Moça, quero um beijo
Soneto de Bëatrice
Secondo Soneto de Bëatrice
Soneto de Perto
Soneto dos finos lábios
Visita aos Orixás
Soneto de Enlaçados
Abraço
Soneto Sensato
Soneto do Perdido
Soneto da Alegria Construída
Soneto do grito silente
Soneto da Troca
Soneto do Manto
Esferas
Sorriso
Soneto da Maja
Sacsaihuaman
Soneto da Alegria
Soneto de Vida e Pensamento
Choro
Moça, e meu beijo?
Soneto de Florbela
Segundo Soneto de Florbela
Presença
Vida
Soneto da Rainha
Soneto da Difícil Travessia
Basta
Força do Amor
Chuva
Soneto de La Boétie
Soneto de Amor Desmedido
Momento
Querer
OyÁ YansÃ
Soneto dos Rios Impassíveis
Caixa
Tão Curta Vida
Soneto de Carne Humana
Gato
Vida
Reichiana
Moça, quero um beijo.
Quero ainda saber
as histórias de ontem
o que passa a cada dia
e o amanhã o que tem.
Mas, moça, quero teu beijo.
Quero conversar de dia
e toda noite também
de tudo e de coisa nenhuma
daqui, dali, e de além.
Moça, também o teu beijo.
Quero ouvir a memória
de guerras de apartar
de velhas senhoras à espera
do contar para recontar
Mas, moça, e ainda teu beijo.
Quero provar e sentir
de teus lábios o calor
de tua boca dengosa
a imagem e o sabor.
Moça, como quero teu beijo.
Cia eran li occhi miei rifissi al volto
de la mia donna, e l'animo con essi,
e da ogne altro intento s'era tolto .
Dante, Paradiso , XXI
Já meus olhos em minha dama postos
com minh'alma e meu coração tomados
todo querer, e qualquer, assentados
em seu querer, em antever seus gostos
no diálogo entre nossos dois rostos
os seus desejos em coisas tornados
seus pensamentos logo adivinhados
ainda se de si mesmo não expostos.
E neste querer que fica sem querer
há um querer, um desejo, um senso
que é de seu só querer ser cativo
nela viver, dela ser, co'ela poder
e meu coração com o seu consenso
pulsar do doce amor nela nativo.
E comme stella in cielo in me scintilla.
Dante, Paradiso , XXIV
Como estrela no céu em mim cintila
cada detalhe do ser abençoado
que em ti pouco a pouco tenho encontrado
elementos que o próprio céu distila.
Como o mar de estrelas em tua pupila
em vias e constelações revelado
no firmamento de teu ser amado
se juntam em tua beleza tranqüila.
Infinita e uma, és a forte armada
que meu coração e meu ser conquistou
no desembarque dia a dia desferido.
A ti me entrego camada a camada
o que já te dei e o que de mim restou
pois ser de ti é o que mais hei querido.
Une ville, une campagne, de loin est
une ville et une campagne,
mais à mesure qu'on s'approche,
ce sont des maisons, des arbres,
des tuiles, des feuilles, des herbes,
des fourmis, des jambes de fourmi,
à l'infini.
Blaise Pascal
Assim, moça, de longe te conhecia
mulher e bela e doce e inteligente
inconsútil imagem simplesmente
a quem mais ver e ouvir já me apetecia.
Ao te tocar, sem saber o que fazia
senti passar o tempo em minha frente
te vi mil e uma mas uma somente
e em teu caleidoscópio me recolhia.
Tuas mãos, teus olhos, teus sorrintes lábios
contos alegres e tristes da vida
me fizeram coração e olhos mais sábios.
Quero agora aprender cada curva e olhar
quero alimentar esta ânsia contida
e em teu peito de cabeça mergulhar.
Nos finos lábios que tua boca encanta
encontrei o meu espaço e o meu dia
o pensamento se perdeu em alegria
como a jovem que a um filho infanta.
Minha alma subiu como se levanta
o balão que com o vento ascendia
quando eu criança entre fogos vivia
na graça das luzes que o medo espanta.
Em teu tempo naveguei renascido
em ti revivendo o que fui e soube
em ti reencontrado e recolhido.
