Escrito por Engels
em 1876. Publicado pela primeira vez em 1896
O trabalho é a fonte de toda riqueza, afirmam os
economistas Assim é, com. efeito, ao lado da natureza,
encarregada de fornecer os materiais que ele converte
É de supor que, como conseqüência direta de seu
gênero de. vida, devido ao qual as mãos, ao trepar,
tinham que desempenhar funções distintas das dos pés, esses macacos foram-se
acostumando a prescindir de suas mãos ao caminhar pelo chão e começaram a
adotar cada vez mais uma posição erecta. Foi o passo
decisivo para a transição do macaco ao homem.
Todos os macacos antropomorfos que existem hoje
podem permanecer em posição erecta e caminhar
apoiando-se unicamente sobre seus pés; mas o fazem só
em casos de extrema necessidade e, além disso, com enorme lentidão. Caminham
habitualmente em atitude semi-erecta, e sua marcha
inclui o uso das mãos. A maioria desses macacos apóiam
no solo os dedos e, encolhendo as pernas, fazem avançar o corpo por entre os
seus largos braços, como um paralítico que ca minha
com muletas. Em geral, podemos ainda hoje observar entre os macacos todas as
formas de transição entre a marcha a quatro patas e a marcha em posição erecta.
Mas para nenhum deles a posição erecta
vai além de um recurso circunstancial. E posto que a posição erecta havia de ser para os nossos
peludos antepassados primeiro uma norma, e logo uma necessidade, dai se
depreende que naquele período as mãos tinham que executar funções cada vez mais
variadas. Mesmo entre os macacos existe já certa divisão de funções entre os
pés e as mãos. Como assinalamos acima, enquanto trepavam
as mãos eram utilizadas de maneira diferente que os pés. As mãos servem
fundamentalmente para recolher e sustentar os alimentos, como o fazem já alguns mamíferos inferiores com suas patas
dianteiras. Certos macacos recorrem às mãos para construir ninhos nas árvores;
e alguns, como o chimpanzé, chegam a construir telhados entre os ramos, para
defender-se das inclemências do tempo. A mão lhes serve para empunhar garrotes,
com os quais se defendem de seus inimigos, ou para os
bombardear com frutos e pedras. Quando se encontram prisioneiros
realizam com as mãos vá rias operações que copiam dos
homens. Mas aqui precisamente é que se percebe quanto é grande a distância que
se para a mão primitiva dos macacos, inclusive os antropóides mais superiores, da mão do homem, aperfeiçoada pelo trabalho
durante centenas de milhares de anos. O número e a disposição geral dos
ossos e dos músculos são os mesmos no macaco e no homem, mas a mão do selvagem
mais primitivo é capaz de executar centenas de operações que não podem ser
realizadas pela mão de nenhum macaco. Nenhuma mão simiesca construiu jamais um
machado de pedra, por mais tosco que fosse.
Por isso, as funções, para as quais nossos
antepassados foram adaptando pouco a pouco suas mãos durante os muitos milhares
de anos em que se prolongam o período de transição do macaco ao homem, só
puderam ser, a princípio, funções sumamente simples. Os selvagens mais
primitivos, inclusive aqueles nos quais se pode presumir o retorno a um estado
mais próximo da animalidade com uma degeneração física simultânea, são muito
superiores àqueles seres do período de transição. Antes de a primeira lasca de
sílex ter sido transformada em machado pela mão do homem, deve ter sido
transcorrido um período ;~e tempo tão largo que, em
comparação com ele, o período histórico por nós conhecido torna-se
insignificante. Mas havia sido dado o passo decisivo: a mão era livre e podia
agora adquirir cada vez mais destreza e habilidade; e essa maior flexibilidade
adquirida transmitia-se por herança e aumentava de geração em geração.
Vemos, pois, que a mão não é apenas o órgão do
trabalho; é também produto dele. Unicamente pelo trabalho, pela adaptação a
novas e novas funções, pela transmissão hereditária do aperfeiçoamento especial
assim adquirido pelos músculos e ligamentos e, num período mais amplo, também
pelos ossos; unicamente pela aplicação sempre renovada dessas habilidades
transmitidas a funções novas e cada vez mais complexas foi que a mão do homem
atingiu esse grau de perfeição que pôde dar vida, como por artes de magia, aos
quadros de Rafael, às estátuas de Thorwaldsen e à
música de Paganini.
