Comte, cujo nome
completo era Isidore-Auguste-Marie-François-Xavier Comte, nasceu em 19 de janeiro
de 1798, em Montpellier, e faleceu em 5 de setembro de 1857,
Foi aluno da
célebre École Polytechnique, uma escola em Paris fundada em 1794 onde se
ensinava a ciência e o pensamento mais avançados da época. De família pobre,
sustentou seus estudos com o ensino ocasional da matemática e oportunidades no
jornalismo.
Um de seus
primeiros empregos foi o de secretário do Conde Henri de Saint-Simon, o
primeiro filósofo a ver claramente a importância da organização econômica na
sociedade moderna, e cujas idéias Comte absorveu, sistematizou com um estilo
pessoal e difundiu.
Comte foi
apresentado ao filósofo, então diretor do periódico Industrie, no verão de
1817. Saint-Simon, um homem de fértil, mas tumultuada e desordenada
criatividade, então quase sessenta anos mais velho que Comte, foi atraído pelo
jovem brilhante que possuia a capacidade treinada e metódica para o trabalho
que lhe faltava. Comte tornou-se seu secretário e colaborador próximo, na
preparação de seus últimos trabalhos. Quando Saint-Simon experimentou problemas
financeiros, Comte permaneceu sem pagamento tanto por razões intelectuais como
pela esperanças da recompensa futura.
Os esboços e os
ensaios que Comte escreveu durante os anos da associação próxima com
Saint-Simon, especialmente entre 1819 e 1824, mostram inequivocamente a
influência do mestre. Esses primeiros trabalhos já contêm o núcleo de todas
suas idéias principais, mesmo as mais tardias. Em 1824 Comte desentendeu-se com
Saint-Simon por questões de autoria legítima de ensaios que Comte devia
publicar. A solução, que Comte considerou injusta, foi que cem cópias do
trabalho saíram sob o nome de Comte, enquanto mil cópias, intituladas
Catechisme des industriels indicavam a autoria de Henri de Saint-Simon. Outra
causa do rompimento foi, ironicamente, Comte desdenhar a idéia de um paradigma
religioso no projeto de Saint Simon, ele, Comte, que depois haveria de adotar
essa idéia proclamando a si mesmo como sumo sacerdote da Humanidade.
Em fevereiro
1825 Comte se casou com Caroline Massin, proprietária de uma pequena livraria,
uma moça que ele já conhecia. Comte a achava forte e inteligente, mas depois
taxou-a de ambiciosa e desprovida de afetividade. O casamento foi sempre
tumultuado por motivos financeiros, uma vez que Comte não conseguia uma posição
com salário fixo e contava apenas com os rendimentos das aulas particulares e
alguma renda adicional por colaborações a jornais, mais freqüentemente para o
Producteur, um jornal fundado pelos filhos espirituais de Saint-Simon após a
morte do mestre.
Depois de se
afastar de Saint Simon, a principal preocupação de Comte tornou-se a elaboração
de sua filosofia positiva. Não tendo nenhuma cadeira oficial da qual expor suas
teorias, decidiu oferecer um curso particular que os interessados subscreveriam
adiantado, e onde divulgaria sua Summa do conhecimento positivo. O curso abriu
em abril, 1826, com a presença de alguns curiosos ilustres como Alexander von
Humboldt, diversos membros da academia das ciências, o economista Charles
Dunoyer, o duque Napoleon de Montebello, e Hippolyte Carnot, filho do
organizador dos exércitos revolucionários e irmão do cientista Sadi Carnot, e
vários estudantes da École Polytechnique.
Comte deu apenas
três aulas e foi obrigado a interromper o curso devido a um colapso nervoso.
Seu mal foi diagnosticado como " mania " no hospital do famoso Dr.
Esquirol, autor de um tratado sobre a doença. Ele próprio submeteu Comte a um
tratamento com banhos de água fria e sangrias. Apesar de não receber alta,
Comte foi levado para casa por Caroline
Após o retorno
para casa, Comte caiu em um estado melancólico profundo, e tentou mesmo o suicidio
jogando-se no rio Sena. Somente em agosto 1828 logrou sair de sua letargia. O
curso das conferências foi recomeçado em 1829, e Comte ficou satisfeito outra
vez por encontrar na audiência diversos nomes de grandes das ciências e das
letras.
Durante os anos
1830-1842, quando escreveu sua obra prima, Cours de philosophie positive, Comte
continuou a viver miseravelmente à margem do mundo acadêmico. Todas as
tentativas de ser apontado de para uma cadeira no École Polytechnique ou para
uma posição na Academia das ciências ou na faculdade de França foram
infrutíferas. Controlou somente em
Durante os anos
da concentração intensa quando escreveu o Cours, Comte foi incomodado não
somente por dificuldades financeiras e as frustradas tentativas de emprego
acadêmico. Também sofreu críticas do mundo científico por parte de importantes
figuras que o ridicularizavam pela sua pretensão de submeter ao seu sistema
todas as ciências. A mágoa agravou seu estado psicológico. Por razões "de
higiene cerebral", decidiu-se, em
Só e isolado,
continuou a atacar os cientistas que se recusaram a reconhecê-lo. Queixou-se de
seus inimigos aos ministros do Rei, escreveu cartas delirantes à imprensa e
atormentou a paciência de seus poucos restantes amigos. Criando demasiado
inimigos na École Polytechnique, sua nomeação como o examinador não foi
renovada em 1844. Perdeu com isto a metade de sua renda. (iria perder também a
posição de assistente na École em 1851.)
Contudo apesar
de todos estas adversidades, Comte começou lentamente a adquirir discípulos. E
mais importante para ele foi que, além de encontrar alguns discípulos franceses
notáveis, tais como o eminente intelectual Emile Littre, era o fato de que sua
doutrina positiva havia atravessado o Canal e recebera considerável atenção na
Inglaterra. David Brewster, um físico eminente, saudou-o nas páginas do
Edinburgh Review em 1838 e, o mais gratificante de tudo, John Stuart Mill
transformou-se em seu admirador, citando-o
No mesmo ano de
1844, Comte conheceu Clotilde de Vaux, por quem se apaixonou. Ela era uma
mulher de trinta anos abandonada pelo marido, um funcionário público do baixo
escalão, que havia fugido do país depois de se apropriar de fundos do governo.
Um irmão de Clotilde que havia sido aluno de Comte na Escola Politécnica, e o
convidou a ir à casa de seus pais, onde lhe apresentou a irmã.
Comte ficou
inteiramente seduzido por ela. Sua paixão teve, porém, um desdobramento
inusitado. Clotilde estva impedida pela lei de casar-se achando-se o seu marido
foragido. Auguste Comte tinha então quarenta e sete anos, e havia se separado
três anos antes de sua mulher. Acabara de concluir seu monumental Cours de
philosophie positive, e se preparava para escrever o que pretendia que seria
sua principal obra, o Système de politique positive, da qual ele considerava o
Cours de philosophie como apenas uma introdução. Entusiasmado com a própria
paixão, Auguste Comte afirma que nada pode ser mais eficaz para o bem pensar
que o bem querer, e se tornou um abrasado feminista. Afirmava que a mulher
encarnava o sentimento e portanto, em última análise, a própria Humanidade.
Buscou então seriamente associar o sexo feminino, na pessoa de Clotilde, à obra
de renovação social e moral que se impôs completar. Clotilde tentou colaborar,
através de um romance filosófico, Wilhelmine, que ela se pôs febrilmente a
escrever. Mas adoeceu de tuberculose e veio a falecer em 1846.
Comte devotou o
resto de sua vida à memória do "seu anjo". O Système de politique
positive, que tinha começado a esboçar em 1844 e no qual completou sua
formulação da sociologia, iria transformar-se em um memorial a sua amada. Cinco
anos mais tarde, em 1851, ao publicar essa obra, dedicou-a a Clotilde, dizendo
esperar que a humanidade, reconhecida, haveria de lembrar sempre seu nome junto
ao dela.
No Système de
politique positive, Comte, voltando-se contra a doutrina do mestre Saint-Simon,
defendeu a primazia da emoção sobre o intelecto, do sentimento sobre a
racionalidade; e proclamou repetidamente o poder curativo do calor feminino
para a humanidade dominada por tempo demasiado pela aspereza do intelecto
masculino. Por outro lado, maquiou a proposta de disciplina eclesiástica de
Saint-Simon criando a Religião da Humanidade.
Quando o Système
apareceu entre 1851 e 1854, Comte escandalizou e perdeu a maioria dos
seguidores racionalistas que ele havia conquistado com tanta dificuldade nos
últimos quinze anos. John Stuart Mill e Emile Littre não aceitaram que o amor
universal fosse a solução para todas as dificuldades da época. Tão pouco
aceitariam a Religião da Humanidade da qual Comte se proclamou agora o sumo
sacerdote. A observação dos rituais múltiplos segundo o calendário anual, os
detalhes da elaborada liturgia indicavam que o antigo profeta do estágio
positivo havia regressado às trevas do estágio teológico. Comte passou a assinar
suas circulares - aos novos discípulos que conseguiu reunir - como
"fundador da religião universal e sumo sacerdote da humanidade".
Tentou converter o Superior Geral dos Jesuítas à nova fé e comparou suas
circulares aos discípulos com as epístolas de São Paulo. Fundou a Societé
Positiviste, que se transformou no centro principal de seu ensino. Os membros
se cotizaram para assegurar a subsistência do mestre e fizeram os votos de
espalhar sua mensagem. As missões se instalaram, na Espanha, Inglaterra, Estados
Unidos, e na Holanda. Cada noite, das sete às nove, exceto nas quartas-feiras
quando a Societé Positiviste tinha sua reunião regular, Comte recebia seus
discípulos em sua casa em Paris: políticos, intelectuais e operários, que lhe
votavam grande respeito e veneração. Comte estava longe do entusiasmo
republicano e libertário de sua juventude. O moto da Igreja Positiva era amor,
ordem e progresso. O jovem estudante de passeata agora pregava as virtudes do
amor, da submissão e a necessidade da ordem para o progresso social.
Em 1857, Comte,
após alguns meses de enfermidade, faleceu a cinco de setembro. Um grupo pequeno
de discípulos, de amigos, e de vizinhos seguiu seu esquife ao cemitério de Pere
Lachaise. Seu túmulo transformou-se no centro de um pequeno cemitério
positivista onde estão sepultados, perto do mestre, seus discípulos mais fiéis.
Pensamento. A
contribuição principal de Comte à filosofia do positivismo foi sua adoção do
método científico como base para a organização política da sociedade industrial
moderna, de modo mais rigoroso que na abordagem de Saint Simon.
Comte tentou
também uma classificação das ciências; baseada na hipótese que as ciências
tinham desenvolvido da compreensão de princípios simples e abstratos à
compreensão de fenômenos complexos e concretos. Assim as ciências haviam se
desenvolvido a partir da matemática, da astronomia, da física, e da química
para a biologia e finalmente a sociologia. De acordo com Comte, esta última
disciplina não somente fechava a série mas também reduziria os fatos sociais às
leis científicas e sintetizaria todo o conhecimento humano.
Embora não fosse
de Comte o conceito de sociologia ou da sua área de estudo, ele ampliou seu
campo e sistematizou seu conteúdo. Dividiu a Sociologia em dois campos
principais: Estática social, ou o estudo das forças que mantêm unida a
sociedade; e Dinâmica social, ou o estudo das causas das mudanças sociais.
Dando nova
roupagem às idéias de Hobbes e Adam Smith, afirmou que os princípios
subjacentes da sociedade são o egoísmo individual, que é incentivado pela
divisão de trabalho, e a coesão social se mantém por meio de um governo e um
estado fortes.
Como Saint
Simon, queria a administração real do governo e da economia nas mãos dos homens
de negócios e dos banqueiros, porém deu um toque pessoal seu, com origem em sua
paixão por Clotilde, dizendo que a manutenção da moralidade privada seria
competência das mulheres como esposas e mães.
Dando ênfase à
hierarquia e obediência, rejeitou a democracia, sustentando que o governo ideal
seria constituído por uma elite intelectual. Seu conceito de uma sociedade
positiva está no seu Système de politique positive ("Sistema de Política
Positiva").
Como
Saint-Simon, ele veio a adotar a idéia de que a organização da igreja católica
romana, divorciada da teologia cristã, podia fornecer um modelo estrutural e
simbólico para a sociedade nova, idéia que, no entanto, fora uma das causas
alegadas para seu rompimento com o mestre. Comte substituiu a adoração a Deus
por uma "religião da humanidade"; um sacerdócio espiritual de
sociólogos seculares guiaria a sociedade e controlaria a instrução e a
moralidade pública. Comte viveu para ver sua obra comentada extensamente em
toda a Europa. Muitos intelectuais ingleses foram influenciados por ele, e
traduziram e promulgaram seu trabalho. Seus devotos franceses tinham aumentado
também, e mantinha uma correspondência volumosa com sociedades positivistas em
todo o mundo.
A habilidade
particular de Comte era como um sintetizador das correntes intelectuais as mais
diversas. Tomou idéias principalmente dos filósofos modernos do século XVIII.
De Saint-Simon e outros reformadores franceses menores Comte tomou a noção de
uma estrutura hipotética para a organização social que imitaria a hierarquia e
a disciplina existente na igreja católica romana. De vários filósofos do
Iluminismo adotou a noção do progresso histórico e particularmente de David
Hume e Immanuel Kant tomou sua concepção de positivismo, ou seja, a teoria de
que o Teologia e a Metafísica são modalidades primárias imperfeitas do
conhecimento e que o conhecimento positivo é baseado em fenômenos naturais e
suas propriedades e relações como verificado pelas ciências empíricas, tese
Kantiana por excelência.
O mais
importante realmente provém de Saint-Simon, que havia enfatizado originalmente
a importância crescente da ciência moderna e o potencial da aplicação de
métodos científicos ao estudo e à melhoria da sociedade.
De Saint-Simon é
originalmente a idéia de que a finalidade da análise científica nova da sociedade
deve ser amelhorativa e que o resultado final de toda a inovação e
sistematização na nova ciência deve ser a orientação do planeamento social.
Comte também pensou que era necessário implantar uma ordem espiritual nova e
secularizada a fim de suplantar o sobrenaturalismo ultrapassado da teologia
cristã.
Comte seguiu
Saint-Simon quando considerou a necessidade de uma ciência social básica e
unificadora que explicasse as organizações sociais existentes e guiasse o
planeamento social para um futuro melhor. Na sua hábil sistematização Comte
chamou esta nova ciência "Sociologia", pela primeira vez.
Temerariamente,
porém, foi mais adiante que seu mestre quando afirmou que os fenômenos sociais
poderiam ser reduzidos a leis da mesma maneira que as órbitas dos corpos
celestes haviam sido explicadas pela teoria gravitacional quase trezentos anos
antes.
1. O conjunto
dos conhecimentos astronômicos não deve mais ser considerado isoladamente, como
até aqui, mas constituir de ora avante apenas um dos elementos indispensáveis
do novo sistema indivisível de filosofia geral que hoje atingiu finalmente sua
verdadeira maturidade abstrata, depois de ter sido gradualmente preparado pelo
concurso espontâneo dos grandes trabalhos científicos dos três últimos séculos.
Em virtude desta íntima conexidade, ainda pouco compreendida, a natureza e o
destino deste Tratado não poderão ser devidamente apreciados se este preâmbulo
imprescindível não for consagrado sobretudo à definição conveniente do
verdadeiro e fundamental espírito desta filosofia, cuja instalação universal
deve ser, no fundo, o objetivo precípuo de semelhante ensino. Como ela se
distingue principalmente pela continua preponderância, a um tempo lógica e
científica, do ponto de vista histórico ou social, devo antes de tudo, para
melhor caracterizá-la, lembrar de modo sumário a grande lei que estabeleci,
2. De acordo com
esta doutrina fundamental, todas as nossas especulações estão inevitavelmente
sujeitas, assim no indivíduo como na espécie, a passar por três estados
teóricos diferentes e sucessivos, que podem ser qualificados pelas denominações
habituais de teológico, metafísico e positivo, pelo menos para aqueles que
tiverem compreendido bem o seu verdadeiro sentido geral. O primeiro estado,
embora seja, a princípio, a todos os respeitos, indispensável deve ser
concebido sempre, de ora em diante, como puramente provisório e preparatório; o
segundo, que é, na realidade, apenas a modificação dissolvente do anterior, não
comporta mais que um simples destino transitório, para conduzir gradualmente ao
terceiro; é neste, único plenamente normal, que consiste, em todos os. gêneros,
o regime definitivo da razão humana.
3. No seu
primeiro surto, necessariamente teológico, todas nossas especulações manifestam
de modo espontâneo uma predileção característica pelas mais insolúveis
questões, pelos assuntos mais radicalmente inacessíveis a qualquer investigação
decisiva. O espírito humano, numa época em que está ainda abaixo dos mais
simples problemas científicos, por um contraste, que em nossos dias deve
parecer-nos à primeira vista inexplicável, mas que, no fundo, se acha então em
plena harmonia com a verdadeira situação inicial da nossa inteligência, procura
avidamente, e de maneira quase exclusiva, a origem de todas as coisas, as
causas essenciais, quer primárias, quer finais, dos diversos fenômenos que o
impressionam, e seu modo fundamental de produção, em uma palavra, os conhecimentos
absolutos. Esta necessidade primitiva se acha naturalmente satisfeita tanto
quanto o exige tal situação é mesmo, de fato, tanto quanto o possa jamais ser,
por nossa tendência inicial a transportar por toda a parte o tipo humano,
assimilando quaisquer fenômenos aos que nós mesmos produzimos, os quais, por
esta razão, começam a parecer-nos bastante conhecidos, em virtude da intuição
imediata que os acompanha. Para compreender bem o espírito puramente teológico,
proveniente do desenvolvimento, cada vez mais sistemático, deste estado
primordial, cumpre não nos limitarmos a considerá-lo na sua última fase que se
consuma, à nossa vista, nas populações mais adiantadas, mas que está longe de
ser a mais característica: torna-se indispensável lançarmos uma vista de olhos
verdadeiramente filosófica sobre o conjunto de sua marcha natural, a fim de
apreciarmos sua identidade fundamental sob as três formas principais que lhe
são sucessivamente próprias.
5. Na sua
segunda fase essencial, que constitui o verdadeiro politeísmo, muitas vezes
confundido pelos modernos com o estado precedente, o espírito teológico
representa claramente o livre predomínio especulativo da imaginação, ao passo
que até então o instinto e o sentimento tinham sobretudo prevalecido nas
teorias humanas. A filosofia inicial sofre nessa época a mais profunda
transformação, que o conjunto do seu destino real pode comportar, por isso que
nela a vida é enfim retirada dos objetos materiais, para ser misteriosamente
transportada a diversos seres fictícios, habitualmente invisíveis, cuja
intervenção ativa e contínua se torna daí por diante a origem direta de todos
os fenômenos exteriores e mesmo em seguida dos fenômenos humanos. E durante
esta fase característica, mal apreciada hoje, que convém principalmente estudar
o espírito teológico, que nele se desenvolve com uma plenitude e uma
homogeneidade impossível ulteriormente: esta época é, a todos os respeitos, a
do seu maior ascendente, ao mesmo tempo mental e social. A maioria de nossa
espécie não saiu ainda de semelhante estado, que persiste hoje na mais numerosa
das três raças humanas, no escol da raça negra e na parte menos avançada da
branca.
6. Na terceira
fase teológica, o monoteísmo propriamente dito dá começo ao inevitável declínio
da filosofia inicial. Esta, embora conserve por dilatado tempo grande influência
social, contudo mais aparente ainda do que real, sofre desde então rápido
decréscimo intelectual, como conseqüência espontânea desta simplificação
característica pela qual a razão, unificando os deuses, restringe cada vez mais
o domínio anterior da imaginação e permite desenvolver gradualmente o
sentimento universal, ainda quase insignificante, da sujeição forçosa de todos
os fenômenos naturais a leis invariáveis. Sob formas mui diversas e até
radicalmente inconciliáveis, esta fase extrema do regime preliminar persiste
ainda, com energia muito desigual, na imensa maioria da raça branca; mas ainda
que seja assim mais fácil de ser observada, as próprias preocupações pessoais
acarretam hoje um obstáculo muito freqüente à sua judiciosa observação, por falta
de uma comparação suficientemente racional e justa com as duas fases
precedentes.
7. Por mais
imperfeita que possa parecer agora semelhante maneira de filosofar, muito
importa ligar de modo indissolúvel o estado atual do espírito humano ao
conjunto dos seus estados anteriores, reconhecendo convenientemente que ela
devia ter sido, por muito tempo, tão indispensável como inevitável.
Limitando-nos aqui à simples apreciação intelectual, seria por certo supérfluo
insistir sobre a tendência involuntária que, mesmo hoje, nos arrasta todos às
explicações de pura essência teológica, logo que queremos penetrar diretamente
o mistério inacessível do modo fundamental de produção dos fenômenos, sobretudo
daqueles cujas leis reais ainda ignoramos. Os mais eminentes pensadores podem
então verificar a sua própria disposição natural para o mais ingênuo
fetichismo, quando esta ignorância se acha combinada momentaneamente com alguma
paixão pronunciada. Se, pois, todas as explicações teológicas, experimentaram
crescente e decisivo desuso entre os modernos ocidentais, isto aconteceu porque
as investigações misteriosas que elas visavam foram cada vez mais afastadas
como radicalmente inacessíveis à nossa inteligência, que se habituou pouco a
pouco a substitui-las de modo irrevogável por estudos mais eficazes e mais em
harmonia com as nossas verdadeiras necessidades. Mesmo na época em que o
verdadeiro espírito filosófico já tinha prevalecido em relação aos mais simples
fenômenos e em assunto tão fácil como a teoria elementar do choque, o memorável
exemplo de Malebranche lembrará sempre a necessidade de se recorrer à
intervenção direta e constante dos agentes sobrenaturais, todas as vezes que se
procure remontar à causa primeira de qualquer acontecimento. Ora, por outro
lado, tais tentativas, por mais pueris que pareçam justamente hoje, constituíam
sem dúvida o início meio primitivo de provocar as especulações humanas e
determinar o seu progresso contínuo, libertando de modo espontâneo nossa
inteligência do círculo vicioso em que a princípio se acha necessariamente
envolvida pela oposição radical de duas condições por igual imperiosas. Se, de
fato, os modernos tiveram de proclamar a impossibilidade de fundar qualquer
teoria sólida a não ser sobre um concurso suficiente de observações adequadas,
não é menos incontestável que o espírito humano não poderia jamais combinar,
nem mesmo recolher, esses materiais indispensáveis, sem ser continuamente
dirigido por algumas idéias especulativas previamente estabelecidas. Assim
estas concepções primordiais só podiam, é claro, resultar de uma filosofia que
prescindisse, por sua natureza, de qualquer preparo prolongado, sendo capaz, em
uma palavra, de surgir espontaneamente, sob o impulso único de um instinto
direto, por mais quiméricas que devessem ser, além disso, especulações tão
desprovidas de todo fundamento real. Tal é o feliz privilégio dos princípios
teológicos, sem os quais podemos assegurar que a nossa inteligência não poderia
nunca sair do seu torpor inicial; a eles permitiram, dirigindo sua atividade
especulativa, preparar gradualmente um regime lógico melhor. Esta aptidão
fundamental foi, além disto, poderosamente secundada pela primitiva predileção
do espírito humano pelas questões insolúveis, que atraíam sobretudo essa
filosofia primitiva. Não podíamos avaliar nossas forças mentais, e, por
conseguinte, circunscrever judiciosamente o seu destino, senão depois de
exercitá-las suficientemente. Ora, este exercício indispensável não podia ser
desde logo determinado, sobretudo nas mais débeis faculdades da nossa natureza,
sem o enérgico estímulo inerente a tais estudos, nos quais tantas inteligências
mal cultivadas ainda persistem em procurar a mais pronta e a mais completa
solução das questões diretamente usuais. Para vencer suficientemente nossa
inércia nativa, foi mesmo preciso durante muito tempo recorrer às poderosas
ilusões que tal filosofia suscitava espontaneamente sobre o poder quase
indefinido do homem para modificar ao seu sabor um mundo então concebido como
feito para seu uso e que nenhuma grande lei podia ainda subtrair à arbitrária
supremacia das influências sobrenaturais. Há apenas três séculos que, no escol
da Humanidade, as esperanças astrológicas e alquímicas, último vestígio
científico desse espírito primitivo, deixaram na realidade de servir para o
acúmulo diário das observações correspondentes, como o indicaram
respectivamente Kepler e Berthollet.
8. O concurso
decisivo destes diversos motivos intelectuais seria além disso poderosamente
fortalecido, se a natureza deste Tratado me permitisse assinalar aqui
suficientemente a influência irresistível das altas necessidades sociais, que
apreciei como convinha na obra fundamental mencionada no início deste Discurso.
Pode-se assim, desde logo, demonstrar em toda a sua plenitude como o espírito
teológico foi por muito tempo indispensável à constante combinação das idéias
morais e políticas, ainda mais especialmente do que a de todas as outras, não
só em virtude de sua complicação superior, mas também porque os fenômenos
correspondentes, primitivamente muito pouco pronunciados, só podiam adquirir um
desenvolvimento característico após o avanço muito prolongado da civilização
humana. É uma estranha inconseqüência, apenas desculpável pela tendência
cegamente crítica do nosso tempo, reconhecer a impossibilidade em que se
achavam os antigos de filosofar sobre os assuntos mais simples a não ser de
maneira teológica e, não obstante, desconhecer a insuperável necessidade que
tinham sobretudo os politeístas de adotar um regime análogo para as especulações
sociais Mas é preciso compreender, além disso, ainda que eu não o possa
demonstrar aqui, que esta filosofia inicial não foi menos indispensável ao
desenvolvimento preliminar de nossa sociabilidade do que ao de nossa
inteligência, quer para constituir primitivamente algumas doutrinas comuns, sem
as quais o laço social não teria podido adquirir nem extensão, nem consistência
quer para suscitar espontaneamente a única autoridade espiritual que poderia
então surgir.
