|
Arco Íris: os poemas para o Anjo ser um estado de revolução permanente
|
Nova Carta a meu anjo
De novo te escrevo a te dizer
da presença inconsútil do querer
na aceitação calada da sentença:
não ter tua amada presença
a cada instante, a cada doce instante se te vejo,
a cada cruel instante se longe estás.
Deixa que fale de tua vida profissional:
não é que eu não queira
— e com todas as minhas forças não quero —
afetá-la:
é que ela sobrenada,
na qualidade que por si só ostenta,
clara,
nítida,
incontrastável,
como o melhor o exemplar exemplo do que deve ser.
Não há disto dúvida, anjo meu.
E nela não toco, toquei ou tocarei,
a não ser no papel humilde,
a que pelo vácuo fui levado,
de tentar coordenar ações — as tuas, sim, com as dos outros.
Ninguém pensa, nem pensará, nem pensaria,
que qualquer coisa do que fazes é por mim feita.
Nossa associação profissional a isto se limita:
colegas num trabalho em que tua parte excele
e a minha, ai de mim, aos trancos e barrancos anda.
Quanto ao nos associarem como namorados
é certo, é bem certo que assim é:
mas não basta meu falar enfático
meu dizer que não é o que parece.
Dizes que minha face é transparente,
não creio.
Se fosse, se claro cristal,
ela devia brilhar com luz que cegaria
tão intensa é a energia do meu querer.
Mas sei que mesmo neste rosto de barro
passa o meu ser enamorado
a clara adoração
a reverência, a paixão.
Já nos dissemos superiores
ambos livres, os ditos não contavam.
Mas sei que incomoda — até a mim
este hábito de nos buscar um junto ao outro
como se fôssemos, não só namorados, mas
siameses, geminados, recolados, costurados.
Aceito a tua regra como tudo aceito
que venha de ti:
tudo vem carregado de bem
tudo vem cheio de vontade de acertar
e de cuidado.
Nela procurarei viver:
sem a cada instante te ver,
vazio de tua luz, de tuas cores
segurando o coração que foge do peito
buscando,
como o quase afogado que vem à tona
o ar
— tu, que és o único ar que respiro —
esperando ansioso tua voz
teu riso cristalino
teu olhar que cura.
Mas relê a carta que escrevi a ti, meu anjo,
há um tempo:
ouve o rufar, o surdo bater das asas dos arcanjos
a orquestra celestial no despertar
que para mim tocaste.
E então deixe que de novo tente
viver da vida o momento impossível, e apenas o impossível.