Mas a mão não era algo com existência própria e
independente. Era unicamente um membro de um organismo integro e sumamente
complexo. E o que beneficiava à mão beneficiava também a todo o corpo servido
por ela; e o beneficiava em dois aspectos.
Primeiramente, em virtude da lei que Darwin chamou
de correlação do crescimento. - Segundo essa lei, certas formas das diferentes
partes dos seres orgânicos sempre estão liga das a
determinadas formas de outras partes, que aparente mente não têm nenhuma
relação com as primeiras. Assim, todos os animais que possuem glóbulos
vermelhos sem núcleo e cujo occipital está articulado com a primeira vértebra
por meio de dois côndilos, possuem, sem exceção, glândulas mamárias para a
alimentação de suas crias. Assim também, a úngula fendida de alguns mamíferos
está ligada de modo geral à presença de um estômago multilocular adaptado à
ruminação. As modificações experimentadas por certas for mas
provocam mudanças na forma de outras partes do organismo, sem que estejamos em
condições de explicar tal conexão. Os gatos totalmente brancos e de olhos azuis
são sempre ou quase sempre surdos. O aperfeiçoamento gradual da mão do homem e
a adaptação concomitante dos pés ao andar em posição erecta
exerceram indubitavelmente, em virtude da referida correlação, certa influência
sobre outras partes do organismo. Contudo, essa ação se acha ainda tão pouco
estudada que aqui não podemos senão assinalá-la em
termos gerais.
Muito mais importante é a ação direta - possível de
ser demonstrada - exercida pelo desenvolvimento da mão sobre o resto do
organismo. Como já dissemos, nossos antepassados simiescos eram animais que
viviam em manadas; evidentemente, não é possível buscar a origem do homem, o
mais social dos animais, em antepassados imediatos que não vivessem congregados.
Em face de cada novo progresso, o domínio sobre a natureza que tivera início
com o desenvolvimento da mão, com o trabalho, ia ampliando os horizontes do
homem, levando-o a descobrir constantemente nos objetos novas propriedades até
então desconhecidas. Por outro lado, o desenvolvimento do trabalho, ao
multiplicar os casos de ajuda mútua e de atividade conjunta, e ao mostrar assim
as vantagens dessa atividade conjunta para cada indivíduo, tinha que contribuir
forçosamente para agrupar ainda mais os membros da sociedade. Em resumo, os
homens em formação chegaram a um ponto em que tiveram necessidade de dizer
'algo uns aos outros. A necessidade criou o órgão: a laringe pouco desenvolvida
do macaco foi-se transformando, lenta mas firmemente,
mediante modulações que produziam por sua vez modulações mais perfeitas,
enquanto os órgãos da boca aprendiam pouco a pouco a pronunciar um som
articulado após outro.
A comparação com os animais mostra-nos que essa
explicação da origem da linguagem a partir do trabalho e pelo trabalho é a
única acertada. O pouco que os animais, inclusive os mais desenvolvidos, têm
que comunicar uns aos outros pode ser transmitido sem o concurso da palavra
articulada. Nenhum animal em estado selvagem sente-se prejudicado por sua incapacidade
de falar ou de compreender a linguagem humana. Mas a situação muda por completo
quando o animal foi domesticado pelo homem. O contato com o homem desenvolveu
no cão e no cavalo um ouvido tão sensível à linguagem articulada que esses
animais podem, dentro dos limites de suas representações, chegar a compreender
qualquer idioma. Além disso, podem chegar a adquirir sentimentos antes
desconhecidos por eles, como o apego ao homem, o sentimento de gratidão, etc.
Quem conheça bem esses animais dificilmente poderá escapar à convicção de que,
em muitos casos, essa incapacidade de falar é experimentada agora por eles como
um defeito. Desgraçadamente, esse de feito não tem remédio, pois os seus órgãos
vocais se acham demasiado especializados em determinada direção. Contudo,
quando existe um órgão apropriado, essa Incapacidade pode ser superada dentro
de certos limites. Os órgãos vocais das aves distinguem-se em forma radical dos
do homem e, no entanto, as aves são os únicos animais que podem aprender a
falar; e o animal de voz mais repulsiva, o papagaio, é o que melhor fala. E não
importa que se nos objete dizendo-nos que o papagaio não sabe o que fala. Claro
está que por gosto apenas de falar e por sociabilidade o papagaio pode estar
horas e horas repetindo todo o seu vocabulário. Mas, dentro do marco de suas
representações, pode chegar também a compreender o que diz. Ensinai a um
papagaio dizer palavrões (uma das distrações favoritas dos marinheiros que
regressam das zonas quentes) e vereis logo que se o Irritardes ele fará uso
desses palavrões com a mesma correção de qualquer verdureira
de Berlim. E o mesmo ocorre com o pedido de gulodices.