Em teu campo largo deitei entre flores
aprendendo o teu mundo que me coube
— teus perfumes, tuas curvas, teus sabores.
Na fonte pura de onde a água corre
Oxum abre os braços a te receber
te oferece o colo de criar e conceber
o úbere macio de onde o leite escorre.
Na mata escura que meu peito percorre
Ogum e Xangô vêm te proteger
a Iansã vêm os dois escolher
no amor carnal que aos dois ocorre.
Os orixás, fonte, mata, coração
teu corpo, tua alma, teu desejo
tudo se mistura numa mesma emoção
o dia a passar na roça sem tropel
o ser um só, como em nosso beijo
tu e eu, no caminho de nosso céu.
Estendo a mão a te buscar ao lado
no desejo que surge de repente
sem hora ou regimento, simplesmente
como a chuva no mar encapelado.
Recebes o meu beijo apaixonado
o toque de minha carícia ardente
cada vez igual, sempre diferente
das descobertas nunca acostumado.
Tu és o espaço em que viajo liberto
sem barreira, sem tempo, sem caminho
livro que é página a página aberto.
E seguimos dormindo e despertados
voando no vento como passarinho
pernas e braços, corpo e alma enlaçados.
No abraço que une nossos corpos
juntam-se força e delicadeza
ternura que corre como olho d'água que rebenta no campo
desejo que persiste como a árvore da caatinga
bem-querer que avoa que nem gavião.
No abraço em que se unem nossos corpos
juntam-se reencontro e saudade
ternura na lembrança das manhãs antigas em que éramos crianças
desejo de um ao outro tocar como cegos que descobrem um rosto
bem-querer que se acende no antever do outro a visão.
No abraço de nossos unidos corpos
juntam-se os corações e as mentes
ternura de sonhar com o estar ao lado no balanço
desejo de ser sempre como agora
bem-querer como das águas que abraçam a terra e nela mergulham.
No abraço de corpo e alma
juntam-se ternura, desejo, bem-querer
como em borboletas que navegam na brisa sobre as praias dos rios
como na lã fiada e então tecida por mãos pacientes
— como em nossas mãos que se buscam sem parar.
… un domaine ou l'amour sera roi, ou l'amour sera loi, ou tu seras reine…
Jacques Brél
Engenhar-te palavras insensatas
palavras que digam o que te digo
que revelem o que sei aqui comigo
e proclamo em versos e cantatas.
Eis nosso amor que viaja em serenatas
o que se esguia no olhar com que te sigo
vive neste mundo em que fiz seu abrigo
e pelos ares navega em fragatas.
Te trago em minhas mãos o que já é teu
o coração e sua batida de metal
a alma todinha, o corpo que um dia foi meu.
Que eu agora me faça claro diamante
dengoso, sereno, felino animal
para a teus pés me por como teu amante.
Percorro teus vales e tuas montanhas
procuro teu mistério, teu segredo
quero aprender contigo desde cedo
os teus gostos, teu querer, as tuas manhas.
Agradar-te em todas as façanhas
ser em todas as horas o teu aedo
ou ser simples objeto ou brinquedo
é a sorte que está em minhas entranhas.
Encontro um olho d'água na vereda
nele restauro as forças para o meu dia
para seguir por rua ou por alameda.
Sem fio em teu labirinto já não sigo
e perdido faço o que a alma me pedia:
teu corpo tomo agora por abrigo.
Visitar o teu corpo dedo a dedo
em busca da chave de tua adivinha
da comporta que se gira sozinha
e inunda nosso caminho desde cedo.
Descer os lábios ao sutil brinquedo
à pequenina entreaberta amiguinha
quente, túmida, macia, molhadinha
no gozo alegre de nosso folguedo.
Jogarmos a sentir o corpo vivo
eu a tua barriga, a teus seios, coxas, bunda
tu ao velho elemento cogitativo.
Rodarmos loucos de paixão e sintonia
um ao outro possuir em posse profunda
à espera da suprema mútua agonia.
Cubro o chão de folhas de pitanga
que limpam o caminho para o bem
e junto ao branco jasmim-manga
afastam o mal espírito quando vem.
