreja Ortodoxa – o Santo Sínodo, que aprovava, censurava, ou simplesmente proibia edições. Tão pesado era este jugo que Dostoievski lhe dedicou um capítulo em Os Irmãos Karamazov. Deste poder surgiram inúmeros subterfúgios por parte dos autores – simbolismos que pudessem escapar aos olhos atentos e invasivos dos censores. Mesmo assim houve grandes criadores de obras valiosas para a Literatura, com Gogol, Tolstoi e Dostoievski.

Fiodor Mikhailovitch Dostoievski nasceu em Moscou. Até dez anos morou com a família no hospital onde seu pai – um aristocrata decadente – era médico, marcado, portanto, pelo sofrimento existente no hospital, e também pelo temperamento tirânico do pai, Dostoievski pensou muitas vezes que só a morte do pai o livraria de tanta dor, acrescida da morte precoce da mãe. Estudou na Escola de Engenharia Militar de São Petersburgo, mas em 1843, renunciou à carreira militar e resolutamente concentrou todo seu interesse na literatura.

Em toda sua obra existe a preocupação com o sofrimento do homem socialmente degradado e a pesquisa psicológica. Aderiu a um círculo de intelectuais socialistas. Denunciados por um agente secreto foram todos presos e condenados à morte. Após uma simulação de fuzilamento, a pena foi comutada para quatro anos de trabalhos forçados na Sibéria. Na bagagem levou somente o Evangelho. Dessa única leitura tem a certeza de que os sofrimentos são o preço necessário da redenção e que perdoado ao fim haveria de alcançar a felicidade, mas só após ter sangrado de desespero. Os pobres, as crianças, os indefesos, os puros, os humilhados e ofendidos, os que estão no limite entre a razão e a loucura, os que ouvem mais o coração que o raciocínio são esses os prediletos de Deus e conclui que tais qualidades são as mesmas do povo russo e que na convivência terrível de ladrões, prostitutas, criminosos, jamais deixou de acreditar na bondade humana. Dessas recordações da vida na prisão, Dostoievski conclui: “Posso testemunhar que no ambiente mais ignorante e mesquinho encontrei sinais incontestáveis de uma espiritualidade extremamente viva.”

A solidão gelada e o sofrimento imenso na Sibéria paisagem deprimente, saúde péssima, casamento fracassado, epilepsia – resta-lhe compor um novo romance: Memórias da Casa dos Mortos. Essa obra desperta o povo da apatia, seu nome ressurge. O primeiro livro, POBRE GENTE, obtivera sucesso total de público e de crítica, mas estranhamente, a súbita fama havia declinado: os críticos convenceram-se de que o haviam incentivado sem motivos.

O amadurecimento completo do escritor aparece com Memórias do Subterrâneo. A partir daí ultrapassa os modismos românticos presentes em suas obras anteriores e passa à sondagem dos grandes mistérios da existência, à investigação das mais complexas regiões da alma humana, onde ronda o espectro da loucura e ao refortalecimento das qualidades essenciais de sua gente. Põe-se à procura do homem bom, de um Dom Quixote russo. Delineia seus traços em Aliócha e Zósima de, OS IRMÃOS KARAMAZOV; em Michkin, de O IDIOTA. Se todos os russos se inspirassem nessas personagens, a Rússia estaria salva. E assim poderia estender a salvação a todos os povos eslavos, unidos numa grande família, preservando o amor à pátria e a Deus.

Em O Jogador compõe personagens cujas motivações mais íntimas, cheias de humor e ironia, tornam a obra viva e profunda, na melhor tradição de sua literatura.

Em Os Irmãos Karamazov, segundo Freud “A maior obra da história tomando como núcleo o niilismo e o ateísmo”, o autor não só conversa com o leitor, mas é onipresente e também indica ou infere os pensamentos das incontáveis personagens. Um caso de parricídio, baseado em todo tipo de sublevação de valores sociais: má criação, falta de religiosidade, falta de esperança e outros citados ao longo do livro.

Dos filhos de um pai grosseiro, Ivã é o mais instruído, o mais viajado, o niilista. Pode ser comparado a Dostoievski, no ostracismo religioso e apego a instruir-se depois da morte dos pais.