Primeiro o trabalho, e depois dele e com ele a
palavra articulada, foram os dois estímulos principais sob cuja influência o
cérebro do macaco foi-se transformando gradualmente em cérebro humano - que,
apesar de toda sua semelhança, supera-o consideravelmente em tamanho e
O desenvolvimento dó cérebro e dos sentidos a seu
ser viço, a crescente clareza de consciência, a capacidade de abstração e de
discernimento cada vez maiores, reagiram por sua vez sobre o trabalho e a
palavra, estimulando mais e mais o seu desenvolvimento. Quando o homem se
separa definitivamente do macaco esse desenvolvimento não cessa de modo algum,
mas continua, em grau diverso e em diferentes sentidos entre os
diferentes povos e as diferentes épocas, interrompido mesmo às vezes por
retrocessos de caráter local ou temporário, mas avançando em seu
conjunto a grandes passos, consideravelmente Impulsionado e, por sua vez,
orientado em um determinado sentido por um novo elemento que surge com o
aparecimento do homem acabado: a sociedade
Foi necessário, seguramente, que transcorressem
centenas de milhares de anos - que na história da Terra têm uma importância
menor que um segundo na vida de um homem antes que a sociedade humana surgisse
daquelas manadas de macacos que trepavam pelas árvores.
Mas, afinal, surgiu. E que voltamos a encontrar como sinal distintivo entre a
ma nada de macacos e a sociedade humana? Outra vez, o trabalho. A manada de
macacos contentava-se em devorar os alimentos de uma área que as condições
geográficas ou a resistência das manadas vizinhas determinavam. Transportava-se
de um lugar para outro e travava lutas com outras manadas para conquistar novas
zonas de alimentação; mas era Incapaz de extrair dessas zonas mais do que
aquilo que a natureza generosamente lhe oferecia, se excetuarmos-
a ação Inconsciente da manada ao adubar o solo com seus excrementos.
Quando foram ocupadas todas as zonas capazes de proporcionar alimento, o
crescimento da população simiesca tornou-se já, Impossível; no melhor dos casos
o número de seus animais mantinha-se no mesmo nível Mas todos os animais são
uns grandes dissipadores de alimentos; além disso, com freqüência, destroem em
germe a nova geração de reservas alimentícias. Diferentemente do caçador, o
lobo não respeita a cabra montês que lhe proporcionaria cabritos no ano
seguinte; as cabras da Grécia, que devoram os jovens arbustos antes de poder
desenvolver-se, deixaram nuas todas as montanhas do pais.
Essa "exploração rapace" levada a efeito pelos animais desempenha um
grande papel na transformação gradual das espécies, ao obrigá-las a adaptar-se
a alimentos que não são os habituais para elas, com o que muda a composição
química de seu sangue e se modifica to da a
constituição física do animal; as espécies já plasmadas ,desaparecem. Não há
dúvida de que essa exploração rapace para a humanização de nossos ante. passados, pois ampliou o número de plantas e as partes das
plantas utilizadas na alimentação por aquela raça de macacos que superava todas
as demais em inteligência e em capacidade de adaptação. Em uma palavra, a
alimentação, cada vez mais variada, oferecia ao organismo
novas e novas substâncias, com o que foram criadas as condições químicas
para a transformação desses macacos em seres humanos. Mas tu do isso não era
trabalho no verdadeiro sentido da palavra. O trabalho começa com a elaboração
de instrumentos. E que representam os instrumentos mais antigos, a julgar pelos
restos que nos chegaram dos homens pré-históricos, pelo gênero de vida dos
povos mais antigos registrados pela história, assim como pelo dos selvagens
atuais mais primitivos? São instrumentos de caça e de pesca, sendo os primeiros
utiliza dos também como armas. Mas a caça e a pesca
pressupõem a passagem da alimentação exclusivamente vegetal à alimentação
mista, o que significa um novo passo de sua importância na transformação do
macaco
O consumo de carne na alimentação significou dois
novos avanços de importância decisiva: o uso do fogo e a domesticação dos
animais. O primeiro reduziu ainda mais o processo da digestão, já que permitia
levar a comida à boca, como se disséssemos, meio
digerida; o segundo multiplicou as reservas de carne, pois agora, ao lado da
caça, proporcionava uma nova fonte para obtê-la em forma mais regular. A
domesticação de animais também proporcionou, com o leite e seus derivados, um
novo alimento, que era pelo menos do mesmo valor que a carne quanto à
composição. Assim, esses dois adiantamentos converteram-se diretamente para o
homem em ovos meios de -emancipação. Não podemos
deter-nos aqui em examinar minuciosamente suas - conseqüências indiretas,
apesar de toda a Importância que possam ter para o desenvolvimento do homem e
da sociedade, pois tal exame nos afastaria demasiado de nosso
tema.