Sobre ele estendo branco linho
rubra seda ali ponho rompante
trago-te taça de frutuoso vinho
de perfume puro e inebriante.
Aconchego teu corpo e tua alma
com histórias de contar e recontar
através das horas da noite calma
até à aurora do dia apontar.
Então deito em teus braços abertos
e construo a alegria do amanhecer.
Como, em silêncio, passaste
no corredor, discretamente
olhando igual a toda gente
e em minha alma não olhaste?
Ali, sozinho, me deixaste
sonhando com teu olhar fulgente
e com só sonhar sendo contente
sonho e vida em puro contraste.
Mas o sonho se fez então possível
em meus olhos viste meu querer
enorme, inquieto, indescritível
abriste os braços ao meu clamor
em meu rosto soubeste ler
a explosão silente de meu amor.
Como ao incandescente cristal
constrói o sopro humano
assim a meu coração de metal
teu beijo quente amolda
torna-me outra vez criança
que ao próprio corpo aprende
e mais no jogo da folgança
a beber-te com gosto se descobre.
Trocamos então de conhecimento
um do outro corporal elemento
instantes que sucedem em plano-sequência
línguas, dedos, lábios e querença.
Mas o que nos dá imortal crença
é o amor que vence a saliência.
Na noite alta o perfume do jasmim
me acorda. É a hora em que vens
moça que minh'alma e corpo tem reféns
amarrados em teu manto carmim.
Vens envolta de luz e de candor
molhada de flores e de frutos
de raios e ventos, teus atributos
senhora e dona de meu amor.
Estendo as mãos à tua presença
e toco teu corpo com meu desejo.
Incendiados flutuamos na tença
do que é de nós dois o ser profundo
na chegada do tempo do festejo
do tempo de esperança mais fecundo.
A força que aos astros ordena
quando uma esfera encontra
que a outra maior se confronta
àquela maior logo condena
a ela conduz com inexorável
a da outra satélite se tornar
e por milhões de anos girar
capturado em órbita estável.
A luz que de esfera a esfera
sucessivamente ilumina
dia, noite, estações gera
é o preço que cada uma paga
pela atração que as domina:
alegria de amor que não se apaga.
Quando hoje te vi com teu sorriso iluminado
esperei a chegada de um anjo musicante
destes de Rafael ou de Fra Angélico ou de Nazoca
para assinalar a entrada do paraíso.
Era assim como se tivesse passado ao círculo mais elevado
onde Dante teve Beatriz por guia.
A luz que nos rostos de nossas amadas refletia
ofuscava às nossas vistas desprotegidas.
Então soube de novo como é bom o amor.
Teu corpo de desnuda maja
se estende sobre o leito
e com o mais leve trejeito
manda ao corpo que aja.
Que de beijo toda cubra
fímbria a fímbria de teu ser
os recantos que conhecer
teu umbigo, tua boca rubra.
Mergulho em teu fundo mar
em braçadas de descobrir
nos caminhos de explorar
Um mais um são dois, sim, senhora minha
mas também um, no universo do possível
do que é mais sem menos ser
em que se cresce sem perder
em que se está junto sem tolher
um apoiando o outro
um no outro encaixados como as pedras da muralha de Sacsaihuaman
onde estava guardado o tesouro.
Sermos dois, e um, e um como um, inteiros
inteiros como o rio-mar que corre e muda e é sempre ele mesmo
inteiros como o vento que anuncia a tempestade
e os raios e trovões que anunciam o renascer.
Um, e dois, um e um
como o momento e o encontro na esquina
que só uma vez acontecem.
Um, e outro, como cada amor.
Pedra que exposta ao vento
perde a áspera, cortante borda
do sono multimilenar acorda
e em macia mão toma alento;
linho que num só momento
a mão experiente borda
o traço de amor recorda
como só, único intento:
assim me tens transformado
pedra embrulhada em linho
campo de papoulas florado
riacho que corre na floresta
passos que seguem o caminho
— és minha alegria manifesta.
So are you to my thoughts as food to life...
Shakespeare , Soneto 75
Como para a vida o alimento
és para meu pensamento.
Tua presença doce certeza
tua ausência tortura acesa.
És como o orvalho para a relva
como a enchente para a selva.