9. Por mais
sumárias que tenham sido aqui estas explicações gerais sobre a natureza
provisória e o destino preparatório da única filosofia que convinha realmente à
infância da Humanidade, elas permitem contudo perceber sem dificuldade que o
regime teológico difere muito profundamente, sob todos os aspectos, do que
veremos mais adiante corresponder à sua virilidade mental. Para que passagem
gradual de um a outro pudesse operar-se originariamente, assim no indivíduo,
como na espécie tornou-se indispensável o auxílio crescente de uma espécie de
filosofia intermediária essencialmente limitada a este ofício transitório. Tal
é a participação especial do espírito metafísico propriamente dito na evolução
fundamental da nossa inteligência, que, antipática a toda mudança repentina,
pode elevar-se assim, quase insensivelmente, do estado puramente teológico ao
francamente positivo, se bem que, no fundo, esta situação equívoca se aproxime
muito mais do primeiro do que do último. As especulações dominantes conservaram
no estado metafísico o mesmo caráter essencial de tendência ordinária para os
conhecimentos absolutos: apenas a solução sofreu nele notável transformação,
própria a tornar mais fácil o surto das concepções positivas. Como a Teologia,
a Metafísica tenta de fato explicar sobretudo a natureza íntima dos seres, a
origem e o destino de todas as coisas, o modo essencial de produção dos
fenômenos: mas, em vez de empregar para isso os agentes sobrenaturais
propriamente ditos, substitui-os cada vez mais por entidades ou abstrações
personificadas, cujo uso, verdadeiramente característico, amiúde permitiu
designá-la sob a denominação de Ontologia. É facílimo observar hoje tal maneira
de filosofar que, preponderante ainda em relação aos fenômenos mais
complicados, oferece freqüentemente, mesmo nas teorias mais simples e menos
atrasadas, tantos traços apreciáveis de seu longo domínio.(1)
A eficácia histórica destas entidades resulta diretamente do seu caráter
equívoco; porque, em cada um desses seres metafísicos, inerentes ao corpo
correspondente, sem se confundir com ele, o espírito pode, à vontade, conforme
esteja mais próximo ao estado teológico ou do positivo, ver uma verdadeira
emanação do poder sobrenatural ou uma simples denominação abstrata da fenômeno
considerado. Não é mais então a pura imaginação que domina e não é ainda a
verdadeira observação; mas o raciocínio adquire nessa fase grande extensão e
prepara-se confusamente para o verdadeiro exercício científico Deve-se aliás
notar que sua parte especulativa se acha, a princípio, muito exagerada, em
virtude desta obstinada tendência a argumentar em vez de observar que, em todos
os gêneros, caracteriza habitualmente o espírito metafísico, mesmo em seus mais
eminentes órgãos. Uma ordem de concepções tão flexível, que não comporta
absolutamente a consistência por tão longo tempo peculiar ao sistema teológico,
deve, além disso, atingir muito mais rapidamente a unidade correspondente, pela
subordinação gradual das diversas entidades particulares a uma única entidade
geral, a Natureza, destinada a representar o fraco equivalente metafísico da
vaga ligação universal dos fenômenos operada pelo monoteísmo.
10. Para
compreendermos melhor, sobretudo em nossos dias, a eficácia histórica de
semelhante aparelho filosófico, importa reconhecer que, por sua natureza, ele
não é suscetível espontaneamente senão de uma simples atividade crítica ou
dissolvente, mesmo mental, e com mais forte razão social, sem poder jamais
organizar nada que lhe seja próprio. Radicalmente inconseqüente, este espírito
equívoco conserva todos os princípios fundamentais do sistema teológico,
tirando-lhe, porém, cada vez mais o vigor e a fixidez indispensáveis à sua
autoridade efetiva; é nesta alteração que consiste, de fato e a todos os
respeitos, sua principal utilidade passageira, que se manifesta quando o regime
antigo, por muito tempo progressivo, para o conjunto da evolução humana, atinge
inevitavelmente aquele grau de prolongamento abusivo que tende a perpetuar de
modo indefinido o estado de infância que ele dirigira antes com tanta
felicidade. A Metafísica é, pois, realmente, em essência, apenas uma espécie de
teologia enervada pouco e pouco por simplificações dissolventes, que lhe tiram
espontaneamente o poder direto de impedir o desenvolvimento das concepções
positivas, conservando-lhe, contudo, a aptidão provisória para entreter um
certo exercido indispensável do espírito de generalização, até que este possa
enfim receber melhor alimento. Em virtude de seu caráter contraditório, o
regime metafísico ou ontológico acha-se sempre na inevitável alternativa de
tender para uma vã restauração do estado teológico a fim de satisfazer às condições
de ordem, ou de impelir a uma situação puramente negativa para escapar ao
império opressivo da Teologia. Esta oscilação necessária, que só se observa
agora em relação às teorias mais difíceis, existiu igualmente outrora a
respeito mesmo das mais simples, enquanto durou sua idade metafísica, em
virtude da impotência orgânica sempre peculiar a semelhante maneira de
filosofar. Devemos sem temor assegurar que, se a razão pública não a tivesse
afastado desde muito tempo, no que concerne a certas noções fundamentais, as
dúvidas insensatas que ela suscitou, há vinte séculos, sobre a existência dos
corpos exteriores, subsistiriam ainda essencialmente, porque na verdade ela
nunca as dissipou por nenhum argumento decisivo. O estado metafísico pode,
pois, ser afinal encarado como uma espécie de doença crônica naturalmente
peculiar à nossa evolução mental, individual ou coletiva, entre a infância e a
virilidade.
11. Não
remontando as especulações históricas quase nunca, entre os modernos, além dos
tempos politéicos o espírito metafísico deve parecer nelas quase tão antigo
como o próprio espírito teológico, pois que ele presidiu necessariamente, ainda
que de modo implícito, à transformação primitiva do fetichismo em politeísmo, a
fim de substituir desde logo a atividade puramente sobrenatural, a qual,
retirada assim de cada corpo particular, devia deixar ai, de modo espontâneo,
alguma entidade correspondente. Como, todavia, esta primeira evolução teológica
não pôde dar então lugar a nenhuma discussão real, a interferência contínua do
espírito ontológico só começou a tornar-se plenamente característica na
revolução seguinte, que operou a transformação do politeísmo em monoteísmo, da
qual ele foi o órgão natural. Sua influência crescente devia parecer orgânica a
princípio, enquanto se achava subordinada ao impulso teológico, mas sua
natureza essencialmente dissolvente manifestou-se cada vez mais, quando tentou
estender gradualmente a simplificação da Teologia além mesmo do monoteísmo
vulgar, que constituía, sem nenhuma dúvida, a fase extrema realmente possível
da filosofia inicial. Foi assim que, durante os últimos cinco séculos, o
espírito metafísico secundou negativamente o. surto fundamental de nossa
civilização moderna, decompondo pouco a pouco o sistema teológico, que se
tornara enfim retrógrado ao terminar a Idade Média, em virtude de achar-se
essencialmente esgotada a eficácia social do regime monotéico. Infelizmente
depois de ter realizado, em cada gênero, esse oficio indispensável, mas
passageiro, a ação demasiado prolongada das concepções ontológicas tendeu
sempre a impedir igualmente qualquer outra organização real do sistema
especulativo; de sorte que o mais perigoso obstáculo à instalação final da
genuína filosofia, resulta, com efeito, hoje desse mesmo espírito que ainda se
atribui muitas vezes o privilégio quase excluso das meditações filosóficas.
12. Esta longa
sucessão de preâmbulos necessários conduz enfim nossa inteligência,
gradualmente emancipada, ao seu estado definitivo de positividade racional, que
deve ser caracterizado aqui de um modo mais especial do que os dois estados
preliminares. Tendo tais exercidos preparatórios mostrado espontaneamente a
inanidade radical das explicações vagas e arbitrárias próprias à filosofia
inicial, quer teológica, quer metafísica, o espírito humano renuncia de ora em
diante às pesquisas absolutas, que só convinham à sua infância, e circunscreve
os seus esforços ao domínio desde então rapidamente progressivo, da verdadeira
observação, única base possível dos conhecimentos realmente acessíveis,
criteriosamente adaptados às nossas necessidades efetivas. A lógica
especulativa tinha até então consistido em raciocinar, de modo mais ou menos
sutil, segundo princípios confusos, que, não comportando nenhuma prova
suficiente, suscitavam sempre debates sem resultado. Ela reconhece de ora em
diante, como regra fundamental, que toda proposição que não é estritamente redutível
à simples enunciação de um fato, particular ou geral, não nos pode oferecer
nenhum sentido real e inteligível. Os princípios que ela emprega não passam em
si mesmos de verdadeiros fatos, apenas mais gerais e mais abstratos do que
aqueles cuja ligação devem formar. Qualquer que seja, aliás, o modo racional ou
experimental, de os descobrir, é sempre da sua conformidade, direta ou
indireta, com os fenômenos observados que resulta exclusivamente sua eficácia
científica. A pura imaginação perde então de modo irrevogável a sua antiga
supremacia mental e subordina-se necessariamente à observação, de maneira a
constituir um estado lógico plenamente normal, sem deixar contudo de exercer,
nas especulações positivas, um papel tão capital como inesgotável, para criar
ou aperfeiçoar os meios de ligação, quer definitiva, quer provisória. Em uma
palavra, a revolução fundamental que caracteriza o estado viril de nossa
inteligência consiste em substituir por toda a parte a inacessível determinação
das causas propriamente ditas, pela simples pesquisa das leis, isto é, das
relações constantes que existem entre os fenômenos observados. Quer se trate
dos menores ou dos mais sublimes efeitos, do choque e da gravidade, quer do
pensamento e da moralidade, deles não podemos conhecer realmente senão as
diversas ligações mútuas próprias à sua realização, sem nunca penetrar o
mistério da sua produção.
13. Nossas
especulações positivas devem não só confinar-se essencialmente, sob todos os aspectos,
à apreciação sistemática dos fatos existentes, renunciando a descobrir sua
primeira origem e o seu destino final, mas importa também ainda compreender que
este estudo dos fenômenos não deve tornar-se de qualquer modo absoluto, mas
permanecer sempre relativo à nossa organização e à nossa situação. Reconhecendo
sob este duplo aspecto, como são imperfeitos os nossos meios especulativos,
vemos que, longe de podermos estudar completamente qualquer existência efetiva,
não poderemos sequer garantir a possibilidade de conhecer, mesmo de modo muito
superficial, todas as existências reais, das quais a maior parte talvez nos
deva escapar totalmente. Se a perda de um sentido importante basta para nos
ocultar uma ordem inteira de fenômenos naturais, é perfeitamente razoável
pensar-se, reciprocamente, que a aquisição de um novo sentido nos descobriria
uma classe de fatos dos quais não temos agora nenhuma idéia, a não ser que
acreditemos que a acuidade dos sentidos, tão diferente entre os principais
tipos de animalidade, se acha elevada em nosso organismo no mais alto grau que
possa exigir a exploração total do mundo exterior, hipótese evidentemente
gratuita e quase ridícula. Nenhuma ciência pode manifestar melhor do que a
Astronomia a natureza necessariamente relativa de todos os nossos conhecimentos
reais, pois não podendo realizar-se nela a investigação dos fenômenos senão
através de um único sentido, muito fácil é serem aí apreciadas as conseqüências
especulativas de sua supressão ou de sua simples alteração. Nenhuma astronomia
poderia existir numa espécie cega, por mais inteligente que a supuséssemos, nem
mesmo se somente a atmosfera através da qual observamos os corpos celestes
permanecesse sempre e por toda a parte nebulosa. Todo este Tratado há de
oferecer-nos freqüentes ocasiões de apreciarmos espontaneamente, da maneira
menos equívoca, esta íntima dependência em que o conjunto de nossas condições
próprias, tanto interiores, quanto externas, mantém inevitavelmente cada um dos
nossos estudos positivos.
14. Para bem
caracterizar a natureza necessariamente relativa de todos os nossos
conhecimentos reais, importa reconhecer, além disso, do ponto de vista mais
filosófico, que, se quaisquer de nossas concepções devem ser consideradas como
outros tantos fenômenos humanos, tais fenômenos não são simplesmente
individuais, mas também e sobretudo, sociais, pois resultam, com efeito, de uma
evolução coletiva e contínua, cujos elementos e fases essencialmente se
entrelaçam. Se, pois, sob o primeiro aspecto, reconhecemos que nossas
especulações devem depender sempre das diversas condições essenciais de nossa
existência individual, cumpre igualmente admitir, sob o segundo, que não se
acham menos subordinadas ao conjunto da progressão social de modo a não poderem
comportar jamais a fixidez absoluta que os metafísicos supuseram. Ora, a lei
geral do movimento fundamental da Humanidade consiste, a este respeito, em que
nossas teorias tendem cada vez mais a representar exatamente os objetos
exteriores de nossas constantes investigações, sem que, contudo, a verdadeira
constituição de cada um deles possa, em caso algum, ser plenamente apreciada,
pois a perfeição científica deve restringir-se a aproximar-se desse limite
ideal, tanto quanto o exijam nossas diversas necessidades reais. Este segundo
gênero de dependência, peculiar às especulações positivas, manifesta-se tão
claramente como o primeiro em todo o curso dos estudos astronômicos, quando
consideramos, por exemplo, a série de noções cada vez mais satisfatórias,
obtidas desde a origem da geometria celeste, sobre a figura da Terra, sobre a
forma das órbitas planetárias, etc. Assim, posto que, de um lado, as doutrinas
científicas sejam necessariamente de natureza bastante móvel de modo a evitar
qualquer pretensão ao absoluto, suas variações graduais não apresentam, por
outro lado, nenhum caráter arbitrário que possa motivar um ceticismo ainda mais
perigoso. Cada mudança sucessiva conserva, aliás, espontaneamente, nas teorias
correspondentes, uma aptidão indefinida para representar os fenômenos que lhes
serviram de base, pelo menos enquanto não haja necessidade de nelas ultrapassar
o grau primitivo de precisão real.
15. Depois que se
reconheceu unanimemente que a primeira condição fundamental de toda especulação
científica consiste em subordinar constantemente a imaginação à observação, uma
viciosa interpretação induziu amiúde a exagerado abuso desse grande princípio
lógico, para fazer a ciência real degenerar em uma espécie de acúmulo estéril
de fatos incoerentes, sem oferecer essencialmente outro mérito senão o da
exatidão parcial. Importa, pois, bem compreender que o genuíno espírito
positivo se acha tão afastado, no fundo, do empirismo como do misticismo; é
entre estas duas aberrações, igualmente funestas, que ele deve caminhar: a
necessidade de semelhante reserva contínua, tão difícil como importante,
bastaria, além disso, para verificar, de acordo com as nossas explicações iniciais,
quanto a verdadeira positividade deve ser maduramente preparada, e não pode, de
forma alguma, convir ao estado nascente da Humanidade. É nas leis dos fenômenos
que consiste realmente a ciência, à qual os fatos propriamente ditos, por mais
exatos e numerosos que sejam, só fornecem os materiais indispensáveis. Ora,
considerando o destino constante dessas leis, podemos dizer, sem nenhum
exagero, que a verdadeira ciência, muito longe de ser formada por simples
observações, tende sempre a dispensar, tanto quanto possível, a exploração
direta, substituindo-a pela previsão racional, que constitui, a todos os
respeitos, o principal caráter do espírito positivo, como o conjunto dos
estudos astronômicos no-lo mostrará claramente semelhante previsão, conseqüência
necessária das relações constantes descobertas entre os fenômenos, jamais
permitirá confundir a ciência real com a vã erudição que acumula maquinalmente
fatos sem aspirar a deduzi-los uns dos outros. Este grande atributo de todas as
nossas sãs especulações importa tanto à sua utilidade efetiva como à sua
própria dignidade; porque a exploração direta dos fenômenos ocorridos não seria
suficiente para permitir-nos modificar-lhes a realização, se não nos conduzisse
a convenientemente prevê-la. Assim, o genuíno espírito positivo consiste em ver
para prever, em estudar o que é, a fim de concluir o que será, segundo o dogma
geral da invariabilidade das leis naturais. (2)
16. Este
princípio fundamental de toda a filosofia positiva, que ainda está longe de ser
suficientemente estendido ao conjunto dos fenômenos, vai-se tornando,
felizmente, desde três séculos, por tal forma familiar, que, em virtude de
hábitos absolutos anteriormente enraizados, se tem quase sempre desconhecido
até aqui a sua verdadeira origem, tentando-se pelo emprego de uma vã e confusa
argumentação metafísica representá-lo como uma espécie de noção inata, ou pelo
menos primitiva, quando certamente resultou de gradual e lenta indução, ao
mesmo tempo coletiva e individual. Nenhum motivo racional, independente de
qualquer exploração exterior, nos sugere de antemão a invariabilidade das
relações físicas; pelo contrário, é incontestável que o espírito humano
experimenta, durante sua longa infância, um pendor muito vivo para
desconhecê-la, mesmo nos seres onde uma observação imparcial haveria de
manifestá-la, se ele não fosse então arrastado por sua tendência necessária a
referir todos os acontecimentos, especialmente os mais importantes, a vontades
arbitrárias. Existem, sem dúvida, em cada ordem de fenômenos, alguns bastante
simples e bastante familiares para que a sua observação espontânea tenha
sugerido sempre o sentimento confuso e incoerente de uma certa regularidade
secundária de sorte que o ponto de vista teológico não pôde nunca ser
rigorosamente universal. Mas esta convicção parcial e precária limita-se por
muito tempo aos fenômenos menos numerosos e mais subalternos, que ela não pode
mesmo, de nenhum modo, preservar então das freqüentes perturbações atribuídas à
interferência preponderante dos agentes sobrenaturais. O princípio da invariabilidade
das leis naturais só começou realmente a adquirir certa consistência filosófica
quando os primeiros trabalhos verdadeiramente científicos puderam manifestar a
sua exatidão essencial relativamente a uma ordem inteira de grandes fenômenos,
o que não podia resultar, de maneira satisfatória, senão da fundação da
astronomia matemática, durante os últimos séculos do politeísmo. Em virtude
desta introdução sistemática, este dogma fundamental tendeu, sem dúvida, a
estender-se, por analogia, a fenômenos mais complicados, antes mesmo de poderem
suas leis próprias ser de qualquer modo conhecidas. Mas, além da sua
esterilidade efetiva, esta vaga antecipação lógica tinha então muito pouca
energia para resistir convenientemente à ativa supremacia mental que as ilusões
teológico-metafísicas ainda conservavam. Um primeiro esboço especial do
estabelecimento das leis naturais em relação a cada ordem principal de
fenômenos tornou-se em seguida indispensável para proporcionar a semelhante
noção a força inabalável que começa a apresentar nas ciências mais avançadas.
Esta convicção não poderia tornar-se mesmo bastante firme, enquanto tal
elaboração não fosse de fato estendida a todas as especulações fundamentais,
pois a incerteza deixada pelas mais complexas devia afetar, então, mais ou
menos, cada uma das outras. Não se pode desconhecer esta tenebrosa reação,
mesmo hoje, quando, em virtude da ignorância ainda habitual relativa às leis
sociológicas, o princípio da invariabilidade das relações físicas se acha
algumas vezes sujeito a graves aliterações até nos estudos puramente
matemáticos, nos quais vemos, por exemplo, preconizar-se diariamente um
pretenso cálculo das probabilidades, que supõe implicitamente a ausência de
toda lei real a respeito de certos acontecimentos, sobretudo quando o homem
neles intervém. Mas, quando essa universal extensão se acha convenientemente
esboçada, condição agora preenchida pelos espíritos mais avançados, este grande
principio filosófico adquire logo uma plenitude decisiva, ainda que as leis efetivas
da maior parte dos casos particulares devam ficar sempre ignoradas; porque uma
irresistível analogia aplica então previamente a todos os fenômenos de cada
ordem o que não foi verificado senão para alguns dentre eles, contanto que
tenham uma importância conveniente.
17. Depois de
haver considerado o espírito positivo relativamente aos objetos exteriores de
nossas especulações, cumpre acabar de caracterizá-lo, apreciando também seu
destino interior, para a satisfação contínua de nossas próprias necessidades,
quer sejam concernentes à vida contemplativa, quer à vida ativa.
18. Ainda que as
necessidades puramente mentais sejam, sem dúvida, as menos enérgicas de todas
as inerentes à nossa natureza, sua existência direta e permanente é contudo
incontestável em todas as inteligências: elas constituem o primeiro estimulo
indispensável aos nossos diversos esforços filosóficos, muitas vezes atribuídos
especialmente aos impulsos práticos, que, na verdade, os desenvolvem muito, mas
não os poderiam fazer surgir Estas exigências intelectuais, relativas, como
todas as outras, ao exercício regular das funções correspondentes, reclamam
sempre uma feliz combinação de estabilidade e de atividade, de onde resultam as
necessidades simultâneas de ordem e de progresso, ou de ligação e extensão.
Durante a longa infância da Humanidade, só as concepções teológico-metafísicas podiam,
conforme nossas explicações anteriores, satisfazer provisoriamente a esta dupla
condição fundamental, ainda que de modo extremamente imperfeito. Mas quando a
razão humana se acha bastante amadurecida para renunciar francamente às
especulações inacessíveis e circunscrever com sabedoria sua atividade ao
domínio verdadeiramente apreciável por nossas faculdades, a filosofia positiva
proporciona-lhe, por certo, uma satisfação muito mais completa, a todos os
respeitos, e também mais real, destas duas necessidades elementares. Tal é
evidentemente, com efeito, sob este novo aspecto, o destino direto das leis que
ela descobre sobre os diversos fenômenos e da previsão racional delas
inseparável. Em relação a cada ordem de fenômenos, tais leis devem, a este respeito,
ser distinguidas em duas modalidades, conforme ligam por semelhança os que
coexistem, ou por filiação os que se sucedem. Esta indispensável distinção
corresponde essencialmente, para o mundo exterior, à, que ele sempre nos
oferece espontaneamente entre os dois estados correlatos de existência e de
movimento; donde resulta, em toda ciência real, uma diferença fundamental entre
a apreciação estática e a apreciação dinâmica de qualquer assunto. Os dois
gêneros de relações contribuem igualmente para explicar os fenômenos, e
conduzem de modo semelhante a prevê-los, ainda que às leis de harmonia pareçam
a princípio destinadas sobretudo à explicação e as leis de sucessão à previsão.
Quer se trate, com efeito, de explicar ou de prever, tudo se reduz sempre a ligar:
toda ligação real, estática ou dinâmica, descoberta entre dois fenômenos
quaisquer, permite ao mesmo tempo explicá-las e prever um pelo outro, porque a
previsão científica, convém evidentemente ao presente, e mesmo ao passado,
assim como ao futuro, pois consiste sempre em conhecer um fato
independentemente de sua exploração direta, em virtude de suas relações com
outros já conhecidos. Assim, por exemplo, a assimilação demonstrada, entre a
gravitação celeste e a gravidade terrestre conduziu, em virtude das variações
pronunciadas da primeira, a prever as fracas variações da segunda, que a
observação imediata não podia descobrir suficientemente, ainda que as tenha em
seguida confirmado; assim também em sentido inverso, a correspondência
observada antigamente entre o período elementar das marés e o dia lunar ficou
explicada logo que se reconheceu ser em cada ponto a elevação das águas
resultante da passagem da lua pelo meridiano local. As nossas verdadeiras
necessidades lógicas convergem, pois, essencialmente para este comum destino:
consolidar, tanto quanto possível, por nossas especulações sistemáticas, a
unidade espontânea do nosso entendimento, estabelecendo a continuidade e a
homogeneidade de nossas diversas concepções e fazendo-nos achar de novo a constância
no meio da variedade, de modo a satisfazer igualmente às exigências simultâneas
da ordem e do progresso. Ora, é evidente que, sob este aspecto fundamental, a
filosofia positiva possui necessariamente, para os espíritos bem preparados,
uma aptidão muito superior à que jamais pôde oferecer a filosofia
teológico-metafísica. Considerando esta mesmo nos tempos do seu maior
ascendente, tanto mental como social, isto é, no estado politéico, a unidade
intelectual achava-se então certamente constituída de maneira muito menos
completa e menos estável do que há de permitir em breve a universal
preponderância do espírito positivo, quando for habitualmente estendido às mais
eminentes especulações. Então, com efeito, reinará por toda a parte, sob
diversos modos e em diferentes graus, esta admirável constituição lógica, da
qual só os estudos mais simples nos podem dar hoje justa idéia, em que a
ligação e a extensão, ambas plenamente garantidas, se acham, ademais,
espontaneamente solidárias. Este grande resultado filosófico não exige, aliás,
outra condição necessária a não ser a obrigação permanente de restringir todas
as nossas especulações aos casos verdadeiramente acessíveis, considerando estas
relações reais, quer de semelhança, quer de sucessão, como capazes apenas de
constituir, para nós simples fatos gerais, que cumpre procurar reduzir ao menor
número possível, sem que o mistério de sua produção jamais possa ser penetrado
de modo algum, conforme o caráter fundamental do espírito positivo. Mas se
somente esta constância efetiva das ligações naturais é, na realidade,
apreciável por nós, também só ela basta plenamente às nossas verdadeiras
necessidades, quer de contemplação, quer de direção.
