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Sônia Adarias Soares Bruno Vou indo por uma estrada de terra, batida em alguns pontos, com marcas de carroças e de patas; terra vermelha solta, em outros. Estou seminu. Somente uma tanga de plumas. Minhas alpercatas de fibra vegetal, gastas, quase rompidas. Minha musculatura forte, recobre-se de suor brilhante. Estranho a falta de pelos. Ao passar a mão na testa para enxugar o suor, sinto outras plumas ali presas. Arranco o cordão que contorna o crânio e constato: penas de arara – duas vermelhas, uma azul. Gosto dessas cores. Ouço um galope e olho na direção do ruído. Lá longe. Aproximando-se. Percebo que se trata de uma mulher pelo volume dos seios. E ela me causa terror. Resolvo fugir e corro. Mas não saio do lugar. O galope se aproxima e fico ofegante, o medo percorre minhas veias, uma cobra de gelo desliza por minha coluna. A poeira levantada pelos cascos me faz tossir, tossir incontrolavelmente. Curvo-me até ficar de joelhos, costas dobradas, rosto quase no chão. O cavalo pára indócil ao meu lado. Assim que sossega, crio ânimo nem sei como, e olho para cima. A amazona me fita desdenhosa, tira o chapéu, solta os longos cabelos, negros, negros. O meu espanto é maior – o rosto é meu. Sinto que a vista me foge. Tudo desaparece. ... Todas as noites, ou quase, o mesmo sonho. O analista diz que é um sonho recorrente, cujo significado devo buscar nas longas sessões a que me submeto quinzenalmente; que deve ser um símbolo de algo que me incomoda, alguma coisa pela qual eu fui parar ali, naquele sofá, falando, falando, falando. Olho para as almofadas em vários tons de lilás e penetro um limbo, no embalo de minha própria voz. Parece que estou ali, a falar, por muito tempo. Mas se tivesse ultrapassado o horário ele teria avisado. Pago por hora, e ele tem muitos clientes. Todo o dinheiro que possa ganhar, com uma facilidade atordoante, não me dá a tranqüilidade. Na infância paupérrima, sempre desejando coisas, às vezes essenciais, sem poder tê-las por falta de recursos; minha mãe sempre exausta, lavando e passando roupas alheias, o rosto vincado, a face precocemente enrugada. Até hoje, trinta anos depois, consigo visualizar as paredes úmidas, as goteiras nos dias de chuva, o abafamento nos dias de verão, o eterno estar-no-mundo, sem conforto nem beleza. Mas uma saúde física milagrosa me habita. Com ela jogo e ganho, jogo e ganho – troféus e mais troféus, dinheiro, muito dinheiro. Fama. Poder. Menos o que tanto desejo: paz e tranqüilidade. Até no sono o índio e o cavalo me perseguem. O galope e eu tentando correr. Olho para o horizonte distante e agora vejo um vulto enfumaçado. Não distingo seus contornos, e o galope atrás de mim continua. Só que agora consigo sair do lugar. Minhas pernas se flexionam, elásticas e rápidas em passos longos, que imediatamente se transformam em uma corrida veloz em direção ao vulto do horizonte. É uma árvore, galhos longos e folhosos balançam-se como num aceno para mim, e eu vou. Mergulho em seu caule que se abre magicamente. Sou seiva, sou cerne, sou folhas, sou flores, sou frutos. Agora tenho paz e, alegremente, saúdo o amanhecer, os primeiros raios de sol a enxugar o orvalho de minha verde copa.