O homem, que havia aprendido a comer tudo o que era
comestível, aprendeu também, da mesma maneira, a viver em qualquer clima.
Estendeu-se por toda a superfície habitável da Terra, sendo o único animal
capaz de fazê-lo por iniciativa própria. Os demais animais que se adaptaram a
todos os climas - os animais domésticos e os insetos parasitas
-não o conseguiram por si, mas unicaamente acompanhando o homem. E a
passagem do clima uniformemente cálido da pátria original para zonas mais
frias, onde o ano se dividia em verão e Inverno, criou novas exigências, ao
obrigar o homem a procurar habitação e a cobrir seu corpo para proteger-se do
frio e da umidade. Surgiram assim novas esferas de trabalho, e com elas novas
atividades, que afastaram ainda mais o homem dos animais.
Graças à cooperação da mão, dos órgãos da linguagem
e do cérebro, não só em cada indivíduo, mas também na sociedade, os homens
foram aprendendo a executar operações cada vez mais complexas, a propor-se e
alcançar objetivos cada vez mais elevados. O trabalho mesmo se diversificava e
aperfeiçoava de geração em geração, estendendo-se cada vez a novas atividades.
À caça e à pesca veio juntar-se a agricultura, e mais tarde a fiação e a
tecelagem, a elaboração de metais, a olaria e a navegação. Ao lado do comércio
e dos ofícios apareceram, finalmente, as artes e as ciências; das tribos saíram
as nações e os Estados. Apareceram o direito e a
política, e com eles o reflexo fantástico das coisas no cérebro do homem: a
religião. Frente a todas essas criações, que se manifestavam em primeiro lugar
como produtos do cérebro e pareciam dominar as sociedades humanas, as produções
mais modestas, fruto do trabalho da mão, ficaram
relegadas a segundo plano, tanto mais quanto numa fase mui to recuada do
desenvolvimento da sociedade (por exemplo, já na família primitiva), a cabeça
que planejava o trabalho já era capaz de obrigar mãos alheias a realizar o
trabalho projetado por ela. O rápido progresso da civilização foi atribuído
exclusivamente à cabeça, ao desenvolvimento e à atividade do cérebro. Os homens
acostumaram-se a explicar seus atos pelos seus
pensamentos, em lugar de procurar essa explicação em suas necessidades
(refletidas, naturalmente, na cabeça do homem, que assim adquire consciência
delas). Foi assim que, com o transcurso do tempo, surgiu essa concepção
idealista do mundo que dominou o cérebro dos homens, sobretudo a partir do
desaparecimento do mundo antigo, e continua ainda a dominá-lo, a tal ponto que
mesmo os naturalistas da escola darwiniana mais chegados
ao materialismo são ainda incapazes de formar uma idéia clara acerca da origem
do homem, pois essa mesma influência idealista lhes impede de ver o papel
desempenhado aqui pelo trabalho.
Os animais, como já indicamos de
passagem, também modificam com sua atividade a natureza exterior, embora não no
mesmo grau que o homem; e essas modificações provocadas por eles no meio
ambiente repercutem, como vimos, em seus causadores, modificando-os por sua
vez. Nada ocorre na natureza em forma isolada. Cada fenômeno afeta a outro, e é
por seu turno influenciado por este; e é em geral o esquecimento desse movimento
e dessa interação universal o que Impede a nossos
naturalistas perceber com clareza as coisas mais simples. Já vimos como as
cabras impediram o reflorestamento dos bosques na Grécia;
Resumindo: só o que podem fazer os animais é
utilizar a natureza e modificá-la pelo mero fato de sua presença nela. O homem,
ao contrário, modifica a natureza e a obriga a servir-lhe, domina-a. E aí está,
em última análise, a diferença essencial entre o homem e os demais animais,
diferença que, inala unia vez, resulta do trabalho.