19. Importa,
contudo, reconhecer, em principio, que, sob o regime positivo, a harmonia de
nossas concepções se acha necessariamente limitada, até certo ponto, pela
obrigação fundamental de sua realidade, isto é, de uma suficiente conformidade
com tipos independentes de nós. Em seu cego instinto de ligação, nossa
inteligência aspira a poder quase sempre ligar entre si dois fenômenos
quaisquer, simultâneos ou sucessivos; mas o estudo do mundo exterior demonstra,
ao contrário, que muitas dessas associações seriam puramente quiméricas, e que
uma multidão de acontecimentos se realiza continuamente sem nenhuma real
dependência mútua; de sorte que este pendor indispensável precisa, como nenhum
outro, ser regulado por sã apreciação geral. Habituado, durante muito tempo, a
uma espécie de unidade de doutrina, por mais vaga e ilusória que devesse ser,
sob o império das ficções teológicas e das entidades metafísicas, o espírito
humano, passando para o estado positivo, tentou logo reduzir as diversas ordens
de fenômenos a uma lei comum. Mas todos os ensaios realizados durante os dois
últimos séculos, para obter unia explicação universal da natureza, apenas
conseguiram desacreditar radicalmente tal empreendimento, de ora em diante
abandonado às inteligências mal cultivadas. Uma judiciosa explicação do mundo
exterior o representou como sendo muito menos ligado do que o supõe e o deseja
o nosso entendimento, predisposto, por sua própria fraqueza, a multiplicar
relações favoráveis e à sua marcha, e, sobretudo, ao seu repouso. Não somente
as seis categorias fundamentais que distinguiremos mais adiante entre os
fenômenos naturais, não poderiam ser todas certamente submetidas a uma única
lei universal, como também podemos assegurar agora que a unidade de expl1cação,
ainda procurada por tantos espíritos sérios em relação a cada uma delas, tomada
à parte, nos é finalmente interdita, mesmo neste domínio muito mais restrito. A
Astronomia fez nascer, sob este aspecto, esperanças demasiado empíricas, que
nunca se poderiam realizar para os fenômenos mais complicados, nem mesmo quanto
à Física propriamente dita, cujos cinco ramos principais ficarão sempre
distintos entre si, apesar de suas incontestáveis relações. Freqüentemente nos
achamos dispostos a exagerar muitos inconvenientes lógicos dessa dispersão
necessária, porque apreciamos mal as vantagens reais que apresenta a
transformação das induções
20. Mas esta
incontestável necessidade, que importa reconhecer, a fim de evitar vão
desperdício de forças mentais, não impede de modo algum a ciência real de
comportar, sob outro aspecto, suficiente unidade filosófica, equivalente às que
a Teologia ou Metafísica constituíram passageiramente, e, aliás, muito
superior, tanto em estabilidade como
21. Depois de
haver caracterizado a aptidão espontânea do espírito positivo para estabelecer
a unidade final do nosso entendimento, torna-se fácil completar esta explicação
fundamental, estendendo-a do indivíduo à espécie. Esta indispensável extensão
era, até agora, essencialmente impossível aos filósofos modernos, que, não
tendo podido libertar-se assaz do estado metafísico, nunca se colocaram no
ponto de vista social, único suscetível contudo de uma plena realidade, tanto
científica como lógica, pois o homem não se desenvolve isoladamente, mas
coletivamente. Afastando, como radicalmente estéril, ou antes muitíssimo
prejudicial, esta viciosa abstração de nossos psicólogos ou ideólogos, a
tendência sistemática que acabamos de apreciar no espírito positivo adquire enfim
toda a sua importância, porque mostra nele o verdadeiro fundamento filosófico
da sociabilidade humana, tanto pelo menos quanto esta depende da inteligência,
cuja capital influência, ainda que de nenhum modo exclusiva, não poderia ser ai
constatada. É, de fato, o mesmo problema humano, com diversos graus de
dificuldade, quer se trate de constituir a unidade lógica de cada entendimento
isolado ou de estabelecer uma convergência duradoura entre entendimentos
distintos, cujo número não poderia essencialmente influir senão sobre a rapidez
da operação. Também, em qualquer tempo, aquele que pôde tornar-se bastante
conseqüente adquiriu, por isso mesmo, a faculdade de reunir gradualmente os
outros, em virtude da semelhança fundamental de nossa espécie. A filosofia teológica
não foi, durante a infância da Humanidade, a única própria para sistematizar a
sociedade senão por ser então a fonte exclusiva de certa harmonia mental. Se,
pois, ao espírito positivo passou irrevogavelmente, de ora avante, o privilégio
da coerência lógica, o que não pode, a sério, ser contestado, cumpre desde
então nele reconhecer também o único princípio efetivo desta grande comunhão
intelectual que se torna a base necessária de toda verdadeira associação
humana, quando convenientemente ligada às duas outras condições fundamentais
uma suficiente conformidade de sentimentos e uma certa convergência de
interesses. A deplorável situação filosófica do escol da Humanidade bastaria
hoje para dispensar, a este respeito, qualquer discussão, pois nele não se
observa mais verdadeira comunidade de opiniões senão sobre assuntos já
reduzidos a teorias positivas, os quais, infelizmente, não são, antes muito
pelo contrário, os mais importantes. Uma apreciação direta e especial, que
seria deslocada aqui, faz, aliás, perceber facilmente que só a filosofia
positiva pode realizar a pouco e pouco este nobre projeto de associação
universal, que o catolicismo esboçou prematuramente na Idade Média, mas que
era, no fundo, necessariamente incompatível, como a experiência plenamente o
demonstra, com a natureza teológica da sua filosofia, a qual instituía uma
coerência lógica muito fraca de modo a comportar semelhante eficácia social.
22. Achando-se assaz
e definitivamente caracterizada a aptidão fundamental do espírito positivo em
relação à vida especulativa, só nos resta apreciá-la também em relação à vida
ativa, que, sem poder mostrar nele nenhuma propriedade verdadeiramente nova,
manifesta, de maneira muito mais completa e sobretudo mais decisiva, o conjunto
dos atributos que lhe temos reconhecido. Ainda que as concepções teológicas
tenham sido, mesmo sob este aspecto, por muito tempo necessárias a fim de
despertar e sustentar o ardor do homem pela esperança indireta de uma espécie
de império ilimitado, foi, entretanto, a este respeito que o espírito humano
testemunhou primeiro sua predileção final pelos conhecimentos reais. E, com
efeito, sobretudo como base racional da ação da Humanidade sobre o mundo
exterior que o estudo positivo da natureza começa hoje a ser universalmente
estimado, Nada é mais criterioso, no fundo, do que este julgamento vulgar e
espontâneo; porque tal destino, quando convenientemente apreciado, lembra
necessariamente, num resumo muito feliz, todos os grandes caracteres do
verdadeiro espírito filosófico, não só quanto à racionalidade, mas também
quanto à positividade. A ordem natural que resulta, em cada prático, do
conjunto das leis dos fenômenos correspondentes, deve evidentemente ser-nos
primeiro bem conhecida para que possamos ou modificá-la para nossa vantagem,
ou, pelo menos, adaptar-lhe nossa conduta, se for de todo impossível
intervirmos nela, como se dá em relação aos acontecimentos celestes. Tal
aplicação é especialmente própria para tornar familiarmente apreciável a
previsão racional que vimos constituir, sob todos os aspectos, o principal
caráter da verdadeira ciência, porque a pura erudição, onde os conhecimentos,
reais mas incoerentes, consistem em fatos e não em leis, não podia
evidentemente, bastar para dirigir nossa atividade: seria supérfluo insistir
aqui sobre uma explicação tão pouco contestável. É verdade que a exorbitante
preponderância concedida agora aos interesses materiais conduziu demasiadas
vezes o homem a compreender esta ligação necessária de modo a comprometer
gravemente o futuro da ciência, pois tendeu a reduzir as especulações positivas
somente às pesquisas de utilidade imediata. Mas esta cega disposição resulta
apenas da maneira falsa e estreita de conceber a grande relação entre a ciência
e a arte, por não terem uma e outra sido apreciadas com bastante profundeza. O
estudo da Astronomia é o mais próprio de todos para corrigir semelhante
tendência, seja porque sua simplicidade superior permite perceber melhor seu
conjunto, seja em virtude da espontaneidade mais íntima das aplicações
correspondentes que, há vinte séculos, se acham aí evidentemente ligadas às
mais sublimes especulações, como este Tratado o fará claramente compreender.
Mas importa sobretudo reconhecer bem, a este respeito, que a relação
fundamental entre a ciência e a arte não pôde até agora ser convenientemente
concebida, mesmo pelos melhores espíritos, o que é uma conseqüência necessária
da extensão insuficiente da filosofia natural, que permanece ainda estranha às
pesquisas mais importantes e mais difíceis, as que concernem diretamente à
sociedade humana. Com efeito, a concepção racional da ação do homem sobre a
natureza ficou assim essencialmente limitada ao mundo inorgânico, de onde resultaria
uma excitação científica demasiado imperfeita. Quando esta imensa lacuna tiver
sido suficientemente preenchida, como começa a sê-lo hoje, poder-se-á sentir a
importância fundamental deste grande destino prático para estimular
habitualmente, e muitas vezes mesmo para dirigir melhor as mais eminentes
especulações, sob a única condição normal de uma constante positividade. E, de
fato, a arte não será mais então unicamente geométrica, mecânica ou química,
etc., mas também, e sobretudo, política e moral, devendo a principal ação
exercida pela Humanidade consistir, sob todos os aspectos, no melhoramento
contínuo da sua própria natureza, individual ou coletiva, entre os limites que
o conjunto das leis reais indica, como em qualquer outro caso. Quando esta
solidariedade espontânea da ciência com a arte puder ser assim convenientemente
organizada, não se pode duvidar que, muito longe de tender a restringir de
qualquer modo as sãs especulações filosóficas, ela lhes designará, ao
contrário, um destino final muito superior ao seu alcance efetivo, se se não
tivesse reconhecido previamente, como princípio geral, a impossibilidade de
jamais tornar a arte puramente racional, isto é, de elevar nossas previsões
teóricas ao verdadeiro nível de nossas necessidades práticas. Mesmo nas artes
mais simples e mais perfeitas, torna-se constantemente indispensável um
desenvolvimento direto e espontâneo, sem que as indicações científicas o
possam, em caso algum, substituir completamente. Por mais satisfatórias, por
exemplo, que se tenham tornado nossas previsões astronômicas, sua previsão é
ainda, e será provavelmente sempre, inferior às nossas justas exigências
práticas, como terei amiúde ocasião de indicar.
23. Esta
tendência espontânea para constituir diretamente uma inteira harmonia entre a
vida ativa e a especulativa deve ser considerada finalmente como o privilégio
mais feliz do espirito positivo, pois nenhuma outra das suas propriedades pode
manifestar-lhe tão bem o verdadeiro caráter e facilitar-lhe o ascendente real.
Nosso ardor especulativo acha-se assim sustentado, e mesmo dirigido, por
poderoso estímulo contínuo, sem o qual a inércia natural de nossa inteligência
a disporia muitas vezes a satisfazer suas fracas necessidades teóricas por
explicações fáceis, mas insuficientes, ao passo que o pensamento da ação final
lembra sempre a condição de conveniente previsão. Ao mesmo tempo este grande
destino prático completa e circunscreve, em cada caso, o preceito fundamental
relativo ao descobrimento das leis naturais, tendendo a determinar, de acordo
com as exigências da aplicação, o grau de precisão e de extensão de nossa
previdência racional, cuja exata medida não poderia, em geral, ser fixada de
outro modo. Se, por um lado, a perfeição científica não pode ultrapassar esse limite,
abaixo do qual, ao contrário, há de realmente ficar sempre, por outro lado, se
o transpusesse, cairia logo numa apreciação demasiado minuciosa, não menos
quimérica do que estéril, que finalmente comprometeria mesmo todos os
fundamentos da verdadeira ciência, pois nossas leis não podem nunca representar
os fenômenos senão com uma certa aproximação, além da qual seria tão perigoso
como inútil levar nossas pesquisas. Quando esta relação fundamental da ciência
com a arte for convenientemente sistematizada, ela tenderá algumas vezes, sem
dúvida, a desacreditar tentativas teóricas cuja esterilidade radical seria
incontestável; mas, longe de oferecer qualquer inconveniente real, essa
inevitável disposição se tomará desde então muito favorável aos nossos verdadeiros
interesses especulativos, impedindo o vão desperdício de nossas fracas forças
mentais que resulta muito freqüentemente hoje de cega especialização. Em sua
evolução preliminar o espírito positivo teve de apegar-se por toda a parte a
quaisquer questões que se lhe tornavam acessíveis, sem indagar muito de sua
importância final, que resultava de sua relação própria com um conjunto que, a
princípio, não podia ser percebido. Mas este instinto provisório sem o qual
teria faltado muitas vezes o alimento conveniente à ciência, deve acabar por
subordinar-se habitualmente a uma justa apreciação sistemática, logo que a
plena madureza do estado positivo tiver permitido perceber as verdadeiras
relações de cada parte com o todo, de modo a oferecer constantemente um largo
destino às mais eminentes pesquisas, evitando, entretanto, toda especulação
pueril.
25. Somos assim
conduzidos a completar enfim a apreciação direta do genuíno espírito filosófico
por uma última explicação que,. embora sendo sobretudo negativa, se torna, na
realidade, indispensável hoje para acabar de caracterizar suficientemente a
natureza e as condições da grande renovação mental agora necessária ao escol da
Humanidade, manifestando diretamente a incompatibilidade final das concepções
positivas com quaisquer opiniões teológicas, tanto monotéicas como politéicas
ou fetíchicas. As diversas considerações indicadas neste Discurso já
demonstraram implicitamente a impossibilidade de qualquer conciliação duradoura
entre as duas filosofias, seja quanto ao método ou quanto à doutrina;, de modo
que toda incerteza a este respeito pode ser, aqui facilmente dissipada. Sem
dúvida a ciência e a Teologia não se acham a princípio em oposição aberta, pois
se não propõem as mesmas questões; e foi isto que permitiu durante muito tempo
o desenvolvimento parcial do espírito positivo, apesar do ascendente geral do
espírito teológico, e, mesmo, a muitos respeitos, sob a sua tutela preliminar.
Mas quando a positividade racional, limitada a princípio, às humildes pesquisas
,matemáticas, que a Teologia tinha desdenhado especialmente empreender, começou
a estender-se ao estudo direto da natureza, sobretudo pelas teorias
astronômicas a colisão tornou-se inevitável, ainda que latente, em virtude do
contraste fundamental, ao mesmo tempo científico e lógico, desde então
progressivamente desenvolvido entre as duas ordens de idéias. Os motivos
lógicos em virtude dos quais a ciência se interdiz de modo radical os
misteriosos problemas de que se ocupa essencialmente a Teologia, são de
natureza a desacreditar cedo ou tarde, entre os bons espíritos, especulações
que não se evitam senão por serem necessariamente inacessíveis à razão humana.
Além disso, a prudente reserva com que o espírito positivo procede, estudando
pouco a pouco assuntos muito fáceis, deve fazer apreciar indiretamente a louca
temeridade do espírito teológico a respeito das mais difíceis questões. Todavia
é especialmente pelas doutrinas que a. incompatibilidade das duas filosofias
deve manifestar-se na maior parte das inteligências, muito pouco interessadas,
de ordinário, nas simples dissidências de método, ainda que estas sejam, no
fundo, as mais graves, por serem a fonte necessária de todas as outras. Ora,
sob este novo aspecto, não se pode deixar de reconhecer a oposição radical das
duas ordens de concepções, onde os mesmos fenômenos são ora atribuídos a
vontades diretoras, ora reduzidos a leis invariáveis. A imobilidade irregular,
naturalmente própria a toda idéia de vontade, não pode de modo algum concordar
com a constância das relações reais. Também à medida que as leis físicas foram
conhecidas, o império das vontades sobrenaturais achou-se cada vez mais
restringido, sendo sempre consagrado sobretudo aos fenômenos cujas leis
permaneciam ignoradas. Tal incompatibilidade torna-se diretamente evidente,
quando se opõe a previsão racional, que constitui o principal caráter da
verdadeira ciência, à adivinhação por meio da revelação especial, que a
Teologia deve representar como o único meio legítimo de conhecer o futuro. É
verdade que o espírito positivo, chegado à sua completa madureza, tende também
a subordinar a própria vontade a verdadeiras leis, cuja existência é, com
efeito, tacitamente suposta pela razão vulgar, pois os esforços práticos para
modificar e prever as vontades humanas não poderiam ter sem isto nenhum
fundamento razoável. Mas semelhante noção não conduz de modo algum a conciliar as
duas maneiras opostas segundo as quais a ciência e a Teologia concebem
necessariamente a direção efetiva dos diversos fenômenos. Tal previsão e a
conduta que dela resulta exigem, de fato, evidentemente um profundo
conhecimento real do ser no seio do qual as vontades se produzem. Ora, este
fundamento preliminar só poderia provir de um ser pelo menos igual, julgando
assim por semelhança; não o podemos conceber da parte de um inferior, e a
contradição aumenta com a desigualdade de natureza. Também a Teologia sempre
repeliu a pretensão de penetrar de qualquer modo os desígnios da Providência,
assim como seria absurdo supor aos animais inferiores a faculdade de prever as
vontades do homem ou dos outros animais superiores. É, contudo, a esta louca
hipótese que seríamos necessariamente conduzidos para afinal conciliar o
espírito teológico com o positivo.
26.
Historicamente considerada, a oposição radical destes dois espíritos, existente
em todas as fases essenciais da filosofia inicial, é em geral há muito admitida
relativamente àquelas fases que as populações mais avançadas transpuseram
completamente. É mesmo certo que, a respeito delas, se exagera muito tal
incompatibilidade em conseqüência do desdém absoluto que nossos hábitos
monotéicos inspiram de modo cego para com os dois estados anteriores do regime
teológico. A sã filosofia, sempre obrigada a apreciar a maneira necessária
segundo a qual cada uma das grandes fases sucessivas da Humanidade efetivamente
concorreu para a nossa evolução fundamental, há de retificar cuidadosamente
estes injustos preconceitos, que dificultam toda verdadeira teoria histórica.
Mas, embora o politeísmo e mesmo o fetichismo, hajam, a princípio, secundado
realmente o surto espontâneo do espírito de observação, deve-se, entretanto,
reconhecer que não podiam ser verdadeiramente compatíveis com o sentimento
gradual da invariabilidade das relações físicas, logo que tal sentimento pôde
adquirir certa consistência sistemática. Devemos assim conceber essa inevitável
oposição como a principal fonte secreta das diversas transformações que
sucessivamente decompuseram a filosofia teológica, reduzindo-a cada vez mais. É
aqui o lugar de completar, a este propósito, a indispensável explicação
indicada no começo deste Discurso, onde essa dissolução gradual foi
especialmente atribuída ao espírito metafísico propriamente dito, que, no
fundo, não podia ser senão o simples órgão de tal dissolução e nunca o seu
verdadeiro agente. Cumpre, com efeito, notar que o espírito positivo, em
virtude da falta de generalidade que devia caracterizar-lhe a lenta evolução
parcial, não podia formular convenientemente suas próprias tendências
filosóficas, que apenas se tornaram sensíveis durante nossos últimos séculos.
Dai resultou a necessidade especial da intervenção metafísica, única que podia
sistematizar convenientemente a oposição espontânea da ciência nascente à
antiga Teologia. Mas, ainda que tal ofício tenha feito exagerar muito a
importância efetiva deste espírito transitório, é, contudo, fácil reconhecer
que só o progresso natural dos conhecimentos reais dava séria consistência à
sua ruidosa atividade. Esse progresso contínuo que, no fundo, tinha
determinado, antes, a transformação do fetichismo em politeísmo, constituiu, em
seguida, sobretudo a fonte essencial da redução do politeísmo ao monoteísmo.
Como a colisão se operou principalmente pelas teorias astronômicas, este
Tratado me fornecerá a oportunidade de caracterizar o grau preciso de seu
desenvolvimento, ao qual cumpre atribuir, na realidade, a irrevogável decadência
mental do regime politéico, que havemos de reconhecer então ser logicamente
incompatível com a fundação decisiva da Astronomia Matemática pela escola de
Tales.
27. O estudo
racional de semelhante oposição demonstra claramente que ela não podia limitar-se
à Teologia antiga e que teve de estender-se depois ao próprio monoteísmo,
embora a sua energia devesse decrescer com a sua necessidade, à medida que o
espírito teológico continuava a decair em virtude do progresso espontâneo da
ciência. Sem dúvida esta fase extrema da filosofia inicial era muito menos
contrária do que as precedentes ao surto dos conhecimentos reais, que nela não
encontravam mais, a cada passo, a perigosa concorrência de uma explicação
sobrenatural especialmente formu1ada. Assim foi especialmente sob este regime
monotéico que se realizou a evolução preliminar do espírito positivo. Mas, por
ser menos explícita e mais tardia; não era a incompatibilidade finalmente menos
inevitável, mesmo antes da época em que a nova filosofia se tornaria bastante
geral para tomar um caráter verdadeiramente orgânico e substituir, de modo
irrevogável, a Teologia no seu ofício social, assim como no seu destino mental.
Como o conflito se deve operar ainda sobretudo pela Astronomia, demonstrarei
aqui, com precisão, qual foi a evolução mais avançada que estendeu
necessariamente sua oposição radical, antes limitada ao politeísmo propriamente
dito, até o mais simples monoteísmo: reconhecer-se-á então que essa inevitável
influência resultou do descobrimento do duplo movimento da Terra, logo seguido
da fundação da mecânica celeste. No estado presente da razão humana, podemos,
assegurar que o regime monotéico, por muito tempo favorável, aos primeiros
progressos dos conhecimentos reais, entrava profundamente a marcha sistemática
que devem seguir de ora avante, impedindo adquira enfim a crença fundamental na
invariabilidade das leis físicas sua indispensável plenitude filosófica. O
pensamento contínuo de súbita e arbitrária perturbação na economia natural
deve, na realidade, ficar sempre inseparável, pelo menos virtualmente, de toda
Teologia qualquer, mesmo atenuada tanto quanto possível. Sem tal obstáculo, que
não pode de fato desaparecer senão pelo completo desuso do espírito teológico,
o espetáculo diário da ordem real já teria determinado uma adesão universal ao
espírito fundamental da filosofia positiva.
28. Vários
séculos antes do desenvolvimento científico permitir apreciar diretamente esta
oposição radical, a transição metafísica havia tentado, sob seu secreto impulso,
restringir, no próprio seio do monoteísmo, o ascendente da Teologia, fazendo
abstratamente prevalecer, no último período da Idade Média, a célebre doutrina
escolástica que sujeitou a ação efetiva do motor supremo a leis invariáveis,
que ele teria a princípio instituído, interdizendo-se jamais mudá-las. Mas,
esta espécie de transação espontânea entre o princípio teológico e o princípio
positivo só comportava evidentemente uma existência passageira, própria a
facilitar mais o declínio contínuo de um e o triunfo gradual do outro. Seu
império estava mesmo limitado, em essência, aos espíritos cultos; porque,
enquanto a fé realmente subsistiu, o espírito popular teve de repelir sempre
com energia uma concepção que, no fundo, tendia a anular o poder providencial,
condenando-o a uma sublime inércia, que deixava toda a atividade habitual à
grande entidade metafísica – a Natureza, associada, assim, regularmente ao
governo universal a título de ministro obrigado e responsável, ao qual se devia
dirigir dai por diante a maior parte das queixas e dos votos. Vê-se que, sob
todos os aspectos essenciais, esta concepção se parece muito com a que a
situação moderna fez cada vez mais prevalecer relativamente à realeza
constitucional; e esta analogia não é de modo algum fortuita, pois o tipo
teológico de fato forneceu a base racional do tipo político. Esta doutrina
contraditória, que arruína a eficácia social do princípio teológico, sem
consagrar o ascendente fundamental do princípio positivo, não poderia
corresponder a nenhum estado verdadeiramente normal e duradouro: constitui
somente o mais poderoso dos meios de transição próprios à última tarefa
necessária do espírito metafísico.