(Conto de autoria de Regina Alonso, escritora de Santos - Prêmio Mapa Cultural Paulista - Edição 2007-2008.) Calor infernal. Impossível dormir. O velho embala a criança na rede. Olhar resignado. O choro continua noite afora. Nada para o café. O filho e a mulher saem pela caatinga - algum resto de animal, alguma carniça hão de encontrar - pensa o velho. Senta-se com o neto nos braços, mas o choro da criança recomeça sentindo o colo duro, ossos quase perfurando a pele. É quando pousa o urubu apenas a alguns metros de distância. Avanços e recuos sem encarar o velho nos olhos. Levanta-se o avô; recoloca a criança na rede. Choro forte - fome roendo-lhe as entranhas. Sem desviar a atenção da ave sorrateira, rápido, o avô prepara o laço dependurado num prego da parede de pau a pique. Ah, velhos tempos quando ainda encontrava algum boi magro vagando na caatinga e saciava a fome da família! Ossos fervidos para retirar qualquer sumo, bebido com sofreguidão em meio ao sol abrasador! Enxuga o suor com as costas das mãos. Tenta firmar os olhos cansados. E zás, laça o urubu pelo pescoço. A ave resiste, mas o velho não recua. Prende o cordão numa pedra. Pega a criança no colo. Umedece-lhe os lábios rachados com um resto da própria saliva. O choro do menino, agora, é feito de soluços. O avô mostra-lhe a presa. O urubu olha desconfiado. O menino silencia, quando o velho pega a ponta do cordão e arrasta a ave pela terra crestada. O urubu tenta escapar. O avô aperta o nó e do pescoço que sangra, caem algumas penas. O prisioneiro estanca de dor. Novo puxão arrasta-o; a pata direita bate fortemente na pedra. Com um dedo quebrado, o urubu entrega-se. Parece um cão domesticado. No rosto da criança, ensaios de um sorriso. O velho reconforta-se. Retornam o filho e a nora. De mãos vazias. Terra vermelha grudada nos corpos cobertos de suor. Na lata, bebem um resto de água barrenta. Deitam-se na rede; olhos esbugalhados, sem forças até para fechá-los. Manhãs e noites. Idas e vindas pela caatinga. Nada. O urubu distraindo o velho e a criança, medindo forças... mas em cada ponta da corda, a mesma fome os une. Manhã. Sol escaldante. A criança berra. No fundo da lata, mais barro do que água. O avô vai buscar o urubu para acalmar o neto. Só encontra a corda roída e as marcas das patas no chão. Abaixa a cabeça, resignado. Volta até a rede; curva-se sobre o neto e tenta acalmá-lo. O filho vem ao seu encontro. Cabisbaixo, avisa que o velho precisa partir. Não há alimento e a água é quase nada para repartir por quatro. Chapéu de couro na cabeça, o velho caminha sem olhar para trás. O choro da criança acompanha-o por muito tempo. Até que não escuta mais nada, só o vento seco na caatinga. Súbito, percebe um movimento sobre as pedras. Algum lagarto? Arma-se com um galho. O estômago ronca alto. O velho lamenta-se - e se a caça fugir? Sorrateiro, sobe numa das pedras para enxergar melhor e atingir sua presa. As pernas bambeiam. O corpo esquálido vai ao chão num baque surdo. Um fio de sangue escorre do canto dos lábios. Tenta reerguer-se. Urra de dor. Percebe a aproximação de outro corpo, passo a passo, sobre a terra. O filho terá vindo buscá-lo? Afinal, quem cuidaria do neto quando o casal fosse em busca de alimento?! Tenta erguer a cabeça em direção ao ruído. Sente um peso sobre o corpo. O sol bate em seu rosto. Ofusca-lhe a visão. Num esforço supremo entreabre os olhos. Sobre o seu peito, as patas do urubu; na direita, falta um dedo. O avejão encara-o. Grito lancinante do homem, quando a bicada certeira arranca-lhe um dos olhos. Na fração de segundo que antecede a próxima investida, o delírio... A água enche a lata, que transborda... O líquido escorrendo, inundando a caatinga; pastos verdejantes, gado... O neto tranqüilo na rede. O urubu afasta-se. Na terra crestada, apenas a carcaça do velho. Eunice Tomé Numa daquelas tardes feias e chuvosas, um