Dmitri – meio termo entre o bem e o mal, que seriam justamente o cristianismo e o niilismo, na opinião do autor.

Esse ressentimento que Dostoievski expõe na postura niilista vem do tédio em que os socialistas russos com quem estreitou relações viviam, pela falta de esperança.

Em suas outras obras, Dostoievski exibe sua capacidade de criar personagens, mantém o jogo entre Bem e Mal em Crime e Castigo; surpreende o leitor com seu talento irônico para a comédia em O Eterno Marido, romance curto, onde pontilha o humor sutil em clima de suspense trágico.

Nos contos O Crocodilo, Pilhéria Sem Graça, Um Pequeno Herói desponta a crítica ao sistema em elaborada simbologia.

Suely Maria Atanásio

ADÉLIA PRADO e o código de Eros:
choque ou encontro com a espiritualidade?

Sônia Adhariass Soares

Há vários estudos sobre a simbologia sexual encontrada em contos de fadas, lendas mitológicas e obras poéticas. Alguns autores podem até considerar delirante tal abordagem, mas que os fundamentos existem, existem.

Em Adélia Prado, a metáfora de Eros é onipresente. Sua poética vem carregada de símbolos sexuais, mais que os textos em prosa, onde a clareza exigida torna tudo mais exposto.

A flauta já foi reconhecida por vários estudiosos como símbolo fálico.

Para que não haja dúvidas, nem seja esta escriba tachada de louca, iniciemos com atenção a leitura de Adélia erótica, neste poema, centrado em uma “flauta”.

Uma vez visto

 Para o homem com a flauta

sua boca e mãos,

eu fico calada.

Me viro em dócil,

sábia de fazer com veludos

uma caixa.

O homem com a flauta

é meu susto pênsil

que nunca vou explicar,

porque flauta é flauta,

boca é boca,

mão é mão.

Como os ratos da fábula eu o sigo

roendo inroível amor.

O homem com a flauta existe?

Nos dois primeiros versos, a poeta nivela o objeto flauta com boca e mãos, tornando-os da mesma natureza corporal - codifica-se e decodifica-se o órgão genital masculino, unido às mãos e à boca no ato de amar fisicamente. “Eu fico calada”, isto é “não exponho o meu desejo, tão diferente dos seus”...

Nos três versos seguintes, codifica-se e decodifica-se o órgão genital feminino:

 “Me viro em dócil

sábia de fazer com veludos

uma caixa.”

Essa caixa, forrada com “veludos” encontra o seu correspondente no dicionário Aurélio, p. 213, terceiro verbete, com a primeira definição: “caixinha redonda, oval ou oblonga”. Verifiquem. O vocábulo tornou-se chulo pelo fato de ser usado pelo povo para designar “vulva”, “vagina” ... Mas pertencia à linguagem do dia a dia em seu sentido denotativo. Podemos, portanto sem sombra de dúvida, compreender metaforicamente essa “caixa de guardar flauta”.

Nos três versos seguintes:

“O homem com a flauta

é meu susto pênsil

que nunca vou explicar, (...)”

Entenda-se: a masculinidade pênsil, (suspensa entre colunas/pernas) - ou oscilante, tanto no plano físico, como no plano psíquico, sempre a surpreende, talvez pela extrema fragilidade... E não a explica jamais por ser impossível à natureza feminina tal explicação. Depois:

“porque flauta é flauta,

boca é boca,

mão é mão.”

 Neste ponto, usando a repetição, apela para o denotativo que, pela própria desnecessidade de explicação, volta a ser metafórico, graças ao que se espera destas três coisas, em que se unem as sensações táteis com as auditivas e as gustativas, todas prometendo prazer. Continuando:

“Como os ratos da fábula

eu o sigo roendo inroível amor.

O homem com a flauta existe?”

 (Existe a humanidade amorosa no homem? Ou rege-o apenas o instinto animal, o macho, representado pelo objeto flauta, em seu sentido metafórico aqui abordado?).