Buriti para a orquídea rara
olho d'água que à sede para.
À semente terra revolvida
ao crente a Senhora Aparecida.
Porto que acolhe o viajante
leito que recebe o amante.
És para mim o só alimento:
és vida a meu pensamento.
Choras sobre meu peito, amada.
Será a alegria do encontro?
O anjo que passa entre as sombras
e estende as asas sobre nós?
Ou a antecipação do desencontro,
o frio que vem da ferida futura?
Será que ainda uma vez é meu fado
a jornada do amor irrespondido?
Será que reencontrei a solidão desesperada?
Não, amada.
Recuso o caminho do abismo.
Quero passear contigo em ventos impossíveis
contar e ouvir as histórias de ontem, de hoje, de amanhã
deitar em teu ventre, em teu seio.
Ri para mim teu riso de riacho entre pedras
e me dá a mão para que juntos caminhemos entre flores.
Moça, ainda quero teu beijo.
Quero ainda viver
os momentos de alegria
teu sorriso matinal
que floresce o dia.
Moça, como quero teu beijo.
Quero ficar em teus braços
que meu corpo enlaçam
me prendem me ligam
e meu amor traçam.
Mas, moça, aprendi teu beijo.
Beijo quente e dengoso
que me tem cativo
sabendo a chão e chuva
beijo que me faz vivo.
Moça, cadê meu beijo?
Moça, o beijo escondido
o beijo em plano-sequência
moça, o beijo roubado.
Moça, me dá de novo teu beijo.
Para que esta paixão doida e constante
Dia após dia cresça com vigor.
Florbela Espanca
O nome que tomaste — Amor
Toma-me a todo e cada instante
Torna-me o coração amante
Como tornaste minha dor.
Para ti só sei cantar louvor
Canto monocórdio e constante
Ora quieto, ora delirante
Que dia a dia cresce em vigor.
O que fazer quando noite e dia
A paixão só me faz companhia
Quando como doida me prende
E na noitinha me descaminha?
Quero então que sejas minha
No sonho que a vida me acende.
Porque foi que somente nessa tarde
Nos olhámos assim tão docemente
Num grande olhar d'amor e de saudade?!
Florbela Espanca
Mas nos olhamos num grande olhar de amor
como chuva que caía da noite aberta
por nuvens que se abriam à descoberta
do mágico elemento transformador.
A voz do bem-querer veio com tal fervor
pôs-me a alma de tal forma liberta
da cidade vazia e da praia deserta
que o corpo logo seguiu-a em seu penhor.
Teu olhar me olhou assim tão docemente
plantou em mim como germinal semente
frondoso jequitibá de que não caio.
Pois que viestes entre trovões e vento
e naquele breve, curto momento
marcastes-me de vez com teu forte raio.
Não relevo que na planície se destaca
ou oásis que dessedenta no deserto
mas, moça, senhora, montanha que sobre a montanha se agiganta
límpida fonte que surge entre os rios da floresta.
Guará que entre os guarás se marca
teu vermelho exposto como vinho
que ante o sol revela sua lúcida essência
como o urucu que marca para o solene instante
festa de acolher os que conquistastes sem vencer.
De vermelho
rubro, tinto, ígneo vermelho
passa a meu lado tua visão.
E eu, reverente, agradeço tua grácil presença.
A poesia, o fazer
é o que conta simplesmente
o que, necessário
mais que o pão para a gente
para o fazedor que faz a vida
vida a si mesmo retorna.
Para fazer o poeta
bebe na vida sua sede
e o que é feito se torna
do que vivo se encontra
do que de alma se anima
e se transforma em vida.
Esta vida que dá outra vida
para cada um é diferente
um sinal um relâmpago
de especial ser vivente.
Então no fazer
cabe ao fazedor um feito:
marcar a vida tornada
com a marca da vida que torna.
Que ele saiba a alma
de vida a vida passar.
Que eu saiba a tua alma
em nova vida transformar.
Não noite sem luar ou sem madrugada
mas és manhã de sol e de amanhecer
chuva que cai brusca, sem escurecer
vento que corre solto na chapada.