convite a arrumar armários. Um chá fumegante levado para o quarto, panos de limpeza e disposição para a tarefa. O mundo fica lá fora e aos poucos aquela mulher vai se fechando em seu aposento, esquecendo o tempo real. De gaveta em gaveta e no abrir de portas, o passado vai saltando vivo, como um baú aberto no meio do oceano, trazendo as conquistas remotas de seus antepassados, até então mantidas em total segredo. E a viagem começa. Seu quarto, como de qualquer mulher, era um verdadeiro relicário adormecido e peça por peça vai sendo acordada e colocada na pauta do dia. O cheiro de guardado, depois de longos anos, não perdera o perfume usado naquela ocasião especial e as imagens vêm à tona refletidas no espelho de parede. O vestido azul longo, de faixa de cetim, é enlaçado pelos braços de Jorge, na pista de danças do clube do bairro. Ela sente o tremor nas pernas com medo de errar os passos da valsa. Fica ali ouvindo o som e sentindo as sensações. Era um tempo em que a virgindade ainda falava mais alto e as vontades eram contidas, não passando do contato com o corpo do outro na hora da dança. A música termina, volta ao quarto em desalinho e continua sua tarefa. Limpa aquela parte do guarda-roupa e passa para a gaveta de peças íntimas. Tira tudo e começa a selecionar o que poderá descartar. De súbito, descobre um conjunto preto, colocado num plástico transparente. Esse brilho da embalagem a faz cair, mais uma vez, nas tramas da lembrança. Era uma noite de luz e de sombras, uma penumbra apropriada para o encontro dos amantes. Sentiu uma tontura e num redemoinho se mostrava com as duas peças a Ernesto, pálido de tanto desejo contido. Vê-se magra, elegante, sedutora naquele encontro perdido nos emaranhados da vida. O telefone toca e o encanto é quebrado por instantes. Logo volta à sua lide. Descarta algumas peças fora de uso, algumas até que nem mais lhe servem, pois seu manequim pulou duas casas. Passa para uma gaveta, onde descortina cores fortes e bordadas em paetês. Eram as fantasias de velhos carnavais. Desdobra uma a uma e a memória, como que seguindo esse movimento, vai entrando no salão enfeitado de máscaras e serpentinas. Ela está radiante e a banda entoando as marchinhas convida-a para o meio do baile. Um zorro lhe faz sinal e joga lança-perfume em seu corpo. Esse cavaleiro andante era Robson que, no fim dos quatro dias de folia, leva-a para cavalgar em seu dorso, tirando a máscara e tudo o mais. O cheiro de lança ainda está no ar do quarto e as sapatilhas jogadas no canto. Suspira fundo em total felicidade pelo reviver e tem vontade de desfazer-se dessas alegorias carnavalescas, mas não consegue. Fazem parte da sua história. Abandona tudo de novo no fundo da gaveta e passa para outra. Era a vez das luvas, gorros, xales e cachecóis. Numa cidade quente como a dela, eram peças do vestuário usadas apenas em viagens. Pegou o conjunto marrom de luva e gorro e foi direto para Buenos Aires, andando no bairro do Caminito e passeando em frente à Casa Rosada. Quem a levava pela mão era Eduardo, imponente em sua capa de couro preta e chapéu cinza. Ele piscou e a convidou para um licor em um café aconchegante. A conversa enveredou para algo mais quente e foram para o quarto do hotel, misturar corpos e calores. Como sua lembrança era auditiva e olfativa, o som do tango entrava pelas frestas da janela e o cheiro do tabaco a tudo impregnava. Absorvida nessas sensações, volta para seu espaço do quarto com o toque do interfone vindo de longe, como se fazendo parte do pensamento. Recebe uma encomenda à porta e volta aos seus armários. Três horas se passaram e pareceu-lhe pouco tempo pelas viagens que fez e pelos quilômetros que percorreu. Faltavam três espaços a serem analisados e arrumados. Deu de cara com as roupas de praia: maiôs, duas peças, os monoquínis e os biquínis, cada qual com sua época e esplendor. Um