Comparando-se aos ratos do flautista de Hamelin, pela misteriosa e inelutável atração, falando em lugar da mulher,em sentido universal, rói a grande dúvida: para ser real, existir de fato, além de tátil, audível, perceptível ao paladar, isto é, reconhecido só pelo corpo, teria de ser, também reconhecido pelo espírito: inroível... de eternidade incontestável, que só a mulher consegue abstrair. Sem flauta.

(Por isso já dizia Paul Geraldy: “O amor, que é para o homem apenas um verso, para a mulher, um poema inteiro.”)

Sônia Adhariass Soares Para o grupo de leitura Mania de Ler. Sesc/Santos, 20 de julho de 2004.

A Literatura e os mistérios – A função profética da escritura

Sônia Adhariass Soares

Amante da literatura antes mesmo de optar profissionalmente pela área, pude perceber após anos de muita leitura, que certos escritores, principalmente os poetas, nada mais são que magos, profetas, praticantes da mais pura elaboração alquímica, com seus escritos e com seus versos. Como para confirmar esta tese, Adélia Prado – que todos devem conhecer – principalmente quem ama o teatro – por meio da magnífica interpretação de seu texto fantástico, Dona Doida, por Fernanda Montenegro –, Adélia Prado, grandiosa poeta do atual cenário brasileiro, com a simplicidade que caracteriza seu esplendor, explicou a Jô Soares que o nome de seu livro de poemas – Oráculos de Maio – se deve ao fato de que considera a poesia um oráculo, um dom profético...

Vejo que esta grande verdade deva fazer parte de nossa reflexão. É a poesia, é a leitura em alguns casos, um instrumento de meditação? Pode levar-nos a adentrar os mistérios, conduzir-nos às respostas que tanto desejamos sobre nossa origem, as razões de nossa existência humana? Sobre o clássico “de onde viemos, para onde vamos?” Não hesito em responder – sim !

A poesia de Adélia Prado surpreende o leitor por sua clarividência. Conhecendo-lhe as origens de cristã, católica praticante – que faz questão de manter cultuadas – sua criação sob as normas conservadoras de Minas Gerais, mais surpreso ainda fica o leitor: ela derrama sobre o verso a sua indagação cósmica, a sua adivinhação mítica, usando muitas vezes a linguagem proibida às “boas famílias” de que faz parte... mantendo, contudo, respeitável e intata a sua tradição. O poeta pode tudo, tem todos os direitos enquanto se move no mundo que lhe pertence, e transcende o banal, o chulo, alcançando a dimensão da divindade... Em Oráculos de Maio, logo de início, ela implora – evidentemente a Deus, desafiante, em O Poeta Ficou Cansado:

Por que não gritas, Tu mesmo,

a miraculosa trama dos teares,

já que a Tua voz reboa

nos quatro cantos do mundo?

(Para os religiosos, isto se assemelha a uma blasfêmia, talvez...)

E mais adiante, como quem estivesse cansada de escrever e desejasse uma vida simples, sem os louros e o peso da produção literária:

Ó Deus,

Me deixa trabalhar na cozinha,

nem vendedor nem escrivão,

me deixa fazer Teu pão.

Filha, diz-me o Senhor,

eu só como palavras.

Observemos agora o poema DOMUS (domus = casa):

Com seus olhos estáticos na cumeeira

a casa olha o homem.

A intervalos

lhe estremecem os ouvidos,

de paredes sensíveis,

discernentes:

agora é amor,

agora é injúria,

punhos contra a parede,

pânico.

Comove Deus

a casa que o homem fez para morar,

Deus que também tem os olhos

na cumeeira do mundo.

Pede piedade a casa por seu dono

e suas fantasias de felicidade.

sofre a que parece impassível.

É viva a casa e fala.

Não sei se Adélia Prado caminhou pelas veredas cabalísticas. Porém este poema fala por si mesmo: a Cabala afirma que cada partícula de matéria é energia e tem sua inteligência própria. Não se trata, portanto de uma simples personificação. É o que em literatura chamam epifania.

(Para concordar ou refutar, ler também os outros poemas de Oráculos de Maio.)

Continuando a galeria dos poetas proféticos, lancemos nosso olhar de catadores de mistérios a Fernando Pessoa, o grande poeta português, cuja obra é cultuada no mundo inteiro.