29. Enfim a
inevitável incompatibilidade da ciência com a Teologia teve de manifestar-se
também sob outra forma geral, especialmente adaptada ao estado monotéico,
fazendo cada vez mais sobressair a profunda imperfeição da ordem real, oposta
assim ao imprescindível otimismo da providência. Este otimismo deveu, sem
dúvida, permanecer por muito tempo conciliável com o inicio espontâneo dos
conhecimentos positivos, porque uma primeira análise da natureza tinha de
inspirar então, por toda a parte, ingênua admiração pelo modo por que se
realizavam os principais fenômenos constitutivos da ordem real. Mas essa
disposição inicial tende em seguida a desaparecer, não menos necessariamente, à
medida que o espírito positivo, adquirindo um caráter cada vez mais
sistemático, substitui, pouco a pouco, o dogma das causas finais pelo princípio
das condições de existência, que oferece num grau mais alto, todas as
propriedades lógicas desse dogma, sem apresentar nenhum dos seus graves perigos
científicos. Deixam, então, os homens de admirar que a constituição dos seres
naturais se ache, em cada caso, disposta de maneira a permitir a realização de
seus fenômenos efetivos. Ao estudar, com cuidado, essa inevitável harmonia, com
o único desígnio de a conhecer melhor, são logo notadas as profundas
imperfeições que apresenta, a todos os respeitos, a ordem real, quase sempre inferior
em sabedoria à economia artificial que a nossa fraca intervenção humana
estabelece em seu limitado campo. Como estes vícios naturais devem ser tanto
maiores quanto mais complicados são os fenômenos considerados, as indicações
irrecusáveis que o conjunto da Astronomia nos há de oferecer, sob este aspecto,
bastarão para fazer pressentir aqui como semelhante apreciação deve
estender-se, com uma nova energia filosófica, a todas as outras partes
essenciais da verdadeira ciência. Mas importa sobretudo compreender, em geral,
a respeito de semelhante crítica, que ela não tem apenas um destino passageiro,
a título de meio antiteológico. Ela liga-se, de maneira mais íntima e mais
durável, ao espírito fundamental da filosofia positiva, na relação geral entre
a especulação e a ação. Se, por um lado, nossa intervenção ativa e permanente
repousa, antes de tudo, sobre o exato conhecimento da economia natural, da qual
nossa economia artificial deve constituir apenas, sob todos os aspectos, o
melhoramento progressivo, não é menos certo, por outro lado, que supomos assim
a imperfeição necessária dessa ordem espontânea, cuja modificação gradual
constitui o fim de todos os nossos esforços diários, individuais ou coletivos.
Abstraindo-se de qualquer crítica passageira, a justa apreciação dos diversos
inconvenientes próprios à constituição efetiva do mundo real deve, pois, ser
concebida de ora avante como inerente ao conjunto da filosofia positiva, mesmo
em relação aos casos inacessíveis aos nossos fracos meios de aperfeiçoamento, a
fim de conhecer melhor, quer nossa condição fundamental, quer o destino
essencial de nossa continua atividade.
30. O concurso
espontâneo das diversas considerações gerais indicadas neste Discurso basta
para caracterizar aqui, sob todos os aspectos principais, o verdadeiro espírito
filosófico, que, após lenta evolução preliminar, atinge hoje o seu estado
sistemático. Tendo em vista a evidente obrigação em que nos colocamos de
qualificá-lo habitualmente, daqui por diante, por uma denominação curta e
especial, tive de preferir aquela a que esta universal preparação atribuiu cada
vez mais, durante os três últimos séculos, a preciosa propriedade de resumir o
melhor possível o conjunto dos seus atributos fundamentais. Como todos os
termos vulgares elevados assim gradualmente à dignidade filosófica, a palavra
positivo oferece, em nossas línguas ocidentais, várias acepções distintas,
mesmo que se afaste o sentido grosseiro que lhe dão os espíritos mal
cultivados. Importa, porém, notar aqui que todos esses diversos significados
convêm igualmente à nova filosofia geral, cujas diferentes qualidades
características indicam alternadamente: assim essa aparente, ambigüidade não
oferecerá de agora em diante nenhum inconveniente real. Convirá ver nisso, ao
contrário, um dos principais exemplos dessa admirável condensação de fórmulas
que, nas populações avançadas, reuniu, sob uma única expressão usual, vários
atributos distintos, quando a razão pública chegou a reconhecer sua ligação
permanente.
31. Considerada,
em primeiro lugar, em sua acepção mais antiga e mais comum, a palavra positivo
designa o real em oposição ao quimérico: neste sentido, convém plenamente ao
novo espírito filosófico, que fica assim caracterizado pela sua constante
consagração às indagações verdadeiramente acessíveis à nossa inteligência, com
a exclusão efetiva dos impenetráveis mistérios com que se ocupava sobretudo a
sua infância. Num segundo sentido muito próximo do precedente, mas, entretanto,
distinto, este termo fundamental indica o contraste entre o útil e o ocioso:
lembra então, em Filosofia, que o destino necessário de todas as nossas sãs
especulações é o melhoramento contínuo de nossa verdadeira condição individual
e coletiva, e não a vã satisfação de uma curiosidade estéril. Conforme um
terceiro significado usual, esta feliz expressão é empregada freqüentemente
para qualificar a oposição entre a certeza e a indecisão: ela indica, assim, a
capacidade característica de semelhante filosofia para constituir
espontaneamente a harmonia lógica no indivíduo e a comunhão espiritual na
espécie inteira, em lugar dessas dúvidas indefinidas e desses debates
intermináveis que o antigo regime mental devia suscitar. Uma quarta acepção
ordinária, demasiadas vezes confundida com a precedente, consiste em opor o
preciso ao vago: este sentido lembra a tendência constante do verdadeiro espírito
filosófico para obter em toda a parte o grau de precisão compatível com a
natureza dos fenômenos e conforme à exigência de nossas reais necessidades; ao
passo que a antiga maneira de filosofar conduzia necessariamente a opiniões
vagas, por não comportar a indispensável disciplina senão em virtude de
contínua compressão, apoiada na autoridade sobrenatural.
32. Cumpre enfim
notar especialmente uma quinta aplicação menos usada do que as outras, embora
igualmente universal, quando se emprega o vocábulo positivo como o contrário de
negativo. Sob este aspecto ele indica uma das mais eminentes propriedades da
genuína filosofia moderna, mostrando-a destinada, sobretudo por sua natureza,
não a destruir, mas a organizar. Os quatro caracteres gerais acima lembrados distinguem-na,
ao mesmo tempo, de todos os modos possíveis, quer teológicos, quer metafísicos,
peculiares à filosofia inicial. Esta última significação, que indica, além
disso, a tendência contínua do novo espírito filosófico, oferece hoje especial
importância por caracterizar diretamente uma das suas principais diferenças,
não mais do espírito teológico que foi durante muito tempo orgânico, mas do
espírito metafísico propriamente dito, que nunca pôde deixar de ser crítico.
Qualquer que haja sido, com efeito, a ação dissolvente da ciência real, esta
influência foi sempre nela puramente indireta e secundária: sua própria falta
de sistematização impedia até aqui que fosse de outro modo, e o grande ofício
orgânico, que agora lhe cabe, se oporia, daqui por diante, a essa atribuição
acessória, que ele tende, aliás, a tornar supérflua. A sã filosofia afasta
radicalmente, é verdade, todas as questões necessariamente insolúveis; mas,
motivando-lhes a rejeição, evita negar qualquer coisa a seu respeito, o que
seria contraditório ao desuso sistemático pelo qual devem extinguir-se todas as
opiniões que não são verdadeiramente suscetíveis de discussão. Sendo igualmente
indiferente a todas elas, e, por conseguinte, mais imparcial e tolerante em
relação a cada uma do que os seus opostos partidários, a sã filosofia aplica-se
a apreciar-lhes historicamente a influência respectiva, as condições de sua
duração e os motivos de sua decadência, sem jamais pronunciar qualquer negação
absoluta, mesmo quando se trata das doutrinas mais antipáticas ao estado
presente da razão humana entre as populações de escol. É assim que presta
escrupulosa justiça, não somente aos diversos sistemas de monoteísmo diferentes
do que expira hoje entre nós, mas também às crenças politéicas, ou mesmo fetíchicas,
referindo-as sempre às fases correspondentes da evolução fundamental. Sob o
aspecto dogmático, ela professa além disso que as concepções de nossa
imaginação, quando sua natureza as torna necessariamente inacessíveis a toda
observação, não são mais desde então suscetíveis de negativa ou de afirmação
verdadeiramente decisivas. Ninguém, sem dúvida, jamais demonstrou logicamente a
inexistência de Apolo, de Minerva, etc., nem a das fadas orientais ou das
várias criações poéticas; o que de nenhum modo impediu o espírito humano de
abandonar irrevogavelmente os dogmas antigos, quando deixaram enfim de convir
ao conjunto de sua situação.
33. O único
caráter essencial do novo espírito filosófico que ainda não é indicado pela
palavra positivo consiste na sua tendência necessária a substituir por toda a
parte o absoluto pelo relativo. Mas este grande atributo, a um tempo científico
e lógico, é por tal forma inerente à natureza fundamental dos conhecimentos
reais, que sua consideração geral não tardará a ligar-se intimamente aos
diversos aspectos que essa fórmula já combina, quando o moderno regime
intelectual, até aqui parcial e empírico, passar comumente ao estado
sistemático. A quinta acepção, que acabamos de apreciar, é especialmente
própria para determinar esta última condensação da nova linguagem filosófica,
desde então plenamente constituída, conforme a afinidade evidente das duas
propriedades. Concebe-se, com efeito, que a natureza absoluta das antigas
doutrinas, quer teológicas, quer metafísicas, determinasse necessariamente cada
uma delas a tornar-se negativa em relação a todas as outras, sob pena de
degenerar em ecletismo absurdo. É, pelo contrário, em virtude de seu gênio
relativo que a nova filosofia pode apreciar sempre o valor próprio das teorias
que lhes são mais opostas, sem todavia fazer nunca qualquer vã concessão,
suscetível de alterar a nitidez de suas vistas ou a firmeza de suas decisões.
Há, pois, na verdade, motivo para presumir-se, de acordo com o conjunto de
semelhante apreciação especial, que a fórmula empregada aqui para qualificar
habitualmente esta filosofia definitiva lembrará de ora em diante, a todos os
bons espíritos, a inteira combinação efetiva de suas diversas propriedades
características.
34. Quando se
procura a origem fundamental de semelhante maneira de filosofar, não se tarda a
reconhecer que sua espontaneidade elementar coincide realmente com os primeiros
exercícios práticos da razão humana, porque o conjunto das explicações dadas
neste Discurso demonstra claramente que todos os seus atributos principais são,
no fundo, os mesmos que os do bom senso universal. Apesar do ascendente mental
da mais grosseira Teologia, a conduta diária da vida ativa suscitou sempre, em
relação a cada ordem de fenômenos, certo esboço das leis naturais e das
previsões correspondentes, em alguns casos particulares, que pareciam então
apenas secundários ou excepcionais; ora, tais são, com efeito, os germes necessários
da positividade, que devia por muito tempo permanecer empírica antes de poder
tornar-se racional. Muito importa compreender que, sob todos os aspectos
essenciais, o verdadeiro espírito filosófico consiste sobretudo na extensão
sistemática do simples bom senso a todas as especulações verdadeiramente
acessíveis. Seu domínio é radicalmente idêntico, pois as maiores questões da sã
filosofia se referem por toda a parte aos fenômenos mais vulgares, em relação
aos quais os casos artificiais constituem apenas uma preparação mais ou menos
indispensável. São, de um e outro lado, o mesmo ponto de partida experimental,
o mesmo objetivo de ligar e prever, a mesma preocupação contínua de realidade,
a mesma intenção final de utilidade. Toda sua diferença essencial consiste na
generalidade sistemática de um, resultante de sua abstração necessária, oposta
à incoerente especialidade do outro, sempre ocupado com o concreto.
35. Encarada sob
o aspecto dogmático, esta conexidade fundamental representa a ciência propriamente
dita como um simples prolongamento metódico da sabedoria universal. Assim,
muito longe de jamais pôr em dúvida o que esta verdadeiramente decidiu, as sãs
especulações filosóficas devem sempre tomar de empréstimo à razão comum suas
noções iniciais para fazê-las adquirir, por uma elaboração sistemática, um grau
de generalidade e de consistência que não podiam espontaneamente obter. Durante
o curso de uma tal elaboração o controle permanente da sabedoria vulgar
conserva, além disso, alta importância a fim de evitar, tanto quanto possível,
as diversas aberrações, por negligência ou por ilusão, que muitas vezes suscita
o estado contínuo de abstração indispensável à atividade filosófica. Apesar da
sua afinidade necessária, o bom senso propriamente dito deve preocupar-se
sobretudo com a realidade e a utilidade, ao passo que o espírito filosófico
tende a apreciar mais a generalidade e a ligação, de modo que sua dupla reação
diária se torna por igual favorável a ambos, consolidando em cada um as
qualidades fundamentais que nele se alterariam naturalmente. Semelhante relação
indica logo como são necessariamente ocas e estéreis as indagações
especulativas, dirigidas, em qualquer assunto, para os primeiros princípios,
que, devendo sempre emanar da sabedoria vulgar, não pertencem nunca ao
verdadeiro domínio da ciência, da qual constituem, ao revés, os fundamentos
espontâneos e desde então indiscutíveis, o que corta pela raiz uma imensidade
de controvérsias ociosas ou perigosas, deixadas pelo antigo regime. Pode-se igualmente
sentir assim a profunda inanidade final de todos os estudos preliminares
relativos à lógica abstrata, onde se trata de apreciar o verdadeiro método
filosófico, sem nenhuma aplicação a qualquer ordem de fenômenos. E, de fato, os
únicos princípios realmente gerais que, a este respeito, possamos estabelecer,
se reduzem necessariamente, como é fácil verificar nos mais célebres desses
aforismos, a algumas máximas incontestáveis, mas evidentes, tiradas da razão
comum e que verdadeiramente nada de essencial acrescentam às indicações que
resultam, em todos os bons espíritos, de simples exercício espontâneo. Quanto à
maneira de adaptar essas regras universais às diversas ordens de nossas
especulações positivas, o que constituiria a verdadeira dificuldade e a
utilidade real de tais preceitos lógicos, ela não poderia comportar sólida
apreciação senão após uma análise especial dos estudos correspondentes, de
conformidade com a natureza própria dos fenômenos considerados. A sã filosofia
não separa, portanto, nunca a Lógica da ciência, pois o método e a doutrina não
podem ser bem julgados, em cada caso, senão de acordo com as suas verdadeiras
relações mútuas: não é mais possível, no fundo, dar à Lógica, assim como à
ciência, um caráter universal através de concepções puramente abstratas,
independentes de todos os fenômenos determinados; as tentativas deste gênero
indicam ainda a secreta influência dó espírito absoluto inerente ao regime
teológico-metafísico.
36. Considerada agora
sob o aspecto histórico, esta íntima solidariedade natural entre o gênio
próprio da verdadeira filosofia e o simples bom senso universal mostra a origem
espontânea do espírito positivo, que por toda a parte resultou, com efeito, de
uma reação especial da razão prática sobre a razão teórica, cujo caráter
inicial foi sendo assim aos poucos modificado. Mas não era possível se operasse
essa transformação gradual simultaneamente, sobretudo com igual velocidade, nas
diversas classes de especulações abstratas, todas primitivamente teológicas,
como já o reconhecemos. Este constante impulso concreto não podia fazer o
espírito positivo penetrar nelas a não ser segundo uma ordem determinada de
acordo com a complicação crescente dos fenômenos, como será diretamente
explicado mais adiante A positividade abstrata, necessariamente surgida nos
mais simples estudos matemáticos, e propagada em seguida por via de afinidade
espontânea ou de imitação instintiva, não podia, pois, oferecer a principio
senão um caráter especial, e, mesmo, a muitos respeitos, empírico, que devia
por muito tempo dissimular, à maior parte dos seus promotores, quer sua
incompatibilidade inevitável com a filosofia inicial, quer, sobretudo, sua
tendência radical para fundar novo regime lógico. Seus progressos contínuos,
sob o impulso crescente da razão vulgar, não podiam então determinar
diretamente senão o triunfo preliminar do espírito metafísico, destinado, por
sua generalidade espontânea, a servir-lhe de órgão filosófico durante os
séculos decorridos entre a preparação mental do monoteísmo e sua plena
instalação social, após a qual, tendo o regime ontológico obtido todo o
ascendente que sua natureza comportava, logo se tornou opressivo ao progresso
científico, que ele havia até então secundado. Também o espírito positivo só
pôde suficientemente manifestar sua própria tendência filosófica quando foi
enfim conduzido, por essa opressão, a lutar especialmente contra o espírito
metafísico, com o qual deverá parecer confundido durante muito tempo. Por esta
razão a primeira fundação sistemática da filosofia positiva não poderia
remontar à época anterior à memorável crise na qual o conjunto do regime
ontológico começou a sucumbir em todo o ocidente europeu, sob o concurso
espontâneo de dois admiráveis impulsos mentais, um, científico, emanado de
Kepler e Galileu, e outro, filosófico, devido a Bacon e Descartes. A imperfeita
unidade metafísica constituída no fim da Idade Média foi desde então
irrevogavelmente dissolvida, como a ontologia grega já destruíra para sempre a
grande unidade teológica, correspondente ao politeísmo. Depois desta crise
verdadeiramente decisiva, o espírito positivo, crescendo mais em dois séculos,
do que lhe fora possível durante toda a sua longa carreira anterior, não
permitiu mais outra unidade mental a não ser a que resultava do seu próprio
ascendente universal, pois cada novo domínio sucessivamente por ele adquirido
jamais podia retornar à Teologia ou à Metafísica, em virtude da consagracão
definitiva que essas aquisições crescentes achavam mais e mais na razão vulgar.
E só por tal sistematização que a sabedoria teórica concederá verdadeiramente à
sabedoria prática digno equivalente, em generalidade e em consistência, do
serviço fundamental que dela recebeu, em realidade e em eficácia, durante sua
lenta iniciação gradual; porque as noções positivas obtidas nos dois últimos
séculos são, a falar verdade, muito mais preciosas como materiais ulteriores de
uma nova filosofia geral do que por seu valor direto e especial, pois a maior
parte delas ainda não pôde adquirir seu caráter definitivo, nem científico, nem
mesmo lógico.
37. O conjunto
da nossa evolução mental, e sobretudo o grande movimento realizado no ocidente
europeu, desde Descartes, e Bacon, não deixam, pois, de ora avante, outra saída
possível senão a de constituir enfim, após tantos preâmbulos necessários, o
estado verdadeiramente normal da razão humana, proporcionando ao espírito
positivo a plenitude e a racionalidade que ainda lhe faltam, de maneira a
estabelecer, entre o gênio filosófico e o bom senso universal, uma harmonia que
até aqui não havia podido suficientemente existir. Ora, estudando estas duas
condições simultâneas, de complemento e de sistematização, que a ciência real
deve hoje preencher para elevar-se à dignidade de verdadeira filosofia, não se
tarda em reconhecer que finalmente coincidem. De um lado, com efeito, a grande
crise inicial da positividade moderna só deixou fora do movimento científico
propriamente dito as teorias morais e sociais, que ficaram desde então em
irracional insulamento, sob o estéril domínio do espírito teológico-metafísico;
era, pois, em trazê-las ao estado positivo que devia consistir, sobretudo em
nossos dias, a última prova do verdadeiro espírito filosófico, cuja extensão
sucessiva a todos os outros fenômenos fundamentais já se achava bastante
esboçada. Mas, por outro lado, esta última expansão da filosofia natural tendia
espontaneamente a logo sistematizá-la, constituindo o único ponto de vista,
quer científico, quer lógico, que possa dominar o conjunto de nossas
especulações reais, sempre necessariamente redutíveis ao aspecto humano, isto
é, social, único suscetível de ativa universalidade. Tal é o duplo objetivo
filosófico da elaboração fundamental, ao mesmo tempo especial e geral, que ousei
empreender na grande obra indicada no começo deste Discurso: os mais eminentes
pensadores contemporâneos julgam-na assim assaz realizada para já ter assentado
as verdadeiras bases diretas da completa renovação mental projetada por Bacon e
Descartes, mas cuja execução decisiva estava reservada ao nosso século.
38. Para que
esta sistematização final das concepções, humanas seja hoje suficientemente
caracterizada, não basta apreciar seu destino teórico, como acabamos de fazer;
é preciso também considerar aqui, de um modo distinto, embora sumário, sua
aptidão necessária para constituir a única saída intelectual que possa
comportar a imensa crise social desenvolvida, há um século, no conjunto do
ocidente europeu, e especialmente em França.
39. Enquanto se
realizava gradualmente, durante os últimos séculos, a irrevogável dissolução da
filosofia teológica, o sistema político, que a tinha por base mental, sofria
cada vez mais uma decomposição não menos radical, igualmente presidida pelo
espírito metafísico. Este duplo movimento negativo tinha como órgãos essenciais
e solidários, de um lado, as universidades a princípio emanadas, mas logo rivais,
do poder sacerdotal; de outro lado as diversas corporações de legistas,
gradualmente hostis aos poderes feudais: apenas, à medida que a ação crítica se
disseminava, seus agentes, sem mudar de natureza, tornavam-se mais numerosos e
mais subalternos; de sorte que, no século XVIII, a atividade revolucionária
teve de passar, na ordem filosófica, dos doutores propriamente ditos aos
simples literatos, e, em seguida, na ordem política, dos juizes aos advogados.
A Grande Crise final necessariamente começou quando esta comum decadência,
primeiro espontânea, depois sistemática, para a qual, aliás, todas as classes
da sociedade moderna haviam concorrido de modo direto, chegou a ponto de tornar
universalmente irrecusável a impossibilidade de conservar o regime antigo e a
necessidade crescente de uma ordem nova. Desde sua origem, esta crise tendeu
sempre a transformar em vasto movimento orgânico o movimento crítico dos cinco
séculos anteriores, apresentando-se como destinado sobretudo a operar
diretamente a regeneração social, cujos preâmbulos negativos se achavam todos
então suficientemente realizados. Mas esta decisiva transformação, embora cada
vez mais urgente, permaneceu até aqui essencialmente impossível por falta de
uma filosofia capaz de fornecer-lhe indispensável base intelectual. Na própria
época em que o conveniente remate da decomposição preliminar exigia o desuso
das doutrinas puramente negativas que a tinham dirigido, fatal ilusão, então
inevitável, conduziu, pelo contrário, a conceder de modo espontâneo ao espírito
metafísico, único ativo durante esse longo preâmbulo, a presidência geral do
movimento de reorganização. Quando uma experiência plenamente decisiva (3)
evidenciou para sempre, aos olhos de todos, a completa impotência orgânica de
semelhante filosofia, a ausência de qualquer outra teoria não permitiu
satisfazer logo às necessidades de ordem, que já prevaleciam, senão por uma
espécie de restauração passageira (4)
deste mesmo sistema, mental e social, cuja irreparável decadência havia
ocasionado a crise. Enfim o desenvolvimento dessa reação retrógrada determinou,
em seguida, memorável manifestação que nossas lacunas filosóficas tornavam tão
indispensável quanto inevitável, a fim de demonstrar irrevogavelmente
constituir o progresso, tanto como a ordem, uma das condições fundamentais da
civilização moderna.
40. O concurso
natural destas duas experiências irrecusáveis, cujo renovamento se tornou agora
tão impossível como inútil, nos conduziu hoje a esta estranha situação em que
nada de verdadeiramente grande pode ser empreendido, em benefício da ordem ou
do progresso, por falta de uma filosofia realmente adaptada ao conjunto de
nossas necessidades. Todo esforço sério de reorganização logo se detém diante
dos temores de retrogradação que deve naturalmente inspirar, numa época em que
as idéias de ordem ainda emanam, em essência, do tipo antigo, que se tornou
justamente antipático às populações atuais: da mesma forma as tentativas de
aceleração direta da progressão política não tardam a ser radicalmente entravadas
pelas inquietações mui legítimas que devem suscitar sobre a iminência da
anarquia, enquanto as idéias de progresso permanecem sobretudo negativas. Como
antes da crise, a luta aparente acha-se, pois, empenhada entre o espírito
teológico, reconhecido incompatível com o progresso, que ele foi conduzido a
negar dogmaticamente, e o espírito metafísico, o qual, depois de terminar, em
Filosofia, na dúvida universal, não pôde tender, em política, senão a
constituir a desordem, ou um estado equivalente de não-governo. Mas, de acordo
com o sentimento unânime de sua comum insuficiência, nem um, nem outro pode
inspirar mais, de ora avante, aos governantes ou governados, profundas
convicções ativas. Seu antagonismo continua, pois, a alimentá-los mutuamente, sem
que nenhum deles possa comportar mais verdadeiro desuso, nem decisivo triunfo,
porque nossa situação intelectual os torna ainda indispensáveis para
representar de algum modo as condições simultâneas, de um lado, da ordem, e, de
outro, do progresso, até que uma única filosofia as possa satisfazer
igualmente, de modo a tornar enfim tão inútil a escola retrógrada como a
negativa, cada uma das quais é sobretudo destinada hoje a impedir a completa
preponderância da outra. Todavia, as inquietudes opostas, relativas a estes
dois domínios contrários, deverão naturalmente persistir ao mesmo tempo,
enquanto durar este interregno mental, como conseqüência inevitável da
irracional cisão entre as duas faces inseparáveis do grande problema social.
Com efeito, cada uma das duas escolas, em virtude de sua exclusiva preocupação,
não é nem mesmo capaz de conter suficientemente, de ora em diante, as
aberrações inversas de sua antagonista. Apesar de sua tendência antianárquica,
a escola teológica mostrou-se, em nossos dias, radicalmente impotente para
impedir o surto das opiniões subversivas, que, depois de se terem desenvolvido
especialmente durante sua principal restauração, amiúde são por ela propagadas,
em conseqüência de frívolos cálculos dinásticos. Assim também, qualquer que
seja o instinto anti-retrógrado da escola metafísica, ela não tem hoje mais
toda a força lógica que o seu simples ofício revolucionário exigiria, porque
sua inconseqüência característica a obriga a admitir os princípios essenciais
deste sistema, cujas verdadeiras condições de existência ela incessantemente
ataca.