Contudo, não nos deixemos dominar pelo entusiasmo em
lace de nossas vitórias sobre a natureza. Após cada uma dessas vitórias a
natureza adota sua vingança. E verdade que as primeiras conseqüências dessas
vitórias são as previstas por nós, mas em segundo e em terceiro lugar aparecem consequências muito diversas, totalmente imprevistas e que,
com freqüência, anulam as primeiras. Os homens que na Mesapotâmia,
na Grécia, na Ásia Menor e outras regiões devastavam os bosques para obter
terra de cultivo nem sequer podiam imaginar que, eliminando com os bosques os
centros de acumulação e reserva de umidade, estavam assentando as bases da
atual aridez dessas terras. Os italianos dos Alpes, que destruíram nas encostas
meridionais os bosques de pinheiros, conservados com tanto carinho nas encostas
setentrionais, não tinham idéia de que com isso destruiam
as raízes da indústria de laticínios em sua região; e muito menos podiam prever
que, procedendo desse modo, deixavam a maior parte do ano secas as suas fontes
de montanha, com o que lhes permitiam, chegado o período das chuvas, despejar com maior fúria suas torrentes sobre a planície. Os
que difundiram o cultivo da batata na Europa não sabiam que com esse tubérculo
farináceo difundiam por sua vez a escrofulose. Assim, a cada passo, os fatos
recordam que nosso domínio sobre a natureza não se parece em nada com o domínio
de um conquistador sobre o povo conquistado, que não é o domínio de alguém
situado fora da natureza, mas que nós, por nossa carne, nosso sangue e nosso
cérebro, pertencemos à natureza, encontramo-nos em seu seio, e todo o nosso
domínio sobre ela consiste em que, diferentemente dos demais seres, somos
capazes de conhecer suas leis e aplicá-las de maneira adequada.
Com efeito, aprendemos cada dia a compreender melhor
a leis da natureza e a conhecer tanto os efeitos imediatos comi as
conseqüências remotas de nossa intromissão no curso na tural
de seu desenvolvimento. Sobretudo depois dos grandes progressos alcançados
neste século pelas ciências naturais, estamos em condições de prever e,
portanto, de controlar cada vez melhor as remotas conseqüências naturais de
nossos atos na produção, pelo menos dos mais correntes. E quanto mais isso seja
uma realidade, mais os homens sentirão e compreenderão sua unidade com a
natureza, e mais inconcebível será essa idéia absurda e antinatural da antítese
entre o espírito e a matéria, o homem e a natureza, a alma e o corpo, Idéia que
começa a difundir-se pela Europa sobre a base da decadência da antigüidade clássica e que adquire
seu máximo desenvolvimento no cristianismo.
Mas, se foram necessários milhares de anos para que
o homem aprendesse, em certo grau, a prever as remotas conseqüências naturais
no sentido da produção, muito mais lhe custou aprender a calcular as remotas
conseqüências sociais desses mesmos atos. Falamos acima da batata e de seus
efeitos quanto à difusão da escrofulose. Mas que importância pode ter a
escrofulose, comparada com os resultados que teve a redução da alimentação dos
trabalhadores a batatas puramente sobre as condições de vida das massas do povo
de países inteiros, com a fome que se estendeu em 1847 pela Ir landa em conseqüência de uma doença provocada por esse
tubérculo e que levou à sepultura um milhão de irlandeses que se alimentavam
exclusivamente, ou quase exclusivamente, de batatas e obrigou a que emigrassem
para além-mar outros dois milhões? Quando os árabes aprenderam a destilar o
álcool, nem sequer ocorreu-lhes pensar que haviam criado uma das armas
principais com que iria ser exterminada a população indígena do continente
americano, então ainda desconhecido. E quando mais tarde Colombo descobriu a
América não sabia que ao mesmo tempo dava nova vida à escravidão, há muito
tempo desaparecida na Europa, e assentado as bases do tráfico dos negros. Os
homens que nos séculos XVII e XVIII haviam trabalhado para criar a máquina a
vapor não suspeitavam de que estavam criando um instrumento que, mais do que
nenhum outro, haveria de subverter as condições sociais em todo o mundo e que,
sobretudo na Europa, ao concentrar a riqueza nas mãos de uma minoria e ao
privar de toda propriedade a imensa maioria da população, ha
veria de proporcionar primeiro o domínio social e político à burguesia, e
provocar depois a luta de classe entre a burguesia e o proletariado, luta que
só pode terminar com a liquidação da burguesia e a abolição de todos os
antagonismos de classe. Mas também aqui, aproveitando uma experiência ampla, e
às vezes cruel, confrontando e analisando os mate
riais proporcionados pela história, vamos aprendendo pouco a pouco a conhecer
as conseqüências sociais indiretas e mais remotas de nossos atos na produção, o
que nos permite estender também a essas conseqüências o nosso domínio e o nosso
controle.