Fernando Pessoa mergulhou fundo no mar dos segredos místicos. Segundo seus biógrafos, dedicava-se à Astrologia, era um legítimo ocultista. Uma característica intrigante em seu trabalho é o empenho em atribuir diferentes nomes aos autores de sua poesia: atenção –heterônimos! não pseudônimos que escondessem o mesmo autor! Para cada um criou uma biografia, todos de personalidades muito diferentes entre si. Como desejando exercer o seu poder como um Deus, criando pessoas, que, por sua vez, criavam literatura. Nunca se preocupou em tornar-se famoso e popular, tanto que só veio a sê-lo depois de morto. E o interesse por sua obra tornou-se enorme. Quantas especulações desperta a sua heteronímia!... – Psicografia? Patologia? Seria um médium? Seria um doente mental? – Para nós, o fato só pode ser fruto de suas poderosas antenas, em sintonia com todas as ondas cósmicas, ampliando o seu campo de ação, neutralizando tempo e espaço, instaurando uma realidade própria de capacidade mental, que ultrapassa os modesto percentual em que o cérebro humano está habituado a funcionar...

Na Nota Preliminar de Mensagem, discorrendo sobre os símbolos e sobre os rituais simbólicos, enumerando as qualidades necessárias ao entendimento deles, o autor conceitua quatro das condições essenciais: a simpatia – isto é simpatia pelos símbolos –, a intuição – pela qual se entende o que está além dos símbolos –, a inteligência – que permite interpretar o símbolo –, a compreensão – que nasce do conjunto e da variedade de conhecimentos anteriores –, e conclui, de forma surpreendente: “A quinta é menos definível. Direi talvez, falando a uns, que é a graça, falando a outros, que é a mão do Superior Incógnito, falando a terceiros, que é o Conhecimento e a Conversação do Santo Anjo da Guarda...”

Assim se conclui que não foram os teóricos que traçaram parâmetros para exegese de sua obra – ele mesmo apresentou as diretrizes – a edição crítica da Scipione Cultural, coordenada por José Augusto Seabra, exibe em sua capa o título e o subtítulo, assumidamente: MENSAGEM – poemas esotéricos. É uma rica edição, cientificamente tratada, com a colaboração dos maiores estudiosos de Pessoa.

Além dos conhecidíssimos “Navegar é preciso. Viver não é preciso” e “Valeu a pena? Tudo vale a pena/Se a alma não é pequena” registra, profeticamente, a certeza colhida na Cabala:

“Quantas coisas, que temos por nossas, não são mais que aquilo de que somos perfeitos espelhos, ou invólucros transparentes alheios no sangue à raça de sua natureza!”

Maria Aliete Galhoz, uma das principais teóricas a debruçar-se sobre vida e obra de Pessoa, em determinado momento, indaga, com certo deslumbramento angustiado: “Quem, afinal, Fernando Pessoa? O poeta de vôo alto? O perturbante virtuoso do exercício do raciocínio? O humorista intelectual do non sense? O ocultista diletante que levantava horóscopos? O esteta impecável de frialdades irônicas? O congeminador de proféticos e matemáticos Quinto-Impérios do espírito?” E permanecem as questões sem respostas satisfatórias. Para deixar mais evidente a busca metafísica e a vocação profética de Fernando Pessoa, é bom lembrar alguns de seus versos, que comprovam o mergulho cabalístico de forma indiscutível:

“Às vezes sou o Deus que trago em mim”

ou:

“Deus é o Homem de outro Deus maior;

Adão Supremo também teve Queda;

Também, como foi nosso Criador,

Foi criado, e a verdade lhe morreu...

De além do Abismo, Espírito Seu lha veda:

Aquém não há no Mundo, Corpo seu.”

 Ainda a alusão ao sonho do deus Vishnu:

 “Eu não sei o que sou.

Não sei se sou o sonho

Que alguém de outro mundo esteja tendo...”

E mais, o grito contra a “consciência robótica”, conceito cabalístico associado ao símbolo de Satã, que leva a humanidade a correr em fantasiosa busca de dinheiro e de poder:

“Baste a quem baste o que lhe basta

O bastante de lhe bastar!