41. Este
deplorável oscilar entre duas filosofias opostas, que se tornaram igualmente
vãs e não podem extinguir-se senão ao mesmo tempo, devia suscitar uma espécie
de escola intermediária, essencialmente estacionária, destinada sobretudo a
lembrar de modo direto o conjunto da questão social, proclamando enfim como
igualmente necessárias as condições fundamentais que insulavam as duas opiniões
ativas. Mas por falta de uma filosofia própria para realizar esta grande
combinação do espírito de ordem com o de progresso, este terceiro impulso
permanece logicamente ainda mais impotente do que os dois outros, porque
sistematiza a inconseqüência, consagrando simultaneamente os princípios
retrógrados e as máximas negativas, a fim de poder mutuamente neutralizá-los.
Longe de tender a terminar a crise, tal disposição só poderia conseguir
eternizá-la, opondo-se diretamente a toda verdadeira preponderância de um
sistema qualquer, se não fosse limitada a simples destino passageiro, para
empiricamente satisfazer às mais graves exigências de nossa situação
revolucionária, até o advento decisivo das únicas doutrinas que possam de ora
avante convir ao conjunto de nossas necessidades. Mas assim concebido, este
expediente provisório se torna hoje tão indispensável como inevitável. Seu
rápido ascendente prático, implicitamente reconhecido pelos dois partidos
ativos, torna patente cada vez mais, nas populações atuais, o amortecimento
simultâneo das convicções e das paixões anteriores, tanto retrógradas como
críticas, gradualmente substituídas por um sentimento universal, verdadeiro,
embora confuso, da necessidade e mesmo da possibilidade da conciliação contínua
entre o espírito de conservação e o de melhoramento igualmente peculiares ao
estado normal da Humanidade. A tendência correspondente dos homens de Estado a
impedir hoje, tanto quanto possível, todo grande movimento político, acha-se
além disso conforme às exigências fundamentais de uma situação que, na
realidade, só comportará instituições provisórias, enquanto uma verdadeira
filosofia geral não tiver suficientemente congregado as inteligências. Sem que
os poderes atuais o percebam, esta resistência instintiva concorre para
facilitar a verdadeira solução, incitando a transformar estéril agitação
política em ativa progressão filosófica, de modo a seguir enfim a marcha
prescrita pela natureza própria da reorganização final, que se deve operar
primeiro nas idéias, para passar em seguida aos costumes e, por fim, às instituições.
Tal transformação, que já tende a prevalecer em França, deve naturalmente
desenvolver-se cada vez mais por toda a parte, visto a necessidade crescente em
que se acham agora colocados nossos governos ocidentais de manter, a grande
custo, a ordem material no meio da desordem intelectual e moral, necessidade
que deve a pouco e pouco essencialmente absorver-lhes esforços diários, e
conduzi-los a renunciar implicitamente a toda séria presidência da
reorganização espiritual, entregue assim, de ora avante, à livre atividade dos
filósofos que se mostrarem dignos de dirigi-la. Esta disposição natural dos
poderes atuais está em harmonia com a tendência espontânea das populações a uma
aparente indiferença política, motivada pela impotência radical das diversas doutrinas
em voga, disposição que deve sempre persistir, enquanto os debates políticos,
por falta de impulso conveniente, continuarem a degenerar em vãs lutas
pessoais, cada vez mais miseráveis. Tal é a feliz eficácia prática que o
conjunto da nossa situação revolucionária proporciona de modo momentâneo a uma
escola essencialmente empírica, que, sob o aspecto teórico, não pode jamais
produzir senão um sistema radicalmente contraditório, não menos absurdo e não
menos perigoso, em política, do que o é, em Filosofia, o ecletismo
correspondente, inspirado também pela vã intenção de conciliar, sem princípios
próprios, opiniões incompatíveis.
42. De acordo
com este sentimento, cada vez mais desenvolvido, da igual insuficiência social,
que de ora em diante oferecem o espírito teológico e o metafísico, únicos que
até aqui ativamente disputaram o império, deve a razão pública achar-se
implicitamente disposta a acolher hoje o espírito positivo como a única base
possível de verdadeira resolução da profunda anarquia intelectual e moral que
sobretudo caracteriza a grande crise moderna. A escola positiva, que ficara
ainda estranha a tais questões, preparou-se gradualmente para resolvê-las,
constituindo, tanto quanto possível, durante a luta revolucionária dos três
últimos séculos, o verdadeiro estado normal de todas as categorias mais simples
de nossas especulações reais. Fortalecida por tais antecedentes científicos e
lógicos, isenta, além disso, das diversas aberrações contemporâneas,
apresenta-se hoje como tendo enfim adquirido a inteira generalidade filosófica
que até aqui lhe faltava; desde então ousa empreender, por sua vez, a solução,
ainda intacta, do grande problema, transportando convenientemente para os
estudos finais a mesma regeneração que sucessivamente já operou nos diversos
estudos preliminares.
43. Não se pode,
à. primeira vista, desconhecer a aptidão espontânea de semelhante filosofia
para estabelecer, de modo direto, a conciliação fundamental, ainda tão vãmente
procurada, entre as exigências simultâneas da ordem e do progresso, pois lhe
basta, para tal, estender até os fenômenos sociais uma tendência plenamente
conforme à sua natureza, e que ela tornou hoje muito familiar em todos os
outros casos essenciais. Em qualquer assunto o espírito positivo conduz sempre
a estabelecer uma exata harmonia elementar entre as idéias de existência e as
de movimento, donde resulta mais especialmente, para com os corpos vivos, a
correlação permanente das idéias de organização e de vida, e, em seguida, por
uma última especialização peculiar ao organismo social, a solidariedade
contínua das idéias de ordem com as de progresso. Para a nova filosofia, a
ordem constitui sempre a condição fundamental do progresso; e, reciprocamente, o
progresso é o objetivo necessário da ordem: como na mecânica animal, são
mutuamente indispensáveis o equilíbrio e a progressão, um como fundamento e a
outra como destino.
44. Considerado,
em seguida, especialmente quanto à ordem, o espírito positivo apresenta-lhe
hoje, em sua extensão social, fortes garantias diretas, não só científicas mas
também lógicas, que poderão logo ser julgadas muito superiores às vãs
pretensões de uma teologia retrógrada, que, desde vários séculos, degenerou
cada vez mais em elemento ativo de discórdias, individuais ou nacionais, e
tornou-se incapaz de conter daqui por diante as divagações subversivas dos seus
próprios adeptos. Atacando a desordem atual na sua verdadeira fonte,
necessariamente mental, o espírito positivo constitui, tão profundamente quanto
possível, a harmonia lógica, regenerando primeiro os métodos, depois as
doutrinas, por uma tríplice conversão simultânea da natureza das questões
dominantes, da maneira de tratá-las e das condições preliminares da sua
elaboração. De um lado, com efeito, ele demonstra que as principais
dificuldades sociais não são hoje essencialmente políticas, mas sobretudo
morais, de sorte que sua solução possível depende realmente muito mais das
opiniões e dos costumes do que das instituições; o que tende a extinguir uma
atividade perturbadora, transformando a agitação política em movimento
filosófico. Sob o segundo aspecto ele encara sempre o estado presente como um
resultado necessário do conjunto da evolução anterior, de modo a fazer constantemente
prevalecer a apreciação racional do passado no exame atual dos negócios
humanos; o que afasta logo as tendências puramente críticas, incompatíveis com
toda sã concepção histórica. Enfim, em lugar de deixar a ciência social no vago
e estéril insulamento em que ainda a colocam a Teologia e a Metafísica, ele a
liga irrevogavelmente a todas as outras ciências fundamentais, que constituem
gradualmente, em relação a este estudo final, outros tantos preâmbulos
indispensáveis, onde a nossa inteligência adquire ao mesmo tempo os hábitos e
as noções sem as quais não podem ser utilmente tratadas as mais eminentes
especulações positivas. Esta circunstância já institui uma verdadeira
disciplina mental, própria a melhorar de modo radical tais discussões, desde então
racionalmente interditas a grande número de entendimentos mal organizados ou
mal preparados. Estas grandes garantias lógicas são, aliás, em seguida
plenamente confirmadas e desenvolvidas pela apreciação científica propriamente
dita, que, em relação aos fenômenos sociais assim como a todos os outros,
representa sempre nossa ordem artificial como devendo consistir sobretudo no
simples prolongamento judicioso, primeiro espontâneo, depois sistemático, da
ordem natural que resulta, em cada caso, do conjunto das leis reais, cuja ação
efetiva é ordinariamente modificável por nossa criteriosa intervenção, entre
limites determinados, tanto mais distantes entre si quanto de ordem mais
elevada são os fenômenos. O sentimento elementar da ordem é, em uma palavra,
naturalmente inseparável de todas as especulações positivas, constantemente
dirigidas para o descobrimento dos meios de ligação entre observações cujo
principal valor resulta da sua sistematização.
45. O mesmo se
dá, e ainda mais evidentemente, quanto ao progresso, que, apesar das vás
pretensões ontológicas, acha hoje, no conjunto dos estudos científicos, sua
mais incontestável manifestação. Em virtude de sua natureza absoluta e por
conseguinte essencialmente imóvel, a Metafísica e a Teologia não poderiam comportar,
com pouca diferença uma da outra, um verdadeiro progresso, isto é, uma
verdadeira progressão contínua para determinado fim. Suas transformações
históricas consistem sobretudo, ao revés, num desuso crescente, assim mental
como social, sem que as questões agitadas hajam podido jamais dar qualquer
passo real, em virtude mesmo de sua radical insolubilidade. É fácil reconhecer
que as discussões ontológicas das escolas gregas se reproduziram
essencialmente, sob outras formas, entre os escolásticos da Idade Média, e
encontramos hoje o equivalente delas entre os nossos psicólogos ou ideólogos,
pois nenhuma das doutrinas controvertidas pôde, durante estes vinte séculos de
estéreis debates, chegar a demonstrações decisivas, nem mesmo no que concerne à
existência dos corpos exteriores, ainda tão problemática para os argumentadores
modernos como para os seus mais antigos predecessores. Foi evidentemente o
avanço contínuo dos conhecimentos positivos que inspirou, há dois séculos, na
célebre fórmula filosófica de Pascal, a primeira noção racional de progresso
humano, necessariamente estranha a toda a filosofia antiga. Estendida em
seguida à evolução industrial e mesmo estética, mas tendo ficado muito confusa
em relação ao movimento social, ela tende hoje de modo vago para uma
sistematização decisiva, que só pode emanar do espírito positivo, enfim
convenientemente generalizado. Em suas especulações diárias ele reproduz
espontaneamente seu ativo sentimento elementar, representando sempre a extensão
e o aperfeiçoamento de nossos conhecimentos reais como o objetivo essencial de
nossos diversos esforços teóricos. Sob um aspecto mais sistemático, a nova
filosofia aponta, diretamente, como destino necessário a toda nossa existência,
a um tempo pessoal e social, o melhoramento contínuo, não somente de nossa
condição, mas também e sobretudo de nossa natureza, tanto quanto o comporta, a
todos os respeitos, o conjunto das leis reais exteriores e interiores.
Erigindo, assim, a noção de progresso em dogma verdadeiramente fundamental da
sabedoria humana, quer prática, quer teórica, ela lhe imprime o mais nobre e
também o mais completo caráter, representando sempre o segundo gênero de
aperfeiçoamento como superior ao primeiro. Dependendo, com efeito, de um lado,
a ação da Humanidade sobre o mundo exterior especialmente das disposições do
agente, a sua melhoria deve constituir nosso principal recurso: sendo, por
outro lado, os fenômenos humanos, individuais ou coletivos, os mais
modificáveis de todos, é em relação a eles que nossa intervenção racional
comporta naturalmente a mais alta eficácia. O dogma do progresso não pode,
pois, tornar-se suficientemente filosófico senão mediante uma exata apreciação
geral do que constitui sobretudo esse melhoramento contínuo de nossa própria
natureza, principal objeto da progressão humana. Ora, a este respeito, o
conjunto da filosofia positiva demonstra plenamente, como se pode ver na obra
indicada no começo deste Discurso que tal aperfeiçoamento consiste
essencialmente, assim para o indivíduo como para a espécie, em fazer prevalecer
cada vez mais os eminentes atributos que mais distinguem nossa humanidade da
simples animalidade, isto é, de uma parte a inteligência, de outra parte a
sociabilidade, faculdades naturalmente solidárias, que se servem mutuamente de
meio e de fim. Embora o curso espontâneo da evolução humana, pessoal ou social,
desenvolva sempre sua comum influência, seu ascendente combinado não poderia,
entretanto, chegar ao ponto de impedir proceda habitualmente nossa principal
atividade dos instintos inferiores, que nossa constituição real torna, por
força, muito mais enérgicos. Assim esta ideal preponderância de nossa
humanidade sobre nossa animalidade preenche naturalmente as condições
essenciais de um verdadeiro tipo filosófico, caracterizando determinado limite,
do qual todos os nossos esforços devem aproximar-nos constantemente sem,
todavia, conseguirem jamais atingi-lo.
46. Esta dupla
indicação da aptidão fundamental do espírito positivo para sistematizar
espontaneamente as sãs noções simultâneas de ordem e de progresso basta aqui
para assinalar sumariamente a alta eficácia social peculiar à nova filosofia.
Seu valor, a este respeito, depende sobretudo de sua plena realidade
científica, isto é, da exata harmonia que estabelece sempre, tanto quanto
possível, entre os princípios e os fatos, não só em relação aos fenômenos
sociais, como também a todos os outros. A reorganização completa, única que
pode terminar a grande crise moderna, consiste, com efeito, sob o aspecto
mental, que deve prevalecer em primeiro lugar, em constituir uma teoria
sociológica própria para convenientemente explicar o conjunto do passado
humano: tal é o modo mais racional de pôr a questão essencial, a fim de afastar
dela mais facilmente qualquer paixão perturbadora. Ora, é assim que a
superioridade necessária da escola positiva sobre as diversas escolas atuais
pode também ser mais nitidamente apreciada. Sendo o espírito teológico e o
metafísico levados, por sua natureza absoluta, a não considerar senão o período
do passado em que cada um deles dominou especialmente: o que precede e o que se
segue não oferece mais do que tenebrosa confusão e inexplicável desordem, cuja
ligação com essa estreita porção do grande espetáculo histórico não pode, aos
seus olhos, resultar senão de milagrosa interferência. Por exemplo, o
catolicismo sempre mostrou, a respeito do politeísmo antigo, uma tendência
cegamente crítica, como a que ele hoje justamente increpa, em relação a si
mesmo, ao espírito revolucionário propriamente dito. Uma verdadeira explicação
do conjunto do passado, de conformidade com as leis constantes de nossa
natureza, individual ou coletiva, é, pois, necessariamente impossível às
diversas escolas absolutas que ainda dominam, e, na realidade, nenhuma delas
tentou dá-la de modo satisfatório. Só o espírito positivo, em virtude de sua
natureza eminentemente relativa, pode representar de modo conveniente todas as
grandes épocas históricas como outras tantas fases determinadas de uma única
evolução fundamental, onde cada uma resulta da precedente e prepara a seguinte
segundo leis invariáveis, que fixam sua participação especial na progressão
comum, de modo a permitir sempre, sem inconseqüência nem parcialidade, render
exata justiça filosófica a quaisquer cooperações. Embora este incontestável
privilégio da positividade racional deva, a princípio, parecer puramente
especulativo, os verdadeiros pensadores nele reconhecerão logo a primeira fonte
necessária do ativo ascendente social reservado enfim à, nova filosofia.
Podemos, na verdade, assegurar hoje que a doutrina que houver suficientemente
explicado o conjunto do passado obterá de modo inevitável, em virtude desta
única prova, a presidência mental do futuro.
47. Semelhante
indicação das altas propriedades sociais que caracterizam o espírito positivo
não seria ainda assaz decisiva se lhe não ajuntássemos uma apreciação sumária
de sua aptidão espontânea para sistematizar enfim a moral humana, o que
constituirá sempre a principal aplicação de toda verdadeira teoria da
Humanidade.
48. No organismo
político da antigüidade, a Moral, radicalmente subordinada à Política, não
podia jamais adquirir a dignidade nem a universalidade conveniente à sua
natureza. Sua independência fundamental e mesmo o seu ascendente normal
resultaram enfim, tanto quanto era então possível, do regime monotéico peculiar
à Idade Média: este imenso serviço, devido sobretudo ao catolicismo,
constituirá sempre o seu principal título ao eterno reconhecimento do gênero
humano. Foi somente depois dessa indispensável separação, sancionada e
completada pela divisão necessária dos dois poderes, que a moral humana pôde
realmente começar a tomar um caráter sistemático, estabelecendo, ao abrigo dos
impulsos passageiros, regras verdadeiramente gerais para o conjunto de nossa
existência pessoal, doméstica e social. Mas as profundas imperfeições da
filosofia monoteica, que presidia então a essa grande operação, alteraram muito
a sua eficácia e comprometeram mesmo gravemente a sua estabilidade, suscitando
logo fatal conflito entre a expansão intelectual e o desenvolvimento moral.
Assim ligada a uma doutrina que não podia manter-se progressiva por muito
tempo, a Moral devia em seguida ser cada vez mais afetada pelo descrédito
crescente que ia necessariamente sofrer uma teologia que, sendo daí por diante
retrógrada, se tornaria enfim radicalmente antipática à razão moderna. Exposta
desde então à ação dissolvente da Metafísica, a moral teórica recebeu, com
efeito, durante os últimos cinco séculos, em cada uma das suas três partes
essenciais, ataques crescentemente perigosos, que a retidão e a moralidade
naturais do homem não puderam, pela prática, reparar sempre suficientemente,
apesar do feliz desenvolvimento contínuo que lhes devia proporcionar então a
marcha espontânea da nossa civilização. Se o ascendente necessário do espírito
positivo não viesse enfim pôr termo a essas anárquicas divagações, elas
certamente imprimiriam uma flutuação mortal a todas as noções um pouco
delicadas da moral comum não somente social, mas também doméstica e até mesmo
pessoal, não deixando subsistir por toda parte senão as regras relativas aos
casos mais grosseiros que a apreciação vulgar pudesse diretamente garantir.
49. Em
semelhante situação, deve parecer estranho que a única filosofia capaz
efetivamente de consolidar hoje a Moral se veja, ao revés, tachada, a este
respeito, de incompetência radical, pelas diversas escolas atuais desde os
genuínos católicos até os simples deístas, que, no meio de seus vãos debates,
se põem de acordo especialmente para lhe interdizer essencialmente o acesso
destas questões fundamentais, pelo único motivo de que o seu gênio, demasiado
parcial, se limitara até aqui aos assuntos mais simples. O espírito metafísico
que tendeu tantas vezes a dissolver a Moral, e o espírito teológico, que, há
muito, perdeu a força de preservá-la, persistem contudo em fazer dela uma
espécie de apanágio eterno e exclusivo, sem que a razão pública tenha ainda
julgado convenientemente essas pretensões empíricas. Cumpre, é verdade,
reconhecer que, em geral, a introdução de qualquer regra moral devia operar-se
por toda a parte primeiramente sob as inspirações teológicas, então
incorporadas profundamente ao sistema inteiro de nossas idéias, inspirações que
eram também as únicas suscetíveis de constituir opiniões suficientemente
comuns. Mas o conjunto do passado demonstra igualmente que esta solidariedade
primitiva decresceu sempre com o ascendente da Teologia; os preceitos morais,
assim como todos os outros, foram cada vez mais reduzidos a uma consagração
puramente racional, à medida que o vulgo se tornou mais capaz de apreciar a
influência real de cada conduta sobre a existência humana, individual ou
social. Separando de modo irrevogável a Moral da Política o catolicismo devia
desenvolver em alto grau essa tendência continua, pois a intervenção
sobrenatural se achou assim diretamente reduzida a formar regras gerais, cuja
aplicação particular ficava desde então confiada à sabedoria humana.
Dirigindo-se a populações mais adiantadas, ele entregou à razão pública uma
série de preceitos especiais que os sábios antigos acreditavam não poder
dispensar nunca as injunções religiosas, como o pensam ainda os doutores
politeístas da Índia, por exemplo, quanto à maior parte das práticas
higiênicas. Podem-se também observar, decorridos mais de três séculos depois de
São Paulo, as sinistras predições de vários filósofos ou magistrados pagãos
sobre a iminente imoralidade que a próxima revolução teológica ia
necessariamente acarretar. Tampouco as declamações atuais das diversas escolas
monoteicas impedirão o espírito positivo de completar hoje, sob condições
convenientes, a conquista prática e teórica do domínio moral, já entregue
espontaneamente, e, cada vez mais, à razão humana, cujas inspirações
particulares só nos resta enfim sistematizar especialmente. A Humanidade não
poderia, sem dúvida, ficar indefinidamente condenada a não poder fundar suas
regras de proceder senão sobre motivos quiméricos, de maneira a eternizar uma
desastrosa oposição, até aqui passageira, entre as necessidades intelectuais e
as morais.
50. A
experiência demonstra que a assistência teológica, bem longe de ser eternamente
indispensável aos preceitos morais, lhes tem sido, ao revés, entre os modernos,
cada vez mais prejudicial, fazendo-os participar inevitavelmente, em virtude
dessa funesta aderência, da decomposição crescente do regime monotéico,
sobretudo durante os três últimos séculos. Antes de mais nada, essa fatal
solidariedade, à medida que se extinguia a fé, devia diretamente enfraquecer a
única base sobre a qual repousavam regras que, amiúde expostas a graves
conflitos com os nossos mais enérgicos impulsos, precisam ser cuidadosamente
preservadas de toda hesitação. A antipatia crescente que o espírito teológico
justamente inspirava à razão moderna, afetou de modo grave importantíssimas
noções morais, não só relativas às grandes relações sociais, mas ainda
atinentes à simples vida doméstica e mesmo à existência pessoal. Além disto um
cego ardor de emancipação mental arrastou, de modo excessivo, a erigir algumas
vezes o desdém passageiro por essas máximas salutares em uma espécie de louco
protesto contra a filosofia retrógrada, de onde pareciam exclusivamente emanar.
Até entre aqueles que conservavam a fé dogmática, essa funesta influência se
fazia sentir indiretamente, porque a autoridade sacerdotal, depois de haver
perdido sua independência política, via também decrescer cada vez mais o
ascendente social indispensável à sua eficácia moral. Além desta impotência
crescente para proteger as regras morais, o espírito teológico muitas vezes as
prejudicou, de modo ativo, pelas divagações que suscitou, desde que não foi
mais suscetível de suficiente disciplina, sob o inevitável surto do livre exame
individual. Exercido assim, ele, na realidade, inspirou ou secundou muitas
aberrações anti-sociais, que o bom senso, entregue a si mesmo, teria
espontaneamente evitado ou rejeitado. As utopias subversivas que vemos ganhar
crédito hoje, quer contra a propriedade, quer mesmo acerca da família, etc.,
não emanaram quase nunca das inteligências plenamente emancipadas, nem foram
por elas acolhidas, apesar das suas lacunas fundamentais, mas antes, por certo,
o foram pelas que buscam ativamente uma espécie de restauração teológica,
fundada sobre vago e estéril deísmo ou sobre um protestantismo equivalente.
Enfim, essa antiga aderência à Teologia tornou-se também necessariamente funesta
à Moral, sob um terceiro aspecto geral, opondo-se à sua sólida reconstrução
sobre bases puramente humanas. Se este obstáculo consistisse só nas cegas
declamações mui freqüentemente emanadas das diversas escolas atuais, teológicas
ou metafísicas, contra o pretenso perigo de semelhante operação, os filósofos
positivos poderiam limitar-se a repelir odiosas insinuações pelo irrecusável
exemplo da sua própria vida diária, pessoal, doméstica e social. Mas esta
oposição é infelizmente muito mais radical, porque resulta da irredutível
incompatibilidade necessária que evidentemente existe entre estas duas maneiras
de sistematizar a Moral. Devendo os motivos teológicos oferecer naturalmente,
aos olhos do crente, uma intensidade muito superior à de quaisquer outros,
jamais poderiam transformar-se em simples auxiliares dos motivos puramente
humanos e não podem conservar nenhuma eficácia real logo que deixam de dominar.
Não existe, pois, nenhuma alternativa duradoura entre fundar enfim a moral no
conhecimento positivo da Humanidade e deixá-la repousar na determinação
sobrenatural: as convicções racionais puderam secundar as crenças teológicas,
ou antes tomar gradualmente o seu lugar à medida que a fé se extinguiu; mas a
combinação inversa não constitui certamente senão uma utopia contraditória, na
qual o principal seria subordinado ao acessório.