Contudo, para levar a termo
esse controle é necessário algo mais do que o simples conhecimento. É
necessária uma revolução que transforme por completo o modo de produção
existente até hoje e, com ele, a ordem social vigente.
Todos os modos de produção que existiram até o
presente só procuravam o efeito útil do trabalho em sua forma mais direta e
imediata. Não faziam o menor caso das conseqüências remotas, que só surgem mais
tarde e cujos efeitos se manifestam unicamente graças a um processo de
repetição e acumulação gradual. A primitiva propriedade comunal da terra
correspondia, por um lado, a um estádio de desenvolvimento dos homens no qual
seu horizonte era limitado, em geral, às coisas mais imediatas, e pressupunha,
por outro lado, certo excedente de terras livres, que oferecia determinada
margem para neutralizar os possíveis resultados adversos dessa economia
primitiva. Ao esgotar-se o excedente de terras livres, começou a decadência da
propriedade comunal. Todas as formas mais elevadas de produção que vieram de pois conduziram à divisão da população em classes
diferentes e, portanto, no antagonismo entre as classes dominantes e as classes
oprimidas. Em conseqüência, os Interesses das classes dominantes converteram-se
no elemento propulsor da produção, enquanto esta não se limitava a manter, bem
ou mal, a mísera existência dos oprimidos. Isso encontra sua expressão mais
acabada no modo de produção capitalista, que prevalece hoje na Europa
ocidental. Os capitalistas individuais, que dominam a produção e a troca, só
podem ocupar-se da utilidade mais imediata de seus atos. Mais ainda: mesmo essa
utilidade - porquanto se trata da utilidade da mercadoria produzida ou trocada
- passa inteiramente ao segundo plano, aparrecendo como único incentivo o lucro
obtido na venda.
A ciência social da burguesia, a economia política
clássica, só se ocupa preferentemente daquelas conseqüências sociais que
constituem o objetivo imediato dos atos realizados pelos homens na produção e
na troca. Isso corresponde plenamente ao regime social cuja expressão teórica é
essa ciência. Porquanto os capitalistas isolados produzem ou trocam com o único
fim de obter lucros imediatos, só podem ser levados em conta, primeiramente, os
resultados mais próximos e mais imediatos. Quando um industrial ou um
comerciante vende a mercadoria produzida ou comprada por ele e obtém o lucro
habitual, dá-se por satisfeito e não lhe interessa de maneira alguma o que possa
ocorrer depois com essa mercadoria e seu comprador. O mesmo se verifica com as
conseqüências naturais dessas mesmas ações. Quando, em Cuba, os
planta dores espanhóis queimavam os bosques nas encostas das montanhas
para obter com a cinza um adubo que só lhes permitia fertilizar uma geração de
cafeeiros de alto rendi mento pouco lhes Importava que as chuvas torrenciais
dos trópicos varressem a camada vegetal do solo, privada da proteção das
árvores, e não deixassem depois de si senão rochas desnudas! Com o atual modo
de produção e no que se refere tanto às conseqüências naturais como às
conseqüências sociais dos atos realizados pelos homens, o que Interessa
prioritariamente são apenas os primeiros resultados, os mais palpáveis E logo
até se manifesta estranheza pelo fato de as consequências
remotas das ações que perseguiam esses fins serem muito diferentes e, na
maioria dos casos, até diametralmente opostas; de a harmonia entre a oferta e a
procura converter-se em seu antípoda, como nos demonstra o curso de cada um
desses ciclos industriais de dez anos, e como puderam convencer-se disso os que
com o "crack" viveram na Alemanha um
pequeno prelúdio; de a propriedade privada baseada no trabalho próprio
converter-se necessariamente, ao desenvolver-se, na ausência de posse de toda
propriedade pelos trabalhadores, enquanto toda a riqueza se concentra mais e
mais nas mãos dos que não trabalham.