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 Crônicas

EUNICE TOMÉ

::Canais de Santos - Nossas referências

 neiva pavesi

::Aprendizes

::Levanta-te e anda!

Canais de Santos – Nossas referências

Eunice Tomé

Todas as cidades têm seus ícones. Entre os vários marcos que Santos possui, sem dúvida alguma, os canais são os mais referenciais. São como colunas vertebrais que sustentam a parte física de seu traçado, vindas de dentro para fora, do centro para a orla.

Engendrado o projeto pelo engenheiro sanitarista Saturnino de Brito, solução para o fluxo de águas servidas, seu criador nem imaginava que, por outro lado, suas funções seriam ampliadas como outros meios: de comunicação, de marco simbólico, de brincadeiras e de visual urbanístico.

Vale a pena trabalhar com essa idéia e pensar a obra com olhos poéticos e saudosistas. Quem foi criança em tempos idos, teve, principalmente os meninos, a oportunidade de pegar peixinhos no interior dos canais, pular de um lado para outro e de se perder na longitude de suas águas que avançavam para o mar em dias de maré cheia e de chuva. Esse é um dos registros memoráveis de uma geração inteira, que fugia aos olhos da mãe e, curtindo a liberdade, entrava naquele espaço de prazeres sem fim, inclusive viajando nos barquinhos de papel que chegavam até a barra e atingiam os oceanos.

Na fase juvenil, as beiras ou pontes do canal eram os pontos de encontro dos garotos, que sentavam nas grades para jogar conversa fora e trocar as suas experiências de descobertas de um mundo novo. Era como um santuário, onde eles confessavam que já eram homens adultos, com todos os hormônios a aflorar. Nem tudo era pureza, mas comparando com o momento atual, sem dúvida, eram sacanagens permitidas.

Como marco de comunicação, os santistas costumam dizer que moram no canal 1, 2, 3..., quando na verdade residem em ruas próximas, transversais ou paralelas aos canais. É uma forma de situar, como se dissessem o nome do bairro ou da região. Isso também acontece com os turistas que pouco conhecem o desenho do município, mas acabam por localizar-se pelos canais que cortam toda a avenida da praia.

A sua numeração define ainda, em seu entorno, alguns points marcantes e conhecidos de todos e acabam por ser referências de baladas, de esportes, lazer, ginástica, gastronomia e, bem recentemente, de passeios ciclísticos. Turmas e grupos de jovens também são denominados e conhecidos por esses marcos simbólicos, às vezes havendo até disputa entre eles.

Embora todos os sete canais (sem contar alguns menores que deságuam nos principais) tenham semelhanças em seu visual, cada qual conta com suas diferenças – um tipo de árvore que o ladeia (os jamboleiros do canal 3), uma altura maior mais, uma abertura mais ampla, maior ou menor quantidade de pontes para pedestres e veículos, que cruzam de um lado a outro, e outros tantos detalhes característicos. Todos com sua personalidade própria, completamente integrados ao aspecto urbano.

Os moradores mais velhos, aqueles que têm tempo de refletir sobre a vida e seus enigmas, param para olhar aquelas águas passadas e que, repetidamente, chegam ao mar, em fluxos e refluxos, levando não só dejetos, mas tantos sonhos, lembranças e alegrias. É como um ritual de passagem, onde pela canalização fossem ocorrendo fenômenos de purificação e renovação.

Tudo vai mudando, inclusive as gerações. Só os canais ficam como personagens oculares e guardiões da cidade, nesses cem anos de existência. Seus traçados, como vimos, são mais que marcos físicos. São como veias que singram o corpo e a alma dos santistas.

Eunice Tomé – Jornalista, mestre em Comunicação e escritora.

