São Paulo, segunda-feira, 08 de junho de 2009
Salvador
Anterior
Próxima
  |
O Senador invisível e o Kit barro
Quem te viu, quem te
vê. Uma das cenas mais reveladoras do quanto, na vida política brasileira, tudo
o que é sólido se desmancha no ar ao sabor dos interesses foi a das imagens
veiculadas pela TV Bahia em seus telejornais durante a última visita do
presidente Lula à Bahia e a simultânea omissão do nome de um personagem até
ontem tido como unha e cutícula dos donos da casa global. Durante a inauguração
do edifício que vai abrigar unidades de ensino da Universidade Federal do
Recôncavo, em Cachoeira, uma das lideranças políticas refesteladas na primeira
fila das cadeiras de cabeças coroadas do poder era o senador e ex-governador
César Borges, há muito caído em desgraça nas hostes do que sobrou do carlismo
após a hecatombe gerada pela vitória do governador Jaques Wagner e pela morte do
senador Antônio Carlos Magalhães. A presença do senador, no entanto, foi
sonoramente ignorada pelo BA TV.
Como a televisão não deve falsear tanto a realidade ao ponto de suprimir da tela
as personagens que não são mais bem vindas às câmeras de quem capta as imagens,
a saída é suprimir qualquer referência verbal aos indesejados. Pois bem, foi
isso o que se viu. No telejornal da noite, no dia da inauguração, as imagens
mostravam o senador César Borges, encorpado ao lado dos poderosos na tela, mas
tornado invisível para a TV Bahia, que o omitiu completamente quando citou os
nomes das autoridades presentes. Quem deve colocar os cabelos grisalhos de molho,
pois a partir de agora passará por desaparição semelhante na tela da Globo local
é o também ex-governador Oto Alencar, ex-amigo íntimo do carlismo e de malas
prontas para desembarcar na ampla tenda que abriga os mais novos aliados do
governo petista.
PURO SANGUE -
Tudo é possível no cenário político e uma cena até pouco tempo inimaginável
deverá compor parte do horário eleitoral gratuito na TV nas próximas eleições: o
governador e os parlamentares petistas pedindo votos para Alencar tornar-se
senador da República. E depois acusam a novelista Glória Pérez de ter uma
imaginação tão doida que parece inverossímil. O que é a inverossimilhança
traduzida pela Índia inteira falando português fluente na novela das oito diante
de um petista aguerrido pedindo votos, num palanque eletrônico de verdade, para
Oto Alencar, até ontem um carlista puro sangue?
E por falar em eleições, votos e partidos, a informação mais veiculada em toda a
semana nos telejornais foi a mensuração da carga tributária brasileira. Desde o
primeiro dia útil do ano até a última quarta-feira, cada brasileiro trabalhou
apenas para pagar impostos. Em uma linguagem mais clara, a população trabalha o
equivalente a cinco meses por ano para sustentar a máquina burocrática do
estado. Todas as emissoras de TV e jornais impressos deram o máximo de destaque
ao fato e não há cidadão dotado do mínimo de bom senso que não se sinta roubado
diante de tal aritmética. De um lado, bilhões de reais arrancados do bolso da
população, direta ou indiretamente, via salário, taxas, tributos ou aquisição de
todo e qualquer produto. Do outro, uma estrutura que devora insaciavel e
ininterruptamente grande parte desse dinheiro nos dutos da corrupção que
enriquece hordas de representantes dos poderes públicos e empresários a eles
associados.
KIT BARRO
- A realidade brasileira, bem nas portass do tal quinto mês que equivale aos dias
trabalhados por cada cidadão para sustentar a máquina pública, deu sua mão
perversa para acentuar o quanto a carga tributária não se reverte em condições
mínimas proporcionadas pelo poder público para socorrer com os bilhões que
arrecada as pessoas que perdem tudo, como acaba de acontecer, principalmente no
Norte e Nordeste, em conseqüências das chuvas, enchentes e desabamentos. Em
Salvador, assim que as chuvas começaram a desabrigar centenas de famílias, o que
se viu foram efeitos pirotécnicos de autoridades sobrevoando a cidade alagada e
anunciando ajuda-aluguel no valor de 150 reais para quem perdeu a casa.
Algumas semanas depois, as falas das autoridades foram substituídas por
desabrigados exibindo para as câmeras papeizinhos puídos que lhes foram dados
como espécie de fichas para receber a tal ajuda, até agora não transformada em
dinheiro. Em Teresina, capital do Piauí, a estratégia foi mais criativa. Os
desabrigados mais sortudos receberam da Prefeitura um kit de barro e varas, para
fazer casas de taipa, de pau a pique. A evidência, nos dois casos, é a de que ao
rico dinheirinho dos impostos pagos pelos brasileiros deve ser dado destino
melhor: construção de castelo, contratação de 180 diretores para o Senado,
compra caixotes de metal para prender gente no Carnaval de Salvador, pagar
viagens de parlamentares para o mundo inteiro, enriquecer com licitações
fraudulentas coronéis da PM tidos como reservas morais da corporação...
[email protected]
_________________________________________________
Malu Fontes
é
jornalista, doutora em Comunicação e Cultura, professora da
Facom-UFBA
e colunista do Jornal A Tarde, de Salvador, na Bahia.
|
MURAL DE
RECADOS DO MPR
|