51. Judiciosa
observação do verdadeiro estado da sociedade moderna representa, pois, como
cada vez mais desmentida pelo conjunto dos fatos diários, a pretensa
impossibilidade de ser dispensável de ora em diante qualquer teologia para
consolidar a Moral; porque essa perigosa ligação devia tornar-se desde o fim da
Idade Média triplicentemente funesta à Moral, quer enervando ou desacreditando
suas bases intelectuais, quer lhe suscitando perturbações diretas, quer
impedindo sua melhor sistematização. Se, apesar de ativos princípios de
desordem, a moralidade prática realmente melhorou, este feliz resultado não
poderia ser atribuído ao espírito teológico, então degenerado, pelo contrário,
em perigoso dissolvente: ele é devido, no mais alto grau, à ação do espírito
positivo, já eficaz sob sua forma espontânea, que consiste no bom senso
universal, cujas sábias inspirações secundaram o impulso natural de nossa
civilização progressiva para combater utilmente as diversas aberrações,
sobretudo as que emanavam das divagações religiosas. Quando, por exemplo, a
teologia protestante tendia a alterar gravemente a instituição do casamento,
pela consagração formal do divórcio, a razão pública neutralizava
consideravelmente os seus funestos efeitos, impondo quase sempre o respeito
prático dos costumes anteriores, únicos conformes ao verdadeiro caráter da
sociabilidade moderna. Irrecusáveis experiências provaram, a1ém disso, ao mesmo
tempo, em vasta escala, no seio das massas populares, que o pretenso privilégio
exclusivo das crenças religiosas de determinar grandes sacrifícios ou ativos
devotamentos podia, de igual modo, pertencer a opiniões diretamente opostas, e
aplicava-se, em geral, a toda convicção profunda, qualquer que seja a sua
natureza. Os numerosos adversários do regime teológico que, há meio século,
garantiram com tanto heroísmo nossa independência nacional contra a coligação
retrógrada, não mostraram, sem dúvida, uma abnegação menos completa e menos
constante do que os bandos supersticiosos que, no seio da França, auxiliaram a
agressão exterior.
52. Para acabar
de apreciar as atuais pretensões da filosofia teológico-metafísica de conservar
a sistematização exclusiva da moral comum, basta encarar diretamente a doutrina
perigosa e contraditória que o progresso inevitável da emancipação a forçou
logo a estabelecer a esse respeito, consagrando por toda a parte, sob formas
mais ou menos explícitas, uma espécie de hipocrisia coletiva, análoga à que se
supõe, muito sem razão, ter sido habitual entre os antigos, embora ela só tenha
comportado na antigüidade um êxito precário e passageiro. Não podendo impedir o
livre desenvolvimento da razão moderna nos espíritos cultos, procurou-se,
assim, obter deles, em vista do interesse público, o respeito aparente das
antigas crenças, para que estas mantivessem, sobre o vulgo, a autoridade
julgada indispensável. Esta transação sistemática não é por forma alguma
peculiar aos jesuítas, ainda que constitua o fundo essencial de sua tática. O
espírito protestante imprimiu-lhe também, a seu modo, uma consagração ainda
mais intima, mais extensa e sobretudo mais dogmática; os metafísicos
propriamente ditos adotam-na tanto quanto os próprios teólogos; o maior dentre
eles , embora sua alta moralidade fosse na verdade digna de sua eminente
inteligência, foi arrastado a sancioná-la essencialmente, estabelecendo, de uma
parte, que as opiniões teológicas não comportam nenhuma verdadeira
demonstração, e, de outra parte, que a necessidade social obriga a
indefinidamente manter-lhes o império. Apesar de poder semelhante doutrina
tornar-se respeitável entre aqueles que lhe não acrescentam nenhuma ambição
pessoal, não tende menos a viciar todas as fontes da moralidade humana, fazendo-a
necessariamente repousar sobre um estado contínuo de falsidade, e mesmo de
desprezo, dos superiores para com os inferiores. Enquanto os que deviam
participar dessa dissimulação sistemática foram pouco numerosos, a sua prática
foi possível, ainda que precária; mas tornou-se ainda mais ridícula do que
odiosa quando a emancipação se estendeu bastante para que essa espécie de
conspiração piedosa pudesse hoje abranger, como seria necessário, a maior parte
dos espíritos ativos. Enfim, mesmo que se suponha realizada essa quimérica
extensão, esse pretenso sistema deixa subsistir completamente a dificu1dade a
respeito das inteligências emancipadas cuja moralidade própria fica assim
abandonada à sua pura espontaneidade,. já exatamente reconhecida insuficiente
na classe submissa. Se é preciso admitir também a necessidade de verdadeira
sistematização moral para esses espíritos emancipados, ela só poderá repousar
desde então sobre bases positivas, que finalmente serão assim julgadas
indispensáveis. Quando a limitar-lhe o destino à classe ilustrada, além de
semelhante restrição não poder mudar a natureza dessa grande construção
filosófica seria evidentemente ilusória numa época em que a cultura mental, que
essa fácil libertação supõe, já se tornou muito comum, ou antes quase
universal, pelo menos em França. Assim, o expediente empírico sugerido pelo vão
desejo de manter, a todo custo, o antigo regime intelectual, só terá como
resultado deixar a maior parte dos espíritos ativos desprovida de toda doutrina
moral, como mui freqüentemente acontece hoje.
53. É, portanto,
sobretudo em nome da Moral que cumpre de ora avante trabalhar ardentemente para
constituir enfim o ascendente universal do espírito positivo, a fim de
substituir um sistema decaído que, ora impotente, ora perturbador, exigiria
cada vez mais a compressão mental como condição permanente da ordem moral. Só a
nova filosofia pode estabelecer hoje, quanto aos nossos deveres, convicções
profundas e ativas, verdadeiramente suscetíveis de sustentar com energia o
choque das paixões. De acordo com a teoria positiva da Humanidade, irrecusáveis
demonstrações, apoiadas sobre a imensa experiência que agora a nossa espécie
possui, determinarão exatamente a influência real, direta ou indireta, privada
e pública, peculiar a todo ato, a todo hábito e a todo pendor ou sentimento;
donde naturalmente resultarão, como outros tantos corolários inevitáveis, as
regras de proceder, quer gerais, quer especiais, mais conformes à ordem universal
e que, por conseguinte, deverão ser ordinariamente mais favoráveis à felicidade
individual. Apesar da dificuldade deste grande assunto, ouso assegurar que,
convenientemente tratado, comporta conclusões tão certas quanto as da própria
Geometria. Não se pode, sem dúvida, esperar jamais tornar algum dia
suficientemente acessíveis a todas as inteligências estas provas positivas de
várias regras morais destinadas, entretanto, à vida comum; mas isso já acontece
com as diversas prescrições matemáticas que, todavia, são aplicadas sem
hesitação nas mais graves ocasiões, quando, por exemplo, nossos marinheiros
arriscam diariamente sua existência, fiados em teorias astronômicas que
absolutamente não conhecem. Por que igual confiança não seria concedida também
a noções ainda mais importantes? É incontestável que a eficácia normal de
semelhante regime exige, em cada caso, além de poderoso impulso resultante
naturalmente dos preconceitos públicos, a intervenção sistemática, ora passiva,
ora ativa, de uma autoridade espiritual, destinada a lembrar, com energia, as
máximas fundamentais e a dirigir-lhes criteriosamente a aplicação, como
expliquei de modo especial na obra já mencionada. Desempenhando, assim, a
grande função social que o catolicismo não preenche mais, este novo poder moral
cuidadosamente utilizará a feliz aptidão da filosofia correspondente para
incorporar em si espontaneamente a sabedoria real dos diversos regimes
anteriores, segundo a tendência ordinária do espírito positivo em relação a
qualquer assunto. Quando a astronomia moderna afastou de modo irrevogável os
princípios astrológicos, não deixou, contudo, de conservar preciosamente todas
as noções verdadeiras obtidas sob o domínio desses princípios; o mesmo se deu
com a Química em reação à alquimia.
54. Sem poder
empreender aqui a apreciação moral da filosofia positiva, cumpre, entretanto,
assinalar a tendência contínua que, de modo direto, resulta de sua própria
constituição, tanto científica como lógica, para estimular e consolidar o
sentimento do dever, desenvolvendo sempre o espírito de conjunto que a ele se
acha naturalmente ligado. Este novo regime mental dissipa espontaneamente a
fatal oposição que, desde o fim da Idade Média, existe cada vez mais entre as
necessidades intelectuais e as necessidades morais. De ora em diante, ao
contrário, todas as especulações reais, convenientemente sistematizadas,
concorrerão de modo contínuo para constituir, tanto quanto possível, a
universal preponderância da Moral, pois o ponto de vista social há de tornar-se
nelas necessariamente o laço científico e o regulador lógico de todos os outros
aspectos positivos. É impossível que desenvolvendo familiarmente semelhante
coordenação as idéias de ordem e harmonia, sempre ligadas à Humanidade, não
tenda a moralizar profundamente, não só os espíritos de escol, como também a
massa das inteligências, que deverão todas participar mais ou menos desta
grande iniciação, por via de um sistema conveniente de educação universal.
55. Uma
apreciação mais íntima e mais extensa, ao mesmo tempo prática e teórica,
representa o espírito positivo como sendo, por sua natureza, o único suscetível
de desenvolver diretamente o sentimento social, primeira base necessária de
toda sã moral. O antigo regime mental não podia estimulá-la senão com o auxílio
de penosos sacrifícios indiretos, cujo êxito real devia ser muito imperfeito,
em vista da tendência essencialmente pessoal de semelhante filosofia, quando a
sabedoria do sacerdócio não lhe neutralizava a influência espontânea. Esta
necessidade é agora reconhecida, pelo menos empiricamente, quanto ao espírito
metafísico propriamente dito, que não pôde nunca conduzir, em Moral, a nenhuma
outra teoria efetiva a não ser o desastroso sistema de egoísmo, tão usado hoje,
apesar de muitas declamações contrárias; mesmo as seitas ontológicas que
protestaram seriamente contra semelhante aberração não a substituíram senão por
vagas ou incoerentes noções, incapazes de eficácia prática. Uma tendência tão
deplorável, e, contudo, tão constante, deve ter raízes mais profundas do que
comumente se supõe. Ela resulta, com efeito, sobretudo da natureza
necessariamente pessoal de semelhante filosofia que, limitada sempre à
consideração do indivíduo, na realidade nunca pôde abranger o estudo da
espécie, por uma conseqüência inevitável de seu vão princípio lógico, reduzido,
em essência, à intuição propriamente dita, que não comporta evidentemente
nenhuma aplicação coletiva. Suas fórmulas ordinárias apenas ingenuamente lhe
traduzem o espírito fundamental; para cada um dos seus adeptos o pensamento
dominante é sempre o do eu: quaisquer outras existências, mesmo humanas, são
confusamente envolvidas em uma única concepção negativa e seu vago conjunto
constitui o não-eu; a noção de nós não poderia achar aí nenhum lugar direto e
distinto. Mas, examinando este assunto ainda mais profundamente, cumpre
reconhecer que, a este respeito, como sob qualquer outro aspecto, a Metafísica
deriva, tanto dogmática, como historicamente, da própria Teologia, da qual não
podia jamais constituir senão uma modificação dissolvente. Com efeito, este
caráter de personalidade constante pertence sobretudo, com uma energia mais
direta, ao pensamento teológico, sempre preocupado, em cada crente, com
interesses essencialmente individuais, cuja imensa preponderância absorve por
força qualquer outra consideração, sem que o mais sublime devotamento lhe possa
inspirar a verdadeira abnegação justamente considerada então como perigosa
aberração. Somente a oposição freqüente desses interesses quiméricos aos reais
forneceu à sabedoria do sacerdócio poderoso meio de disciplina moral, que pôde,
amiúde, impor, em proveito da sociedade, admiráveis sacrifícios, que,
entretanto, só o eram em aparência, pois sempre se reduziam a prudente
ponderação de interesses. Os sentimentos benévolos e desinteressados,
peculiares à natureza humana, deveram, sem dúvida, manifestar-se através de tal
regime, e mesmo, a certos respeitos, sob o seu impulso indireto; mas, embora a
expansão desses sentimentos não tenha podido ser assim comprimida, deve seu
caráter ter dele recebido grave alteração, que provavelmente ainda não nos
permite conhecer-lhe plenamente a natureza e a intensidade, por falta de
exercício próprio e direto. Há toda razão de presumir-se, aliás, que esse
hábito contínuo de cálculos pessoais em relação aos mais caros interesses do
crente desenvolveu no homem, mesmo a outros respeitos, por via de afinidade
gradual, um excesso de circunspecção, de previdência, e, finalmente, de
egoísmo, que sua organização fundamental não exigia, e por isto poderá um dia
diminuir sob melhor regime moral. Seja ou não verdadeira esta conjetura, é
incontestável ser o pensamento teológico, por sua natureza, essencialmente
individual, e jamais diretamente coletivo. Aos olhos da fé teológica, sobretudo
monoteica, a vida social não existe por falta de um destino que lhe seja
próprio. A sociedade humana não pode então imediatamente oferecer senão uma
simples aglomeração de indivíduos, cuja reunião é quase tão fortuita quanto
passageira, cada um dos quais, ocupado com a sua própria salvação, não concebe
participar na de outrem, a não ser como poderoso meio de merecer mais a sua,
obedecendo às prescrições supremas que lhe impuseram tal dever. Merecerá sempre
nossa respeitosa admiração a prudência sacerdotal que, sob o feliz impulso do
instinto público, soube tirar, durante muito tempo, grande utilidade prática de
uma filosofia tão imperfeita. Mas este justo reconhecimento não pode ir até o
ponto de prolongar artificialmente o regime inicial além do seu destino
provisório, quando chegou enfim a época de uma economia mais conforme com o
conjunto de nossa natureza intelectual e afetiva.
56. O espírito
positivo, ao contrário, é diretamente social, tanto quanto possível e sem
nenhum esforço, em virtude mesmo da sua realidade característica. Para ele o
homem propriamente dito não existe, só pode existir a Humanidade, pois todo
nosso desenvolvimento é devido à sociedade, sob qualquer aspecto que o
encaremos. Se a idéia de sociedade parece ainda uma abstração de nossa
inteligência, é sobretudo em virtude do antigo regime filosófico; porque, a
dizer verdade, é à idéia de indivíduo que pertence semelhante caráter, pelo
menos em nossa espécie. O conjunto da nova filosofia tenderá sempre a fazer
sobressair, tanto na vida ativa como na especulativa, a ligação de cada um a
todos, sob uma série de aspectos diversos, de modo a tornar involuntariamente
familiar o sentimento íntimo da solidariedade social, convenientemente
estendida a todos os tempos e a todos os lugares. Não somente a ativa
preocupação do bem público será sempre representada como a maneira mais
conveniente de assegurar a felicidade privada; mas, por uma influência, ao
mesmo tempo mais direta e mais pura, enfim mais eficaz, o exercício tão
completo quanto possível dos pendores generosos se tornará a principal fonte da
felicidade pessoal, mesmo quando não deva excepcionalmente proporcionar outra
recompensa além de inevitável satisfação interior. Se, realmente, como não se
poderia duvidar, a felicidade resulta sempre de criteriosa atividade, deve ela
depender principalmente dos instintos simpáticos, embora nossa organização lhes
não conceda ordinariamente preponderante energia. É claro que os sentimentos
benévolos são os únicos que podem desenvolver-se com inteira liberdade no
estado social que, abrindo-lhes um campo indefinido, os estimula cada vez mais,
ao passo que exige necessariamente certa compressão permanente dos impulsos
pessoais, cujo surto espontâneo suscitaria conflitos contínuos. Nesta vasta
expansão social, todos encontrarão a satisfação normal do desejo de se eternizar,
que não podia antes ser satisfeito senão com o auxílio de ilusões de ora avante
incompatíveis com a nossa evolução mental. Não podendo mais prolongar-se senão
pela espécie, o indivíduo será, assim, arrastado a incorporar-se nela o mais
completamente possível, ligando-se profundamente a toda a sua existência
coletiva, não só atual, mas também passada, e sobretudo futura, de modo a obter
toda a intensidade de vida que comporta, em cada caso, o conjunto das leis
reais. Esta grande identificação poderá tornar-se tanto mais íntima e mais bem
sentida quanto a nova filosofia designa necessariamente para as duas sortes de
vida um mesmo destino fundamental e uma única lei de evolução, que consiste
sempre, seja para o indivíduo, seja para a espécie, na progressão contínua,
cujo fim principal foi acima caracterizado, isto é, a tendência a fazer
prevalecer, de um e de outro lado, tanto quanto possível, o atributo humano, ou
a combinação da inteligência com a sociabilidade, sobre a animalidade
propriamente dita. Não sendo desenvolvíveis quaisquer de nossos sentimentos a
não ser por um exercício direto e prolongado, tanto mais indispensável quanto
são menos enérgicos no princípio, seria supérfluo insistir mais aqui junto de
quem quer que possua, mesmo empiricamente, verdadeiro conhecimento do homem,
para demonstrar a superioridade necessária do espírito positivo sobre o antigo
espírito teológico-metafísico, quanto ao desenvolvimento próprio e ativo do
instinto social. Esta preeminência é de uma natureza por tal forma sensível
que, sem dúvida, a razão pública as reconhecerá suficientemente, muito tempo
antes de terem as instituições correspondentes podido tornar efetivas, como
convém, suas felizes propriedades.
57. De acordo
com o conjunto das indicações precedentes, a superioridade espontânea da nova
filosofia sobre cada uma das que hoje disputam entre si o predomínio se acha
agora tão plenamente caracterizada sob o aspecto social, como o era já sob o
ponto de vista social, tanto pelo menos quanto o comporta este Discurso, e
salvo a faculdade indispensável de recorrer à obra citada. Terminando esta
sumária apreciação, importa notar aqui a feliz correlação que se estabelece
naturalmente entre semelhante espírito filosófico e as disposições, sábias mas
empíricas, que a experiência contemporânea faz de ora avante prevalecer, mais é
mais, tanto entre os governados como entre os governantes. Substituindo
diretamente uma estéril agitação política por um imenso movimento mental, a
escola positiva explica e sanciona, em virtude de um exame sistemático, a
indiferença ou a repugnância que, em plena concordância, a razão pública e a
prudência dos governos manifestam hoje por toda séria elaboração direta das
instituições propriamente ditas. Na época atual, por falta de uma base racional
suficiente e enquanto durar a anarquia intelectual, elas não podem ter uma
existência eficaz senão com um caráter puramente provisório ou transitório.
Destinada a dissipar enfim esta desordem fundamental, pelas únicas vias que a
possam dominar, esta nova escola carece, antes de tudo, da manutenção contínua
da ordem material, tanto interna como externa, sem a qual nenhuma grave
meditação social poderia ser convenientemente acolhida ou mesmo suficientemente
elaborada. Ela tende, pois, a justificar e secundar a preocupação mui legítima
que hoje inspira por toda a parte o único grande resultado político
imediatamente compatível com a situação atual, a qual, além disso, lhe
proporciona um valor especial pelas graves dificuldades que lhe suscita, pondo
sempre o problema, insolúvel com o decorrer do tempo, de manter uma certa ordem
política no meio de profunda desordem moral. Além dos seus trabalhos para o
futuro, a escola positiva associa-se imediatamente a esta importante operação
por sua tendência direta a desacreditar radicalmente as diversas escolas
atuais, preenchendo, desde já, melhor do que cada uma delas, os ofícios opostos
que ainda lhes restam, e que só ela combina espontaneamente de modo a
mostrar-se dentro em breve mais orgânica do que a escola teológica e mais
progressiva do que a escola metafísica, sem jamais poder comportar os perigos
de retrogradação ou de anarquia que lhes são respectivamente peculiares. Desde
que os governos renunciaram, embora de modo implícito, a toda restauração séria
do passado e as populações a toda grave destruição das instituições, a nova
filosofia não tem mais a pedir a ambos senão as disposições habituais que todos
estão, no fundo, preparados para lhe conceder (pelo menos em França, onde se
deve realizar, em primeiro lugar, a elaboração sistemática), isto é, liberdade
e atenção. Sob estas condições naturais, tende a escola positiva, por um lado,
a consolidar todos os poderes atuais nas mãos de seus possuidores, quaisquer
que sejam, e, por outro, a impor-lhes obrigações morais cada vez mais conformes
às verdadeiras necessidades dos povos.
58. Estas
disposições incontestáveis parecem a princípio não dever deixar hoje à nova
filosofia outros obstáculos essenciais a não ser os provenientes da
incapacidade ou da incúria dos seus diversos promotores. Mas uma apreciação
mais amadurecida mostra, ao contrário, que deve encontrar enérgicas
resistências da parte de quase todos os espíritos agora ativos, em virtude
mesmo da difícil renovação que ela deles exigiria para associá-los diretamente
à sua principal elaboração. Se esta inevitável oposição devesse limitar-se aos
espíritos essencialmente teológicos ou metafísicos, ofereceria pequena
gravidade real, porque lhe restaria o poderoso apoio daqueles que se acham
especialmente entregues aos estudos positivos e cujo número e influência
crescem diariamente. Mas, por uma fatalidade facilmente explicável, é destes
mesmos que a nova escola deve talvez esperar menos assistência e mais
embaraços: uma filosofia diretamente emanada das ciências há de achar
provavelmente seus mais perigosos inimigos entre aqueles que as cultivam hoje.
A principal origem deste deplorável conflito consiste na especialização cega e
dispersiva que caracteriza profundamente o espírito científico atual, em
virtude de sua formação necessariamente parcial, conforme a complicação
crescente dos fenômenos estudados, como adiante o indicarei de modo expresso.
Esta marcha provisória, que uma perigosa rotina acadêmica se esforça hoje por
eternizar, sobretudo entre os geômetras, desenvolve a verdadeira positividade,
em cada inteligência, somente em relação a uma pequena parte do sistema mental,
e deixa todo o resto sob um vago regime teológico-metafísico, ou o abandona a
um empirismo ainda mais opressivo, de sorte que o genuíno espírito positivo,
que corresponde ao conjunto dos diversos trabalhos científicos, não pode, no
fundo, ser plenamente compreendido por nenhum daqueles que assim naturalmente o
prepararam. Mais e mais entregues a esta inevitável tendência, os cientistas
propriamente ditos são ordinariamente conduzidos em nosso século a uma
invencível aversão a toda idéia geral e a uma completa impossibilidade de
realmente apreciar qualquer concepção filosófica. Sentir-se-á, aliás, melhor a
gravidade de semelhante oposição, observando que, oriunda dos hábitos mentais,
estendeu-se em seguida até os diversos interesses correspondentes, que nosso
regime científico liga profundamente, especialmente em França, a esta
desastrosa especialidade, como o demonstrei com o maior cuidado na obra citada.
Assim, a nova filosofia, que exige diretamente o espírito de conjunto, e que
faz prevalecer para sempre a ciência nascente do desenvolvimento social sobre
todos os estudos hoje constituídos, há de encontrar profunda antipatia, a um
tempo ativa e passiva, nos preconceitos e nas paixões da única classe que lhe
poderia oferecer diretamente um ponto de apoio especulativo e do qual não deve
esperar durante muito tempo senão simples adesões individuais, além de mais
raras ai do que em qualquer outra parte. (5)
59. Para vencer
convenientemente este concurso espontâneo de resistências diversas que lhe apresenta
hoje a massa especulativa propriamente dita, a escola positiva não poderia
achar outro recurso geral senão organizar um apelo direto e contínuo ao
bom-senso universal, esforçando-se daqui por diante em propagar
sistematicamente, na massa ativa, os principais estudos científicos próprios
para aí constituírem a base indispensável de sua grande elaboração filosófica.
Estes estudos preliminares, naturalmente dominados até aqui pelo espírito de
especialidade empírica que preside às ciências correspondentes, são sempre
concebidos e dirigidos como se cada um deles devesse especialmente preparar
para certa profissão exclusiva, o que interdiz evidentemente a possibilidade,
mesmo entre aqueles que tenham mais lazer, de jamais abraçar vários deles, ou
pelo menos tantos quantos o exija a formação ulterior de sãs concepções gerais.
Mas não pode mais ser assim, quando semelhante instrução é destinada de modo
direto à educação universal, que lhe muda necessariamente o caráter e a direção
apesar de qualquer tendência contrária. O público, com efeito, que não quer
tornar-se nem geômetra, nem astrônomo, nem químico, etc., experimenta
continuamente a necessidade simultânea de todas as ciências fundamentais,
reduzidas, cada uma, às suas noções essenciais: ele precisa, segundo a
expressão muito notável do nosso grande Moliere, luzes acerca de tudo. Esta
simultaneidade necessária não existe para o público apenas quando considera
esses estudos, em seu destino abstrato e geral, como única base racional do
conjunto das concepções humanas: ele a encontra ainda, embora menos
diretamente, até nas diversas aplicações concretas, cada uma das quais, no
fundo, em vez de referir-se exclusivamente a determinado ramo da filosofia
natural, depende também, mais ou menos, de todos os outros. Assim, a universal
propagação dos principais estudos positivos não é somente destinada hoje a
satisfazer uma necessidade já muito pronunciada no público, que sente, mais e
mais, não serem as ciências reservadas exclusivamente aos sábios, existindo
sobretudo para ele mesmo. Por uma feliz reação espontânea, semelhante destino,
quando for convenientemente desenvolvido, deverá melhorar por completo o
espírito científico atual, despojando-o de sua especialidade cega e dispersiva,
para fazê-lo adquirir, pouco a pouco, o verdadeiro caráter filosófico
indispensável à sua principal missão. Este caminho é mesmo o único que possa,
em nossos dias, constituir gradualmente, fora da classe especulativa
propriamente dita, um vasto tribunal espontâneo, tão imparcial como irrecusável,
formado pela massa dos homens sensatos, tribunal diante do qual virão
extinguir-se, de modo irrevogável, muitas opiniões científicas falsas, que as
vistas peculiares à elaboração preliminar dos dois últimos séculos misturaram
profundamente às doutrinas verdadeiramente positivas, que serão por elas
submetidas ao bom senso universal. Numa época em que não se deve esperar
eficácia imediata senão de medidas sempre provisórias, bem adaptadas à nossa
situação transitória, a organização necessária de semelhante ponto de apoio
geral para o conjunto dos trabalhos filosóficos, constitui, aos meus olhos, o
principal resultado social que possa produzir agora a inteira vulgarização dos
conhecimentos reais: o público prestará, assim, à nova escola serviços plenamente
equivalentes aos que esta organização há de proporcionar-lhe.