vermelho de flores brancas chamou sua atenção e demorou a lembrar quando o tinha usado e que período fora aquele. Concentrou a memória e veio a praia de Salvador, bela e de águas claras, e ela a tomar banho em seu remanso. Depois de refrescar-se naquele verão intenso, sai ao encontro de Felipe, que a esperava ao sol com uma caipirinha. Eles estavam em lua-de-mel e a felicidade sorria descarada. Aquele biquíni tinha sido adquirido especialmente para a viagem, mas saindo da praia ele foi descartado, de imediato, para desnudar o seu corpo e viver o amor à moda baiana. Que euforia! Essas imagens foram tão intensas que essa mulher voltou resfolegante de suas divagações. Parou, respirou e deu continuidade ao seu objetivo. Cada coisa era uma etapa, aparentemente estanque, mas que, se ligadas entre si, formavam todo o seu referencial de vida. E foi no armário dos sapatos que descobriu um par de sandálias de saltos bem altos e de cor dourada. Com passos firmes, foi levada a uma festa. O calçado tinha sido um presente de Ernesto, aquele do conjunto de roupas íntimas. Fora o seu namoro mais intenso e duradouro, e o dourado representava até o brilho daquele amor. Tornou a experimentá-la e sentir outras ocasiões de glórias, quando a usara. Limpou com cuidado e, como os outros guardados de valor, quais caixinhas de jóias, retomou o seu espaço para não interromper os mosaicos que formavam um quebra-cabeça da sua vida. Por fim, faltava verificar as roupas do cotidiano, em que achava que nada fosse surgir de interessante. Algumas foram tiradas para doação, mas verificou que até na simplicidade havia as marcas do tempo. Aquelas roupas confortáveis e despojadas, que deixam qualquer pessoa à vontade. Sendo assim, ela se deparou com uma camiseta, até amarelada, que era usada após o banho. Sentiu o vapor saindo do chuveiro e o cheiro do sabonete que usava na ocasião. A presença do seu marido, o Felipe, fora sentida ao abraçá-la com carinho no corredor do apartamento. Pensou que os tempos de casada foram bons, apesar de curtos. Separou a peça para uma lavagem e também não teve a coragem de jogá-la fora. Terminado o trabalho e já com as coisas no lugar, deitou-se na cama. Juntou todos os cacos de sua memória. Refletiu sobre sua vida. Uma coisa tinha certeza: os bons momentos foram sempre pautados pelas presenças masculinas e alegrava-se de ter sido mulher em toda a sua plenitude. Eunice Tomé Sob o ronco do homem após o gozo, sobre a cama, ela apenas respirava com naturalidade, como sempre costumava acontecer. Refletia, sem mesmo estar satisfeita, como também era comum. Sabia, por várias gerações, que gozo constante era coisa de homem. E rápido, na maioria das vezes. Ela que se contentasse com inspirações passageiras do parceiro, que se dignasse a esperar pelo seu prazer. A isso ela até se acostumara. Mas não deixava de ficar pensando, ainda com suas pernas entrelaçadas nas dele e os braços apoiados no seu dorso. Deu uma pequena cochilada, num momento de vazio e, naquele torpor, sentiu-se saindo da cama, qual uma deusa desnuda. Ganhou a sala, depois a cozinha, saiu no quintal e entrou no jardim, que virou uma floresta densa e fechada. Planava com os pés na relva e corria em busca das suas origens. De repente, era uma menina/moça, a própria Eva à espera de seu Adão. Encontrou uma árvore, onde se recostou e ficou a espreitar e sentir os ruídos do lugar e o sibilar do vento. O homem prometido veio ao seu encontro marcado. Como ela, estava despido e a cobra feiticeira e pecaminosa era seu pênis, que crescia e avançava. Alcançou o corpo dela e sua língua venenosa lambia as partes íntimas, coisa que nunca havia sentido. A maçã foi comida aos pedaços, abrindo o seu interior deflorado e oferecido. Jovens e amorosos dançaram no ritmo frenético e atingiram o orgasmo por vezes a fio. Cada vez que era penetrada, mais voraz ficava e renovada