A vida é breve, a alma é vasta:

Ter é tardar!”

No Brasil, temos outra bela e mágica sibila: Cecília Meireles. Sua ardente poesia passeia pelos mistérios com uma naturalidade única. Em suas viagens à mística Índia e a outros países do Oriente, sobre os quais já desenvolvera estudos desde muito jovem, sorveu em abundância do cálice da sabedoria. Mas creio que o teria feito, mesmo sem ter viajado, graças à riqueza de seu universo interior. É ela que diz:

“A história da minha vida

quem a esconde

em terras de muito longe,

numa pedra escrita?

Pelas névoas da lonjura

vou buscar-me.

Deve estar em qualquer parte

a voz que minha alma escuta.”

A voz que lhe está dizendo:

 “vem comigo,

que eu te levo a um paraíso

onde há uma árvore de Vento,

e as estrelas vão passando

nas águas que vão correndo.”

 Ao ler estes versos, não podemos deixar de fazer analogia com a Árvore da Vida, símbolo máximo da Cabala Hebraica, e este ato de ouvir as ondas espaço, próprio dos profetas, dos iniciados, dos magos e, constatamos, afinal: dos poetas!

Que dizer então de Drummond, glória da poesia brasileira, nesta nossa rápida e despretensiosa análise? Seus poemas gritam alto e bom som a missão profética, em perfeita síntese do cosmos... Vejamos. No poema Os Ombros Suportam o Mundo:

“As guerras, as fomes as discussões dentro dos edifícios

provam apenas que a vida prossegue

e nem todos se libertaram ainda.”

 Em A Noite Dissolve os Homens, registra a certeza de que a vida, sinônimo de luz, é invencível:

“(...)

os corpos hirtos adquirem uma fluidez,

uma inocência, um perdão simples e macio...

Havemos de amanhecer.”

Em Os Animais do Presépio, em que a condição humana se funde com a natureza animal e a transcende, ao fim , alcançando a dimensão espiritual:

“A vária condição

por onde se atropela

essa ânsia de explicar-me

agora se apascenta

à sombra do galpão

neste sinal: sou anjo.”

(Grifos meus.)

Finalmente, para dar mais força ao que buscamos comprovar, evocamos o poema feito por Drummond, em homenagem a Machado de Assis em que chama de “bruxo” o colega escritor – A Um Bruxo, com Amor – reconhecendo, portanto, a função mágica da escritura. Após decantar o poder de Machado e de sua obra, encerra, com tintas angélicas:

“Dás volta à chave,

envolve-te na capa,

e qual novo Ariel, sem mais resposta,

sais pela janela, dissolves-te no ar.”

Esses magníficos artesãos da palavra fazem-nos lembrar da antiga lição:

“No princípio era o Verbo e o Verbo se fez carne...” Ouso afirmar que as rimas, o ritmo, a seleção paradigmática e a sintagmática nada mais são do que a instauração de uma linguagem cósmica que visa a ultrapassar todas as barreiras, restabelecendo o diálogo com nossa Fonte Original... e essa constatação obriga-me a instar, envolvendo a humanidade – Vamos ler! Vamos escrever! Vamos todos ser poetas! Vamos todos ser profetas! Ou, pelo menos, tentar...

Tentativa

Sônia Adhariass Soares

Olho para o mundo

Com olhos de barro soprado

De luz e de energia...

Em cristal é transformado

O olhar que fulge aleluias

Em fagulhas de alegria.

Não há cântaros nem cuias

Que contenham esta água

Nem de rio nem de mar –

Pura matéria estelar.

Olho para o mundo

Com o espírito sagrado

Do pássaro e da jia

Do cometa iluminado

Das flores e das imbuias

Santo culto de magia.

Não há hunos nem tapuias

Que extingam essa frágua

Nem de estrela nem de sol –

Só de Deus, Uno, crisol!

Santos, 30 de junho de 1999.

Sônia Adhariass Soares – Publicado na Revista de Literatura Espiral. Ed. ABC Ltda. Fortaleza – CE.

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