Aprendizes

Neiva Pavesi

Na carta que recebo há um apelo: "Amiga, socorro! a vontade de escrever poemas é insistente. Diga-me, pois, onde posso aprender a ser poeta?". Fazer poesia, amigo, é uma arte e, tal qual as demais, exige uma alma sensível e um modo diferente de ver e ler o mundo. Nascemos com o olhar meio esquisito, meio estranho, e fazemos leituras não convencionais do que acontece à nossa volta. O poeta, observador contumaz, transforma a realidade, filtrando-a através das lentes de seus olhos míopes. Já reparou que a maioria dos escritores usa óculos? Os que corrigem a miopia? Ah! Com certeza, sua alma continua poética. Creio que a miopia é a forma real de ver este mundo de ilusão. O poeta pode ser um fingidor, fingindo ser amargura, a amargura que sente ao seu redor. O poeta conta suas venturas e desventuras, canta, ou chora, seus amores, mostra caminhos, desperta consciências, exercita a cidadania, sente a natureza, com palavras cuidadosa e agradavelmente alinhavadas na maravilhosa colcha de retalhos que é a Vida. Poeta, então, há de ter sensibilidade para ler nas entrelinhas do cotidiano, para ver beleza na simplicidade, sentir o aroma do amor e ouvir vozes poéticas nos ruídos banais. O poeta não sufoca a criança que vive nele, pois é dela seu olhar de poesia. Entretanto, a sensibilidade sozinha não faz o poeta. Depois de ler na pauta da vida a música das palavras, deve saber escrevê-las. Daí, tem razão Emília Ferreiro: "só se aprende a escrever, lendo". Poeta que é poeta, lê muito, todo dia, a toda hora, a vida toda. Dos clássicos aos populares e, aprendendo com eles, corrige seus textos, tantas vezes quantas forem necessárias, até tornar clara e objetiva a mensagem que deseja levar aos leitores. Poeta que é poeta, usa o dicionário e conhece as regras gramaticais básicas da língua portuguesa. Submete seu texto à apreciação de quem a conhece mais do que ele; pede a escritores experientes que o leiam. Esse procedimento detecta incorreções e incoerências que passam despercebidas ao autor: cacofonia, sopa de pronomes, erros de grafia, de concordância... Almir de Freitas ensina que transgressões podem ser perigosas e não são sinônimo de vanguarda. Assim, regras gramaticais subvertidas, repetição de palavras, hiatos de textos, diálogos inconsistentes, histórias picotadas, frases soltas e truques mágicos, nada dizem. Em literatura é preciso reinventar, claro, mas dentro de parâmetros consistentes. Poeta que é poeta, pode até inspirar-se em textos de autores consagrados mas jamais clonará seus poemas. Poeta que é poeta, nunca pára de aprender achando que já sabe tudo. Continua aprendiz da magia da vida e do encantamento das palavras. Lê e relê seus autores preferidos, descobrindo novas nuanças a cada parágrafo, como se fosse a primeira vez. Poeta que é poeta, sabe que somente o tempo e a leitura aprimorarão seus textos. Amigo, não há um lugar determinado que ensine a poetar. As escolas podem despertar a sensibilidade que a maioria tem e nem se dá conta. Todas as escolas podem exercitar a boa leitura e a escrita. Para muitos, porém, sensibilidade é uma fraqueza; assim, fecham-se como uma concha, endurecem os sentidos, tornam-se avessos a qualquer sinal de beleza, recusam-se a ouvir o canto dos pássaros, o marulhar das ondas, o ciciar do vento. Para essas pobres criaturas, o mundo é uma paisagem lunar e só conseguem ver crateras sombreadas onde há canteiros coloridos e luminosos. Ao extirparem de si, qual um câncer, o olhar poético, tornam-se secos por dentro e, áridos, caminham pela vida incapazes de sorrir, de ter um gesto de carinho, de amar a si e aos demais. Morrem sem saber que a Vida é uma festa colorida, que da rotina cotidiana pode brotar a beleza que aguça a sensibilidade que leva à poesia. O resultado dessa insensibilidade perversa é o mundo que temos hoje. Os meios de comunicação prestariam serviço de utilidade pública e de cidadania se incluíssem a poesia em sua programação, saciando a fome de sensibilidade e de palavras prazerosas que enlouquece o mundo. Afinal, "a gente não quer só comida..." Amigo, precisamos de mais poesias e menos armas. Bem-vindo, poeta. Seja conosco.

Neiva Pavesi - Crônica publicada em A Tribuna de 13.9.2003 na seção Ponto de Vista.

Levanta-te e anda! (Lucas 5,24)

Neiva Pavesi

Não receberei correspondência que tenha o carimbo de Fechamento Autorizado. Pode ser aberto pela ECT. Porque não autorizei ninguém a fazer isso. Diz a Lei (ora, a Lei!) que minha correspondência é inviolável. Assim sendo, não quero receber cartas que possam ser abertas sem a minha autorização. Dizem que há correspondências perigosas. Mais perigosos do que esses tais que estão diariamente na mídia? E as cartas-bomba que explodem nas mãos do destinatário? Houve prevenção? Algum tipo de detecção do perigo que possa justificar a existência do famigerado carimbo? Quero encontrar alguém que me oriente a respeito.

Minha mãe e duas de minhas irmãs trabalharam na então EBCT em época de seriedade. Pelo menos da parte delas e de milhares de servidores honestos, competentes, que deram à empresa o perfil de dignidade e confiabilidade que teve até há pouco. Minha mãe era de uma fidelidade inacreditável, de uma consciência profissional impressionante, de uma dedicação ao serviço admirável. Amava seu trabalho, tinha orgulho de pertencer à EBCT, vivia em função da empresa. Graças a Deus, não está aqui para ver o que fizeram com a empresa os que têm "sede e fome de cobiça", como disse o poeta Martins Fontes. Minhas irmãs sentem-se frustradas. Onde foram parar tantos anos de dedicação à empresa? Eu digo: no lixo.

No finalzinho da década de 90, fiquei abalada ao saber da corrupção existente na ECT, por um amigo que tinha, na época, uma franquia postal. Ele estava desesperado: doente, com um câncer letal, despesas médicas e hospitalares maiores que seu bolso, tinha de enviar cinco mil reais a um político. Meu amigo já se foi e o "coisa ruim" continua na mídia; é um dos acusadores dos que hoje recebem propinas. Que moral tem para apontar o dedo contra alguém? Ele e tantos outros que hoje se fazem de santos, apenas porque não foram pegos?

Vivo um tempo surrealista onde os valores estão subvertidos e os subumanos chamados homens, apenas por terem testículos, fazem os cidadãos honestos vomitarem. Sei que Deus é brasileiro e escreve certo por linhas tortas. A dose tem um certo exagero, embora o povo brasileiro mereça passar por esse vexame para sair da senzala da acomodação e merecer a liberdade. Que leva à lucidez do discernimento para julgar as pessoas pelo que são e jamais pelo seu poder de barganha e manipulação. Muitos reclamam da calamitosa situação vigente, mas querem também tirar uma casquinha, levar alguma vantagem, esquecendo-se de que, na verdade, só há corruptores onde há os que se deixam corromper.

Está mais do que na hora de aprendermos algumas lições. Desde 1500 estamos atolados até o pescoço, marcando passo sempre na mesma lama. Acorda, gente! Ficar "deitado eternamente em berço esplêndido" é apenas figura de linguagem! Alguém, muito especial disse, há dois mil anos, a um paralítico: "Levanta-te e anda!" Com certeza estava falando conosco.

Neiva Pavesi - Crônica publicada em A Tribuna de 30.9.2005 na seção Ponto de Vista.

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