para uma outra experiência. As vozes da floresta se calaram e deram espaço apenas para os gritos daquela felina, metade mulher, metade animal. O Adão, sem nada de egoísmo, se regozijava pela satisfação da sua parceira e conseguia atingir, mais e mais, o âmago da sua mulher. O tempo foi esquecido e parado. No clarear do dia, o marido em seu leito doméstico sentiu a falta da companheira. Chamou-lhe pelo nome, enveredou por toda a casa e foi encontrá-la dormindo sob a grama do jardim. Ficou na dúvida que fosse mesmo ela, pois parecia muito jovem, os cabelos soltos e o semblante do jeito da fase de namoro. Seu corpo estava repleto de gozo. Ele entrou com ela nos braços, enrolou-a nos lençóis e sorriu feliz, acreditando que era um super-homem, capaz de proporcionar tamanho prazer em sua mulher. Sônia Rodrigues O doutor Rodrigo estava fascinado pelo brinde que ganhara de um laboratório que fabricava vitaminas para crianças. Tratava-se de um pôster enorme, que ocupava quase toda a parede livre do consultório. Posavam para uma foto, em plena floresta, uma dezena de bichos lindamente desenhados. Desde o primeiro dia em que colocou a bicharada na parede, as criancinhas ficavam olhando encantadas, rindo e fazendo os comentários mais interessantes. E Rodrigo começou a fazer uma enquete entre os seus pequenos pacientes: - Diga lá, de que bicho você gosta mais? A coisa virou mania, tanto que o doutor tinha em sua gaveta uma planilha onde anotava a preferência da garotada. Observou que os menorzinhos e tímidos escolhiam o coelho e a coruja; os falantes e estabanados escolhiam a arara ou o macaco. Os que escolhiam o canguru ou a girafa pareciam ser os mais criativos. Já o tigre e o leão deixavam o doutor confuso: ele não decidira ainda se as crianças que escolhiam as feras eram líderes natos, ou crianças que queriam o poder para livrar-se de perseguições ou se eram agressivas, manifesta ou veladamente. O fato curioso é que ninguém, nem uma só criança votara no hipopótamo. Quando Rodrigo era menino, em sua cidade havia uma fábrica de biscoitos que adotara o hipopótamo como seu símbolo e distribuía para a molecada bonequinhos, figurinhas e outros brindes com a aparência de um hipopótamo rosado e risonho, uma verdadeira gracinha. As crianças da cidade grande, porém, não sentiam nenhuma simpatia pela bocarra escancarada com imensos dentes. Certa tarde, entrou no consultório pela primeira vez um garotinho aí de uns quatro anos, e Rodrigo, como de costume, sugeriu: - Vota aí, escolhe um bicho. O menino, contudo, cruzou os braços e ficou muito quieto, com uma carinha zangada. - Vota, filho, o doutor tá mandando. - insistiu a mãe. Mandando? O doutor sentiu-se desconfortável com o verbo: - Não, não, não estou mandando nada. É uma brincadeira. Eu vou juntando os votos da criançada para saber qual é o bicho preferido. Então, que bicho você escolhe? E o menino, decidido: -Nenhum. A mãe estava chateada: - Escolhe um, filho. O doutor quer saber. - Pois então ele já sabe. Eu não escolho nenhum e pronto. O doutor achou engraçada a preocupação da mãe em agradar o médico e a determinação do menino de não arredar pé de sua opinião. Quis chegar ao fundo do mistério: - Certo, você não escolhe nenhum. Posso saber por quê? - É porque o meu bicho preferido é a tartaruga e aí não tem tartaruga. Ali estava um garoto que sabia o que queria, que, na sua inocência, não se deixava influenciar pela opinião alheia, e que, sem dúvida, iria se tornar um adulto que não abriria mão de seus princípios. Qualquer que fosse o fascínio especial da tartaruga, que qualidades esse bichinho cascudo e vagaroso possuía para encantar o menininho, o fato é que o doutor ficou a pensar que ali estava uma das maiores lições de civismo que recebera em sua vida. E falou em voz alta: - Menino, você tem razão. Nas próximas eleições, também vou votar na tartaruga. Urucubaca...