Não calmaria que segura a jangada
mas brisa que às velas sabe encher
relâmpagos que acendem e fazem ver
e esperam até chegar a trovoada.
Eis teu riso, teu olhar, teu ofício
o rosto que aos caminhos ilumina
o gesto franco que ao dia dá início.
Rainha do tempo, é assim que te quero:
sem controle, sem freio, sem disciplina
e de braços estendidos te espero.
A Tânia
Passeie o homem por entre muros
flores, bentevis, mar revolto
calcantepé, a galope solto
por pradarias, becos escuros
podem os caminhos ser duros
o caminhar ser desenvolto
ou de neblina estar envolto
ou correr por ares mais puros:
o que a todos e cada um marca
o que dificulta a travessia
pela pessoal, íntima barca
que dentro de si mesmo se traz
passa por alma, angústia, agonia
por caminhos que a vida desfaz.
Tua mão passa por meu rosto
brisa matinal que anuncia
água que brota e dessedenta
balbucio de criança que faz claro o dia.
Sinto ainda tua mão que busca a minha.
Não precisamos nos falar.
Basta o olhar que por dentro liga
e a pele que vibra esticada no tambor de mina.
Basta o bem-querer.
Se com a força do amor se fazem
grandes coisas
igrejas ou bordados, babéis ou versos
se fazem crianças e o mundo
também amor a amor pode fazer.
Por isso dia a dia meu amor
junto a ti trabalha sem cessar:
não, não é com as palavras
com os poeminhas em que te canto.
Onde meu amor a teu amor busca
é no bem-querer que sente
e que inunda o mundo a cada instante.
Chove lá fora.
Tu choves aqui dentro
molhas meu peito com as grandes gotas
que batem como se fossem pedras
escorre a água pelas veias
sangue que se espalha por músculos, janelas, ossos
toma conta de cada desejo, de cada pensamento.
Batem-se as gotas e as moléculas de oxigênio
se libertam do ozônio
enquanto o trovão zoa na distância.
Te escuto e me banho nas águas de Iansã.
à amizade exemplar
Ao Um, sempre contra o Um
é preciso erguer todas as barreiras
não abrir guarda ou flanco nenhum
impedir que faça suas fogueiras.
Ao amigo, ao exemplar amigo
oferecer o afeto verdadeiro
confiar em seu certeiro abrigo
e em sua mão de companheiro.
Ao Um, necessário e ignaro
recusar a servidão voluntária.
Ao amigo, ao encontro raro
dedicar a fidelidade involuntária.
Assim do que recusar ou oferecer
faz a vida o que queremos ser.
Que celui aime peu, qui aime à la mesure
La Boétie
Amar é se entregar inteiramente
a sua amada, é nada entender
que não seja a seu lado ser
é viver o que o coração sente.
É querer a cada e todo instante
de cuidados e carícias a cobrir
só sua voz lhe agradar ouvir
e sonhar em ser seu amante.
Tê-la para a vida como fonte
nela encontrar um céu para voar
em seu mar, em seu rio nadar
e se perder em seu horizonte.
Ama pouco, quem ama medido:
assim só sei de amor desmedido.
seja breve seja fugaz seja um instante
torna-me a vida sobre cada momento
em que ouço tua voz
e sinto tua presença
em que infante te falo
em que de ti me ponho suspenso
são momentos que sobrevivem aos momentos
assim irreais e mais que reais
alegria multiplicada por encanto
Chuva em
Chão de Terra Batida
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Querer
Mais la plus plaisante cause de ses
erreurs est la guerre qu'est entre les
sens et la raison.
Blaise Pascal
Na guerra entre o querer e o querer
entre toda te querer
e querer só em parte te querer
enfrentam-se a pura razão
e a razão do coração que razão desconhece.
Na desrazoada razão
só um caminho queda a toda razão conforme:
que a razão se curve
à regra pelo objeto do querer posta
que querer como teu querer é bem querer.
Que o querer que a tudo quer se submeta
a querer de ti o teu querer
seja o querer de corpo e alma
querer de total entrega
ou o querer do corpo
que à alma reserva
ou o querer da amizade
que vive no campo da cumplicidade
querer feito de ombros e mãos.
Mas saberão os teus quereres o que querem?
