São Paulo, segunda-feira, 20 de abril de 2009
Blog da Lio
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Leila Diniz
Eu amava Leila Diniz. Na adolescência foi
minha ídola, um modelo e uma inveja. Leila Diniz junto com Caetano foram os meus
dois ídolos máximos. Caetano ainda é. E Leila também. Sempre será. Sempre serão.
Admirava e invejava a coragem dela de dizer o que pensava, de fazer, de ser. Ser
livre. Mais do que o comportamento que afinal, eu não teria a mesma coragem numa
cidade do interior da Bahia naquela época, a maior admiração foi a descoberta de
uma liberdade do ser.
Fui influenciada em várias coisas. Por exemplo, por causa dela, eu decidi que
não iria casar nunca, muito menos de véu e grinalda na igreja. Passei anos e
anos dizendo que jamais me casaria até que apareceu um homem que me convenceu.
Eu relutei o quanto pude mas enfim casamos. Sem véu nem grinalda. No primeiro
ano, entrei em crise profunda, tive síndrome do pânico e fiz análise freudiana.
Para quem queria ser como Leila Diniz não foi fácil encarar o casamento. Depois
de uns anos acabou e novamente aqui estou eu, recitando o meu mantra preferido
"nunca mais vou casar". Talvez exista por aí um outro homem que me fará mudar de
idéia novamente. Se acontecer, estarei imune a crises (gastei todas no primeiro)
e já suficientemente analisada (acho), pode ser bem mais legal.
Eu lia O Pasquim. Comprava na banca e quando não tinha, não sei como, meu pai
conseguia pra mim. Quando saiu a entrevista com Leila, não achei. Acabou
rapidamente. Mas antes mesmo do meu pai conseguir, alguém na escola tinha
conseguido. Era uma escola de freiras só para meninas. Tivemos a idéia de ler na
igreja com a desculpa de ser o lugar mais sossegado para estudar e ninguém
descobriu.
Já quando apareceu a fita cassete da entrevista completa (a fita era um sucesso
e toda hora aparecia mais cópias), a operação para escutar foi mais complicada
já que, além do gravador ser proibido - além do mais, um trambolho- não existia
fone de ouvido (nossa, como sou antiga!!), e então tivemos que ir para um beco,
do lado de fora da escola e alguém nos viu sentadas no chão, em círculo,
concentradas e nos dedurou dizendo que estávamos fumando!! Um escândalo com
ameaça de suspensão e tudo. De todo modo, melhor fumando do que ouvindo "a" fita
que, a essa altura era caçada pelas freiras e pelos nossos pais. O esconderijo
caiu mas ouvimos várias outras vezes, muitas vezes, sempre pasmas com os
palavrões. Alguns nem sabíamos o que significava. O que será foda? E caralho?
Entre nós, sozinhas, falávamos todos aqueles palavrões e achávamos que éramos
meio Leila Diniz.
O dia que Leila morreu foi um dos dias mais tristes da minha vida. Até então, eu
tinha perdido meu avô uns dois anos antes e sofrido muito. Lembro que estudava
pela manhã e era dia de educação física e nesse dia, foi um jogo de handebol.
Nosso time ganhou, voltei para casa andando, com o uniforme de ginástica
quadriculado vermelho e branco, toda suada e morrendo de fome mas bem feliz com
a vitória. Eu odiava aula de educação física mas adorava ganhar, lógico.
Em frente ao nosso prédio tinha um terreno e logo que virei a esquina nesse
terreno, eu vi minha mãe na janela nitidamente me esperando. Não era o normal.
Lembro do aperto no coração. Aconteceu alguma coisa. Subi as escadas correndo e
minha mãe na porta: “calma, aconteceu uma coisa triste, um acidente de avião na
Índia e Leila Diniz morreu”. Passou a fome e chorei, chorei e chorei grudada na
TV e com raiva da Índia e do mundo. Como foi acontecer uma merda dessas? Passei
dias e dias remoendo a perda e pensando o que seria de Janaína, a filhinha dela.
Que merda, que merda, que puta merda...
Vi o filme "Todas as Mulheres do Mundo" depois, quando já morava em Salvador e
para mim, é um clássico do cinema mundial. Não só para mim. Também para o
cronista Ruy Castro que o colocou numa lista dos melhores filmes de todos os
tempos. O filme é maravilhoso.
Sou admiradora de Domingos de Oliveira, muito fã. Já escrevi aqui que vejo e
gosto de tudo que ele faz. Eu gosto dele, ele foi casado com Leila e ele é
genial.
A biografia de Leila Diniz escrita pelo excelente jornalista Joaquim Ferreira
dos Santos é fiel a Leila, a história dela, ao que ela representou para a época,
para todas as mulheres e adorei saber coisas da vida dela que não conhecia, que
nem imaginava. Estive esperando por essa biografia há muito tempo. Adorei ele
denunciar com muita ironia, a hipocrisia de que em vida, ela era considerada uma
puta mas que assim que morreu virou santa para os mesmos puritanos e moralistas
que a xingavam.
Leila mudou muitas coisas em relação à mulher mas o machismo continua firme e
forte. Ainda hoje, em pleno Século XXI, as mulheres apesar de todos os avanços,
de todas as conquistas, continuam sendo espancadas e assassinadas por homens
inseguros, covardes e malvados. Leila, muitos anos à frente do seu tempo tinha
avisado: “os homens estão perdidos”.
E ainda hoje, mulheres são julgadas pelo número de parceiros que passam pela sua
cama.
Adorei tudo e adorei saber que antes de morrer, Leila simplesmente pegou
Afonsinho! Afonsinho era um jogador de futebol gatíssimo e rebelde que era o
meu, o nosso, de todas as mulheres do Brasil, objeto de desejo e sonhos. Eu
tinha a foto dele na capa do meu caderno e naqueles cadernos onde respondíamos
um questionário (alguém lembra?), ele era sempre citado. Uma paixão: Afonsinho.
Um sonho: Afonsinho. Um desejo: Afonsinho. Só por isso, mesmo que eu não fosse
fã dela, passaria a ser no ato. Gente, Afonsinho...
Leila era foda, era do caralho. Para sempre Leila.
Obrigada Joaquim Ferreira dos Santos.
Trechos do livro
Domingos conta:
“Eu não queria ser casado, ela também não. Impossível o casamento entre jovens.
O casamento é para os que passaram dos cinqüenta. Tem muita inquietação.”
Houve mais homens casados no currículo de Leila, e um dia o amigo Daniel Filho,
noZeppellin, fez a pergunta que não queria calar:
“Porque essa fixação?”
E ela:
“Talvez seja a possibilidade de eu ficar livre mesmo dentro da relação. Eu estou
solta, ele está preso.”
Garçom, outro chope.
[email protected]
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Eliana de Morais é
produtora de eventos, baiana, ex publicitária,
turismóloga, tem um curso de eventos, professora da
Pós-Graduação em gestão e organização de eventos das Faculdades Olga
Mettig e arrisca textos.
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