olho-gordo... Ela chamava-se Manuela e ele, Erik. Um casal maduro, embora em lua-de-mel. Manuela deixara a brilhante carreira de executiva depois de casar, ao mesmo tempo que mudara de cidade. Decidiu então preencher o tempo de seu novo cotidiano com um curso de estilista. Em uma tarde chuvosa, Manuela, suas colegas de curso e a professora ocupavam-se com moldes, tecidos e idéias, quando a campainha da casa tocou. A professora atendeu e veio até a sala com um lindo ramo de rosas: – Olhem as flores maravilhosas que ganhei. Todas, admiradas e felizes por ela, se voltaram para olhar. A professora, por sua vez, desistiu da brincadeira e veio até Manuela: – São suas, vieram com estas chaves de carro. Surpresa, Manuela espiou pela janela e viu Erik, com seu guarda-chuva e, atrás, um lindo carro de cor azul, novinho! Os comentários das amigas eram de admiração; quase em coro, diziam: – Que marido maravilhoso, queria ser você. Ah! Ah! Se fosse eu... A partir desse dia, começa a novela daquele carro tão cobiçado. Nas primeiras viagens, já começou a dar problemas. – Mas como um carro novo em folha, encrencado deste jeito?! – reclamava Erik. – não é possível, isto não pode acontecer conosco. Seguiram-se muitos dissabores, até fogo o danado ameaçou pegar. A sorte foi que os reflexos precisos de Erik salvaram o maldito. Depois de outros incidentes desagradáveis, houve uma trégua, e o carro parecia estabilizado. Foi então que uma amiga de Manuela demonstrou interesse em comprá-lo. Negócio concretizado. Porém, uma semana depois, devolvia-o, alegando que havia sinais de chamuscamento e a partida era difícil. Receberam-no de volta e, a partir de então, passou a servir de quebra-galho na atividade de Erik. Manuela desistiu de dirigi-lo. O tempo foi passando, o incrível carro já completara dez anos, tempo ponteado de atropelos, chateações, sempre tratado a xingamentos. Um belo dia, aparece um comprador. Agora era definitivo. Será?... Revisão, lavagem completa, retoques de pintura, a venda foi sacramentada. Concluído o negócio. Chega a hora da entrega das chaves. Por incrível que possa parecer, o carro ficou imóvel, nada de dar partida. Ele não queria ir! Num ato de nervosismo e graça, Manuela falou-lhe: “Vai, meu filho, você será feliz, garanto!” Mas que nada! O carro não se movia. Erik precisou chamar um mecânico, que logo achou o defeito. No dia seguinte, substituída uma simples peça, o carro lá se foi finalmente com o novo proprietário. Manuela jurava que aquele ronco da partida soava como um choro triste. Dois dias depois, o comprador telefonou dizendo que a peça trocada havia quebrado e o azulzinho não queria funcionar novamente. Voltou Erik ao mecânico, reclamando a garantia da peça recém-trocada e tudo foi resolvido. Ufa! Agora era definitivo. Os dois respiraram aliviados e, recordando a longa maratona, desconfiados, permaneceu a dúvida: Urucubaca... olho-gordo... ou apenas um deslize da turma do controle de qualidade do tempo “daquel” presidente escorraçado que disse um dia que nossos carros eram verdadeiras carroças? Cheiro de homem Sônia Rodrigues No consultório da médica, a manhã se alongara - entre odores vulgares, cigarro com cerveja, sol com bodum, fome com pinga. Súbito... surpresa excitante dilatou-lhe as narinas e esquentou-lhe o sexo. Cravo? Almíscar? Cedro? Uma combinação rara: saúde viril. "Ele" sequer suspeitou que a doutora delirasse em fantasias eróticas. Só estranhou o fato de ela examiná-lo de olhos fechados, suspirando fundo e sorrindo... Na ponta