60. Este grande
resultado não poderia ser satisfatoriamente obtido se semelhante ensino
ininterrupto fosse destinado a uma única classe, embora muito extensa: é
preciso ter-se nele sempre em vista, sob pena de aborto, a completa
universalidade das inteligências. No estado normal, que este movimento deve
preparar, todas experimentarão sempre, sem nenhuma exceção, nem distinção, a
mesma necessidade fundamental desta filosofia primeira, que resultou do
conjunto das noções reais, e deve tornar-se então a base sistemática da
sabedoria humana, tanto ativa como especulativa, a fim de preencher mais
convenientemente a indispensável missão social que dependia outrora da
instrução cristã universal. É, pois, muito importante que, desde a sua origem,
a nova escola filosófica desenvolva, tanto quanto possível, este grande caráter
elementar de universalidade social, que, finalmente relativo ao seu principal
destino, constituirá hoje sua maior força contra as diversas resistências que
deve encontrar.
61. A fim de
assinalar melhor esta tendência necessária, uma íntima convicção, a princípio
intuitiva, depois sistemática, me determinou, há muito, a representar sempre o
ensino exposto neste Tratado como sendo dirigido principalmente à classe mais
numerosa, que nossa situação deixa desprovida de toda instrução regular, em
conseqüência do desuso crescente da instrução puramente teológica que,
substituída provisoriamente, só para os letrados, por uma certa instrução
metafísica e literária, não pôde receber, sobretudo em França, nenhum
equivalente análogo para a massa popular. A importância e a novidade de
semelhante disposição constante, meu vivo desejo de que seja convenientemente
apreciada, e mesmo, se ouso dizê-lo, imitada, obriga-me a indicar aqui os
principais motivos deste contato especial que a nova escola filosófica deve,
assim, instituir hoje com os proletários, sem que todavia o seu ensino exclua
jamais qualquer outra classe. É fácil reconhecer, em geral, que quaisquer que
sejam os obstáculos que a falta de zelo ou de elevação possa realmente
acarretar, de um e de outro lado, a tal aproximação, a parte da sociedade atual
que corresponde ao povo propriamente dito deve ser, no fundo, entre todas as
outras, a mais bem disposta, pelas tendências e necessidades que resultam de
sua ação característica, a acolher favoravelmente a nova filosofia, que deve
enfim nela achar seu principal apoio, tanto mental como social.
62. Uma primeira
consideração que importa aprofundar, embora sua natureza seja sobretudo
negativa, resulta, a este respeito, de uma judiciosa apreciação do que, à
primeira vista, parece apresentar grave dificuldade, isto é, a ausência atual
de toda cultura especulativa. Sem dúvida é lamentável, por exemplo, que este
ensino popular de filosofia astronômica ainda não encontre entre todos aos
quais especialmente se destina, alguns conhecimentos matemáticos preliminares,
que haviam de torná-lo ao mesmo tempo mais eficaz e mais fácil e cuja
existência sou mesmo forçado a supor. Mas a mesma lacuna se encontraria também
na maior parte das outras classes atuais, nesta época em que a instrução
positiva se acha limitada, em França, a certas profissões especiais que se
ligam essencialmente à Escola Politécnica ou às escolas de medicina. Não é,
portanto, isso uma falha verdadeiramente peculiar aos nossos proletários.
Quanto a lhes faltar habitualmente esta espécie de cultura regular que as
classes letradas hoje recebem, não temo cair em exagero filosófico, afirmando
resultar daí, para os espíritos populares, notável vantagem, em vez de real
inconveniente. Sem voltar aqui a uma crítica infelizmente demasiado fácil,
assaz elaborada desde muito tempo e que experiência diária confirma, cada vez
mais, aos olhos da maior parte dos homens sensatos, seria difícil conceber
agora uma preparação mais irracional e, no fundo, mais perigosa à conduta
ordinária da vida real, quer ativa, quer mesmo especulativa, do que a
resultante desta vã, instrução, composta primeiro de palavras, depois de
entidades, onde se perdem ainda tantos anos preciosos de nossa juventude. À
maior parte daqueles que a recebem, ela não inspira, de ora avante, senão um
desgosto quase insuperável relativamente a qualquer trabalho intelectual,
durante toda a duração de sua carreira. Seus perigos tornam-se, porém, muito
mais graves para aqueles que a ela se entregam mais especialmente. A inaptidão
para a vida real, o desdém pelas profissões vulgares, a incapacidade de
convenientemente apreciar qualquer concepção positiva, e a antipatia que daí
logo resulta, freqüentemente os dispõe hoje a secundar estéril agitação
metafísica que inquietas pretensões pessoais, desenvolvidas por essa desastrosa
educação, não tardam a tornar politicamente perturbadora, sob a influência
direta de viciosa erudição histórica, que, fazendo prevalecer uma falsa noção
do tipo social peculiar à antigüidade, comumente impede compreender a
sociabilidade moderna. Considerando que quase todos os que, a diversos
respeitos, dirigem os negócios humanos, foram para tal fim assim preparados,
não nos pode causar surpresa a vergonhosa ignorância que amiúde manifestam
sobre os assuntos mais insignificantes, mesmo materiais, nem sua freqüente
disposição a desprezar o fundo pela forma, colocando acima de tudo a arte de
bem dizer, por mais contraditória ou perniciosa que se torne a sua aplicação,
nem também nos pode surpreender a tendência especial das nossas classes
letradas a acolher avidamente todas as aberrações que diariamente surjam de
nossa anarquia mental. Semelhante apreciação dispõe-nos, ao revés, a admirar
que esses diversos desastres não sejam ordinariamente mais extensos; conduz-nos
também a admirar profundamente a retidão e a sabedoria naturais do homem, que
sob o feliz impulso peculiar ao conjunto de nossa civilização, neutraliza
espontaneamente, em grande parte, essas perigosas conseqüências de um absurdo
sistema de educação geral. Tendo sido este sistema, desde o fim da Idade Média,
como o é ainda, o principal ponto de apoio social do espírito metafísico, quer
primeiro contra a Teologia, quer, em seguida, também contra a ciência,
concebe-se facilmente que as classes que não pôde envolver, devem achar-se por
isto mesmo muito menos afetadas por essa filosofia transitória e desde então
mais bem dispostas ao estado positivo. Ora, tal é a importante vantagem que a
ausência de educação escolástica proporciona hoje aos nossos proletários e os
torna, no fundo, menos acessíveis do que a maior parte dos letrados aos
diversos sofismas perturbadores, de conformidade com a experiência diária,
apesar de contínua excitação, sistematicamente dirigida às paixões relativas à
sua condição social. Eles deveriam ser outrora dominados a fundo pela teologia
especialmente católica; mas, durante sua emancipação mental (havendo a
Metafísica apenas deslizado sobre eles, por não ter neles encontrado a cultura
especial sobre a qual ela repousa) só a filosofia positiva poderá, de novo,
deles apoderar-se radicalmente. As condições preliminares, tão recomendadas
pelos primeiros pais desta filosofia final, devem achar-se aí mais bem
preenchidas do que em qualquer outra parte: se a célebre tábua rasa de Bacon e
de Descartes fosse jamais plenamente realizável, seria por certo entre os proletários
atuais que, principalmente em França, estão muito mais próximos do que qualquer
outra classe do tipo ideal dessa disposição preparatória para a positividade
racional.
63. Examinando
sob um aspecto mais íntimo e mais duradouro esta inclinação natural das
inteligências populares para a sã filosofia, reconhece-se facilmente que ela
deve resultar da solidariedade fundamental que, segundo as nossas explicações
anteriores, liga diretamente o verdadeiro espírito filosófico ao bom senso
universal, sua primeira fonte necessária. Este bom senso, com efeito, tão
justamente preconizado por Descartes e por Bacon, deve achar-se hoje mais puro
e mais enérgico entre as classes inferiores, em virtude mesmo desta feliz falta
de cultura escolástica que as torna menos acessíveis aos hábitos vagos ou
sofísticos; mas a esta diferença passageira, que será gradualmente dissipada
por melhor educação das classes letradas, é preciso juntar uma outra,
necessariamente permanente, relativa à influência mental das diversas funções
sociais peculiares às duas ordens de inteligências, conforme o caráter
respectivo de seus trabalhos habituais. Desde que a ação real da Humanidade
sobre o mundo exterior começou a organizar-se espontaneamente entre os
modernos, exigiu a combinação contínua de duas classes distintas, muito
desiguais em número, mas igualmente indispensáveis: de um lado os empresários
propriamente ditos, sempre pouco numerosos que, possuindo os diversos materiais
convenientes, entre os quais o dinheiro e o crédito, dirigem o conjunto de cada
operação, assumindo desde então a principal responsabilidade de quaisquer
resultados; de outro lado os operadores diretos, vivendo de um salário
periódico e formando a imensa maioria dos trabalhadores que executam, com uma
espécie de intenção abstrata, os diversos atos elementares, sem se preocuparem
especialmente com o seu concurso final. Estes últimos são os únicos a entrar em
ação imediata sobre a natureza, ao passo que os primeiros lidam principalmente
com a sociedade. Como conseqüência necessária destas diversidades fundamentais,
a eficácia especulativa que reconhecemos inerente à vida industrial para
desenvolver, de modo involuntário o espírito positivo deve em geral fazer-se
sentir melhor entre os operadores do que entre os empresários; porque seus
trabalhos próprios oferecem um caráter mais simples, um fim, mais nitidamente
determinado, resultados mais próximos e condições mais imperiosas. A escola
positiva deverá, pois, achar neles naturalmente um acesso mais fácil para o seu
ensino universal e uma simpatia mais viva pela sua renovação filosófica, quando
puder convenientemente penetrar nesse vasto meio social. Há de encontrar aí, ao
mesmo tempo, afinidades morais não menos preciosas do que estas harmonias
mentais, em conseqüência do comum desinteresse material que espontaneamente
aproxima nossos proletários da verdadeira classe contemplativa, pelo menos
quando esta houver adquirido enfim os costumes correspondentes ao seu destino
social. Esta feliz disposição, tão favorável à ordem universal como à
verdadeira felicidade pessoal, há de granjear um dia grande importância normal,
em virtude da sistematização das relações gerais que devem existir entre estes
dois elementos extremos da sociedade positiva. Mas desde já ela pode facilitar essencialmente
sua união nascente, aproveitando a pouca folga que as ocupações diárias deixam
aos nossos proletários para sua instrução especulativa. Se, em alguns casos
excepcionais de extrema sobrecarga, esse contínuo obstáculo parece, com efeito,
dever impedir todo desenvolvimento mental, ele é ordinariamente compensado por
este caráter de judiciosa imprevidência que, em cada interrupção natural dos
trabalhos obrigatórios, concede ao espírito uma plena disponibilidade. O
verdadeiro lazer não deve faltar habitualmente senão à classe que acredita
possuí-lo especialmente; porque, em razão mesmo de sua riqueza e de sua
posição, ela se acha comumente preocupada por ativas inquietações, que jamais
comportam verdadeira calma intelectual e moral. Este estado deve ser fácil, ao
revés, quer aos pensadores, quer aos operários, em virtude de sua comum isenção
espontânea dos cuidados relativos ao emprego dos capitais, sem falar na
regularidade natural da sua vida diária.
64. É, pois,
entre os proletários, logo que estas tendências mentais e morais tiverem
convenientemente atuado, que se há de realizar, com mais eficácia, a universal
propagação do ensino positivo, condição indispensável ao termo gradual da
renovação filosófica. É também entre eles que o caráter contínuo de semelhante
estudo poderá tornar-se mais puramente especulativo, porque se achará aí mais
isento das vistas interessadas que lhe aplicam, mais ou menos diretamente, as
classes superiores, quase sempre preocupadas com cálculos ávidos ou ambiciosos.
Depois de haver procurado neste estudo o fundamento universal de toda a
sabedoria humana, eles virão haurir ,nele, como nas belas-artes, agradável
diversão habitual ao conjunto de suas fadigas diárias. Devendo sua inevitável
condição social tornar-lhes muito mais preciosa semelhante diversão, quer
científica, quer estética, seria estranho que as classes dirigentes quisessem
ver nisso, ao revés, um motivo fundamental para os conservar privados dela,
recusando-lhes sistematicamente a única satisfação que possa ser concedida de
modo indefinido àqueles mesmos que devem renunciar criteriosamente aos gozos
menos suscetíveis de uma participação comum. Para justificar semelhante recusa,
amiúde ditada pelo egoísmo e pela irreflexão, objeta-se algumas vezes, é
verdade, que esta vulgarização especulativa tenderia a agravar profundamente a
desordem contemporânea por desenvolver a funesta disposição, já muito
pronunciada, à universal mudança de classes. Mas este temor natural, única
objeção séria que, a semelhante respeito, mereça uma verdadeira discussão,
resulta hoje, na maioria dos casos em que há boa-fé, de irracional confusão da
instrução positiva, a um tempo estética e científica, com a instrução
metafísica e literária, única atualmente organizada. Esta, que já reconhecemos
exercer, de fato, uma ação social muito perturbadora sobre as classes letradas,
tornar-se-ia muito mais perigosa se a estendêssemos aos proletários, nos quais
desenvolveria, além do desgosto pelas ocupações materiais, exorbitantes
ambições. Mas, felizmente, eles em geral estão ainda menos dispostos a pedi-la
do que as classes dirigentes a concedê-la. Os estudos positivos, porém,
sabiamente concebidos e convenientemente dirigidos, de maneira alguma comportam
semelhante influência: aliando-se e aplicando-se, por sua natureza, a todos os
trabalhos práticos, tendem, pelo contrário, a confirmar ou mesmo a inspirar o
gosto por eles, seja enobrecendo-lhes o caráter habitual, seja amenizando-lhes
as penosas conseqüências. Conduzindo, além disto, a sã apreciação das diversas
posições sociais e das necessidades correspondentes, os estudos positivos
dispõem a sentir que a felicidade real é compatível com quaisquer condições,
contanto que sejam honrosamente preenchidas e razoavelmente aceitas. A
filosofia geral que resulta desses estudos representa o homem, ou antes a
Humanidade, como o primeiro entre os seres conhecidos, destinado, pelo conjunto
das leis reais, a aperfeiçoar sempre, tanto quanto possível, e a todos os
respeitos, a ordem natural, ao abrigo de toda inquietação quimérica, o que
tende a exaltar, em alto grau, o ativo sentimento universal da dignidade
humana. Ao mesmo tempo ela modera espontaneamente o orgulho demasiadamente
exaltado que esse sentimento poderia suscitar, mostrando, sob todos os
aspectos, e com familiar evidência, quanto devemos ficar continuamente abaixo
do fim e do tipo assim caracterizados, quer na vida ativa, quer mesmo na vida
especulativa, onde se sente quase a cada passo que nossos mais sublimes
esforços não podem nunca vencer senão fraca porção das dificuldades
fundamentais.
65. Apesar da
alta importância dos diversos motivos precedentes, considerações ainda mais
poderosas, oriundas das necessidades coletivas peculiares à condição social dos
proletários, hão de determinar as inteligências populares, movidas pelo seu
ardor contínuo relativo à universal propagação dos estudos reais, a secundar
hoje a ação filosófica da escola positiva. Semelhantes considerações podem ser
assim resumidas: não pôde até aqui existir uma política especialmente popular e
só a nova filosofia pode constituí-la.
66. Desde o começo
da grande crise moderna o povo não interveio ainda nas principais lutas
políticas senão como simples auxiliar, com a esperança, sem dúvida, de obter,
assim, alguns melhoramentos de sua situação geral, mas não segundo vistas e
objetivos que lhe fossem realmente próprios. Todos os debates habituais ficaram
essencialmente concentrados nas diversas classes superiores ou médias, porque
se referiam sobretudo à posse do poder. Ora, o povo não podia, durante muito
tempo, interessar-se diretamente por tais conflitos, pois a natureza de nossa
civilização impede que os operários esperem e mesmo desejem qualquer
participação importante no poder político propriamente dito. Também, depois de
haverem essencialmente obtido todos os resultados sociais que podiam esperar da
substituição provisória dos metafísicos e dos legistas à antiga preponderância
política das classes sacerdotais e feudais, tornam-se eles hoje mais e mais
indiferentes ao estéril prolongamento dessas lutas cada vez mais miseráveis, de
ora avante reduzidas a vãs rivalidades pessoais. Quaisquer que sejam os
esforços diários da agitação metafísica para fazê-los intervir nesses frívolos
debates, pelo engodo dos chamados direitos políticos, o instinto popular já
compreendeu, especialmente em França, quanto seria ilusória ou pueril a posse
de semelhante privilégio, que, mesmo no seu grau atual de disseminação, não
inspira habitualmente nenhum interesse verdadeiro à maior parte daqueles que o
gozam com exclusividade. O povo não pode interessar-se essencialmente senão
pelo emprego efetivo do poder, quaisquer que sejam as mãos em que resida, e não
pela sua conquista especial. Logo que as questões políticas, ou, antes, daqui
por diante, sociais, se referirem ordinariamente à maneira pela qual o poder
deve ser exercido para atingir melhor seu destino geral, sobretudo relativo,
entre os modernos, à massa proletária, não se tardará a reconhecer que o desdém
atual não é de modo algum o resultado de uma perigosa indiferença: até lá a
opinião popular ficará estranha a esses debates, que aumentando, aos olhos dos
bons espíritos, a instabilidade de todos os poderes, tendem especialmente a
retardar essa indispensável transformação. Em uma palavra, o povo está,
naturalmente disposto a desejar que a vã e tempestuosa discussão dos direitos
seja, enfim, substituída por fecunda e salutar apreciação dos diversos deveres
essenciais, quer gerais, quer especiais. Tal é o princípio espontâneo da íntima
conexidade, que, sentida cedo ou tarde, há de necessariamente ligar o instinto
popular à ação social da filosofia positiva; porque esta grande transformação,
acima motivada pelas mais altas considerações especulativas, eqüivale
evidentemente à do movimento político em simples movimento filosófico, cujo
primeiro e principal resultado social consistirá, com efeito, em estabelecer
solidamente uma ativa moral universal, que prescreva a cada agente, individual
ou coletivo, regras de proceder mais conformes à, harmonia fundamental. Quanto
mais se meditar sobre esta relação natural, mais se reconhecerá que essa
mudança decisiva, que só podia emanar do espírito positivo, não pode encontrar
hoje sólido apoio senão no povo propriamente dito, único disposto a bem
compreendê-lo e por ele profundamente interessar-se. Os preconceitos e as
paixões peculiares às classes superiores ou médias impedem que elas sintam logo
suficientemente tal transformação, porque devem habitualmente preocupar-se mais
com as vantagens peculiares à posse do poder do que com os perigos resultantes
do seu vicioso exercício. Se o povo é hoje e deve, de ora avante, permanecer
indiferente à posse direta do poder político, não pode nunca renunciar à sua
indispensável participação contínua no poder moral, que, único verdadeiramente
acessível a todos, sem nenhum perigo para a ordem universal, antes de grande
vantagem quotidiana para ela, autoriza cada um a lembrar convenientemente aos
mais altos poderes o cumprimento de seus diversos deveres essenciais, em nome
de uma doutrina fundamental comum. Na verdade, os preconceitos inerentes ao estado
transitório ou revolucionário acharam também alguma acolhida entre os nossos
proletários; entretêm neles, de fato, ilusões prejudiciais sobre o alcance
indefinido das medidas políticas propriamente ditas e impedem que apreciem
quanto a justa satisfação dos grandes interesses populares depende hoje mais
das opiniões e dos costumes do que das próprias instituições, cuja verdadeira
regeneração, atualmente impossível, exige antes de tudo a reorganização
espiritual. Mas podemos assegurar que a escola positiva terá muito mais
facilidade em fazer penetrar este salutar ensino nos espíritos populares do que
em quaisquer outros,. seja porque .a metafísica negativa não pôde enraizar-se
tanto neles, seja sobretudo pelo impulso constante das necessidades sociais peculiares
à sua situação necessária. Estas necessidades se referem essencialmente a duas
condições fundamentais, uma espiritual, outra temporal, de natureza
profundamente conexa: trata-se, com efeito, de assegurar de modo conveniente, a
todos, primeiro a educação normal, em seguida o trabalho regular; tal é, no
fundo, o verdadeiro programa social dos proletários. Não pode mais haver
verdadeira popularidade senão para a política que necessariamente tender para
esse duplo destino. Ora, tal é evidentemente o caráter espontâneo da doutrina
social própria à nova escola filosófica; nossas explicações anteriores devem
dispensar aqui, a este respeito, qualquer outro esclarecimento, aliás reservado
ao trabalho tão freqüentemente indicado neste Discurso. Importa somente
acrescentar, sobre este assunto, que a concentração de nossos pensamentos e de
nossa atividade sobre a vida real da Humanidade, afastando toda vã ilusão, há
de tender especialmente a tornar muito mais forte a adesão moral e política do
povo propriamente dito à verdadeira filosofia moderna. Com efeito o seu
judicioso instinto logo perceberá nesta um novo e poderoso motivo de dirigir
sobretudo a prática social para o criterioso e contínuo melhoramento da sua
própria condição geral. Ao contrário, as quiméricas esperanças inerentes à
antiga filosofia teológica conduziram demasiadas vezes a desdenhar tais
progressos ou afastá-los por uma espécie de adiamento contínuo, em virtude da
mínima importância relativa que naturalmente devia deixar-lhes essa eterna perspectiva,
imensa compensação espontânea de quaisquer misérias.
67. Esta,
sumária apreciação basta agora para assinalar, sob os diversos aspectos
essenciais, a afinidade necessária das classes inferiores relativamente à
filosofia positiva, a qual, logo que o contato puder plenamente estabelecer-se,
nelas achará seu principal apoio natural, a um tempo mental e social, enquanto
a filosofia teológica não convém mais senão às classes superiores, cuja
preponderância política ela tende a eternizar, assim como a filosofia
metafísica se dirige sobretudo às classes médias, cuja ativa ambição secunda.
Todo espírito meditativo deve assim acabar por compreender a importância
verdadeiramente fundamental que apresenta hoje uma criteriosa divulgação
sistemática dos estudos positivos, destinada essencialmente aos proletários, a
fim de preparar entre eles uma sã doutrina social. Os diversos observadores que
se podem libertar, mesmo momentaneamente, do turbilhão diário, concordam agora
em deplorar, e certamente com muita razão, a anárquica influência que os
sofistas e retóricos exercem em nossos dias. Mas essas justas queixas serão
inevitavelmente vãs até que se sinta melhor a necessidade de sair enfim de uma
situação mental onde a educação oficial não pode terminar ordinariamente senão
por formar sofistas e retóricos, que tendem, em seguida, através do tríplice
ensino emanado dos jornais, dos romances e dos dramas, a propagar o mesmo
espírito entre as classes inferiores, que a nenhuma instrução regular garante
do contágio metafísico, repelido somente pela sua razão natural. Embora se deva
esperar, a este título, que os governos atuais perceberão logo quanto a
universal propagação dos conhecimentos reais pode secundar cada vez mais seus
esforços contínuos para a manutenção da ordem indispensável, não devemos
contudo esperar deles, nem mesmo desejar, uma cooperação verdadeiramente ativa
nesta grande preparação racional, que deve por muito tempo resultar especialmente
do zelo privado e livre, inspirado e sustentado por genuínas convicções
filosóficas. A imperfeita observação de uma grosseira harmonia política, sempre
comprometida no meio de nossa desordem mental e moral, mui justamente absorve
sua solicitude diária e mantém os governos atuais num ponto de vista demasiado
inferior para que dignamente possam compreender a natureza e as condições de
semelhante trabalho, cuja importância devemos pedir apenas que entrevejam. Se,
por um zelo intempestivo, tentassem dirigi-lo hoje, sem o ligarem a uma
filosofia bastante decisiva, só conseguiriam alterá-los profundamente,
comprometendo-lhe a eficácia e fazendo-o degenerar logo em incoerente acúmulo
de especialidades superficiais. Assim a escola positiva, que resultou de ativo
e voluntário concurso dos espíritos verdadeiramente filosóficos, não terá
durante muito tempo que pedir aos nossos governos ocidentais, para
convenientemente desempenhar a sua grande missão social, senão a plena
liberdade de exposição e de discussão, equivalente a de que já gozam a escola
teológica e a metafísica. Uma pode todos os dias, nas suas mil tribunas
sagradas, preconizar, à sua vontade, a excelência absoluta de sua eterna
doutrina e votar todos os seus adversários a uma irrevogável danação; a outra,
em suas numerosas cátedras, que a munificência nacional lhe sustenta, pode
diariamente desenvolver, diante de imensos auditórios, a eficácia universal de
suas concepções ontológicas e a preeminência indefinida de seus estudos
literários. Sem pretender tais vantagens, que só o tempo deve proporcionar, a
escola positiva pede apenas o simples direito de asilo regular nos edifícios
municipais, para aí fazer diretamente apreciar sua aptidão final a satisfazer
simultaneamente todas as nossas grandes necessidades sociais, propagando, com
sabedoria, a única instrução sistemática que possa de ora em diante preparar
uma verdadeira reorganização, primeiro mental, depois moral, e enfim política.