Deixemos que eles resolvam seu querer
querendo em fraterna companhia
querença quieta e harmoniosa
querença que se expresse no mais simples querer.
Oyá Yansã
Para Yá, Oxum e Mãe, com respeito
Do negro búfalo que a veste
surge Oyá em beleza impante
mulher em forma exuberante
rainha do tempo celeste.
Epa Heyi Oyá! que já investe
guerreira senhora e amante
em frente aos eguguns confiante
vencedora de todo e qualquer teste.
Lançando fogo pela boca
ar em vento transformado
e o trovão com sua voz rouca
respondes com tua coroa e teus brilhos
aos chifres do búfalo indomado
que soam o chamado dos teus filhos.
Soneto dos rios impassíveis
Desce como os rios impassíveis
que aos limites são indiferentes
e trazem mundos impossíveis
fazem as resistências incoerentes.
Vem e inunda corpo e alma
toma conta de cada movimento
disfarçada de doce e calma
apreende todo e qualquer pensamento.
Molha e encharca o saber e o querer
faz dos dois uma mistura confusa
a um tempo a pedir e requerer
como dor aguda e vontade difusa.
É a saudade do te pegar em meus braços
e toda te cobrir de beijos e abraços.
Caixa
Les hommes ne diffèrent, et même n'existent,
que par leurs œuvres [d'art]. Elles seules apportent
l'évidence qu'au cours des temps, parmi
les hommes, quelque chose s'est réellement passé.
Claude Lévi-Strauss
Aqui vai a caixa em que guardarás
os papéis escritos
com os poemas que te fiz.
Serão memória do breve momento
das declarações de amor e de amizade
de desejo, de carinho, de saudade.
Memória.
Mas o amor mesmo não é prisioneiro
do tempo ou do espaço.
Quero apenas ter sabido dizer
todo o sentimento
confessado e inconfesso
dito e reprimido.
Quero apenas ter sabido dizer
com palavras que sobrevivam ao tempo
não ao finito tempo da humanidade
mas ao infinito instante em que as ouviste.
E que o meu amor fique guardado no teu coração.
Tão Curta Vida
A meu pai
Respiravas a vida bem a fundo
com todas suas alegrias e tristezas
com todas suas fealdades e belezas
e tocaste no coração do mundo.
Trabalhaste o seu terreno fecundo
a arte e o bem plantando nas incertezas
dos humanos soubeste as sutilezas
nem é tudo bom, nem é tudo imundo.
Foi para todos tão curta tua vida
apesar de todo o amor que espalhaste
por gente, livros, lugares, comida.
Da luta com o anjo veio a dor no peito
e esta santa teimosia que deixaste:
tentar fazer perfeito o imperfeito
Soneto de Carne Humana
Irrompe em mim carnal desejo
vence o bem-querer da amizade
recusa entre nós castidade
e manda te pedir sem pejo.
Não, não só a teu amor almejo
mas também, com honestidade
a teu corpo que a mente invade
de modo que nada mais vejo.
Que o querer agora te encante
desperte em ti o gosto do instante
em que unidos nos encontramos
desperte para ti outra aventura
que nos cubramos com ternura
e em carne humana nos façamos.
O Gato
Senhor de seu espaço e de seu tempo
o gato se espreguiça, livre
e cada músculo exercita, quieto
na arte de esperar e decidir.
Não há nele força perdida
mas energia adormecida
que de repente desperta
para o brusco salto inesperado
ou para o movimento quase parado:
senhor de seu espaço por seu tempo.
Vida
Enquanto a vida o tempo percorre
um caminho abre com o peito.
Vai ora rápida, ora direito
agora hesita, agora desvia.
Assim escreve uma história torta
repetida como ladainha
com arabescos e redemoinhos
conto que não sabe como se termina.
Mas, indiferente, o tempo corre
e a vida se grava em nosso peito.
Reichiana
O problema não é o problema a ser resolvido.
Wilhelm Reich
O problema não é o problema
o problema é a solução.
Não tornar consciente o inconsciente
mas com liberdade naturalmente ser
viver a Vida viva
estar em movimento e o novo criar.
Tocar a verdade:
amar simplesmente
amar com amor.