São Paulo, segunda-feira, 13 de abril de 2009
Ponto de Vista
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Solidariedade tem fronteira
REGGIO EMILIA
(ITA) -
O quanto você está disposto a
sair da sua casa e ajudar uma cidade cujas casas foram destruídas de uma hora
para a outra?
Depende. Esta provavelmente será a resposta da maioria. E, realmente, depende de
muitas coisas. A começar pela distância. Alguém se mexeria para ajudar uma
população a 10 mil quilômetros de distância? E a mil quilômetros...? Cem...!?
Acredito que o desejo de ajudar exista, mas a distância é um fator
complicador. Seria tão bom se montassem uma barraquinha de doações na esquina de
casa, no posto de gasolina mais próximo, na escola dos filhos, sei lá! Qualquer
lugar, desde que seja no meu trajeto.
Admitamos: a solidariedade tem fronteiras. Infelizmente.
Esta conclusão tão óbvia, e aparentemente inútil, bateu à minha porta depois da
madrugada do último dia 6 de abril. Sim, na noite em que milhares de pessoas
sentiram suas casas serem engolidas pela terra.
Naquela madrugada, 290 pessoas perderam a vida numa área onde viviam cerca de 60
mil pessoas. É como se todas estas pessoas morressem, em Vinhedo (no interior de
SP), numa só noite e, para piorar, as que sobrevivessem não pudessem voltar para
suas casas, suas escolas, negócios, comércio, nada. Mais de 50 mil pessoas
simplesmente não têm para onde ir!
Se você não está na Itália, a vontade de ajudar estas pessoas ainda depende,
pois L'Aquila não é Vinhedo e está, sim, a quase 10
mil quilômetros de São Paulo, capital. Sem contar que a tragédia foi causada por
um terremoto, situação que o Brasil jamais viveu além de pequenos tremores, aqui
e ali. E tomara que não viva! Quiçá ninguém mais vivesse isso, mas o Planeta
está vivo e ainda vai se mexer muito, engolir muitas casas, matar muita gente,
por água, terra ou fogo.
Não sei como o resto do mundo viu a tragédia que abateu sobre L’Aquila,
mas aqui, na Itália, o país parou diante da televisão e das bancas de jornais. A
onda de solidariedade é tão grande e tão pulverizada que um grupo de estudantes
de informática e seus professores centralizaram as ações solidárias em um site
para facilitar a saída de mantimentos, dinheiro e até voluntários. Quer doar
alguma coisa? Está tudo ali! Como doar para as crianças, para os deficientes,
como doar dinheiro, roupas. Tudo com seus respectivos
telefones de contato e/ou contas bancárias.
Mas a região carece de mais! Carece de esperança, de perspectiva, de vida! Por
isso, foram enviados psicólogos para atender às crianças. Algumas perderam a
família inteira. Outras, perderam colegas. E todas,
absolutamente todas, estão aterrorizadas e sem perspectiva de um futuro próximo.
Não têm escolas, nem brinquedos, nem alegria. Só um monte de tendas e fogões
improvisados. As crianças feridas são assistidas pelos “Doutores da Alegria”.
As instituições se movimentaram rapidamente e, em poucas horas, acampamentos já
tinham sido montados com medicamentos, camas, roupas, alimentos e água.
Cada pessoa retirada com vida era um milagre celebrado com lágrimas,
principalmente pelos “Vigili
del Fuoco”
(bombeiros), homens que trabalharam os últimos quatro dias sem descanso. E 30
pessoas ainda estão desaparecidas...
Já a Cruz Vermelha (Croce Rossa) centralizou o
gerenciamento de voluntários. E são muitos que estão dispostos a deixar suas
casas e irem até L’Aquila.
O Correio está doando a taxa de 1,10 euro para as
vítimas do terremoto. Esta é a taxa que os Correios
cobram para receber os pagamentos de diversas contas, como luz, telefone e
impostos.
A Telecom Itália já disse que ninguém da Província
de L’Aquila terá que pagar as faturas deste mês,
pois elas foram perdoadas (também, era só o que faltava, hein!).
Pessoas das cidades vizinhas estão recebendo em suas casas, moradores
desabrigados. É o mais próximo de um lar que eles têm, hoje. Nem as escolas e
hospitais puderam ser usados como abrigo. As rachaduras condenaram os prédios. O
mesmo aconteceu com centenas de construções civis e públicas, assim como dezenas
de patrimônios históricos.
Uma das cenas mais dramáticas de hoje é a de um bombeiro beijando o caixão de
Antonio. O bebê de cinco meses colocado sobre o caixão da mãe. Se eu ainda
estivesse no Brasil, certamente teria chorado ao ver este cena ou o do menino de
dois anos, que morreu abraçado à mãe, que ainda usou o próprio corpo para tentar
salvar a criança.
Mas, estando aqui, o que sinto (e todos sentem) é mais que uma tristeza, e
chorar é pouco. Falta esta explosão que precede o
chôro. O coração parece não bater. O aperto no peito
chega a nos deixar sem fôlego, é uma dor inimaginável, se é que me faço
entender... o ar tornou-se mais denso, como se a
poeira que sufocou tantas crianças até a morte, estivesse por todo o país.
Estando aqui, a notícia do “Terremoto in Abruzzo”
não é apenas uma página nos jornais ou uma entre dezenas de notícias na
televisão. A tragédia em L’Aquila não é UMA notícia.
É um fato, um marco. As Tvs
italianas cancelaram os programas de entretenimento. As lojas fecharam as
portas, às 11 da manhã desta sexta-feira, durante o funeral das vítimas.
No meio de tanta tristeza, existe espaço para a revolta. E como! Em uma área
sísmica como L’Aquila, as construções modernas
deveriam ter uma estrutura especial e não tinham, a exemplo do hospital
construído em 2000 que, embora não tenha ido ao chão, foi totalmente danificado.
Quem o construiu? E por que não o fez devidamente?
O dormitório dos estudantes universitários, que desabou sobre centenas de jovens
(matando dezenas deles), apesar de “novo” também não era anti-sísmico.
E o físico que avisou que a terra iria tremer em L’Aquila
e não lhe deram ouvidos? Acreditando em seus estudos,
Giampaolo Giuliani tirou a família de casa às 23h, quatro horas antes da
catástrofe. O que dizem agora as autoridades?
De tudo isso, e mesmo estando a 500 quilômetros de distância de L’Aquila,
posso dizer, com certeza, que a minha visão de vida, de risco, de futuro e de
responsabilidade, mudaram. E essas coisas só acontecem quando se está num
perímetro de risco, ou no raio da “solidariedade”.
A quem você é solidário? Esta é a pergunta que deixo para uma perfeita reflexão
de Páscoa.
A Páscoa, aliás, terá o verdadeiro significado para os sobreviventes de L’Aquila,
este ano. Será, realmente, tempo de renascer. De reconstruir, readaptar,
reestruturar e refazer, que é o que eles mais querem. A
força e dignidade com que estas pessoas reerguerão suas casas vai surpreender
o mundo. Mas elas não o farão sozinhas. Terão muita
ajuda, mas os culpados terão que pagar. E espero que paguem.
[email protected]
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Érika Bento Gonçalves.
Jornalista, começou a carreira em 1994, em Poços de Caldas, sul de Minas Gerais.
Passou de repórter a apresentadora e editora-chefe da emissora de televisão
regional, Tv Poços. Em dez anos de trabalho em Minas atuou também nas áreas de
marketing e jornalismo político. Foi coordenadora dos programas de televisão em
duas campanhas políticas. É Editora na Rede Record e articulista deste MPR
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