Primavera

Cada pétala sorri.
Abrem-se os casulos. 
Madrugam os pássaros. 

Os animais se deitam 
juntos ao crepúsculo. 

O vento ensaia seus bailados 
ébrio de perfumes. 


Verão
Ter de atravessar 
uma a uma 
as chamas 
desta floresta incendiada. 


Outono
O verde-escuro se instala
depois de noites líquidas 
sobre jardins calcinados. 
A febre da terra 
baixa 
sob o cataplasma úmido 
do musgo 
a grama cretada respira 
fundo 

Inverno

Caem véus ondulantes
sobre as plantações 
o ar da noite se cobre
de minúsculos cristais 
os ramos suportam as lâminas, 
por vezes, choram. 
Dorme o coração dos vegetais. 

...

Sem palavras avanço
ganhando o chão do meio-dia 
a cidade é uma página 
coberta de garranchos e grunhidos 
o sol se desespera 
e lança jatos cáusticos 
de luz nas avenidas 
Ardo e comigo ardem 
todas as feridas 
sou uma célula asfixiada 
que transita 
em busca de um sopro 
balsâmico 
de vida 
Sem horizontes me arrisco 
no cipoal de ruídos. 
Tudo freme e se precipita 
adiante 
para um destino sem saída 
Navegar é preciso, 
ainda que sem vento 
e de improviso 

...

Vi uma abelha agonizar 
na mesa sob a palmeira 
- território branco 
e áspero. 
A perna quebrada 
o vôo impossível 
apesar das asas. 
O corpo 
antes ereto 
em delicado 
equilíbrio 
cada vez mais 
curvo, 
fechado 
em seu casulo. 
A morte é redonda. 

...

Deus é o Poema 
que todo dia não lemos
Todo dia avançamos 
uma página 
e outra começa 
assim que a noite se cala. 
Deus canta 
e um pássaro salmodia. 
Ensurdecidos passamos
em meio a esta babel de algaravias. 
Ele escreve certo 
por linhas tortas. 
O texto está em ti. 

...
Com tanta água
assim 
Quase náufraga 
em si 
a frágua
todavia
não banha nem sacia 
crepita: 
fogo líquido 
sobre a página 

...

Um poema
pode ser
silêncio
transparência
três palavras:
rosada
rosa
multilabiada

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