Arco Íris: os poemas para o Anjo

ser um estado de revolução permanente
amar com amor com paixão com coração

Carta ao Meu Anjo

Anjo meu que me faz tremer
ouve agora meu coração:

Não preciso, senhora, de proteção, de cuidados, de precaução:
o meu sofrer é todo por mim construído
pelas minhas mãos inábeis construído
pedra a pedra levantado na busca do impossível
da felicidade impossível
do amor impossível.

De anjos cercado, pela vida andei
e tantas vezes o impossível encontrei
— com ele brinquei, corri, sorri, rolei.
Tantas vezes o deixei escapar
nas sombras das veredas profundas.

Tenho o coração curtido do amor correspondido
e também, ai, senhora, do amor irrespondido.

Mas não deixo, não quero deixar o que passou vir me pegar:
do impossível que perdi
é a alegria que guardo, o canto infantil, a roda, a rede a balançar
no mais alto muro correr
no dia solar mergulhar de asas abertas, velas desfraldadas ao vento,
é a certeza de que o sonho
enche o mundo, enche a vida, enche os corações.

Te estendo a mão, senhora minha,
me dê a tua a tocar.

Sei que o que peço é injusto:
tão pouco tenho a te dar
e tu,
tu enches minha vida como a luz que depois da chuva se faz anunciar
anunciar pelo arco-íris
anunciar que a vida se lava e renasce em cores.

Mas apenas toca minha mão, senhora, não mais que um toque
um leve toque a cada dia,
e eu poder te olhar.

Eu não sei o que te dar.
Meu coração já o tens, não me pertence,
tu o tomaste tão completamente que até o sangue
o vermelho sangue do destino
espera tua ordem para correr.
Minha alma é tua: bem o sabes.

O que me resta é ser teu amigo,
ser digno da tua confiança
é tentar ver nos sinais a hora certa.

Tudo isto, senhora, vive de liberdade.

A liberdade de rir, brincar, reclamar, corrigir
a liberdade de querer e de não querer
a liberdade de sonhar e sonhar com o impossível.

E eis, pois, um impossível possível:
estarmos juntos agora, de mãos dadas
ou eu a teus pés massagear
cuidar de ti como de minha irmã, ou filha, ou mãe
recostar minha cabeça em teu colo
te fazer cafuné
contar histórias bobas ou sérias
sorrir, chorar
perdoar.

Não pensar, senhora, no amanhã
no que será
no que deve ser
no que pode ser.

Viver da vida o momento impossível, e apenas o impossível.

E então ouvirei o surdo bater das asas dos arcanjos
a orquestra celestial no despertar
e no céu viajarei até acordar.

 

 

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