Contanto que este livre acesso lhe seja sempre garantido, o zelo voluntário e
gratuito de seus raros promotores será secundado pelo bom senso universal, e,
sob o impulso crescente da situação fundamental, jamais temerá sustentar, mesmo
a partir deste momento, uma ativa concorrência filosófica relativamente aos
muitos e poderosos órgãos, mesmo reunidos, das duas escolas antigas. Ora, não
se deve temer mais que, de agora em diante, os homens de Estado se afastem
gravemente, neste sentido, da imparcial moderação inerente à sua própria
indiferença especulativa: a escola positiva tem mesmo razão para contar, sob
este aspecto, com a benevolência habitual dos mais inteligentes dentre eles,
não somente em França, mas em todo o nosso Ocidente. A sua contínua vigilância
sobre este ensino livre e popular, se limitará logo a prescrever-lhe apenas a
permanente condição de uma genuína positividade, afastando dele, com inflexível
severidade, a introdução, demasiado iminente ainda, das especulações vagas ou
sofísticas. Mas, a este respeito, as necessidades eventuais da escola positiva
estão diretamente de acordo com os deveres naturais dos governos; porque, se
estes devem repelir tal abuso em virtude de sua tendência anárquica, aquela,
além deste justo motivo, o julga plenamente contrário ao destino fundamental de
semelhante ensino, por alentar esse mesmo espírito metafísico, onde ela hoje
enxerga o principal obstáculo ao advento da nova filosofia. Sob este aspecto,
como a qualquer outro titulo, os filósofos positivos se sentirão sempre quase
tão interessados quanto os poderes atuais, na dupla manutenção contínua da
ordem interior e da paz exterior, porque nela vêem a condição mais favorável à
verdadeira renovação mental e moral: somente, do ponto de vista que lhes é
próprio, eles devem perceber de mais longe o que poderia comprometer ou consolidar
esse grande resultado político do conjunto de nossa situação transitória.
68.
Caracterizamos agora suficientemente, a todos os respeitos, a importância
capital que hoje apresenta a universal propagação dos estudos positivos,
sobretudo entre os proletários, para constituírem de ora avante indispensável
ponto de apoio, mental e social, à elaboração filosófica que gradualmente deve
determinar a reorganização espiritual das sociedades modernas. Semelhante
apreciação ficaria, porém, incompleta e mesmo insuficiente, se a parte final
deste Discurso não fosse diretamente consagrada a estabelecer a ordem
fundamental que convém a essa série de estudos, de maneira a fixar a verdadeira
posição, que deve ocupar, em seu conjunto, aquele que será em seguida o objeto
exclusivo deste Tratado. Longe de ser este arranjo didático quase indiferente,
como o nosso vicioso regime científico muitas vezes o faz supor, podemos
assegurar, pelo contrário, que é dele sobretudo que depende a principal
eficácia, intelectual ou social, desta grande preparação. Existe, além disto,
íntima solidariedade entre a concepção enciclopédica donde resulta esse estudo
e a lei fundamental da evolução que serve de base à nova filosofia geral.
69. Semelhante
ordem deve, por sua natureza, preencher duas condições essenciais, uma
dogmática, outra histórica, cuja convergência necessária cumpre desde logo
reconhecer: a primeira consiste em ordenar as ciências segundo sua dependência
sucessiva, de sorte que cada uma repousa sobre a precedente e prepara a
seguinte; a segunda manda dispô-las de acordo com a marcha de sua formação
efetiva, passando sempre das mais antigas às mais recentes. Ora, a equivalência
espontânea destas duas vias enciclopédicas resulta, em geral, da identidade
fundamental que existe inevitavelmente entre a evolução individual e a evolução
coletiva, as quais, tendo igual origem, destino semelhante e um mesmo agente,
devem sempre oferecer fases correspondentes, salvo as únicas diversidades de
duração, de intensidade e de velocidade, inerentes à desigualdade dos dois
organismos. Tal concurso necessário permite, pois, conceber estes dois modos
como dois aspectos correlatos de um mesmo princípio enciclopédico, de modo que
se possa empregar habitualmente aquele que, em cada caso, melhor manifestar as
relações consideradas, e com a preciosa faculdade de poder constantemente
verificar por um o que tiver resultado do outro,
70. A lei
fundamental dessa ordem comum, de dependência dogmática e de sucessão
histórica, foi completamente estabelecida na grande obra já citada e cujo plano
geral ela determina. Consiste em classificar as ciências de acordo com a
natureza dos fenômenos estudados, segundo sua generalidade e sua independência
decrescentes, ou sua complicação crescente, donde resultam . especulações cada
vez mais abstratas e mais difíceis, mas também cada vez mais eminentes e
completas, em virtude de sua relação mais intima com o homem, ou antes com a
Humanidade, objeto final de todo o sistema teórico. Esta classificação tira o
seu principal valor filosófico, tanto científico como lógico, da identidade
constante e necessária que existe entre todos estes diversos modos de
comparação especulativa dos fenômenos naturais, e donde resultam outros tantos
teoremas enciclopédicos, cuja explicação e uso pertencem à obra citada, que,
além disto, sob o ponto de vista ativo, lhe acrescenta esta importante relação
geral: que os fenômenos, segundo a ordem de classificação, se tornam cada vez
mais modificáveis, e assim oferecem um campo gradativamente mais vasto à
intervenção humana. Basta indicar aqui de modo sumário a aplicação deste grande
princípio à determinação racional da verdadeira hierarquia dos estudos
fundamentais, diretamente concebidos de ora avante como os diferentes elementos
essenciais de uma ciência única, a da Humanidade
71. Este objeto
final de todas as nossas especulações reais exige evidentemente, por sua
natureza, ao mesmo tempo científica e lógica, duplo preâmbulo indispensável,
relativo, de um lado, ao homem propriamente dito, de outro, ao mundo exterior.
E, de fato, não poderiam os fenômenos, estáticos ou dinâmicos, da sociabiidade
ser estudados racionalmente se não fossem primeiro conhecidos o agente especial
que os opera e o meio geral onde se realizam. Daí resulta, pois, a divisão
necessária da filosofia natural, destinada a preparar a filosofia social, em
dois grandes ramos, um orgânico, outro inorgânico. Quanto à disposição relativa
destes dois estudos igualmente fundamentais, todos os motivos essenciais, quer
científicos, quer lógicos, concorrem para prescrever, na educação individual e
na evolução coletiva, que se comece pelo segundo, cujos fenômenos mais simples
e mais independentes, em razão de sua generalidade superior, são os únicos a
comportar desde logo uma apreciação verdadeiramente positiva, enquanto suas
leis, diretamente relativas à existência universal, exercem em seguida uma
influência necessária sobre a existência especial dos corpos vivos. A
Astronomia constitui necessariamente, a todos os respeitos, o elemento mais
decisivo desta teoria preliminar do mundo exterior, quer por ser mais
suscetível de plena positividade, quer na medida em que caracteriza o meio
geral de quaisquer de nossos fenômenos, e ainda por manifestar, sem nenhuma
outra complicação, a simples existência matemática, isto é, geométrica ou
mecânica, comum a todos os seres reais. Mesmo, porém, quando condensássemos o
mais possível as verdadeiras concepções enciclopédicas, não poderíamos reduzir
a filosofia inorgânica a este elemento principal, porque ela ficaria então
completamente isolada da filosofia orgânica. O seu laço fundamental, científico
e lógico, consiste sobretudo no ramo mais complexo da primeira: o estudo dos
fenômenos de composição e de decomposição, os mais eminentes daqueles que a
existência universal comporta e os mais próximos da ordem vital propriamente
dita. É assim que a filosofia natural, encarada como preâmbulo necessário da
filosofia social, decompondo-se a princípio em dois estudos extremos e um
intermediário, compreende sucessivamente estas três grandes ciências, a
Astronomia, a Química e a Biologia, das quais a primeira se liga imediatamente
à origem espontânea do verdadeiro espírito científico e a última ao seu destino
essencial. Seu surto inicial respectivo refere-se historicamente à antigüidade
grega, à Idade Média e à época moderna.
72. Semelhante apreciação
enciclopédica não preenche ainda as condições indispensáveis de continuidade e
de espontaneidade peculiares a tal assunto: por um lado deixa uma lacuna
capital entre a Astronomia e a Química, cuja ligação não poderia ser direta;
por outro não indica suficientemente a verdadeira origem deste sistema
especulativo, como simples prolongamento abstrato da razão comum, cujo ponto de
partida científico não podia ser diretamente astronômico. Para completar,
porém, a fórmula fundamental, basta nela inserir, em primeiro lugar, entre a
Astronomia e a Química, a Física propriamente dita, que só adquiriu existência
distinta sob Galileu; em segundo lugar, colocar, no começo deste vasto
conjunto, a Ciência Matemática, único berço necessário da positividade racional,
tanto para o indivíduo como para a espécie. Se, por uma aplicação mais especial
do nosso princípio enciclopédico, se decompuser, por sua vez, esta ciência
inicial em seus três grandes ramos, o Cálculo, a Geometria e a Mecânica,
determinar-se-á enfim, com a última precisão filosófica, a verdadeira origem de
todo o sistema científico, saído a princípio, com efeito, das especulações
puramente numéricas, que, sendo as mais gerais, as mais abstratas e as mais
independentes de todas, quase se confundem com a irrupção espontânea do
espírito positivo nas inteligências mais vulgares, como o confirma ainda, sob
os nossos olhos, a observação, diária do desenvolvimento individual.
73. Chega-se,
assim, de modo gradual, a descobrir a invariável hierarquia, a um tempo
histórica e dogmática, igualmente científica e lógica, das seis ciências
fundamentais, a Matemática, a Astronomia, a Física, a Química, a Biologia e a
Sociologia, das quais a primeira constitui necessariamente o ponto de partida
exclusivo e a última o fim único e essencial de toda a filosofia positiva,
encarada daqui por diante como formando, por sua natureza, um sistema
verdadeiramente indivisível, onde toda decomposição é radicalmente artificial,
sem ser, aliás, de nenhum modo, arbitrária, pois tudo nele se refere enfim à
Humanidade, única concepção plenamente universal. O conjunto desta fórmula
enciclopédica, exatamente conforme às verdadeiras afinidades dos estudos
correspondentes, compreendendo, além disso, sem nenhuma dúvida, todos os
elementos de nossas especulações reais, permite enfim a cada inteligência
renovar à sua vontade a história geral do espírito positivo, ao passar, de modo
quase insensível, das mais insignificantes idéias matemáticas aos mais altos
pensamentos sociais. É claro, com efeito, que cada uma das quatro ciências
intermediárias se confunde, por assim dizer, com a precedente quanto aos seus
fenômenos mais simples e com a seguinte quanto aos mais eminentes. Esta
perfeita continuidade espontânea se tornará sobretudo irrecusável a todos que
reconhecerem, na obra acima indicada, que o mesmo princípio enciclopédico
fornece também a classificação racional das diversas partes constituintes de
cada estudo fundamental, de sorte que os degraus dogmáticos e as fases
históricas se podem exprimir tanto quanto o exige a precisão das comparações ou
a facilidade das transições.
74. No estado
presente das inteligências, a aplicação lógica desta grande fórmula é ainda
mais importante do que o seu uso científico, por ser o método, em nossos dias,
mais essencial do que a própria doutrina, e além disso o único imediatamente
suscetível de plena regeneração. Sua principal utilidade consiste, pois, hoje,
em determinar, com rigor, a marcha invariável de toda educação realmente
positiva, no meio dos preconceitos irracionais e dos viciosos hábitos
peculiares ao desenvolvimento preliminar do sistema científico, formado, assim,
gradualmente de teorias parciais e incoerentes, cujas relações deviam até hoje
permanecer despercebidas de seus fundadores sucessivos. Todas as classes atuais
de sábios violam agora, com igual gravidade, ainda que a títulos diversos, esta
obrigação fundamental. Limitando-nos aqui a indicar os dois casos extremos: os
geômetras, justamente orgulhosos de se acharem colocados na verdadeira origem
da positividade racional, se obstinam às cegas em reter o espírito humano neste
grau puramente inicial do verdadeiro desenvolvimento especulativo, sem jamais
considerarem o seu único destino necessário; ao revés, os biologistas,
enaltecendo, com bom direito, a dignidade superior do seu assunto,
imediatamente vizinho deste grande destino, persistem em manter seus estudos em
irracional insulamento, libertando-se arbitrariamente da difícil preparação que
a sua natureza exige. Estas disposições opostas, mas por igual empíricas,
conduzem freqüentemente hoje, uns, a vão desperdício de esforços intelectuais,
consumidos daqui por diante em pesquisas mais e mais pueris; outros, a uma
instabilidade contínua das diversas noções essenciais, por falta de marcha verdadeiramente
positiva. Sob este último aspecto, sobretudo, deve-se notar, com efeito, que os
estudos sociais não são agora os únicos a permanecerem ainda exteriores ao
sistema plenamente positivo, sob o estéril domínio do espírito
teológico-metafísico; na realidade, os próprios estudos biológicos, sobretudo
dinâmicos, embora estejam academicamente constituídos, não alcançaram também
até aqui, uma verdadeira positividade, pois nenhuma doutrina capital se acha
hoje neles esboçada no grau requerido, de sorte que o campo das ilusões e das
charlatanices ainda aí permanece quase indefinido. Ora, o deplorável
prolongamento de semelhante situação resulta essencialmente, em ambos os casos,
do insuficiente preenchimento das grandes condições lógicas determinadas por nossa
lei enciclopédica; porque ninguém contesta mais, há muito tempo, a necessidade
de se adotar naqueles estudos a marcha positiva: mas todos lhe desconhecem a
natureza e as obrigações que só a genuína hierarquia positiva pode
caracterizar. Que esperar, com efeito, quer em relação aos fenômenos sociais,
quer mesmo em relação ao estudo mais simples da vida individual, de uma cultura
que empreende diretamente especulações tão complexas, sem para tal se ter
dignamente preparado através de sã apreciação dos métodos e das doutrinas
relativas aos diversos fenômenos menos complicados e mais gerais, sem poder,
portanto, suficientemente conhecer nem a lógica indutiva, caracterizada
principalmente, no estado rudimentar, pela Química, pela Física, e antes pela
Astronomia, nem mesmo a pura lógica dedutiva, ou a arte elementar do raciocínio
decisivo, que só a Matemática pode convenientemente desenvolver?
75. Para
facilitar o uso habitual de nossa fórmula hierárquica, é muito conveniente,
quando não se tem necessidade de grande precisão enciclopédica, sejam os seus
termos grupados dois a dois, reduzindo-a a três pares, um inicial,
matemático-astronômico, outro final, biológico-sociológico, separados e
reunidos pelo par intermediário, físico-químico. Esta feliz condensação resulta
de irrecusável apreciação, pois existe, de fato, maior afinidade natural, tanto
científica como lógica, entre os dois elementos de cada par do que entre os
próprios pares consecutivos, como o confirma muitas vezes a dificuldade que se
experimenta em separar nitidamente a Matemática da Astronomia, e a Física da
Química, em virtude dos hábitos vagos que ainda dominam todos os pensamentos de
conjunto; a Biologia e a Sociologia, sobretudo, continuam quase a ser
confundidas pela maior parte dos pensadores atuais. Sem chegar nunca até essas
viciosas confusões, que alterariam radicalmente as transições enciclopédicas,
será, as mais das vezes, útil reduzir assim a hierarquia elementar das
especulações reais aos três pares mencionados, cada um dos quais poderá, aliás,
ser designado brevemente pelo seu elemento mais especial, que é sempre, na
realidade, o mais característico e o mais próprio para definir as grandes fases
da evolução positiva, individual e coletiva.
76. Esta
apreciação sumária basta aqui para indicar o destino e assinalar a importância
de semelhante lei enciclopédica, onde reside, afinal, uma das duas idéias-mães,
cuja íntima combinação espontânea constitui necessariamente a base sistemática
da nova filosofia geral. A terminação deste longo Discurso, no qual o genuíno
espírito positivo foi caracterizado sob todos os aspectos essenciais,
aproxima-se, assim, do seu começo, pois esta teoria da classificação deve ser
encarada, em último lugar, como naturalmente inseparável da teoria da evolução,
ali exposta; de sorte que o Discurso atual forma, por si mesmo, verdadeiro
conjunto, imagem fiel, embora muito reduzida, de um vasto sistema. É fácil
compreender, com efeito, que a consideração habitual de semelhante hierarquia
deve tornar-se indispensável, quer para aplicar, de modo conveniente, nossa lei
inicial dos três estados, quer para dissipar suficientemente as únicas objeções
sérias que possa comportar; porque a freqüente simultaneidade histórica das
três grandes fases mentais para com especulações diferentes, constituiria, de
qualquer outro modo, inexplicável anomalia que, ao contrário, nossa lei
hierárquica, a qual se refere tanto à sucessão quanto à dependência dos
diversos estudos positivos, resolve espontaneamente. Concebe-se igualmente em
sentido inverso que a regra de classificação supõe a da evolução, pois todos os
motivos essenciais da ordem assim estabelecida resultam, no fundo, da desigual
rapidez de semelhante desenvolvimento entre as diferentes ciências fundamentais.
77. A combinação
racional entre estas duas idéias-mães constitui a unidade necessária do sistema
científico, onde todas as partes concorrem cada vez mais para um mesmo fim, e
assegura também, por outro lado, a justa independência das diversas ciências
principais, ainda amiúde muito alterada por viciosas aproximações. O espírito
positivo, no seu desenvolvimento preliminar, único até aqui realizado, teve de
estender-se gradualmente dos estudos inferiores aos superiores, de modo que
estes ficaram inevitavelmente expostos à opressiva invasão dos primeiros,
contra o ascendente dos quais sua indispensável originalidade não achava a
princípio garantia senão no prolongamento exagerado da tutela
teológico-metafísica. Esta deplorável flutuação, muito sensível ainda na
ciência dos corpos vivos, caracteriza hoje o que contém de real, no fundo, as
longas controvérsias, aliás tão vãs, sob qualquer outro aspecto, entre o
materialismo e o espiritualismo, representando, de modo provisório, sob formas
igualmente viciosas, as necessidades igualmente graves, embora infelizmente
opostas até aqui da realidade e da dignidade de quaisquer de nossas
especulações. Havendo, doravante, atingido sua madureza sistemática, o espírito
positivo dissipa ao mesmo tempo essas duas ordens de aberrações, terminando
esses estéreis conflitos pela satisfação simultânea destas duas condições
viciosamente contrárias, como o indica logo nossa hierarquia científica
combinada com a nossa lei da evolução, pois cada ciência não pode atingir o verdadeiro
estado positivo senão quando a originalidade do seu caráter próprio se acha
plenamente consolidada.
78. Uma
aplicação direta desta teoria enciclopédica, ao mesmo tempo científica e
lógica, nos conduz enfim a definir exatamente a natureza e o destino do ensino
especial ao qual este Tratado é consagrado. Resulta, com efeito, das
explicações precedentes, que a principal eficácia, primeiro mental, depois
social, que devemos procurar hoje na criteriosa propagação universal dos
estudos positivos depende necessariamente da estrita observância didática da
lei hierárquica. Para cada rápida iniciação individual, como para a lenta
iniciação coletiva, será sempre indispensável que, desenvolvendo seu regime, o
espírito positivo, à medida que expande seu domínio, se eleve aos poucos, do
estado matemático inicial ao estado sociológico final, percorrendo
sucessivamente os quatro degraus intermediários, astronômico, físico, químico e
biológico. Nenhuma superioridade individual pode verdadeiramente dispensar
desta gradação fundamental, a respeito da qual temos sobejas ocasiões de
verificar hoje, em altas inteligências, uma irreparável lacuna, que por vezes
tem neutralizado eminentes esforços filosóficos. Semelhante marcha deve, pois,
tornar-se ainda mais indispensável na educação universal, onde as
especialidades têm pouca importância, e cuja principal utilidade, mais lógica
do que científica, exige essencialmente plena racionalidade, sobretudo quando
se trata de constituir enfim o verdadeiro regime mental. Assim, este ensino
popular deve referir-se principalmente ao primeiro par científico, até que se
ache convenientemente vulgarizado. É aí que todos devem, em primeiro lugar,
haurir as verdadeiras noções elementares da sua positividade geral, adquirindo
os conhecimentos que servem de base a todas as outras especulações reais.
Embora esta estrita obrigação conduza forçosamente a colocar no começo os
estudos puramente matemáticos, cumpre, entretanto, considerar que não se trata
ainda de estabelecer uma sistematização direta e completa da instrução popular,
mas apenas de imprimir convenientemente o impulso filosófico que a ela deve
conduzir. Desde então se reconhece com facilidade que semelhante movimento deve
depender sobretudo dos estudos astronômicos, que, por sua natureza, oferecem
necessariamente a plena manifestação do genuíno espírito matemático, do qual
constituem, no fundo, o principal destino. Há tanto menos inconvenientes atuais
em caracterizar, assim, o par inicial pela Astronomia só, quanto os
conhecimentos matemáticos realmente indispensáveis à sua judiciosa divulgação
já estão bastante difundidos ou são bastante fáceis de adquirir, para que nos
possamos limitar hoje a supô-los provindos de uma preparação espontânea.
79. Esta
preponderância necessária da ciência astronômica na primeira propagação
sistemática da iniciação positiva é plenamente conforme à influência histórica
de tal estudo, principal motor até aqui das grandes revoluções intelectuais. O
sentimento fundamental da invariabilidade das leis naturais devia
desenvolver-se, com efeito, primeiramente em relação aos fenômenos mais simples
e mais gerais, cuja regularidade e grandeza superiores nos manifestam a única
ordem real que seja por completo independente de qualquer intervenção humana.
Antes mesmo de comportar um caráter genuinamente científico, esta classe de
concepções determinou sobretudo a passagem decisiva do fetichismo ao
politeísmo, que resultou em toda parte do culto dos astros. Seu principal esboço
matemático, nas escolas de Tales e Pitágoras, constituiu em seguida a principal
origem mental da decadência do politeísmo e do ascendente do monoteísmo. Enfim
o desenvolvimento sistemático da positividade moderna, que tende abertamente
para um novo regime filosófico, resultou essencialmente da grande renovação
astronômica começada por Copérnico, Kepler e Galileu. Não é, pois, muito de
admirar que a universal iniciação positiva, sobre a qual deve apoiar-se o
advento direto da filosofia definitiva, dependa também primeiramente de
semelhante estudo, em virtude da conformidade necessária da educação do
indivíduo com a evolução coletiva. Este é, sem dúvida, o último ofício
fundamental que lhe deva ser próprio no desenvolvimento geral da razão humana,
a qual, tendo uma vez atingido, entre todos, uma verdadeira positividade,
deverá marchar em seguida sob um novo impulso filosófico diretamente emanado da
ciência final, desde então para sempre investida na sua presidência normal. Tal
é a eminente utilidade, não menos social do que mental, que se trata aqui de
retirar enfim de judiciosa exposição popular do sistema atual dos sãos estudos
astronômicos.
(1)
Quase todas as explicações habituais relativas aos fenômenos sociais, a maior
parte das que concernem ao homem intelectual e moral, uma grande parte de
nossas teorias fisiológicas ou médicas, e mesmo várias teorias químicas, etc.,
lembram ainda diretamente a estranha maneira de filosofar tão jocosamente
caracterizada por Moliere, sem nenhum grave exagero, a propósito, por exemplo,
da virtude dormitiva do ópio, de conformidade com o abalo decisivo que
Descartes acabava de fazer experimentar a todo o regime das entidades.
(2) Sobre esta
apreciação geral do espírito e da marcha peculiares ao método positivo, pode-se
estudar, com muito fruto, a preciosa obra intitulada: A system of logic,
rationative and inductive, recentemente publicada em Londres (John Parker, West
Strand, 1843), pelo meu eminente amigo John Stuart Mill, que se associou assim
plenamente, de ora avante, à fundação direta da nova filosofia. Os sete últimos
capítulos do tomo primeiro contêm uma admirável exposição dogmática, tão
profunda quão luminosa, da lógica indutiva, que não poderá nunca, ouso
assegurá-lo, ser mais bem concebida, nem mais bem caracterizada, desde que nos
coloquemos no mesmo ponto de vista em que o autor se colocou.
(3) As
constituições francesas de 1791 e 1795 (Beesly).
(4) A reação
política e clerical efetuada por Bonaparte e continuada sob Luís XVIII e Carlos
X (Beesly).
(5) Esta
preponderância empírica do espírito de minúcia na maior parte dos cientistas
atuais e sua cega antipatia por toda e qualquer generalização acham-se muito
agravadas, especialmente em França, por sua reunião habitual em academias, onde
os diversos preconceitos analíticos se fortificam mutuamente, e onde, além
disto, mui freqüentemente se desenvolvem interesses abusivos, aí se organizando
uma espécie de insurreição permanente contra o regime sintético que deve
prevalecer de agora em diante. O instinto de progresso que caracterizava, há
cerca de meio século, o gênio revolucionário, havia confusamente sentido estes
perigos essenciais, de modo a determinar a supressão direta dessas companhias
atrasadas, que, convindo somente à elaboração preliminar do espírito positivo,
se tornavam cada vez mais hostis à sua sistematização final. Embora esta
audaciosa medida, em geral tão mal julgada, fosse então prematura, porque esses
graves inconvenientes não podiam ainda ser assaz reconhecidos, é, contudo,
certo que essas corporações científicas já haviam realizado o principal ofício
que sua natureza comportava: depois de restaurada, sua influência real foi, no
fundo, muito mais nociva do que útil à marcha atual da grande evolução mental.
Tradução: Renato
Barboza Rodrigues Pereira
Edição eletrônica: Ed Ridendo Castigat Mores
Nélson Jahr Garcia (in
memorian!)