do laço Calor
infernal. Impossível dormir. O velho embala a criança na rede. Olhar
resignado. O choro continua noite afora. Nada para o café. O filho e a
mulher saem pela caatinga - algum resto de animal, alguma carniça hão de
encontrar - pensa o velho. Senta-se com o neto nos braços, mas o choro da
criança recomeça sentindo o colo duro, ossos quase perfurando a pele. É
quando pousa o urubu apenas a alguns metros de distância. Avanços e recuos
sem encarar o velho nos olhos. Levanta-se o avô; recoloca a criança na
rede. Choro forte - fome roendo-lhe as entranhas. Sem desviar a atenção da
ave sorrateira, rápido, o avô prepara o laço dependurado num prego da
parede de pau a pique. Ah, velhos tempos quando ainda encontrava algum boi
magro vagando na caatinga e saciava a fome da família! Ossos fervidos para
retirar qualquer sumo, bebido com sofreguidão em meio ao sol abrasador!
Enxuga o suor com as costas das mãos. Tenta firmar os olhos cansados. E
zás, laça o urubu pelo pescoço. A ave resiste, mas o velho não recua.
Prende o cordão numa pedra. Pega a criança no colo. Umedece-lhe os lábios
rachados com um resto da própria saliva. O choro do menino, agora, é feito
de soluços. O avô mostra-lhe a presa. O urubu olha desconfiado. O menino
silencia, quando o velho pega a ponta do cordão e arrasta a ave pela terra
crestada. O urubu tenta escapar. O avô aperta o nó e do pescoço que
sangra, caem algumas penas. O prisioneiro estanca de dor. Novo puxão
arrasta-o; a pata direita bate fortemente na pedra. Com um dedo quebrado,
o urubu entrega-se. Parece um cão domesticado. No rosto da criança,
ensaios de um sorriso. O velho reconforta-se. Retornam o filho e a nora.
De mãos vazias. Terra vermelha grudada nos corpos cobertos de suor. Na
lata, bebem um resto de água barrenta. Deitam-se na rede; olhos
esbugalhados, sem forças até para fechá-los. Manhãs e noites. Idas e
vindas pela caatinga. Nada. O urubu distraindo o velho e a criança,
medindo forças... mas em cada ponta da corda, a mesma fome os
une. Não dá pra segurar!... Regina Alonso Peruca de ráfia. Agora na cabeça, após um mês escondida numa caixa de sapatos. Marido foi assistir o desfile na casa da minha sogra. Os dois adoram comentar as escolas – roupas, passistas, adereços, samba-enredo, enquanto devoram quilos de salgadinhos, entre um aperitivo e outro. Eu aleguei enxaqueca, neste ano. Gente, vou cair no samba! A peruca deixa-me irreconhecível. Capricho no batom vermelho. A sombra azul ressalta meus olhos também azuis, graças às lentes de contato coloridas adquiridas após quase um ano de economia. A blusa fica ótima com o meu bronzeado. Sapatos de saltos bem altos e lá vou eu, dançando na avenida, atrás das escolas de samba... Só não acompanho a última. Pego o táxi, pago com as últimas economias feitas para realizar este desejo. Não dava mais para segurar, gente! Em casa, a peruca de volta ao esconderijo. Apressada, passo creme no rosto para retirar a pintura, coloco o velho pijama e zás, mergulho na cama! ... Fecho os olhos cansada, sonolenta, pés em bolhas e... feliz! Ainda escuto o barulho da chave na porta, o marido deitando cuidadoso ao meu lado e o seu comentário: "Coitada, não sabe o que perdeu!" Regina Alonso - Texto produzido no Café com Letras, em 16.2.2006. |
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